Sia

Quando você vai me deixar sair?

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Levanta. Forra a cama. Lava o rosto.

Olha no espelho.

O que você vê?

Os cabelos castanhos, lisos, loiros, cacheados, os olhos escuros, fechados, abertos.

Olha com mais atenção. Olha pra dentro. Tenta se reconhecer no reflexo. Você consegue?

sia-elastic-heart-video-1-1280Lembra da época de criança e de como tudo era mais fácil? Os seus gestos eram naturais, você não tentava impressionar ninguém. Na verdade, sua maior ambição era abrir a lancheira e encontrar seu sanduíche favorito (e um chocolate). Opiniões, regras, expectativa – quando foi que tudo surgiu na nossa pequena vida?

A escola ensinou muito mais que álgebra, ela impôs comportamentos. A família foi além do amor, nos mostrou os limites (ou não). Os relacionamentos cruzaram a fronteira do carinho, nos ensinaram a agradar. E, de repente, ser ficou muito mais complicado. Ser natural não parecia mais bastar: era pouco demais. Não atendia às expectativas.

shia-labeouf-elastic-heart_article_story_largeAnos depois, a gente mira o espelho e eu te pergunto: o que o reflexo mostra? O quanto você está mudado, está mudada?

As fotos desse post são de um clipe, de uma música composta por Sia. Mais do que a voz distinta, essa cantora é conhecida pelas letras, pela sinceridade com que ela rasga o coração e se mostra pra gente. A vida às vezes pode ser difícil e pra ela não foi diferente: depressão, álcool, problemas de família. A dor era tanta que coube em doze faixas, em um cd chamado 1000 Forms of Fear. Uma dessas músicas se chama Elastic Heart e é do clipe dela que a gente vai falar hoje.

991769-c851f628-9735-11e4-9bd9-740a91fb6db7Uma gaiola gigante: Um homem. Uma menina.

Os dois presos, lutando um contra o outro o tempo todo, pra ver quem prevalece. Eles se estapeiam, se provocam, pulam sobre as costas. Pedofilia – alguns falaram. Sia disse que, na verdade, não. As duas pessoas representam ela: o homem e a menina. Como se, com o tempo, ela tivesse se dividido em duas. Em duas metades que se odeiam.

Em algum momento da vida, Sia esqueceu quem é.

O espelho – ao invés de mostrar uma só, inteira, limpa – refletiu duas imagens: inimigas, enlameadas. Foram relacionamentos demais, sofrimentos demais, vida demais. O coração bom, gigante, deixou de ser elástico, parou de esticar. E num determinado dia ficou mais difícil lidar com a depressão, com as várias personalidades do pai doente, com o álcool. Tudo desmoronou e ela deixou de ser a criança, abandonou aquilo que a fazia ser… ela.

E eu não sei você mas, pra ser bem honesto, às vezes olho pro quadrado em cima da pia do banheiro e ele não me reflete. Eu não me reconheço.

Mas, veja bem, não acabou! Você ainda pode se levantar, sacudir a poeira, fugir de dentro de si.

É tempo de tirar o cheiro de guardado da nossa alma, de tirar nosso coração da gaiola e colocá-lo de volta no peito.

Hoje é tempo de ser.

[E de ver esse clipe lindo:] 

Eric

 Leia mais: Análise – Chandelier (Sia)

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Análise: Sia – Chandelier

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Após uma semana com textos tão inspirados nas palavras de Graciliano, fico numa situação complicada ao escrever a respeito qualquer outro tema que seja. Mas, como esse blog tem a cara de seus donos, optei por dissertar sobre uma música sobre a qual já conversei muito com Eric. A música – Chandelier, de Sia – apesar de aos olhos de muitos parecer mais uma música pop criada para ser comercial, me tocou sobremaneira, principalmente após assistir o clipe.

Se você ainda não assistiu, por favor só continue a leitura após assistir.

Não sou uma pessoa acostumada a falar sobre música, e por sinal entendo muito pouco sobre o assunto, mas essa música e esse clipe falam coisas importantes até para o mais leigo dos ouvintes (estou incluída nesse grupo).

Como Eric, também sou fascinada pelo tema infância, creio pelo fato de ter sido nesta fase que as maiores mudanças da minha vida aconteceram, em diversos aspectos. E o clipe remete muito a esse universo infantil e maduro ao mesmo tempo.

A criança do vídeo nos recepciona na porta de uma espécie de apartamento vazio e frio onde está trancada. Parece que ela está nos esperando, como uma forma de amor que não possui e fica rodando e dançando e pulando e gritando como se aquele fosse o melhor lugar do mundo. Mas ela está completamente sozinha, desnuda e perdida. Em contrapartida, a música tempera o clipe tornando-o mais amargo ainda.

A personagem (que poderia ser eu ou você) toma a decisão de viver como se não houvesse amanhã. A princípio você pode pensar que este rumo que a vida dela vai tomar seja a melhor solução para uma vida feliz, contudo a música revela exatamente o contrário. Ela está vivendo como se fosse o último dia porque no mais profundo do ser é o que deseja de verdade: que haja um fim. Porque está insuportável, inviável e infeliz. Embora ela seja a que todos ligam para festejar por conta de seu alto astral, o seu íntimo não está tão em celebração assim.

Isso me faz pensar: até que ponto conhecemos alguém de verdade? Será que nosso melhor amigo, nossa mãe ou nosso irmão estão vivendo como se fosse o último dia da vida deles? Será que eu mesma não estou fazendo isso? Será que você não já optou por isso?

A criança que eu comentei do clipe eu entendo como a verdadeira alma da personagem da música, aquela que está presa em um apartamento preto e branco, tentando de todas as formas arrumar um sentido para viver ali dentro. Ela quer voar, correr pelo mundo, ter diversão mas tudo que ela consegue é estar presa à vontade de que tudo aquilo acabe. E, mesmo utilizando tudo que o apartamento oferece, ela não consegue ser feliz.

Penso que conosco é a mesma coisa. A todo momento tentamos usar tudo que a vida nos oferece para ser feliz. Pode ser uma pessoa, um carro, uma viagem, um dinheiro ou qualquer outra coisa que não parta de nós mesmos. Parece que a felicidade é simplesmente uma palavra sem sentido que foi inserida na terra de forma dissimulada para iludir os que ainda a buscam. Sei que o mais clichê que se pode dizer é que a felicidade tem que partir de nós mesmos. “Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.” (Drummond, Carlos). Mas às vezes essa parece ser a única solução do teorema, quando a variável é o nosso próprio ser.

No final do clipe, a criança faz uma pequena reverência para quem está assistindo, como se agradecesse pela visita ao seu eu verdadeiro. Pois, no fim das contas, o que queremos é que alguém nos conheça de verdade. Assim teríamos mais uma variável para nos ajudar a encontrar a felicidade trancados em um apartamento gélido.

O que mais me deixa angustiada é que eu acabei por acreditar que aquela cena era verdadeira e que eu precisava fazer alguma coisa para ajudá-la.

Essa cena já deve ter acontecido tantas vezes em tantas pessoas no mundo, em amigos meus e até mesmo (isso falo com propriedade) em mim mesma. Quando eu me dou conta da realidade, percebo que tudo se resume ao teorema que citei antes.

Mas quem sou eu para dizer tudo isso?

Porque só estou aguentando firme esta noite, me ajude, estou aguentando firme pela vida.

Te dou a chave, venha me visitar quando tiver vontade. Prometo dançar para que você possa me conhecer.

Quem é você mesmo?

Priscila Queiroz.

 Leia mais: Análise: Sia – Elastic Heart