Resenha

Madame Bovary sou eu!

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O livro, ao ser publicado,  gerou um processo por “ofensa à moral pública e religiosa e aos bons costumes”. Começou a caça pra saber quem era a devassa retratada na história, qual a verdadeira identidade de Madame Bovary? Pressionado, finalmente o autor responde: “Sou eu! Madame Bovary sou eu!”

Tem certos livros que a gente nunca vai saber por que teve de ler na época do colégio. Quem aí não lembra daquele clássico que seu professor de literatura mandou estudar porque caía no ENEM/vestibular? (mais…)

Batismo de fogo

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O que leva a gente a querer escrever sobre um livro?

Não sei.

Sei o que me leva a ler um: a vontade.

No caso de Batismo de Fogo, tive que insistir. Senti com esse livro a mesma dificuldade inicial que enfrento quando leio um livro de contos. Pra mim, é difícil acabar uma história em um parágrafo e no seguinte começar outra, com outros personagens, outros narradores. Em Batismo de Fogo não há contos: é uma história só, mas – ao mesmo tempo – são várias.

Em resumo, o livro trata do cotidiano de um colégio militar para adolescentes – aliás, pare e pense um pouco nesse conceito: colégio. militar. para. adolescentes. Sentiu o drama? Pois é. O Leôncio Prado recebe só meninos, todos os anos e fica próximo ao mar de Lima, no Peru. Aí a gente pensa: por que – e por quem – esses adolescentes foram obrigados a estudar num colégio interno (e militar)? Como é a vida lá dentro? Como eles lidam com a disciplina?

Várias vozes se alternam no texto pra responder essas perguntas: ora quem fala é o narrador impessoal, onisciente; ora é um dos alunos em primeira pessoa; um dos professores; outro aluno… Alguns parágrafos se passam no presente, páginas depois lemos sobre anos anteriores; descrições de eventos emendam com fluxos de consciência… Enfim: uma zona, mas uma zona escrita por Mario Vargas Llosa. Então tudo faz sentido e é bem feito.

Superada a dificuldade inicial com a alternância das vozes e do tempo, o livro pega você. Muito. Ver aqueles alunos adolescentes lutando pra se impor num ambiente hostil traz uma nostalgia danada. Lógico que tem situações tensas demais, que a gente como aluno comum dificilmente viveria, mas é muito fácil se identificar com os sentimentos, os diálogos e até algumas das situações vividas por esses meninos. Saudades oitava série do fundamental.

Mas Mario vai além: mais que criar um ambiente de identificação absurda, ele escreveu personagens lindos nesse livro. Desde os mais destemidos e subversores da ordem – como Jaguar – até os doces e mansos, que sofrem nas mãos dos outros – feito Ricardo Arana, o Escravo. Todos são escritos bem delicadamente, com cuidado. Não tem unilateralidade aqui – ninguém é vilão, ninguém é mocinho (não o tempo todo). Dá vontade de saber cada vez mais sobre a vida desses meninos. E Mario vai nos satisfazendo, contando pra gente aos pouquinhos, alternado – capítulo a capítulo – o personagem que fica sob o foco.

O Tripé, Crespo, Cava, Tenente Gamboa, Alberto, Jaguar, o Escravo, Tereza e até a danada da Mal-Paga têm seu momento de brilhar nesse livro. E como brilham! Adolescentes comuns, pais e mães comuns, problemas cotidianos de quem vive nos subúrbios da América Latina, mas retratados de um jeito sensível. As brigas, os amores, a amizade, pais e filhos, os conflitos morais: tá tudo lá, e difícil é não se importar com a vida de cada um desses meninos.

Quer um resumo? Vou te dar:

Imagina O Ateneu, de Raul Pompéia, casando com Capitães da Areia, de Jorge Amado. Tira a formalidade e adiciona sangue. Pronto!

* Imagem: do filme Conta Comigo, que eu assistiria, se fosse você.

Eric

PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN

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– Nós somos felizes, você não acha?

– Acho.

– Então qual é o problema?

– Talvez a gente seja feliz demais.


imageedit_15_7358108073É com esse diálogo curto que a gente começa a entender de que realmente fala essa obra-prima de Lionel Shriver. É a partir daí que a gente descobre que, na verdade, não é só sobre o Kevin que a gente precisa falar. Precisamos falar sobre nós mesmos, sobre as nossas culpas.

Tudo começa com uma mãe apática que finalmente aceitou seu destino terrível: o filho é um assassino. Dos mais frios. Logo nas primeiras páginas, a gente conhece o massacre causado por Kevin na sua escola: vários dos seus colegas de classe assassinados premeditadamente.

Tá lindo, mas o que o livro sobre um assassino tem a ver com a minha vida? Tudo, meu amigo, minha amiga. Tudo.

Através de cartas ao seu ex-marido Franklin – pai do Kevin – Eva (a mãe) nos conta a história de seu filho desde o começo, desde antes de ela estar grávida. Nessas páginas, vemos uma empresária bem-sucedida (e rica), casada com um marido amoroso e dona do emprego dos sonhos: ela viaja o mundo todo pra escrever aqueles guias de viagem, sabe? Emprego melhor tá pra nascer.

Eva é bem alegre, feliz mesmo, mas tem um momento em que aquela felicidade toda começa a incomodá-la um pouco. Tudo parece perfeito demais, monótono demais. E, porque ela estava entediada, resolveu ter um filho.imageedit_5_8731316186

Num instante, tudo mudou.

