O nome da rosa

O nome da Rosa

Destino de hoje: Norte da Itália. 1327

A primeira vez que fiz esta viagem foi em 2012, por pura obrigação… Ela estava no programa do vestibular. Mas gostei tanto, que refiz o roteiro pela terceira vez.

Sem o nomw

É uma aventura cheia de frio na barriga, com um cenário lindo, numa época misteriosa. Cultura diferente, festa estranha com gente esquisita.

O jovem noviço  Adso de Melk (Christian Slater) nos conta uma história de mistério, amor e injustiças. O nome da rosa é um filme ambientado com o seu tempo e cenário: Norte da Itália, 1327. Baseado no romance italiano de Umberto Eco. Um mosteiro no Norte da Itália, cujo nome não deve ser mencionado por questões de cautela, abriga grandes segredos que deixam os seus moradores atordoados por acreditarem – ou não – na presença do demônio ativa naquele lugar.

Assassinatos estão ocorrendo no mosteiro e, neste contexto, o monge franciscano e intelectual William de Baskerville (Sean Connery) chega ao lugar, assessorado por Adso, seu discípulo. Contrariando muitos religiosos, William investiga os crimes e descobre que a principal causa é manter o segredo de livros de uma das maiores bibliotecas da Igreja, abrigada naquele mosteiro.

d

O velho contraste entre a fé e a razão, a velha crítica à Igreja e à sua característica alienadora ganham espaço, mas também tem romantismo e, de vez em quando, um toque de graça com as trapalhadas da juventude do noviço Adso e a sabedoria do seu mestre William de Baskerville. O filme é apaixonante porque nos dá emoção, nos causa raiva por causa das injustiças e corrupções do clero, nos desperta sentimentos como piedade, curiosidade e até frio na barriga.

É uma crônica maravilhosa da vida dos religiosos medievais, com todas as críticas que foram feitas à Igreja ao longo do tempo. É uma aula de história de maneira romanceada, repito: Vale a pena!

Neide Andrade

Anúncios

Norte da Itália, 1327

Não foi a primeira vez que fiz aquela viagem, então eu já estava calejado. Já conhecia o sistema, já sabia o objetivo deles. Entendia tudo aquilo e tinha, dentro de mim, uma raiva guardada, uma certa amargura em não poder fazer nada. E, dentro da minha sabedoria, que demorei a vida toda para adquirir, entendi que só deveria falar quando me fosse pedido e, ainda assim, deveria concordar com o que afirma a Igreja e a Santa Inquisição.

Uma vida inteira dedicada. Nenhuma mulher, nenhum amor, nada de filhos. Um companheiro: Adso, cujo pai me confiou a sua educação. O meu sonho é ver justiça. Me enoja a maneira como o clero é bom com os pobres, jogando restos de comida no chão para as pessoas, como se fossem porcos atrás daquela lavagem. Trocando uma galinha magra e doente pelas carícias de uma mulher no mesmo estado. Eu tenho que suportar, desde sempre, esta mania imunda de guardar e proibir qualquer pensamento diferente, qualquer confronto de opinião. Até quando seremos tão atrasados? Até quando o nome de Deus será colocado no meio disso? Até quando verei assassinos matando em nome de Deus? Até quando terei que ficar calado, com pensamentos marginalizados? Parece mais que a verdade insiste em não aparecer.

É difícil, para mim, ensinar a Adso toda essa cautela. A juventude dele parece gritar, espernear. Mesmo crescendo e amadurecendo, ele ainda é jovem. E a juventude grita mais alto que qualquer coisa quando se tem menos de trinta anos. Eu sabia que Adso poderia me dar problemas, mas confiava nos meus ensinamentos e confiava que ele seria fiel a mim. A minha confiança estava certa. Em meio aos perigos daquela viagem, em meio a todas as circunstâncias, aquele bambino nunca me abandonou e sofreu grandes riscos por minha causa, um verdadeiro filho que a vida me deu.

Quando chegamos ao mosteiro beneditino, no norte da Itália, estávamos em novembro de 1327. Os costumes daqueles monges eu já conhecia: Homossexualidade de um, passado herege do outro, promiscuidade de mais um, arrogância, intolerância, falta de piedade. Sei que, por ser um franciscano, não deveria me acostumar. Mas aquilo tudo, para mim, já era tão normal, que quando Adso se surpreendia, por exemplo, com a maneira como eles tratavam os pobres, eu já explicava pra ele com a maior naturalidade do mundo. Eu conhecia aquela realidade há muito tempo, não tinha como negar.

No entanto, o que mexia comigo, de verdade, era a maneira dominadora como o clero manuseava um tesouro incalculável que faziam questão de esconder, por saber a liberdade que traria para a humanidade. Livros de grandes filósofos, como Aristóteles, estavam escondidos naquele local. Aquele mosteiro era famoso por abrigar uma das maiores bibliotecas de toda a cristandade e, confesso, a esperança de poder ler cada um daqueles pergaminhos me levou até ali.

Aquele conteúdo não poderia passar despercebido pelas gerações, precisava ser conhecido! Pessoas morreram e mataram por ele. Eu precisei lutar por aquelas informações, precisei me arriscar por elas… Eu tinha direito àquele conhecimento, a humanidade tinha! E fiz o que meu coração mandou. Meu comportamento foi de um maluco com vinte anos, mas consegui uma parte daqueles escritos.

Espero que, um dia, você também possa fazer essa viagem. Desvendar as mortes e os seus verdadeiros motivos. Exorcizar o demônio que, provavelmente, ainda existe na mente de muitos monges que estão ali. Fui louco, mas valeu a pena cada uma das minhas loucuras. A minha vida teria valido a pena, se fosse preciso!

William de Baskerville

Leia mais: O nome da Rosa