Pessoal

Rabo de baleia – por que eu pinto?

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A primeira vez em que ouvi falar sobre esse livro foi no blog da Juliana Gervason.

Em post, em vídeo, diretamente, nas entrelinhas. Sempre que Ju mencionava Rabo de Baleia ou sua autora, Alice Sant’anna, o rosto dela se iluminava. Entrar no canal dela ou ler um dos textos era um convite constante. Então, na primeira promoção que apareceu – desculpa, sou liso – comprei o livro e comecei a ler. Só que tive alguns problemas.

Eu não sou leitor de poesia.

Veja bem, não é que eu não goste. Amo poesia e, inclusive, escrevo. Mas tenho uma certa dificuldade em abstrair, sabe?

Minha escritora favorita de poesia é Cecília Meireles (falei sobre ela aqui). Amo demais essa mulher! Parece uma amiga querida que puxa uma cadeira do nosso lado e começa a falar sobre a vida, a abrir o coração. Ela é direta, e simples. Não precisa de grandes abstrações.

Pois bem, Alice Sant’anna é simples, mas não é direta.

As palavras são despretensiosas, os cenários são cotidianos. Ela não tenta soar difícil, nem é metida a besta. O problema que eu tive pra ler Alice foi o mesmo que as pessoas têm pra ler a mim: ela é meio fechada. Se Cecília é aquela amiga triste, que tá tão mal que não se importa de falar claramente; Alice é a que está mal, mas tenta ser forte. E, ao invés de dizer logo qual é o problema, prefere falar por alto. Fala algumas coisas e guarda outras pra si.

Mas tem algumas coisas que Alice não consegue guardar. E o pouco que ela deixa a gente ver, justifica a existência do livro todo.

“alguma coisa sempre escurecia / de noite uma vontade de ficar um pouco mais / os carros dos pais que chegavam / como besouros lentos e gordos / os carros que não deviam / não podiam”

“ainda sobra algum espaço nas laterais / uma nesga de lençol, mas não / o suficiente para caber / ela também”

“tenho te escrito com calma / cartas em um caderno azul / arranco da espiral e não posto / por preguiça ou nem morta / tenho medo da espera / durante dias ou semanas um animal horrível / (espécie de raposa) vai me perseguir / por dentro, ou serei eu mesma / enquanto a resposta não chega”

Rabo de baleia é sobre ausência, saudade, cotidiano, mas principalmente sobre sumir, desaparecer. Sabe aquela vontade de desistir de tudo, de não estar onde você está? De pegar o primeiro avião e ir embora? Pronto. Só que, pra Alice, avião não serve! Ela pega um rabo de baleia. Olha o poema-título do livro:

UM ENORME RABO DE BALEIA

cruzaria a sala neste momento

sem barulho algum o bicho

afundaria nas tábuas corridas

e sumiria sem que percebêssemos

no sofá a falta de assunto

o que eu queria mas não te conto

era abraçar a baleia mergulhar com ela

sinto um tédio pavoroso esses dias

de água parada acumulando mosquito

apesar da agitação dos dias

da exaustão dos dias

o corpo que chega exausto em casa

com a mão esticada em busca

de um copo d’água

a urgência de seguir para uma terça

ou quarta boia, e a vontade

é de abraçar um enorme

rabo de baleia seguir com ela


Personalíssimo

Este blog é meu rabo de baleia mais recente, mas há meses atrás ele ainda não tinha nascido. E eu achava que não podia mais suportar as decorebas pra concurso, os livros sem alma. Quando eu pensei que ia enlouquecer (de verdade), peguei o primeiro giz de cera e comecei a rabiscar minha apostila da OAB (sim). Não sei dizer como isso me faz feliz, como eu me sinto inteiro quando tô pintando. Depois do giz, comprei guache e telas, e hoje pinto. Parte das imagens que postamos no instagram do blog fui eu que pintei. E isso me deixa feliz. Peguei meu rabo de baleia e sumi, pra poder voltar mais inteiro.

