Vidas Secas

Impressões na telona… Vidas secas

imagem para o post vidas secas - filme

Se existe uma obra encantadora na literatura brasileira, esta obra é Vidas Secas. Por isso estou aqui de novo para falar sobre o assunto. Transferir Graciliano para as telonas foi um trabalho maravilhoso, feito no ano de 1963 sob a direção de Nelson Pereira dos Santos.

Não considero um filme fácil de assistir, ao mesmo tempo em que o livro também não é fácil. A compreensão é maravilhosa, a prolixidade é zero, mas ver a realidade daquela maneira é triste demais… Ver, como é bom! Como foi boa a experiência de ter Vidas Secas projetada na minha frente. Como sempre digo: O cinema, pra mim, tem o poder de transformar tudo em realidade. E, de fato, eu acredito que os personagens e suas histórias foram reais, nem que sejam somente durante aqueles 100 minutos em preto e branco que passaram por mim.

Matar o papagaio pra poder comer. Matar a cadela pra sobreviver. Sonhar a todo custo com uma cama. Que vida miserável, que não dava às crianças o direito à infância, à inocência e ao principal, seja ele qual fosse. A película foi bem fiel ao livro, mas em caso de diferença, não a condenaria. A gente aprende, com o tempo, que são obras diferentes e que todos os artistas têm o direito de se expressar e fazer qualquer coisa com a sua obra.

Recomento muito o filme, que não substitui o livro, de maneira nenhuma. Mas acrescenta um valor inexplicável, faz a gente crescer como pessoa e entender o quanto somos afortunados.

Tem aí uma palhinha

Neide Andrade

Leia mais: 

Cinco Vidas Secas

Infância – Angústia

Anúncios

Cinco vidas secas

imagem para o post vidas secas

“A cabeça inclinada, o espinhaço curvo, agitava os braços para a direita e para a esquerda. Esses movimentos eram inúteis, mas o vaqueiro, o pai do vaqueiro, o avô e outros antepassados mais antigos haviam-se acostumado a percorrer veredas, afastando o mato com as mãos. E os filhos já começavam a reproduzir o gesto hereditário.”

Em um tempo que o nordestino é tão desvalorizado, tratado como se não valesse nada, é excelente dar uma olhada no livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Eu sou suspeita pra falar, porque adoro o calor, as praias, o povo e a cultura do meu Nordeste… Mas vamos combinar: Vidas Secas é uma obra prima, que retrata a realidade nua e crua, capaz de fazer qualquer coração de pedra chorar com a morte de uma cadela. Graciliano Ramos é nordestino e escreveu o Nordeste, denunciou nossas mazelas e hoje usufruímos de diferenças que homens como ele lutaram para que tivéssemos, pois apesar da pobreza e a natureza, às vezes cruel, somos vistos e reconhecidos pela nossa música, literatura, política, diversidade e, acima de tudo, resiliência. É por essas e outras que devemos repeito à Vidas Secas: Uma obra circular, que faz todo o sentido se quisermos embaralhar os capítulos ou lê-los salteados. Uma obra que, teoricamente, não tem fim. Esperamos que ela não morra, mas o fim dessa realidade, de um povo oprimido e vitimizado está cada vez mais próximo.

Em Vidas Secas, desde o primeiro capítulo, percebemos palavras duras como Infelizes, Famintos, Urubus, Espinhos, Catinga, Caatinga, Obstáculos e tantas outras expressões mostrando uma vida penosa e árida que aquela família de andarilhos enfrentava para correr do que não vinha muito atrás: Fabiano, sinha Vitória, seus dois filhos e a cachorra Baleia já estavam sendo consumidos pela fome, pela sede e os urubus sobrevoavam a região para se alimentar dos restos que a morte deixava.

A hostilidade do sertão fazia de Fabiano um bicho, por ora irracional, movido pelo instinto. “Caía no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos – e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera.” (Pg 18). Enquanto Fabiano era um bicho, sinha Vitória resistia e sonhava em virar gente, gente que fosse respeitada e tivesse a dignidade de ao menos ter uma cama de couro como a do seu Tomás da Bolandeira. Enquanto isso, a cachorra Baleia mais parecia ter sentimento e sonhos, recebe mais destaque que os próprios filhos de Fabiano. A humanização de Baleia não pode ser vista de melhor maneira que no filme, Vidas Secas, onde a cachorra foi interpretada. A morte de Baleia mostra o quanto a cachorra sonha, raciocina e nega a morte, quando foge de Fabiano, que resolve sacrificá-la para que ela não sofra mais com a doença. Enquanto isso, sinha Vitória tenta, do seu jeito, consolar os filhos que sofrem com a morte da companheira Baleia.

Como Eric já falou no post anterior, esta obra não é digna de ser lida na correria de um vestibular, nem precisa que nenhum professor obrigue ninguém a ler. Com maturidade, com mais anos vividos – um, dois ou dez – vidas secas será sempre presente na história do Nordeste e do país, deve ser lida com calma, com atenção. Todos os sentimentos devem ser experimentados, todas as lágrimas necessárias devem ser derramadas para que, por algumas horas, ou alguns dias, possamos fazer parte dessa peregrinação pelo sertão.

Neide Andrade

Leia mais: Especial Graciliano Ramos