O amante ardente, sensual vira um paizão e a viajante libertina começa a observar horários, ficar em casa e amamentar uma criança – criança, aliás, que rejeita o peito da mãe e a sua própria presença, como se desde cedo já dissesse a que veio.

Kevin nasce, e Eva se arrepende – o que fazer agora?

Inevitável é não perceber a metáfora que grita nesse nome, nessa expressão. EVA. Eva se arrepende. Como a personagem bíblica, ela se arrepende do fruto do seu ventre, das expectativas depositadas naquele serzinho que chora o tempo inteiro. O que ela faz? Finge. Retira de si outra persona e vira a dona de casa, a mãe amável que faz biscoitos, confere a lição de casa e ensina a tabuada.

O problema é que Kevin finge também.

Pro pai, ele é o “filhão”, o “garotão alegre” e que “só precisa de um pouco de carinho, Eva!”. Com a mãe, ele é dolorosamente verdadeiro: rejeita o seio que o amamenta, a mão que o afaga e a voz que o repreende. Despreza tudo, absolutamente tudo. E o pior: ele é cruel. Assustadoramente cruel. Pequenas coisas começam a acontecer, várias delas, mas nenhuma parece ser culpa do menino. Eva percebe. O marido diz que é loucura, injustiça.

Carta a carta, essa mãe vai lembrando Franklin dos detalhes da infância, da adolescência de Kevin, das coisas que ela disse, das que deveria ter dito… Ela vai assumindo sua parte na culpa, apontando onde Franklin também errou e no final, dolorosamente, ela conclui: nunca gostei do meu filho.

Ninguém gosta de mães que “não gostam” dos próprios filhos.

Também não gosto muito dessas mães.

Eu tinha infringido a mais primitiva das regras, profanado o mais sagrado dos laços.

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imageedit_19_3377545386Aí está. A coragem de assumir os erros, os arrependimentos. Aquilo que a gente guarda bem escondido, como poeira velha embaixo do nosso tapete. Eva traz tudo à tona, tudo o que uma mãe, uma mulher, um ser humano nunca teria coragem de dizer. Ela diz, e de peito aberto. Parece que não há mais nada a perder.

Eu me rendo. Poderia passar o dia todo falando e não conseguiria mostrar pra vocês o quanto esse livro é incrível. Não é só sobre a mãe de um assassino, sabe? Vai além. Fala da hipocrisia nossa de cada dia, do falso perdão, das nossas insatisfações e da culpa. Da culpa dolorosa e do que a gente faz com ela. Comecei o livro achando bom, no meio me cansei um pouco dessa narradora egocêntrica e, no final, estava apaixonado pela sinceridade dela e pela força dessas páginas.

Quando o livro acaba, a sensação é de perfeição, de completude: a gente tá diante de uma obra-prima. Mais do que isso: levamos um tapa na cara. No meu caso, um tapa que vibra até agora. Dolorosamente.


Só para raros:

Vi o filme também.

As cenas são muito bem-feitas, bem filmadas. O tempo todo a cor vermelha persegue a mãe de Kevin, como um lembrete constante do que o filho fez e da dor que aquela história traz.

Ezra Miller [As Vantagens de Ser Invisível – post aquitá incrível como o Kevin: o desprezo no olhar, o jeito de se mover, tudo. Tilda Swinton faz uma boa Eva: fria, fisicamente parecida com a descrição do livro, mas muito unilateral. Senti falta da complexidade que a personalidade de Eva tem. Na verdade, se eu fosse usar uma palavra só pra definir o filme, seria essa: falta. 110 minutos não foram suficientes pra contar essa história.

Não me entenda mal: sei que filme e livro são formatos diferentes e é muito difícil condensar tudo pra fazer caber numa tela. Mas cara, não dá. O livro é INFINITAMENTE superior em todos os sentidos.

Enquanto o filme te impressiona, o livro te derruba, acaba com a tua raça e te faz pedir mais.

Eric

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O jogo da imitação

“Um conselho sobre como manter segredo: É bem mais fácil não saber sobre eles”

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Pense em um segredo. Pense em quantas pessoas sabem dele. Pense em contar para alguém, mas – ao mesmo tempo – é tão difícil contar! Pelo simples fato de que contar um segredo para qualquer pessoa é tornar-se refém dela. É estar sujeito a chantagens, humilhações e é a mesma coisa que dar um argumento para o rival em uma briga. Segredo só se conta no desespero. Seja em um desespero de euforia, seja em um desespero de pedir socorro… Ninguém, em sã consciência conta um segredo nem para o melhor amigo, pro pai, mãe… Ninguém em sã consciência coloca carta na manga de um possível inimigo. Sim, a humanidade inteira é um possível inimigo, porque não sabemos o que pode acontecer daqui a um minuto.

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O filme de hoje é pautado em segredos para serem desvendados… códigos. Ganhou o último óscar pelo melhor roteiro adaptado. Durante a guerra, em 1939, Alan Turing entra para a inteligência inglesa. O matemático, viciado em enigmas e palavras cruzadas, fez de tudo para conseguir a vaga, não exatamente – ainda – por amor ao país, mas por pura diversão. Ele havia escrito um artigo cujo nome é Jogo da imitação, que intitula o filme. O artigo falava sobre construção de máquinas. Turing era apaixonado por códigos e o trabalho dele, na guerra, seria desvendá-los.

