vida

Eu preciso saber que você existe!

balloon-2

Acasos afortunados: já ouviu falar dessa expressão? (mais…)

Anúncios

Quem ama mais é o mais fraco, merece sofrer

tumblr_mdihsnB2jf1r8c15zo1_1280

O namoro da gente acabou e foi tão fácil.

Eu disse umas palavras, apontei descontentamentos. Você retrucou, choramos, discutimos. Acabou. E, pelo que vi nos seus olhos, doeu muito mais em você do que em mim.

Recentemente um casal de amigos reviveu essa experiência tão comum a todos, tão nossa – o fim de um relacionamento. Alguém virou pro outro e disse: acabou. E isso me fez lembrar de um trecho do menor livro mais incrível de Thomas Mann – Tonio Kroeger:

“Aquele que mais ama é o mais fraco e tem que sofrer” (14).

Que horror, né?

É. Mas, ei, pode ser verdade também. (mais…)

Abrace alguém agora!

imageedit_3_4723661120Ando com uma vontade louca esses dias.

Sabe aquelas pessoas que vão pra um lugar movimentado no meio da cidade e penduram uma placa no pescoço? A frase varia: abraços grátis, free hugs, ganhe um abraço; a intenção é a mesma: pôr os braços ao redor do corpo de estranhos sem receber nada por isso. Certo, lindo. Mas a coisa toda me parece louca, por várias razões.

(mais…)

Amanhã é 23

6283913488_754ceb2ce8_b

As entradas no meu rosto | e os meus cabelos brancos | aparecem a cada ano | no final do mês de Agosto.

Quando a gente começa a contabilizar as primeiras rugas, os primeiros sinais de idade?

Lembro que fui uma criança muito atenta pra algumas coisas e muito desatenta pra outras. Sempre perdia coisas, esquecia onde tinha colocado as chaves, os cadernos, os óculos e, ao mesmo tempo, observava demais as pessoas – suas expressões, os detalhes do rosto. Observava primeiro elas, pra depois observar a mim mesmo.

E com que atenção! Desde muito pequeno sempre me olhei no espelho de um jeito diferente: não pra conferir se meu cabelo estava arrumado ou se meu olhos ainda estavam sujos de manhã. Eu procurava alguma coisa a mais, um indício, uma marca deixada pelo tempo ao passar pelo meu rosto. Sempre fui fascinado por linhas de expressão e marcas de idade. Observava meu pai rir e as marquinhas surgirem nos seus olhos, tias que eu não via há tempos voltando envelhecidas de viagens, da vida. E eu esperava acontecer comigo.

Repare: não desejava, ansiava – só esperava. Poque não se deseja o que parece inevitável.

E é assim que eu lembro do primeiro risco que surgiu abaixo dos meus olhos e dos outros três que o seguiram. Lembro da minha primeira barba e do riso que parecia dividido nas inúmeras linhas que meu rosto formava. Como se só riso de criança fosse inteiro. O do eu adulto já parecia viciado, repartido em mil pedaços, em traços que iam dos olhos fechando à boca que se abria.

Envelhecer é ficar mais gasto, mais fosco. Perder o brilho de coisa perfeita, bem acabada. É abandonar o perfil viçoso, imaculado e ir assumindo os traços, os rasgos que a vida faz quando caminha pelo corpo, pelo nosso corpo.

Nessa quase adolescência, percebendo-me envelhecer, descobri uma música que virou amor, uma tradição. Amanhã é 23.

As entradas do meu rosto
E os meus cabelos brancos
Aparecem a cada ano
No final do mês de Agosto

Há vinte anos você nasceu
Ainda guardo um retrato antigo
Mas agora que você cresceu
Não se parece nada comigo

Esse seu ar de tristeza
Alimenta a minha dor
Tua pose de princesa
De onde você tirou?

Amanhã! Amanhã!
Amanhã! Amanhã…

Amanhã é 23
São 8 dias para o fim do mês
Faz tanto tempo
Que eu não te vejo
Queria o seu beijo
Outra vez…

Não coincidentemente, amanhã realmente é 23 – são oito dias para o fim do mês. E desde o fim da infância, todos os anos eu contabilizo a minha vida, o passar do tempo, nesse mesmo dia. Fico pensativo, me olho diferente no espelho, acompanho o traçar de diversos caminhos na minha cara. É como se, por alguma mágica, eu envelhecesse todo o montante anual nessas 24 horas. Não dá pra evitar.

É inevitável a passagem do tempo pela nossa vida, pelo nosso rosto. Mas esse texto besta é pra dizer que não somos totalmente reféns, sabe? A gente pode escolher se o que risca a nossa cara nos enfeia ou nos enfeita, que marcas a gente deixa ficar, que arrependimentos. Às vezes, no final de agosto, me imagino na posição da mulher descrita nessa letra. E é tão triste quando a gente não reconhece o outro, não se reconhece mais. O tempo passou e a gente preso, feito refém. Da vida, do tempo, de nós.