E você?

Tem vontade de agarrar um rabo de baleia?

Eric

Boyhood – da Infância à Juventude II

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Feito o convite nesse post aqui, voltei pra dizer a vocês o que achei do filme.

165 minutos. 165 minutos de nada.

Sem tiroteio, sequestro, reflexões profundas sobre a vida nem belíssima fotografia.

Desde o começo, Boyhood – da Infância à Juventude deixa duas coisas bem claras. Primeira: o diretor não quer te impressionar – nada de sensacionalismo, sangue nem melodrama. Segunda: ninguém ali tem pressa. Tudo acontece na hora que tem que acontecer, como na vida da gente.

Aliás, é exatamente esse o tema do filme: a vida, uma vida comum. A proposta é filmar o desenvolver de um garoto e sua família durante doze anos, com os mesmos atores e a mesma equipe. E dos seis aos dezoito anos de idade, as coisas mudam demais. O rosto perde a inocência, os olhos ganham mais conhecimento, escolhas são feitas e a fantasia vai morrendo.

Enquanto o garoto Mason vai crescendo diante dos nossos olhos, a gente vai lembrando como é crescer. Pára um pouco, lê com calma. Lembra comigo do teu primeiro beijo, da primeira decepção. Das brigas na família e da sensação de não pertencer a lugar nenhum. Do desconforto com o novo corpo e as novas responsabilidades. Dos tempos de colégio… Tudo passa rápido. E, obviamente, passa de um jeito diferente pra cada um.

Eu não fui Mason. Não nasci nos Estados Unidos, nem tive pais separados. Mas tive alguns dos medos dele, passei por situações parecidas, senti e pensei como ele. Cresci e, em alguns momentos, isso foi difícil. Então, de algum jeito, concluo que eu fui Mason também. Talvez você também tenha sido.

Hoje, já sou adulto / já somos adultos.

Escrevo esse texto aos 24 anos. Do alto da minha sensatez, da auto-suficiência. E, assim como você e Mason, perdi várias das minhas ilusões junto com a cara de criança e o cheiro de talco, mas não quero virar adulto por completo. Não ainda.

Sei que a gente tem que ter responsabilidade e simplesmente crescer, em algum momento. Mas é que esse mundo é apressado demais! Pede casa-carreira-família-relacionamentos, tudo correndo, no automático. Pronto: crescemos! Viramos gente! Só que, enquanto fazíamos isso, nosso coração morria, nossa essência nos deixava. Aí quando tá tudo terminado e bem estruturado, eventualmente percebemos que não era bem isso o que a gente queria.

No filme, a mãe de Mason sofreu muito, desses sofrimentos cotidianos (e, por isso, mais doloridos), virou adulta depressa. E com cinquenta anos, dois filhos na faculdade, ela pára. Sentada no apartamentozinho vazio que acabou de comprar, diz ao filho que tá indo morar no campus: – esse é o pior dia da minha vida.

Não entenda mal: ela está feliz pelas conquistas dele, pela vida que ela própria construiu, mas entre lágrimas conclui: – eu só achei que haveria mais. O tempo passou, as decisões certas foram tomadas, veio a maturidade a conclusão dela foi:

– Eu só achei que haveria mais.

Que decisões você tá tomando? Que tipo de vida tá construindo agora? – É isso que o filme de Richard parece perguntar a gente, durante os 165 minutos. 165 minutos de nada. Mas a nossa vida não é assim também? Anos e anos de nada. Casamento, casa, filhos, emprego, realização: tudo é tão banal. Realmente não parece o tipo de coisa que merece ser retratada no cinema. Só que uma coisa é ver o desfile do cotidiano passar diante de você numa telona, outra é viver esse desfile, fazer parte dele.

Em resumo: tudo bem se você achar o filme bobo. Ele é. E a razão pra isso é simples: a gente só pode ver o que Mason faz com a vida dele, não podemos agir em seu lugar, não podemos viver por ele. Mas, veja bem: a nossa vida nós podemos viver; de um jeito melhor, mais desperto.