O exército alemão se comunicava através de uma máquina que nenhum homem seria capaz de desvendar. A Enigma, como era chamada, transformava as mensagens alemãs em códigos, para que todos que rastreassem não conseguissem entender. Mesmo que parecesse um trabalho fácil, não era. A formatação da máquina mudava todos os dias às 0h e passar um dia inteiro para desvendar uma única mensagem em dezenas que se mandava por dia não era uma missão eficiente. Era preciso algo maior.

Alan Turing começou a se isolar da sua equipe, a trabalhar sozinho, como sempre fez – desde o tempo de escola. Sempre isolado, vítima de bullying, um dos maiores gênios da humanidade foi real, foi herói e foi derrotado pelo país que ele salvou. No trabalho dele, Turing começou a fazer os cálculos necessários para montar uma máquina que fosse mais inteligente que a máquina alemã e desvendasse todos os códigos que a máquina alemã emitia: Christopher… Esse foi o nome que salvou a Inglaterra da guerra.

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Para dar vida a Christopher, Alan sofreu risco de todos os sentidos. E, no meio do caminho, a diversão foi ficando de lado: Tudo virou obrigação, porque a cada dia que se passava, muitos ingleses morriam na guerra e até mesmo de fome. O caos estava instalado no país e a solução estava em Christopher. Se ela ia dar certo, ou não.

Mesmo reconhecendo o talento e a importância do cientista, a Inglaterra revelou o seu maior segredo e o condenou à penas bárbaras e desumanas, que revelam o quanto a justiça, muitas vezes, é mesquinha e injusta. Ele inicia o filme pedindo que não o julguemos… E isso é um recado muito bem dado à nossa sociedade, que não abriga o diferente. Mesmo se essa diferença tenha sido a inspiração para salvar a sua vida.

O filme tem um ritmo lento, mas compassado, que prende o espectador e nos envolve com o personagem – especialmente pelo fato de ser baseado em uma história real, que fala de grande parte da humanidade. O protagonista derrotou o exército alemão no papel e mudou os fatos que somos obrigados a estudar nos livros. As abordagens são um tanto silenciosas porque não brigam, exatamente, a favor ou contra qualquer tipo de movimento, mas nos fazem pensar e é isso que importa. Mas nas nossas mentes, o filme é barulhento e grita por amor, tolerância e, acima de tudo, respeito.

Neide Andrade

Pra gostar de: Sky Ferreira

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Não, ela não é brasileira. O pai dela que é. E eu sei que você provavelmente nunca ouviu falar dessa criatura. Mas, ei, a proposta dessa seção “Pra gostar de” é justamente essa: falar de coisa boa – que normalmente eu ouço sozinho – pra vocês conhecerem e, quem sabe, ouvirem junto comigo.

Então, paciência, que eu vou (tentar) te convencer a gostar de Sky Ferreira.

Minha história com essa pessoa foi singular: ouvi a primeira vez uma música dela, achei estranha, fechei o vídeo. Meses depois, ouvi de novo. Achei estranha. Salvei o blog que falava dela nos meus favoritos. Fechei o vídeo. Tempos depois, ouvi, reconheci, gostei e me apaixonei. Baixei os dois EPs e o CD dela e hoje sou fã. Obrigado, internet!

Vamo deixar de conversa e aprender logo a gostar dessa mulher? Listo 5 músicas pra tentar te convencer.

A primeira que ouvi de Sky – e que desencadeou a coisa toda – foi essa aqui:

1) Eveything is Embarrasing

Entendem o meu estranhamento? A música começa com uma batida marcada e – do nada – um acorde bem triste dá início à melodia. Ou seja, é uma música triste com uma batida dançante – poucas coisas são tão indie. Mas, depois do estranhamento inicial, o que fica é a idéia legal da letra e a vontade de dar play nisso numa festa qualquer. Imagina as pessoas se movendo no ritmo da batida e pensando nas desventuras dessa vida! <3

2) Red Lips

Daí que depois de já viciado na primeira música, fui caçar o EP em que ela estava (o Ghost) pra ver se gostava de mais alguma. E eis que escuto uma canção de rock. Sim! Guitarra e bateria bem marcadas, letra provocadora e clipe… Meu deus, o clipe. É simplesmente ela de roupa de baixo enquanto uma aranha caranguejeira anda em cima dela. hahahah E, veja bem, isso não é o mais surpreendente! Vale o play. A música é uma delicinha e o clipe é bem interessante, por assim dizer.

3) Sad Dream

Ok, já tinha gostado de duas músicas e já simpatizava com Sky. Faltava só alguma coisa que me convencesse a ficar, a acompanhar de verdade o trabalho dela. E eis que, não mais que de repente, abro o clipe da primeira música do EP Ghost: Sad Dream. O clipe é muito bonito, delicado, suave, cheio de melancolia e vazio de pieguice, mas a música… Linda demais! É uma baladinha simples, com o baixo bem marcado e muito destaque pros instrumentos acústicos, mas te pega tanto que não sei dizer. Deve ser o jeito como a voz dela soa desprotegida sob os instrumentos, ou a letra. Ou as duas coisas. Destaque pra uns graves lindos que Sky dá no fim dos refrãos.

Gosto tanto de Sad Dream que incluí na minha lista de 10 músicas mais tristes do mundo.

