Romance

Tudo Acontece em Elizabethtown

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Duas horas e três minutos é muito tempo de duração. Especialmente pra uma comédia romântica.

Eu pensava assim (acho que ainda penso), mas essa ideia não funciona com Elizabethtown por duas razões: 1) esse filme não é uma comédia romântica, 2) duas horas aqui duram muito mais de 120 minutos. parece uma vida, uma vida inteira! – Eu explico.

imageedit_13_7802360851Primeiro, esqueça aquele conceito de moça encontra rapaz, o amor vem, dificuldades assustam, o sentimento prevalece. Não é assim que funciona aqui. Na verdade, tem uma moça, um rapaz, amor, problemas: tudo igual. Então, o que é diferente? A essência.

Elizabethtown não parece um filme, é bonito demais, é real demais. Daquele tipo de realidade tocante e nostálgica que só Cameron Crowe sabe fazer (lembra dele? o mesmo diretor de Vanilla Sky e Quase Famosos <3).

Vou me explicar melhor: sabe aqueles momentos preciosos que a gente vive poucas vezes? É tão especial, tão diferente, a pessoa é tão única que inevitavelmente você pensa: parece que eu tô vivendo um filme! É assim. Elizabethtown é um filme que parece a nossa vida ou aquele momento da vida da gente que parece um filme.

imageedit_19_2826229680Drew (Orlando Bloom) acabou de falhar miseravelmente na carreira. Perdeu tanto dinheiro que está prestes a ficar famoso como o maior exemplo de fracasso da história na profissão dele. Tanto tempo investido pra nada. Pra completar, a irmã do cara liga e conta que o pai dos dois morreu no interior do país, numa cidade chamada Elizabethtown. Tem mais: ele, o filho mais velho, teria que ir lá e cuidar das coisas do corpo. Bem no interiorzão do país, onde mora aquela parte distante da família que fala: “olha como você cresceu”, “tá a cara do pai”. Imagina!

Na viagem de ida, ele conhece uma aeromoça – Claire (Kirsten Dunst) – uma daquelas pessoas que você só encontra uma vez na vida. Diferente, cheia de ideias próprias, cheia de vida. Tudo o que ele não é no momento. Os dois se despedem, Drew vai encarar os parentes. Sozinho, em meio à família barulhenta, às dificuldades do enterro, ele procura alguém pra ligar. Acha o número de Claire. Os dois começam a conversar, a se conhecer melhor. Uma noite e uma madrugada inteira falando sobre tudo, sobre nada (alguém aí já viveu isso?). Pronto. Um momento bonito numa circunstância pontual. Daquele tipo de coisa que passa, que está destinada a não durar.

Será?

Nas conversas de Drew e Claire é impossível não se reconhecer um pouco. É tudo muito universal e, ao mesmo tempo, pessoal demais. A gente viveu aquilo também, nossos amigos choraram pelas mesmas razões. Medo do fracasso, mágoas antigas, tempo perdido, a angústia de não saber amar. Num dos momentos mais bonitos do filme, Claire fala sobre seus amores do passado, numa auto-avaliação. Eu sou uma pessoa substituta, ela diz. No começo, eu não entendi. Drew também não. Mas ela explica: nunca vou ser uma Ellen (Deus me livre!), nunca vou ser uma Cindy, eu sou só a substituta. Alguém destinado a ocupar um lugar que não lhe pertence, o lugar de outro|de outra.

Doeu. É verdade demais na cara da gente. E pior, dita de um jeito leve, despretensioso. Como se, com o tempo, as coisas que doem também fizessem a gente se acostumar.

No fim, descobri porque Elizabethtown dura duas horas inteiras. É preciso. Como um amigo, essa história vai se apresentando aos poucos: cena por cena, frase por frase – vai nos desarmando. E o tempo é necessário: ele faz a gente se apaixonar.

GIF1Numa das última sequências do filme, Drew sai numa viagem de carro de volta pra casa, jogando as cinzas do pai morto pelas curvas do caminho. Os dois finalmente juntos, numa viagem que deveria ter sido feita há muito tempo. Há tempo demais. E, se você me perdoa a metáfora besta (mas verdadeira): como as cinzas do pai se espalham pelo vento, as sensações que esse filme traz se pulverizam na mente da gente. Uma saudade, uma melancolia doce. Aquele desejo de fazer o que é especial durar pra sempre.

Desejar não faz mal. Faz?


Personalíssimo (só para raros):

tumblr_n0ptcyMu8Q1rrm2zoo2_500A cena em que Drew começa a conversar com as cinzas, com a urna do pai, afivelada no banco da frente do carro. Minha garganta aperta só de lembrar. Como a gente deixa o que é valioso se perder no tempo!