Do alto de sua sinceridade, é esse o conselho da mãe de Mason: não passe a vida dormindo, porque o tempo vem e cobra a conta depois.

Uma conta cara.


Obrigado, Richard. 165 minutos de vida, vida de verdade na tela.

Difícil é não se identificar com o menino, com o pai idealista, a mãe responsável. Difícil não se emocionar.

Porque o drama até comove, mas é a realidade que emociona.

Eric

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Carta para Cecília

Cecília Meireles

Oi, Cecília.

Dia sete de novembro tu completou 113 anos.

É meio difícil escrever pra alguém que a gente ama. Muitas palavras vêm à mente, muitas lembranças.

Difícil organizar tudo na cabeça. Difícil parar de lembrar e começar a escrever.

Tu sabe que eu não sou conhecedor da tua obra, só tenho um livro teu.

E ele tá velhinho, o bichinho.

Comprei num sebo por quinze reais, há um monte de tempo. Ele perdeu a capa, amarelou, amassou. As páginas tão todas cheias de orelhas e rabiscos. Difícil é achar alguma ainda intacta.

Foi menino ainda que comecei a aprender contigo sobre a vida, sobre como é perder.

Você sempre soube. Perdeu um pai, dois. Um marido, dois. A casa, a família, os amigos. Tudo ia escapando das tuas mãos. Até o que parecia mais concreto virava pó, virava areia. Foi você que me ensinou: nada dura pra sempre. “Sempre” é uma palavra muito grande pra os homens usarem.

Mas o que eu sinto por você é grande também, Cecília. Então deixa eu usar essa palavra?

Eu te amo pra sempre.

Chorei junto contigo e te abracei pra te confortar. Tu me deu a mão, me falou da vida, disse que tudo ia passar logo.

E passou.

Hoje não tenho mais aquele boneco de pelúcia, não sou mais criança. Mas ainda tenho você e tudo o que a gente compartilhou.

Obrigado por não ter morrido ainda. Obrigado por me entender, por continuar tão viva nas páginas do meu livro.

Obrigado por me amar também.


Disseste “Sempre!” e estavas longe, e eu te escutava com ternura: porque essa é uma grande palavra, para viver no tempo humano.

Eis o que somos: pobre coisa afogada neste mar da memória.

Ninguém me venha a dar vida, que estou morrendo de amor / que estou feliz de morrer, que não tenho mal nem dor. / Que estou de sonho ferida, que não me quero curar / que estou deixando de ser, e não me quero encontrar.

O amor sozinho vagava. Sem mais nada além de mim… numa eternidade inútil.

Vou por este caminho, certa de que tudo é vão. Que tudo é menos que o vento, menos que as folhas do chão.

Inclino-me docemente para impossíveis janelas. Não creio nos meus olhos. Não creio na paisagem. Não creio em nada do que se tem dito. Creio nos espaços em branco. Nas entrelinhas de profecia. Na humilde ignorância, exposta sem defesa entre o incansável tempo múltiplo e o tempo incansável e único.

Conheço a residência da dor. Às vezes sento-me à sua porta, na sombra das suas árvores. E ouço dizer: “Quem visse, como vês, a dor, já não sofria”. E olho para ela, imensamente. Conheço há muito tempo a dor. Conheço-a de perto. Pessoalmente.

Felizes os que podem mover facilmente os olhos, sem os ver transbordar. Eu, do coração para cima, sou toda lágrimas: qualquer movimento abala esta secreta arquitetura.

CANÇÃO DAS VÍTIMAS

Não se morre para sempre, meu amor.

Mata-me devagarinho:

há muitos tempos de dor.

Mata-me só por enquanto,

desta vez…

Vai-se aos poucos contemplando

o que no mundo se fez.

E quem sabe, se arrepende

tua mão

com mais punhais do que o espaço

que existe em meu coração?

Eric