4) Sex Rules

Depois de ouvir o Ghost até furar, fui ouvir o EP anterior dela: o As If!. Nele encontrei o que faltava pra completar o pacote. Quem disse que as músicas dessa mulher são todas tristes? Nesse EP tem uns dancezinhos legais – tipo minha querida 108 – e músicas mais raivosas/divertidas. Minha favorita desse álbum é justamente uma bem engraçadinha e o nome dela é… Sex Rules. hahah Imagina! A música é gostosa demais. Dá vontade de dançar e ser feliz, ou de fazer o que a letra dela sugere. Vê só: We are animals / No matter what we deny. / Our bodies strong like magnets / In the darkening sky. / Sex rules/ Use your God-given tools / Sex Rules / I pity the fools / Who realize too late / Love, sex, and God are great / Oh-oh, oh-oh / Sex rules.

5) You’re not the One

Ouvi os dois EPs, gamei e tal mas CADÊ O CD, MULHER? Demorou anos pra essa pessoa lançar um CD e todo mundo (eu) estava curioso pra saber qual vertente de som ela ia explorar, já que nos EPs ela foi do indie ao dance-pop sem nenhuma vergonha na cara, e competentemente. You’re not the one foi o primeiro single do CD dela, que chama Night Time, my Time e, olha: coisa linda! Pega aquela vibe dance, mistura com o rock de uma guitarrinha nervosa, bota uma letra bem provocativa (you. are. not. the. one.) e tá feito o sucesso. Delícia de música e certeiro pra um primeiro single!

6) Bônus: Heavy Metal Heart

Se eu gostei do primeiro single, eu ENDOIDEI com essa aqui. Nem é single, mas é minha favorita do CD inteiro, de todos os trabalhos de Sky. Delícia de rockzinho! Uma pegada bem 80’s, tipo Blondie e Joan Jett, mas com uma letra bem bobinha, bem a minha cara. Às vezes eu tô no chuveiro e dá vontade de gritar YOU MAKE ME FEEL THE PULSE OF MY HEAVY METAL HEART / YOU MAKE MY HEAVY METAL HEART BEAT BEAT OH OH. E, olha: se a música dá vontade de gritar no chuveiro, é porque ela é boa mesmo. Esse é o melhor termômetro! Totalmente despretensiosa e extremamente acertada. Ponto pra Sky. De novo.


Pra finalizar: de todos os trabalhos dela, tenho que dizer que o meu favorito foi o EP de 2012 (Ghost). É o mais tristinho e o que mais é a minha cara. #gueba O cd dela eu não amei não, mas achei consistente/coerente, e gostei mais dele que do ep de 2011 (As if!). De músicas ainda não mencionadas, destaco a tristeza de Ghost; a rave de Lost in my bedroom; o dance delícia de 108 (de novo!) e a construção perfeita que é I Blame Myself (cujo clipe, aliás, também é ótimo!). Enfim: Sky, vem cá. <3

Eric

As vantagens de ser invisível

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Lembra aquele dia em que você pegou o carro com seus amigos e saiu sem destino certo? Lembra do vento no teu rosto, da sensação de liberdade? Parecia que a noite, o vento e você eram uma coisa só e, porque eram todos um, você era eterno, e infinito.
Charlie também sentiu tudo isso e conta pra gente como foi em As Vantagens de Ser Invisível, livro de Stephen Chbosky. O personagem principal é um adolescente daqueles invisíveis, filho mais novo de uma família de estrelas: o irmão mais velho, astro do futebol e a do meio, brilhante e linda. Charlie não é burro, não é feio, nem é desajeitado. Mas também não é brilhante, lindo ou habilidoso. Ele é como aquelas plantas de consultório de médico, sabe? Tem seu valor, mas ninguém realmente repara.
WAliás, tô escrevendo esse texto no consultório médico e, enquanto tento me concentrar pra lembrar os detalhes da história, uma paciente de farda resmunga pra mãe: primeiro ano do ensino médio é o pior ano na vida de uma pessoa! – Queria que vocês tivessem ouvido o tom dela ao falar isso, o jeito de quem acabou de dizer uma verdade absoluta. Confesso que sorri e achei meio exagerado, mas entendo a menina. Entendo muito. Lembro do medo de enfrentar uma sala de no mínimo 50 alunos (quando as anteriores tinham no máximo 30), de pensar no vestibular pela primeira vez, de me preocupar com o futuro. Na verdade, a gente ta sempre se preocupando e pensando no futuro, mas, no primeiro ano do ensino médio, isso parece tão precoce. A gente nem sabe direito quem é e já tem que pensar no que vai ser.
Charlie tá passando exatamente por isso no livro de Stephen, os medos, a ansiedade, a sensação de não se ajustar. Tudo em sua vida parece meio fadado ao fracasso, quando ele conhece Sam e Patrick, um casal (de irmãos) prestes a se formar no ensino médio. Enquanto a maioria das pessoas na sala deles está preocupada com a admissão na faculdade, os dois escrevem numa revista independente e atuam numa peça-releitura de Rocky Horror Picture Show <3 Eles saem de carro à noite, vão a festas de verdade e parecem muito seguros de si. Sabe os adolescentes populares do teu ensino médio? Pronto, Sam e Patrick são o oposto: eles são aqueles desajustados, loucos por música, que se juntam, se entendem e vivem a vida sem se importar com a opinião dos outros.
Ao longo do livro, Charlie vira amigo dos dois, sai junto com eles, começa a conhecê-los de verdade e finalmente descobre: aquela segurança que os irmãos pareciam ter era, na verdade, uma resposta ao mundo, um grito de sobrevivência de quem foi muito magoado pela vida e precisou encontrar forças em si, descobrir e aceitar quem se é. Nesse momento, a gente percebe que Charlie também teve uma vida difícil e seu coração já foi muito magoado, mas tem um problema: ele ainda não encontrou forças. Nosso menino é fraco demais pra encarar seu passado e, por isso, não consegue seguir em frente. Em um dado momento, ele percebe que tem coisas que a gente não conseguem encobrir, feridas que são tão profundas que gritam, rompem as ataduras e se revelam ainda vivas, inalteradas.
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Todo esse texto pra dizer que o livro é ótimo. E o filme é incrível, é melhor.
Não sei se interfere no meu julgamento a questão de eu ter visto o filme antes de ler o livro. De todo jeito, apesar de ter achado prazeroso ler sobre Charlie, Sam, Patrick e conhecê-los mais profundamente, o fato é que realmente achei o filme melhor.
A adaptação é bem fiel ao livro, mas a mudança de formato faz muita diferença: a história editada ganha bem mais força; no filme, da pra ouvir as músicas lindas que o autor cita durante o texto; e o melhor: a atuação dos protagonistas é muito boa. Ezra Miller tá maravilhoso como Patrick, Emma Watson faz uma Sam incrível e Logan Lerman tá simplesmente perfeito como Charlie! O jeito baixo do olhar, a fala meio arrastada, o desespero latente: é realmente como ver o Charlie do texto em carne e osso. Todo o livro, na verdade, parece ganhar vida na tela e e impossível não se emocionar com isso.
Dito isso, me resta finalizar dizendo que As Vantagens de Ser Invisível não é só sobre adolescência, amizade ou futuro, é sobre ser. Sobre aquele momento em que a gente rompe com o passado e começa a viver a nossa vida. A nossa vida, não a do outro.
Recomendo muito. Em especial pra quem acha que, em qualquer idade, é possível crescer.
Tem no netflix aqui.