Essa sequência já seria linda sem som, mas Cameron Crowe é mau demais pra deixar isso acontecer. Vou te contar uma coisa: a trilha sonora toda desse filme é incrível. De verdade! Mas a música que toca nessa hora é especial. Foi Elizabethtown que me apresentou esse single de Elton John chamado My Father’s Gun. Eu amo Elton, muito mesmo, mas ainda não conhecia essa música.

Se você chegou até aqui, me faz um favor, um último? Clica embaixo e vê esse vídeo com Elton e algumas cenas do filme.

É verdade demais pra seis minutos só. É bonito demais.

Eric

(Indesejada) Permanência

Romper um tanto a rotina, os paradigmas esperados e até mesmo com os finais felizes pode fazer bem, pode fazer com que o espectador se enxergue, talvez, em uma fotografia de um filme ofertado durante uma triste, necessária e esperada despedida. Permanência é um filme pernambucano de Leonardo Lacca e trata aspectos da vida, do cotidiano e quão benéficas ou maléficas podem ser as nossas escolhas.

Ivo (Irandhir Santos) é um fotógrafo recifense, que encontra em São Paulo uma galeria para fazer a sua primeira exposição. A película é calma e, por vezes, monótona propositalmente para mostrar aspectos de uma vida infeliz, sem uma paixão explícita em fazer cada coisa. Chegando em São Paulo, Ivo se hospeda na casa de Rita (Rita Carelli), que foi sua namorada. Agora, Rita está casada e Ivo deixou uma namorada no Recife. Entretanto, como se comportar diante do cheiro e da conversa de uma mulher, características que nunca mudam?

Regados a xícaras e mais xícaras de café, o casal do passado bebe e se aprisiona ao próprio silêncio: Sem mais conversas, completamente sem assuntos, uma vida pautada por reticências e por um líquido amargo que se tornou a falta do que foi perdido. Paralelo a isso, Ivo com a sua parceira, no presente, vivem uma relação vazia, de pouca expressão no filme, assim como na rotina.

O filme vale como um exercício para observar a vida. Conseguir se ver, como em um quadro. Se cada momento fosse uma fotografia, qual seria a expressão em cada um deles? O que faz bem? O que sufoca? O que prende? Se alguém que te conhece como ninguém te observar hoje, vai encontrar a tão sonhada felicidade?

Isso é conversa demais. Um café, por favor!

Neide Andrade

SE EU FICAR

Sem título

Poucos sons têm mais beleza que os dos músicos apaixonados… Apaixonados, não necessariamente por alguém, mas por qualquer coisa. Quem sabe se expressar com música faz isso muito bem e poucos sabem entender. Mas, quando dois se entendem, a história fica linda! Eu fiquei dividida, sem saber se deveria escrever sobre a trilha sonora ou sobre o filme, então resolvi fazer os dois de uma vez. Vou colocar a música e é pra ler ao som dela.

Mia (Chlöe Grace Moretz) é uma menina quieta, filha de roqueiros, mas que logo na infância descobriu o amor pela música clássica. Tinha uma família perfeita, mas nunca se sentiu da tribo deles, apesar de amá-los. Durante o colégio, enquanto ensaia com o violoncelo, passa a ser observada por Adam (Jamie Blackley), o vocalista de uma banda local. Diferente dos filmes comuns que usam a fórmula menina tímida + menino popular = confusão na escola, não tem confusão e Mia é bem recebida pelos amigos dele.

Adam logo é aceito pelos pais de Mia, que viram seus amigos, afinal, ele também é roqueiro. Mia rompe preconceitos e passa a conviver mais com o mundo e, apesar de continuar apaixonada pelo violoncelo, agora outra paixão rouba o seu tempo: Adam. Os dois já fazem planos pro futuro e  não observam que, mais cedo ou mais tarde, a separação será necessária… Teoricamente, rock não combina com clássico.

Mia é o suporte de Adam. É nela que ele encontra a família que nunca teve, a amizade verdadeira, a confiança. Mas esse relacionamento, apesar de verdadeiro, é constantemente ameaçado. Os dois têm planos diferentes, em lugares diferentes. Mia quer estudar em Nova Iorque, enquanto ele quer correr o país inteiro em turnês com a banda.

O casal se separa. Adam vai para as suas turnês e Mia começa a lutar por uma vaga na renomada escola de música Julliard. Entretanto, apesar de realizar sonhos, não estão felizes um longe do outro.

Em uma manhã de neve, a família de Mia decide sair pra se divertir e, na estrada, sofre um acidente. Enquanto ela está em coma, repensa as suas escolhas e no que importa, de fato. Pensa em quais são os seus sonhos e o que mudou enquanto isso. Ouve histórias da melhor amiga, do avô, até mesmo de Adam.

O filme não passa de mais um drama romântico clichê. Entretanto, um clichê contado de uma maneira fabulosa, linda e apaixonante. Já quero ver de novo!

Neide Andrade