Oscar

Temo e teAmo

Neide Andrade

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Eu sempre quis encontrar o meu olhar no seu e, de alguma maneira, fazer a minha história por ali mesmo. Eu sempre precisei ter o seu olhar em mim, cuidando, protegendo. Porque toda a minha marra, toda a minha aparência viril, ágil, esperta e sóbria vão abaixo quando o meu olhar encontra você. Qual seria o segredo dos seus olhos?

Quando te vejo fico frágil, tonto, lento e absolutamente embriagado com o cheiro e a paz que você traz ao ambiente. Apenas a ele. Porque em mim, tudo o que eu não sinto é paz ao seu lado. Eu nunca estou satisfeito e sempre quero mais, entretanto, estou condenado a uma prisão em qualquer lugar do mundo longe dos seus olhos castanhos penetrantes e oniscientes, que me rasgam e me penetram por inteiro.

Já tentei fugir, mas hoje fico. Já tentei me policiar, mas estou sempre hipnotizado com você. Já tentei me foçar a ser ativo, mas a passividade é o que me resta diante deste caso: Estou condenado, perpetuamente, ao seu serviço. Nunca me vi pronto para esse destino, mas aconteceu e é em você que deposito meus sonhos e pensamentos, meus devaneios.

Às vezes me ver condenado a você me faz feliz, me faz acreditar que tudo vai ser diferente um dia, eu nunca estarei sem nada, pelo fato de você ser tudo. Tudo de mais belo que possa existir. Entretanto, a possibilidade de enxergar os fatos nus e crus me desespera, faz com que eu queira me esconder, te ver só pela brechinha. Fingir que nem existo. Deixar uma flor na sua mesa, comprar um café na esquina, fazer a diferença na sua vida, mesmo que de maneira anônima.

A vida me condenou a você, mas a sentença não foi justa. Ela devia ter te condenado a mim também.

Do seu eterno, Benjamin.

Eu sei quem conta o teu segredo

“Devia ver os olhos dele, estão sempre em um estado de puro amor. Consegue imaginar um amor assim? Sem o desgaste do cotidiano, das obrigações?”

É interessante pensar no que os nossos olhos dizem. Cúmplices de todos os crimes, sentimentos, vitórias e derrotas, são capazes de nos entregar quando menos queremos. Os olhos entregam as paixões que, na maioria dos casos, nos levam à ruína, ao estado que mais tememos: O nada. O tédio absoluto. A marginalização. Diversas coisas podem nos levar a uma vida cheia de nada e a maioria delas culmina em uma prisão. O amor que nunca foi efetivo leva-nos a uma vida cheia de nada, capaz trazer lembranças de momentos que nunca existiram. Um amor interrompido deixa-nos preso no passado e nos faz parar no tempo, sempre olhando para trás, enche a vida de passado e aniquila o futuro.

Em O segredo dos seus olhos, as paixões, loucuras, tristezas e anseios dos personagens ficam estampados a partir de uma narrativa dupla, cujo ponto de partida é o recém aposentado da justiça penal argentina, Benjamín Espósito (Ricardo Darín). Espósito teme uma vida pacata, sem companhias e sem o seu grande amor, Irene (Soledad Villamil), que foi sua superior no antigo emprego. Resolve, a partir da aposentadoria, escrever um livro sobre um caso que ficou marcado na sua carreira: O estupro seguido de assassinato de Liliana Colotto, em 21 de junho de 1974. O amor nunca realizado entre a chefe e o subordinado e o amor interrompido entre Meireles e Liliana são narrados de maneira compassada e complementar até o final do filme, com alguns pontos de encontro emocionantes entre as duas histórias, que – na verdade – tornam-se uma. O longa ganhou, em 2010, o merecido óscar de melhor filme estrangeiro.

Os elementos narrativos são, de fato, o ponto mais marcante do filme. A crítica à justiça, que – tantas vezes – escolhe ser falha para garantir interesses próprios, sem ligar nem mesmo para a crueldade que se faz quando é omissa. A lei, neste caso, condenou – e condena, todos os dias – inocentes a uma prisão perpétua, coberta de nada. A direção (Juan José Companella) leva a história de maneira envolvente e dialoga perfeitamente com espectador, dando spoilers constantemente apenas com a direção e o enquadramento da câmera, isso deixa a trama ainda mais emocionante e prende ainda mais o espectador, além de uma maquiagem extremamente real.