Mas, calma. Amanhã é 23, então hoje ainda é 22. Dá tempo de mudar, de ser melhor, de amar mais. Ainda é tempo da gente escolher o que fica

e o que vai embora.

Eric

Foto: flickr

 

6 músicas de verdade (ou Por que Amy Winehouse foi importante?)

acf0031661

Hoje, 23 de julho de 2015, faz exatamente quatro anos que ela foi embora. Acabou a esperança de um cd novo – talvez tão bom quanto Back to Black – e, junto, acabou também a angústia de esperar os novos vexames que ela invariavelmente protagonizaria. Um documentário inglês lançado agora, no mês de aniversário da sua morte, promete trazer todas essas memórias de volta. A história de uma vida contada através de vídeos caseiros e depoimentos. Mata um pouco da saudade, mas não muda o fato: Amy Winehouse morreu. Vítima de causas indeterminadas, do álcool, de si mesma.
Certo, e o que te importa tudo isso?

(mais…)

Enlouquecer é preciso (passo a passo)

1a19f40a8bff4428ceee25de5e795355

Um dia desses, tenta olhar pras pessoas a tua volta. Pra quem vai contigo no ônibus, quem corre apressado na rua, pras mães acalentando seus filhos. Olha em volta e repara naquele homem de paletó, camisa e calça social. Gravata, em plenos trinta e tantos graus de Recife. Esse cara tá indo pro escritório, voltando do trabalho, defendendo um cliente, fazendo uma entrevista, dirigindo uma empresa, desempenhando um papel.

Todos estamos.

(mais…)

Quem sou eu?

10948084_740908859326058_1293013230_o

Não sei se vocês já perceberam (risos), mas o Escrevo A|penas é um blog escrito em coautoria. Dois amigos escrevendo sobre música, cinema, literatura e, eventualmente (quase sempre), sobre a vida.

Na parte de cima do blog, tem uma aba chamada “sobre”. Clicando lá, você vai ler uma descrição curta e bem elaborada sobre cada um de nós, ilustrada por uma foto poética. (ao menos, foi essa a intenção) A idéia do post de hoje é ampliar aquela aba e contar pra vocês quem somos nós de verdade – Eu resolvi começar.

Oi, meu nome é Eric.

(mais…)

Para Sempre Alice

alice 1

Dia desses fui andar na orla de Boa Viagem à noite. Lembrei de quando eu era novinho e me sentava na praia com meus primos pra construir aqueles castelinhos de areia. Uns eram tão perfeitos que pareciam de verdade, outros – os meus – eram cheios de falhas e muito longe daquilo que a gente chama de proporção. Mas uma hora, todos eles – todos – desmoronavam quando a onda chegava.

Sábado passado, fui assistir Still Alice (Para Sempre Alice) e essa imagem dos castelos me veio à mente. Talvez porque no filme tem muitas cenas rodadas na praia. Talvez por uma outra razão, que vou tentar explicar melhor nesse texto.

Alice – interpretada por Juliane Moore – é (era?) neurolinguista, professora de ensino superior, doutora, especializada na arte do ser humano de se comunicar. Um dia, ela perde a fala durante uma de suas palestras. Sabe quando o que você quer dizerr tá na ponta da língua mas você simplesmente esquece? Aconteceu com ela. Uma vez, duas. Até que, um dia, fazendo cooper no Campus da sua Universidade, ela esquece como voltar pra casa. Procura um médico e, logo no começo do filme, descobrimos: ela tem Alzheimer.

Alice descobre, o marido (Alec Baldwin) descobre, seus filhos descobrem. A doença é grave, a progressão é rápida e o pior: ela é genética, qualquer um dos filhos pode ter herdado essa condição. Aos poucos, a gente vai vendo a antiga Alice perdendo suas lembranças, sua capacidade de se comunicar, sua integridade. Aquela mulher segura do começo vai sumindo e uma versão meio boba dela mesma vai tomando o seu lugar.

Enquanto as lembranças e a percepção vão morrendo, os filhos e o marido ficam ao lado – alguns mais próximos, outros mais distantes – vendo aquela casa espetacular ruir e virar escombros. Escombros de um castelo de areia.

Conheço uma mulher chamada Cecília que entende desse tipo de edificação, sabe como é viver no que é feito de areia. Uma de suas poesias diz assim: “Disseste ‘Sempre!’ e estavas longe, e eu te escutava com ternura: porque essa é uma grande palavra, para viver no tempo humano.” Eu concordo com ela. “Sempre” é uma palavra grande demais pro ser humano usar, não cabe.

Só que a gente não aprende.