Só para raros:

YThere are people who forget what it’s like to be 16 when they turn 17. I know these will all be stories someday. And our pictures will become old photographs. We’ll all become somebody’s mom or dad. But right now these moments are not stories. This is happening, I am here and I am looking at her. And she is so beautiful. I can see it. This one moment when you know you’re not a sad story. You are alive, and you stand up and see the lights on the buildings, and you’re listening to that song and that drive with the people you love most in this world. And in this moment I swear, we are infinite.

Há pessoas que esquecem como é ter dezesseis anos quando fazem dezessete. Eu sei que tudo isso vai ser história algum dia e nossas fotos vão se tornar velhas fotografias, nós vamos nos tornar mãe ou pai de alguém. Mas nesse momento isso não é história. Está acontecendo. Eu estou aqui e estou olhando pra ela, e ela é tão linda, eu posso ver. É aquele momento único em que você sabe que você não é uma história triste. Você está vivo! Você fica de pé e vê as luzes e está ouvindo aquela música, no carro ao lado das pessoas que você mais ama no mundo. E nesse momento, eu juro, nós somos infinitos.

Eric

Walden, ou “vamos fugir”

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Destino de hoje: Concord, Massachusetts/EUA, 1854

Mais um ano começa.

Mais uma vez a gente promete que vai ser diferente, que vai fazer diferente.

Só que vem a primeira segunda-feira do ano, a primeira sexta. Vem o primeiro fim de semana e a segunda-feira seguinte a ele. Continua difícil acordar de manhã, encarar a mesa de trabalho e o telefone, o caderno de questões e a pilha de apostilas. Tudo parece urgente! O futuro é agora. Tem que estudar, tem que ler, tem que passar, tem que ser o melhor. Tem que ter sucesso, tem que ter dinheiro.

Parece familiar? E se eu te contar de um homem que largou todo esse mundo – e tudo o que tinha na vida – pra viver sozinho… na mata? Louco, né? Foram dois anos de isolamento, vivendo perto de um lago [esse aqui], numa cidadezinha chamada Concord, em Massachusetts/EUA. Essa experiência rendeu ao escritor H. D. Thoreau o incrível Walden, ou A vida nos Bosques, publicado em 1854.

O que esse livro velho escrito por um louco tem a ver com você? Ouve a justificativa dele:

14205782374124Fui para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se poderia aprender o que ela tinha a me ensinar, em vez de – quando morresse – descobrir que não tinha vivido. Não queria viver o que não era vida, viver é tão caro! (…) Queria viver profundamente e sugar a vida até a medula, viver com tanto vigor (…) que eliminasse tudo aquilo que não fosse vida. [95]

Parece absurdo viver assim, comendo o que se planta, numa cabana feita com as próprias mãos? Eu sei. Mas repara: a gente também vive de um jeito absurdo. Se o dinheiro, um dia, foi instrumento pra que conseguíssemos o que queríamos, hoje nós somos o instrumento e o dinheiro é tudo o que a gente quer. “Os homens se tornaram os instrumentos de seus instrumentos. O homem independente que colhia os frutos quando estava com fome virou agricultor; aquele que se abrigava sob uma árvore agora tem uma casa para cuidar.” [47]

lonely-old-womanEm 300 páginas, Thoreau nos mostra o abismo entre o que a gente precisa pra ser feliz e o que a gente acha que precisa; fala sobre a vida que tinha antes, e as escolhas que fez; sobre as pessoas à sua volta e a sociedade da sua época; fala do silêncio, da leitura, dos animais, da solidão; fala da felicidade. Tudo isso de um jeito fácil, objetivo. Não tem floreios de escritor aqui: é só um bom amigo que aconselha a gente, baseado em seu exemplo.