O filme traz um discurso de valor que grita em todos os momentos, do início ao final. Apesar de ser baseado em fatos reais, a história é contada de maneira a dizer eu também temo viver um nada. Eu também temo o tédio. Todos temem a solidão. Todos, algum dia, procuraram um sentido para a sua vida que vá além da rotina. Eu só aconselho não confiar nos olhos para tudo, eles podem nos trair.

Neide Andrade

Para Sempre Alice

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Dia desses fui andar na orla de Boa Viagem à noite. Lembrei de quando eu era novinho e me sentava na praia com meus primos pra construir aqueles castelinhos de areia. Uns eram tão perfeitos que pareciam de verdade, outros – os meus – eram cheios de falhas e muito longe daquilo que a gente chama de proporção. Mas uma hora, todos eles – todos – desmoronavam quando a onda chegava.

Sábado passado, fui assistir Still Alice (Para Sempre Alice) e essa imagem dos castelos me veio à mente. Talvez porque no filme tem muitas cenas rodadas na praia. Talvez por uma outra razão, que vou tentar explicar melhor nesse texto.

Alice – interpretada por Juliane Moore – é (era?) neurolinguista, professora de ensino superior, doutora, especializada na arte do ser humano de se comunicar. Um dia, ela perde a fala durante uma de suas palestras. Sabe quando o que você quer dizerr tá na ponta da língua mas você simplesmente esquece? Aconteceu com ela. Uma vez, duas. Até que, um dia, fazendo cooper no Campus da sua Universidade, ela esquece como voltar pra casa. Procura um médico e, logo no começo do filme, descobrimos: ela tem Alzheimer.

Alice descobre, o marido (Alec Baldwin) descobre, seus filhos descobrem. A doença é grave, a progressão é rápida e o pior: ela é genética, qualquer um dos filhos pode ter herdado essa condição. Aos poucos, a gente vai vendo a antiga Alice perdendo suas lembranças, sua capacidade de se comunicar, sua integridade. Aquela mulher segura do começo vai sumindo e uma versão meio boba dela mesma vai tomando o seu lugar.

Enquanto as lembranças e a percepção vão morrendo, os filhos e o marido ficam ao lado – alguns mais próximos, outros mais distantes – vendo aquela casa espetacular ruir e virar escombros. Escombros de um castelo de areia.

Conheço uma mulher chamada Cecília que entende desse tipo de edificação, sabe como é viver no que é feito de areia. Uma de suas poesias diz assim: “Disseste ‘Sempre!’ e estavas longe, e eu te escutava com ternura: porque essa é uma grande palavra, para viver no tempo humano.” Eu concordo com ela. “Sempre” é uma palavra grande demais pro ser humano usar, não cabe.

Só que a gente não aprende.

Queremos que a amizade dure pra sempre, o amor, os pais, a felicidade, a vida dure pra sempre. Queremos que as nossas memórias se ergam como os recifes do meio do mar. Mas não é assim que funciona, e sabe por que? Porque  a estrutura da vida não é rochosa: tudo, tudo é feito de areia. É feito pra não durar. – A faculdade vai acabar. E o emprego? Também. E o namoro? Também. E o casamento, e os filhos, e o dinheiro e o futuro. Tudo vai passar alucinadamente pelos nossos olhos e, quando a gente piscar, o futuro chegou. E já se foi. Feito areia no vento.

As memórias de Alice vão acabando e cada vez sobra menos coisa pra guardar na sua cabeça doente. Um dia – na praia – ela ensina: “Eu só tenho o hoje, só o hoje…” – Nessa hora, a gente tripudia dela. Tira onda mesmo. Que clichê! | Nossa! Nunca tinha ouvido isso. | Cadê a criatividade? – Parece que, pra nós, sempre vai haver um amanhã, um dia depois, uma lembrança a mais pra guardar. Talvez.

Não quero ser o profeta da desesperança não, mas olha ao teu redor: o que realmente na tua vida não é perecível? O que consegue resistir ao tempo?

Resposta: nada.

E não é culpa do mar, não é culpa do tempo, não é culpa das ondas.

É só que os castelos de areia são feitos pra ruir.

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Eric

Leia mais: Carta para Cecília