o segredo dos seus olhos

Cinco filmes sobre mim

Olá, queridxs! Ontem Eric fez um post aqui no blog pra falar mais sobre ele e como as músicas serviram para mostrar a personalidade dele, assim como as pessoas que o influenciaram. Pessoas comuns, esta é a parte mais linda! Pois bem, hoje é o meu dia. Não sou muito ligada a música, poucas me emocionam e não sou a melhor crítica dessa linguagem por não saber interpretar com clareza. Por isso, fiquei em dúvida entre a literatura e cinema. Os livros me acompanham desde sempre. Minha mãe é daquelas que não mede esforços pra formar uma leitora, até hoje. Mas acredito que o cinema é o que me cativa mais… Talvez porque seja uma mídia que une literatura, teatro, música, fotografia e o que mais tiver de bom… Ou sabe-se lá o motivo. Escolhi cinco filmes que falam um pouco sobre mim: medos, sonhos, prazeres, amores e a minha própria história.

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Temo e teAmo

Neide Andrade

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Eu sempre quis encontrar o meu olhar no seu e, de alguma maneira, fazer a minha história por ali mesmo. Eu sempre precisei ter o seu olhar em mim, cuidando, protegendo. Porque toda a minha marra, toda a minha aparência viril, ágil, esperta e sóbria vão abaixo quando o meu olhar encontra você. Qual seria o segredo dos seus olhos?

Quando te vejo fico frágil, tonto, lento e absolutamente embriagado com o cheiro e a paz que você traz ao ambiente. Apenas a ele. Porque em mim, tudo o que eu não sinto é paz ao seu lado. Eu nunca estou satisfeito e sempre quero mais, entretanto, estou condenado a uma prisão em qualquer lugar do mundo longe dos seus olhos castanhos penetrantes e oniscientes, que me rasgam e me penetram por inteiro.

Já tentei fugir, mas hoje fico. Já tentei me policiar, mas estou sempre hipnotizado com você. Já tentei me foçar a ser ativo, mas a passividade é o que me resta diante deste caso: Estou condenado, perpetuamente, ao seu serviço. Nunca me vi pronto para esse destino, mas aconteceu e é em você que deposito meus sonhos e pensamentos, meus devaneios.

Às vezes me ver condenado a você me faz feliz, me faz acreditar que tudo vai ser diferente um dia, eu nunca estarei sem nada, pelo fato de você ser tudo. Tudo de mais belo que possa existir. Entretanto, a possibilidade de enxergar os fatos nus e crus me desespera, faz com que eu queira me esconder, te ver só pela brechinha. Fingir que nem existo. Deixar uma flor na sua mesa, comprar um café na esquina, fazer a diferença na sua vida, mesmo que de maneira anônima.

A vida me condenou a você, mas a sentença não foi justa. Ela devia ter te condenado a mim também.

Do seu eterno, Benjamin.

Eu sei quem conta o teu segredo

“Devia ver os olhos dele, estão sempre em um estado de puro amor. Consegue imaginar um amor assim? Sem o desgaste do cotidiano, das obrigações?”

É interessante pensar no que os nossos olhos dizem. Cúmplices de todos os crimes, sentimentos, vitórias e derrotas, são capazes de nos entregar quando menos queremos. Os olhos entregam as paixões que, na maioria dos casos, nos levam à ruína, ao estado que mais tememos: O nada. O tédio absoluto. A marginalização. Diversas coisas podem nos levar a uma vida cheia de nada e a maioria delas culmina em uma prisão. O amor que nunca foi efetivo leva-nos a uma vida cheia de nada, capaz trazer lembranças de momentos que nunca existiram. Um amor interrompido deixa-nos preso no passado e nos faz parar no tempo, sempre olhando para trás, enche a vida de passado e aniquila o futuro.

Em O segredo dos seus olhos, as paixões, loucuras, tristezas e anseios dos personagens ficam estampados a partir de uma narrativa dupla, cujo ponto de partida é o recém aposentado da justiça penal argentina, Benjamín Espósito (Ricardo Darín). Espósito teme uma vida pacata, sem companhias e sem o seu grande amor, Irene (Soledad Villamil), que foi sua superior no antigo emprego. Resolve, a partir da aposentadoria, escrever um livro sobre um caso que ficou marcado na sua carreira: O estupro seguido de assassinato de Liliana Colotto, em 21 de junho de 1974. O amor nunca realizado entre a chefe e o subordinado e o amor interrompido entre Meireles e Liliana são narrados de maneira compassada e complementar até o final do filme, com alguns pontos de encontro emocionantes entre as duas histórias, que – na verdade – tornam-se uma. O longa ganhou, em 2010, o merecido óscar de melhor filme estrangeiro.

Os elementos narrativos são, de fato, o ponto mais marcante do filme. A crítica à justiça, que – tantas vezes – escolhe ser falha para garantir interesses próprios, sem ligar nem mesmo para a crueldade que se faz quando é omissa. A lei, neste caso, condenou – e condena, todos os dias – inocentes a uma prisão perpétua, coberta de nada. A direção (Juan José Companella) leva a história de maneira envolvente e dialoga perfeitamente com espectador, dando spoilers constantemente apenas com a direção e o enquadramento da câmera, isso deixa a trama ainda mais emocionante e prende ainda mais o espectador, além de uma maquiagem extremamente real.

O filme traz um discurso de valor que grita em todos os momentos, do início ao final. Apesar de ser baseado em fatos reais, a história é contada de maneira a dizer eu também temo viver um nada. Eu também temo o tédio. Todos temem a solidão. Todos, algum dia, procuraram um sentido para a sua vida que vá além da rotina. Eu só aconselho não confiar nos olhos para tudo, eles podem nos trair.

Neide Andrade