O livro vai acabando e é inevitável não pensar: será que eu teria coragem? De sumir e largar as coisas que eu tenho assim, de uma hora pra outra? Tudo o que Thoreau diz é bonito e parece tão puro, tão simples. Mas nem ele conseguiu viver desse jeito por mais de dois anos! Como conceber uma vida assim: tão seca, tão sozinha?

Chega o último capítulo e, com ele, a resposta pra nossa pergunta (e o melhor momento do livro):

Deixei a mata por uma razão tão boa quanto a que me levou para lá. Talvez me parecesse que eu tinha várias outras vidas a viver, e não podia dedicar mais tempo àquela. É notável a facilidade e a insensibilidade com que caímos numa determinada rotina, e construímos uma trilha batida para nós mesmos.

É isso! Não é preciso fugir pra um lago no meio do mato, nem parar de fazer as coisas que te dão prazer. Ter uma rotina, dinheiro, buscar o sucesso não é errado. Errado é se deixar cegar por tudo isso e parar de viver de verdade.

Errado é chegar no leito de morte e pensar: todos esses anos… e eu não vivi.

É tradição desejar algo ao outro sempre que um ano começa, e é isso que eu te desejo: que você viva muito nesse ano novo!


Personalíssimo (só para raros):

Sim, conheci Thoreau através do incrível Sociedade dos Poetas Mortos. [Se não viu esse filme, corre pra ver] Me apaixonei pelo Capitão John Keating e por cada um dos alunos daquele colégio interno. Tudo o que eu achei sobre a história e a trilha sonora, conto num post logo menos, mas quero lembrar a vocês uma cena em especial. Aquela em que o Capitão anda lentamente, em frente ao mural de fotos, sussurrando para os alunos:

Carpe. Carrrpe. Carpe Diem. Seize the day, boys. Make your lives Extraordinary!

Como esquecer?

E na cena de abertura da Sociedade, lembra do texto que eles declamam? É de Thoreau sim, mas adivinha de que livro dele…

I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived – H. D. Thoreau, Walden.

Eric

Então é natal, e o que você fez?

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Então é natal, e o que você fez?

Não há brasileiro que não lembre dessa música quando dezembro começa. Mas vocês já pararam pra pensar no que diz essa letra de Simone?

Dezembro chegou de novo. E aí? O que você fez? Quem você amou? Como viveu?

Nem sempre a gente faz as melhores escolhas. Às vezes dinheiro parece mais importante que família, namoro mais que amizade. E tudo bem. São escolhas. A gente sabe o que tá fazendo com a nossa vida. Mas e quando vem a linha de chegada? Quando a vida que a gente conhece anuncia seu fim?

Meu amigo Ivan passou por isso. Tostói contou a história dele no seu A Morte de Ivan Ilitch, de 1886. Sim, lide com isso: o título já traz um spoiler gigante. E sim, o livro é russo, de 1980. Mas olha, nada disso o faz menos atual ou menos interessante.

Tudo começa com a morte de Ivan (lógico né). Os parentes e amigos de repartição pública ficam sabendo, todos se reúnem no velório. Aquela coisa de velório né: lágrimas, gente falsa, os sucessores do cargo, todos juntos fingindo se importar. Depois de mostrar o fim, Tolstói nos apresenta Ivan: funcionário publico, ambicioso, objetivo. Amigos tinham serventia, amores eram escolhidos a dedo. Pouca coisa era deixada ao acaso, tudo fazia parte do plano. Se formar numa faculdade boa (pública) estudar pra passar num concurso, fazer amigos pra conseguir cargos maiores, casar com a melhor esposa: tudo faz parte do plano. Parece familiar?

O livro conta, em menos de 100 páginas, um pouco das escolhas que Ivan fez durante a vida e como elas mudaram quando ele adoeceu. O que valia demais, passou a valer quase nada; o que era besteira, de repente se tornou importante. Só no leito de morte Ivan percebe que viveu anos e anos, mas não viveu de verdade. De que valeram todos aqueles planos se no final ele se sente assim?


Não se engane, apesar de a morte estar até no título do livro, não acho que é esse o tema central. Ela é só um exemplo. Na verdade, essas páginas falam sobre o fim da vida como nós a conhecemos. O relacionamento que termina, a faculdade que oferece seu grau, o ano que acaba.

Os ciclos antigos se fecham pra outros começarem e, no fim das contas, tudo se resume às decisões que a gente toma, aos caminhos que a gente escolhe trilhar.

2014 acabou.
Então é natal. E o que você fez? O que vai fazer?



No vídeo aqui embaixo (a partir dos 0:35), Alessandra Maestrini canta que a vida é frágil e Chiara faz a você a pergunta mais angustiante do mundo: What are you doin’ the rest of your life?

Eric

Rabo de baleia – por que eu pinto?

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A primeira vez em que ouvi falar sobre esse livro foi no blog da Juliana Gervason.

Em post, em vídeo, diretamente, nas entrelinhas. Sempre que Ju mencionava Rabo de Baleia ou sua autora, Alice Sant’anna, o rosto dela se iluminava. Entrar no canal dela ou ler um dos textos era um convite constante. Então, na primeira promoção que apareceu – desculpa, sou liso – comprei o livro e comecei a ler. Só que tive alguns problemas.