Queremos que a amizade dure pra sempre, o amor, os pais, a felicidade, a vida dure pra sempre. Queremos que as nossas memórias se ergam como os recifes do meio do mar. Mas não é assim que funciona, e sabe por que? Porque  a estrutura da vida não é rochosa: tudo, tudo é feito de areia. É feito pra não durar. – A faculdade vai acabar. E o emprego? Também. E o namoro? Também. E o casamento, e os filhos, e o dinheiro e o futuro. Tudo vai passar alucinadamente pelos nossos olhos e, quando a gente piscar, o futuro chegou. E já se foi. Feito areia no vento.

As memórias de Alice vão acabando e cada vez sobra menos coisa pra guardar na sua cabeça doente. Um dia – na praia – ela ensina: “Eu só tenho o hoje, só o hoje…” – Nessa hora, a gente tripudia dela. Tira onda mesmo. Que clichê! | Nossa! Nunca tinha ouvido isso. | Cadê a criatividade? – Parece que, pra nós, sempre vai haver um amanhã, um dia depois, uma lembrança a mais pra guardar. Talvez.

Não quero ser o profeta da desesperança não, mas olha ao teu redor: o que realmente na tua vida não é perecível? O que consegue resistir ao tempo?

Resposta: nada.

E não é culpa do mar, não é culpa do tempo, não é culpa das ondas.

É só que os castelos de areia são feitos pra ruir.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Eric

Leia mais: Carta para Cecília

Quando você vai me deixar sair?

imageedit_3_8376230794

Levanta. Forra a cama. Lava o rosto.

Olha no espelho.

O que você vê?

Os cabelos castanhos, lisos, loiros, cacheados, os olhos escuros, fechados, abertos.

Olha com mais atenção. Olha pra dentro. Tenta se reconhecer no reflexo. Você consegue?

sia-elastic-heart-video-1-1280Lembra da época de criança e de como tudo era mais fácil? Os seus gestos eram naturais, você não tentava impressionar ninguém. Na verdade, sua maior ambição era abrir a lancheira e encontrar seu sanduíche favorito (e um chocolate). Opiniões, regras, expectativa – quando foi que tudo surgiu na nossa pequena vida?

A escola ensinou muito mais que álgebra, ela impôs comportamentos. A família foi além do amor, nos mostrou os limites (ou não). Os relacionamentos cruzaram a fronteira do carinho, nos ensinaram a agradar. E, de repente, ser ficou muito mais complicado. Ser natural não parecia mais bastar: era pouco demais. Não atendia às expectativas.

shia-labeouf-elastic-heart_article_story_largeAnos depois, a gente mira o espelho e eu te pergunto: o que o reflexo mostra? O quanto você está mudado, está mudada?

As fotos desse post são de um clipe, de uma música composta por Sia. Mais do que a voz distinta, essa cantora é conhecida pelas letras, pela sinceridade com que ela rasga o coração e se mostra pra gente. A vida às vezes pode ser difícil e pra ela não foi diferente: depressão, álcool, problemas de família. A dor era tanta que coube em doze faixas, em um cd chamado 1000 Forms of Fear. Uma dessas músicas se chama Elastic Heart e é do clipe dela que a gente vai falar hoje.

991769-c851f628-9735-11e4-9bd9-740a91fb6db7Uma gaiola gigante: Um homem. Uma menina.

Os dois presos, lutando um contra o outro o tempo todo, pra ver quem prevalece. Eles se estapeiam, se provocam, pulam sobre as costas. Pedofilia – alguns falaram. Sia disse que, na verdade, não. As duas pessoas representam ela: o homem e a menina. Como se, com o tempo, ela tivesse se dividido em duas. Em duas metades que se odeiam.

Em algum momento da vida, Sia esqueceu quem é.

O espelho – ao invés de mostrar uma só, inteira, limpa – refletiu duas imagens: inimigas, enlameadas. Foram relacionamentos demais, sofrimentos demais, vida demais. O coração bom, gigante, deixou de ser elástico, parou de esticar. E num determinado dia ficou mais difícil lidar com a depressão, com as várias personalidades do pai doente, com o álcool. Tudo desmoronou e ela deixou de ser a criança, abandonou aquilo que a fazia ser… ela.

E eu não sei você mas, pra ser bem honesto, às vezes olho pro quadrado em cima da pia do banheiro e ele não me reflete. Eu não me reconheço.

Mas, veja bem, não acabou! Você ainda pode se levantar, sacudir a poeira, fugir de dentro de si.

É tempo de tirar o cheiro de guardado da nossa alma, de tirar nosso coração da gaiola e colocá-lo de volta no peito.

Hoje é tempo de ser.

[E de ver esse clipe lindo:] 

Eric

 Leia mais: Análise – Chandelier (Sia)