Para Sempre Alice

Cinco filmes sobre mim

Olá, queridxs! Ontem Eric fez um post aqui no blog pra falar mais sobre ele e como as músicas serviram para mostrar a personalidade dele, assim como as pessoas que o influenciaram. Pessoas comuns, esta é a parte mais linda! Pois bem, hoje é o meu dia. Não sou muito ligada a música, poucas me emocionam e não sou a melhor crítica dessa linguagem por não saber interpretar com clareza. Por isso, fiquei em dúvida entre a literatura e cinema. Os livros me acompanham desde sempre. Minha mãe é daquelas que não mede esforços pra formar uma leitora, até hoje. Mas acredito que o cinema é o que me cativa mais… Talvez porque seja uma mídia que une literatura, teatro, música, fotografia e o que mais tiver de bom… Ou sabe-se lá o motivo. Escolhi cinco filmes que falam um pouco sobre mim: medos, sonhos, prazeres, amores e a minha própria história.

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Para sempre…

Neide Andrade

Era final de ano, fui correr, como de costume e, de repente, eu não sabia muito bem onde estava. Foi difícil pra mim aceitar a situação e as suas possibilidades. Eu precisava acreditar na minha desenvoltura e em tudo que conquistei na minha vida. Era tudo o que eu precisava trazer à memória: Meus artigos, minhas aulas, meu marido, meus filhos, minhas riquezas. Nos meus cinquenta anos vivi dias inesquecíveis… Que eu nem posso mais exemplificá-los. Digamos que foram importantes e muito especiais, nada para mim foi inesquecível. Deve ser maravilhosa a sensação de se casar… Dizer que “sim” no altar, escolher viver até a morte com a mesma pessoa.

Como será que nos conhecemos? Na casa de um amigo? Em uma semana santa? Ele é o homem que me dá o meu primeiro “bom dia” há anos, isso é o que importa! Onde começamos a namorar?  Em um parque, de um lado ou de outro do rio?! Dia 17, 21, 23, 25… Não me importa mais! Eu nunca mais terei o direito de lembrar disso. Mas eu imploro: Tirem-me todas as letras, as combinações dos signos, as vírgulas… Que eu me esqueça de tudo, menos do amor. Que eu seja incapaz de esquecer deste amor que me fez viver.

Às vezes me esqueço quem sou. Tenho dificuldade pra confiar plenamente no que me dizem. Mas essa é a minha única alternativa. Vejo as fotos antigas da família, os vídeos das crianças brincando na praia… Um dia, quando eu era segunda série, descobri na escola que as borboletas viviam uma vida curta, coisa de poucas semanas. Fiquei desesperada! Achei injusto algo tão majestoso como uma borboleta, que se esforçou tanto para ser quem é, morrer e ser esquecido assim, como em um piscar de olhos. Como eu, que tenho as minhas memórias esquecidas, que não sou mais ninguém. Que sempre ouço “Você foi uma grande mulher” porque não sou mais ninguém, vivo do que fui um dia e como sofro com isso! Mas sofro cada vez menos…  Meus sofrimentos também vão embora com as lembranças.

Então a minha mãe me deu um colar com um pingente de borboleta e disse que aquela ali poderia viver muito, porque se tornou eterna. Eu me vejo e espero ser eterna. Eu quero, todos os dias, que alguém use um livro meu em sala de aula, mesmo esquecendo o seu título. Eu preciso que olhem para mim como alguém que ainda existe, que ainda pode servir para alguma coisa. Mas não, eu não sirvo para dizer aos meus filhos que o amo, mal me lembro que tenho filhos, troco os nomes… Não sou mais capaz de fazer ninguém se sentir especial.

Nesta semana, uma moça chegou para cuidar de mim. Está no quarto da Lydia, minha filha caçula. Ela é tão amorosa, lê histórias pra mim, ele chega tarde, meu marido é médico e trabalha muito, não lembro bem onde é. Está cada vez mais frio aqui fora, temo não aguentar…

Alice

Para Sempre Alice

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Dia desses fui andar na orla de Boa Viagem à noite. Lembrei de quando eu era novinho e me sentava na praia com meus primos pra construir aqueles castelinhos de areia. Uns eram tão perfeitos que pareciam de verdade, outros – os meus – eram cheios de falhas e muito longe daquilo que a gente chama de proporção. Mas uma hora, todos eles – todos – desmoronavam quando a onda chegava.

Sábado passado, fui assistir Still Alice (Para Sempre Alice) e essa imagem dos castelos me veio à mente. Talvez porque no filme tem muitas cenas rodadas na praia. Talvez por uma outra razão, que vou tentar explicar melhor nesse texto.

Alice – interpretada por Juliane Moore – é (era?) neurolinguista, professora de ensino superior, doutora, especializada na arte do ser humano de se comunicar. Um dia, ela perde a fala durante uma de suas palestras. Sabe quando o que você quer dizerr tá na ponta da língua mas você simplesmente esquece? Aconteceu com ela. Uma vez, duas. Até que, um dia, fazendo cooper no Campus da sua Universidade, ela esquece como voltar pra casa. Procura um médico e, logo no começo do filme, descobrimos: ela tem Alzheimer.

Alice descobre, o marido (Alec Baldwin) descobre, seus filhos descobrem. A doença é grave, a progressão é rápida e o pior: ela é genética, qualquer um dos filhos pode ter herdado essa condição. Aos poucos, a gente vai vendo a antiga Alice perdendo suas lembranças, sua capacidade de se comunicar, sua integridade. Aquela mulher segura do começo vai sumindo e uma versão meio boba dela mesma vai tomando o seu lugar.

Enquanto as lembranças e a percepção vão morrendo, os filhos e o marido ficam ao lado – alguns mais próximos, outros mais distantes – vendo aquela casa espetacular ruir e virar escombros. Escombros de um castelo de areia.

Conheço uma mulher chamada Cecília que entende desse tipo de edificação, sabe como é viver no que é feito de areia. Uma de suas poesias diz assim: “Disseste ‘Sempre!’ e estavas longe, e eu te escutava com ternura: porque essa é uma grande palavra, para viver no tempo humano.” Eu concordo com ela. “Sempre” é uma palavra grande demais pro ser humano usar, não cabe.

Só que a gente não aprende.

Queremos que a amizade dure pra sempre, o amor, os pais, a felicidade, a vida dure pra sempre. Queremos que as nossas memórias se ergam como os recifes do meio do mar. Mas não é assim que funciona, e sabe por que? Porque  a estrutura da vida não é rochosa: tudo, tudo é feito de areia. É feito pra não durar. – A faculdade vai acabar. E o emprego? Também. E o namoro? Também. E o casamento, e os filhos, e o dinheiro e o futuro. Tudo vai passar alucinadamente pelos nossos olhos e, quando a gente piscar, o futuro chegou. E já se foi. Feito areia no vento.

As memórias de Alice vão acabando e cada vez sobra menos coisa pra guardar na sua cabeça doente. Um dia – na praia – ela ensina: “Eu só tenho o hoje, só o hoje…” – Nessa hora, a gente tripudia dela. Tira onda mesmo. Que clichê! | Nossa! Nunca tinha ouvido isso. | Cadê a criatividade? – Parece que, pra nós, sempre vai haver um amanhã, um dia depois, uma lembrança a mais pra guardar. Talvez.

Não quero ser o profeta da desesperança não, mas olha ao teu redor: o que realmente na tua vida não é perecível? O que consegue resistir ao tempo?

Resposta: nada.

E não é culpa do mar, não é culpa do tempo, não é culpa das ondas.

É só que os castelos de areia são feitos pra ruir.

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Eric

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