Eu não sou leitor de poesia.

Veja bem, não é que eu não goste. Amo poesia e, inclusive, escrevo. Mas tenho uma certa dificuldade em abstrair, sabe?

Minha escritora favorita de poesia é Cecília Meireles (falei sobre ela aqui). Amo demais essa mulher! Parece uma amiga querida que puxa uma cadeira do nosso lado e começa a falar sobre a vida, a abrir o coração. Ela é direta, e simples. Não precisa de grandes abstrações.

Pois bem, Alice Sant’anna é simples, mas não é direta.

As palavras são despretensiosas, os cenários são cotidianos. Ela não tenta soar difícil, nem é metida a besta. O problema que eu tive pra ler Alice foi o mesmo que as pessoas têm pra ler a mim: ela é meio fechada. Se Cecília é aquela amiga triste, que tá tão mal que não se importa de falar claramente; Alice é a que está mal, mas tenta ser forte. E, ao invés de dizer logo qual é o problema, prefere falar por alto. Fala algumas coisas e guarda outras pra si.

Mas tem algumas coisas que Alice não consegue guardar. E o pouco que ela deixa a gente ver, justifica a existência do livro todo.

“alguma coisa sempre escurecia / de noite uma vontade de ficar um pouco mais / os carros dos pais que chegavam / como besouros lentos e gordos / os carros que não deviam / não podiam”

“ainda sobra algum espaço nas laterais / uma nesga de lençol, mas não / o suficiente para caber / ela também”

“tenho te escrito com calma / cartas em um caderno azul / arranco da espiral e não posto / por preguiça ou nem morta / tenho medo da espera / durante dias ou semanas um animal horrível / (espécie de raposa) vai me perseguir / por dentro, ou serei eu mesma / enquanto a resposta não chega”

Rabo de baleia é sobre ausência, saudade, cotidiano, mas principalmente sobre sumir, desaparecer. Sabe aquela vontade de desistir de tudo, de não estar onde você está? De pegar o primeiro avião e ir embora? Pronto. Só que, pra Alice, avião não serve! Ela pega um rabo de baleia. Olha o poema-título do livro:

UM ENORME RABO DE BALEIA

cruzaria a sala neste momento

sem barulho algum o bicho

afundaria nas tábuas corridas

e sumiria sem que percebêssemos

no sofá a falta de assunto

o que eu queria mas não te conto

era abraçar a baleia mergulhar com ela

sinto um tédio pavoroso esses dias

de água parada acumulando mosquito

apesar da agitação dos dias

da exaustão dos dias

o corpo que chega exausto em casa

com a mão esticada em busca

de um copo d’água

a urgência de seguir para uma terça

ou quarta boia, e a vontade

é de abraçar um enorme

rabo de baleia seguir com ela


Personalíssimo

Este blog é meu rabo de baleia mais recente, mas há meses atrás ele ainda não tinha nascido. E eu achava que não podia mais suportar as decorebas pra concurso, os livros sem alma. Quando eu pensei que ia enlouquecer (de verdade), peguei o primeiro giz de cera e comecei a rabiscar minha apostila da OAB (sim). Não sei dizer como isso me faz feliz, como eu me sinto inteiro quando tô pintando. Depois do giz, comprei guache e telas, e hoje pinto. Parte das imagens que postamos no instagram do blog fui eu que pintei. E isso me deixa feliz. Peguei meu rabo de baleia e sumi, pra poder voltar mais inteiro.

E você?

Tem vontade de agarrar um rabo de baleia?

Eric

Suécia, essa delícia!

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As músicas que fazem sucesso hoje são todas iguais! / Odeio pop! / Não tem nada que preste!

Meu amigo, se algum dia você disse uma dessas frases… Parabéns! Você está certo. O pop tá uma desgraça mesmo, e quase tudo o que faz sucesso parece uma grande repetição do que funcionou anos atrás. A música pop tá totalmente sem personalidade e toda “atitude” dos cantores parece forçada. Quem aguenta mais homem-bonitinho-voz fina-violão? Ou menina-desprotegida-forçando-marra? Mas ei, isso aqui não é um blog indie! E se tu acha que nada do que faz sucesso presta. Vai-te embora!

A situação tá uma desgraça, mas tem muita coisa que se salva. Algumas delas fazem sucesso já, outras tão despontando ainda. E as boas que tão despontando vêm de onde? DE ONDE? Da Suécia, esse lugar maravilhoso.

Suécia é a terra de três cantoras muito boas que vou citar aqui hoje. Provas de que tem música pop boa SIM e com personalidade também. Tô falando de RobynElliphant e – especialmente – Tove Lo. Digo “especialmente” porque vou falar mais dela nesse post, já que acabei de ouvir inteiro o seu primeiro cd: Queen of the Clouds.

Não conhece nenhuma das três? Tá com medo? hahah Relaxa! Bora!

robyn7231) ROBYN – música de boate

É a mais famosa das três suecas, a mais velha e experiente. Começou aanos atrás (1997) fazendo sucesso com uma música chamada “Show me Love”. Rola um boato de que os produtores americanos/europeus queriam transformá-la numa espécie de Britney Spears. Ela não gostou da idéia. Sumiu, e só em 2010 (!) voltou, numa gravadora pequena, com o cd fera chamado Body Talk. Os indie pira! Fez um sucesso relevante e embalou muitos corações. As músicas desse cd são quase todas dançantes, de um jeito pouco óbvio. Já as letras têm aquela vibe sad songs, sabe? Uma tristeza só. Robyn é a cantora pra tocar no meio/fim da festa quando seu coração tá aberto pra cantar coisas do tipo “I’m in the corner watching you kiss her / I’m right over here, why can’t you see me? / I’m givin’ it my all but I’m not the girl you’re taking home… / I keep dancing on my own.” CHORA, coração bandido!

