Recife

Recife de Mentira: O universo de Praça Walt Disney

Praça Walt Disney (2011), é um curta-metragem, dirigido por Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, que traz de maneira clara através de música e imagens uma crítica ferrenha ao rumo que a cidade do Recife tem tomado em relação a qualidade de vida dos seus moradores, às paisagens e ao relacionamento do recifense com o local.

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Amar a cidade é a melhor alternativa

Essa semana foi de intensos pensamentos sobre a cidade e sobre o que ela pode nos proporcionar. Quando pensávamos que o movimento Ocupe Estelita estava derrubado, fadado a virar história, uma bomba estoura e todos os jornais passam a dar voz – mesmo que pouca, é melhor do que nada – ao movimento que busca preservar as raízes históricas da cidade e, mais que isso: busca devolver a cidade aos seus moradores e reestabelecer o relacionamento, para que o povo do Recife conheça e faça história no Cais.

Com esse gancho de conhecer e fazer história no Cais, eu reflito: temos vivido o que o Recife tem para nos oferecer? Temos amado o Recife, ou isso é apenas mais uma campanha da Prefeitura? Com qual Recife nos relacionamos? O dos shoppings ou o das marés? Qual é a história que o Recife sabe da gente? Eu poderia listar lugares como o Parque da Jaqueira para falar de várias épocas: na minha infância, eu tinha o meu brinquedo preferido. Na adolescência, eu ia fazer piquenique com os amigos. Hoje, eu tenho um banco específico que guarda um milhão de histórias.

E por aí vão vários lugares, com várias histórias. Cinema da Fundação, Sorveteria Fri Sabor, Marco Zero, Parque das Esculturas, Rua Gervásio Pires, Avenida Conde da Boa Vista, Rua do Príncipe, Livraria Cultura etc. Quem vive no Recife desde cedo entende o que eu estou falando: é bom cuidar dessa cidade, é bom preservar cada história que se tem, é bom cuidar bem dos lugares que são queridos porque estamos falando de identidade, de vidas que passaram por esse chão e, por isso, é essencial viver o Recife do jeitinho que ele é: calorento, barulhento, cultural e com pipocão no ônibus.

Neide Andrade

Recife e os amores de maio

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kk“Não me ame tanto! Eu tenho algum problema com amor demais… Eu jogo tudo no lixo! Sempre.”

Ah, as músicas de amor! Como é difícil encontrar sinceridade nas declarações dos apaixonados (ou dos desapaixonados). Dizem que maio é o mês do amor romântico e, pode até ser em outros estados, mas aqui em Pernambuco o buraco é mais embaixo. Amor aqui sempre foi sincero, visceral, autoral – de verdade. Música também.

O trecho do início é da pernambucana Karina Buhr. A tirada caústica lembra Clarice Falcão não é? Pois é, outra pernambucana. Não deixe o sotaque te enganar; aquela honestidade toda só podia ter vindo de Recife. É nessa terra que a sinceridade e o orgulho se juntam pra dançar frevo, baião, maracatu ou de tudo de uma vez só. Os trabalhos dos músicos daqui são uma revisita constante a esse espírito e a essas sonoridades.

É o caso de Karina, que nasceu em Salvador, mas é claramente recifense. A voz aguda e delicada ou o instrumental bem trabalhado podem enganar – mas cuidado! – o material-Buhr é perigosíssimo. A letra simples, direta e honesta, quase sussurrada, te tira do prumo, enquanto a melodia envolvente faz o trabalho de viciar. As guitarras melódicas e frases soltas se unem ao ritmo bem marcado e aos sintetizadores, como se o presente mais contemporâneo desse uma voltinha nas glórias do passado. Isso é Karina, isso é Pernambuco.

Nossa música, essa saudosa, gosta mesmo de celebrar o que já aconteceu, mas nunca se repete. É como se o Lázaro bíblico voltasse da tumba a cada nova banda, a cada nova sonoridade, totalmente transfigurado. Nesse momento, impossível não lembrar do nosso Cordel do Fogo Encantado – quecc pode até não ter trazido Lázaro de volta, mas fez melhor: nos trouxe Raul. Numa ressurreição à altura do Maluco Beleza. O Cordel é o amor-orgulho, orgulho do nosso folclore e da nossa cultura. Uma verdadeira volta à poesia profana, ao Brasil de décadas atrás e, ao mesmo tempo, uma reinvenção: Raul Seixas agora canta ao som de maracatu, do samba de côco e de tambores furiosíssimos. Extremamente pernambucano, nacional e internacional, tudo ao mesmo tempo. A banda acabou, mas nos restam três cds de poesia, de cordel, de encanto. Esses ninguém nos toma.

Por falar em fim, é quase pecado encerrar esse texto e deixar de mencionar a banda que mais celebra, a cada trabalho, seu amor pelos mombojo2pontos finais: Mombojó é o amor não só às paixões que acabam, mas ao final em si. Pernambucanos jovens se apaixonam, o sentimento acaba. Fim. Integrante tem enfarto aos vinte e quatro anos, a vida acaba. Fim. A crítica aponta os novos trabalhos como um recitar de idéias antigas, a criatividade acaba? Fim. De interrupção em interrupção, segue a Mombojó e sua mistura inusitada de mangue beat, rock e bossa nova, que o vocal de Felipe S. usa pra falar de amor, daquele tipo que se esfacela no vento.

Três bandas pernambucanas, três estilos completamente distintos e duas coisas em comum: o amor à nossa terra e a falta de reconhecimento. Os tempos são outros, ouve-se de tudo e a nossa própria identidade se enche de estrangeirismos e de um “jeitinho” às vezes mais carioca que recifense. O resto do país celebra o amor de Maio e suas canções açucaradas e nós, ingratos que somos, nos juntamos ao coro. Não que seja mau celebrar o romance e a música adocicada vez em quando, mas nosso “sangue de heróis, rubro veio” fala alto – especialmente em maio – pra nos acordar: valorizemos também nossa terra, nosso chão, nossa música!

Que nosso eu seja carioca, inglês, paulista, francês, soteropolitano. Tudo bem! Ninguém foi feito pra ser um só. Mas Karina pergunta: “Se você tiver que escolher entre você e o seu amor, você escolhe quem?” Ah, hoje eu escolho o amor. Eu escolho Pernambuco.

Eric