Desse cd, destaco as famosas Dancing on my own > Call Your Girlfriend / a recente Do It Again / e as não tão famosas, mas igualmente boas: Time Machine > Indestructible > Get Myself Together. Um vídeo da última:

 5149b6418c30c2) ELLIPHANT – raiga!

Essa é a mais doida das três e – na minha opinião – a mais criativa e inusitada. Algumas vezes, as músicas dela são loucuras que dá nem pra ouvir, de tanta agonia. Mas, quando acerta, detona. A música dela tem assinatura, sabe? Você ouve e já reconhece: Elliphant. O que é tão controverso? A mistura de sonoridades. Ragga, trap music, reggae, hip hop, pop, dupsteb. Tudo isso cantado/rimado por uma voz forte, num sotaque bem diferente. Imagina! Esse é o tipo de cantora com quem você tem que ter paciência. Vai ouvir uma vez, não vai gostar. Insiste e, quando vê, tá amando. Aconteceu exatamente isso comigo. Estranhei muito de primeira, hoje gosto demais.

Minhas favoritas dela são Down on Life (Essa é um ragga-indie delícia. Que música gostosa de ouvir! Dá vontade de dançar de leve, sabe como?); Could it Be (Ragga, hip hop, sensualidade e AQUELE sotaque carregado delícia. Me lembra Man Down, de Rihanna) e Revolusion (Começa de leve e vai crescendo, crescendo até AQUELE break de trap no fim do refrão. Nervosíssima.)

tumblr_static_tumblr_static_22jiw8lz3ysk48k04800kgoso_12803) TOVE LO – pop

A última é justamente a galega da foto que abre esse post. Das três, ela se enquadra melhor no conceito de pop. Não soa necessariamente como música de boate, nem tem um som tão marcante e cheio de referências. É simplesmente pop, só que bem feito. Pra mim, ela era totalmente desconhecida até minha amiga Débora mandar um link com a música de trabalho dela. Gostei, mas nada demais, sabe? Daí semanas depois entrei num blog aleatório e abri o vídeo de Habits (Stay High). A mesma música que minha amiga tinha me mandado antes. Ouvi à segunda vista e… Débora tinha razão: que música pop, meus amigos! QUE REFRÃO. Uma beleza. Ouvi duas vezes e já estava apaixonado. Nesse dia, peguei um trânsito de 1h no centro da cidade. Passei os-sessenta-minutos ouvindo em loop essa música. Eu juro. E cada vez ficava melhor.

Brevemente: o que Habits (stay high) tem de especial? A melodia vai crescendo aos poucos, acompanhando tudo o que tá sendo dito na música. A estrela, com certeza, é a letra: ela dá o tom de desespero que vai aumentando até culminar com o refrão incrível. Tove Lo canta com sinceridade: You’re gone and i gotta stay high / all the time / to keep you off my mind.

Música pra quem já fez besteira tentando esquecer alguém… Quem nunca?

Pois bem, depois de me viciar em Habits, fui o ouvir o primeiro (e único) cd dela, que chama Queen of the Clouds. Não tem nenhuma música tão boa quanto a primeira ;/ mas o cd tem coisas ótimas. É inegável que a mulher tem talento e cuidado com o que faz,  pouca coisa soa pasteurizada ou genérica.

Depois de compor as letras, essa linda separou o disco em três atos: The Sex | The Love | The Pain. A divisão é bem coerente: cada uma das partes têm músicas que representam um dos temas, embora algumas pudessem se enquadrar em dois deles ao mesmo tempo.

Separei minhas favoritas de cada ato pra dividir com vocês:

I) The Sex

As música safadinha. Das quatro desse ato, destaco Like’ em young – aqui ela conta que curte novinhos hahaha e Talking Body – que fala sobre quando duas pessoas se calam, e deixam os corpos falarem… (Ui!) A letra é muita onda e a música é uma delícia.

II) The Love

Sexo é bom, mas o que acontece quando você começa a gostar de alguém? Nesse ato ela fala sobre isso, com uma das melhores músicas do cd: Not On Drugs. Um dubstepzinho bem-feito e honesto. Nada de nervoso ou extremamente dançante, só o suficiente pra se agarrar. ;] ” Baby listen, please!  I’m not on drugs, I’m just in love.” 

III) The Pain

Foi bom, mas acabou. Só resta se drogar. (oi?)  Lógico: é nesse ato que Habits (stay high) tá, mas pra citar uma diferente destaco This Time Around. Foi a que mais demorou a me pegar, mas fui escutando aos poucos e hoje é uma das minhas favoritas. Quando ela começa, já deixo o player de música no repeat.

 *** Por último, a música mais delícia do álbum. Não é a mais criativa, não serve pra dançar e a letra é pouco profunda. Mas minha gente, Moments é uma delícia! Bem produzida e muito envolvente. I can get a little drunk / I get into all the don’ts / but on good days, I am charming as fuck. (Como não amar essa letra?)


E aí?

Ainda tem música pop boa no mundo?

Eric