Nordeste

Recife e os amores de maio

marco2

kk“Não me ame tanto! Eu tenho algum problema com amor demais… Eu jogo tudo no lixo! Sempre.”

Ah, as músicas de amor! Como é difícil encontrar sinceridade nas declarações dos apaixonados (ou dos desapaixonados). Dizem que maio é o mês do amor romântico e, pode até ser em outros estados, mas aqui em Pernambuco o buraco é mais embaixo. Amor aqui sempre foi sincero, visceral, autoral – de verdade. Música também.

O trecho do início é da pernambucana Karina Buhr. A tirada caústica lembra Clarice Falcão não é? Pois é, outra pernambucana. Não deixe o sotaque te enganar; aquela honestidade toda só podia ter vindo de Recife. É nessa terra que a sinceridade e o orgulho se juntam pra dançar frevo, baião, maracatu ou de tudo de uma vez só. Os trabalhos dos músicos daqui são uma revisita constante a esse espírito e a essas sonoridades.

É o caso de Karina, que nasceu em Salvador, mas é claramente recifense. A voz aguda e delicada ou o instrumental bem trabalhado podem enganar – mas cuidado! – o material-Buhr é perigosíssimo. A letra simples, direta e honesta, quase sussurrada, te tira do prumo, enquanto a melodia envolvente faz o trabalho de viciar. As guitarras melódicas e frases soltas se unem ao ritmo bem marcado e aos sintetizadores, como se o presente mais contemporâneo desse uma voltinha nas glórias do passado. Isso é Karina, isso é Pernambuco.

Nossa música, essa saudosa, gosta mesmo de celebrar o que já aconteceu, mas nunca se repete. É como se o Lázaro bíblico voltasse da tumba a cada nova banda, a cada nova sonoridade, totalmente transfigurado. Nesse momento, impossível não lembrar do nosso Cordel do Fogo Encantado – quecc pode até não ter trazido Lázaro de volta, mas fez melhor: nos trouxe Raul. Numa ressurreição à altura do Maluco Beleza. O Cordel é o amor-orgulho, orgulho do nosso folclore e da nossa cultura. Uma verdadeira volta à poesia profana, ao Brasil de décadas atrás e, ao mesmo tempo, uma reinvenção: Raul Seixas agora canta ao som de maracatu, do samba de côco e de tambores furiosíssimos. Extremamente pernambucano, nacional e internacional, tudo ao mesmo tempo. A banda acabou, mas nos restam três cds de poesia, de cordel, de encanto. Esses ninguém nos toma.

Por falar em fim, é quase pecado encerrar esse texto e deixar de mencionar a banda que mais celebra, a cada trabalho, seu amor pelos mombojo2pontos finais: Mombojó é o amor não só às paixões que acabam, mas ao final em si. Pernambucanos jovens se apaixonam, o sentimento acaba. Fim. Integrante tem enfarto aos vinte e quatro anos, a vida acaba. Fim. A crítica aponta os novos trabalhos como um recitar de idéias antigas, a criatividade acaba? Fim. De interrupção em interrupção, segue a Mombojó e sua mistura inusitada de mangue beat, rock e bossa nova, que o vocal de Felipe S. usa pra falar de amor, daquele tipo que se esfacela no vento.

Três bandas pernambucanas, três estilos completamente distintos e duas coisas em comum: o amor à nossa terra e a falta de reconhecimento. Os tempos são outros, ouve-se de tudo e a nossa própria identidade se enche de estrangeirismos e de um “jeitinho” às vezes mais carioca que recifense. O resto do país celebra o amor de Maio e suas canções açucaradas e nós, ingratos que somos, nos juntamos ao coro. Não que seja mau celebrar o romance e a música adocicada vez em quando, mas nosso “sangue de heróis, rubro veio” fala alto – especialmente em maio – pra nos acordar: valorizemos também nossa terra, nosso chão, nossa música!

Que nosso eu seja carioca, inglês, paulista, francês, soteropolitano. Tudo bem! Ninguém foi feito pra ser um só. Mas Karina pergunta: “Se você tiver que escolher entre você e o seu amor, você escolhe quem?” Ah, hoje eu escolho o amor. Eu escolho Pernambuco.

Eric

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Versos: O caminho de volta pra casa

jeff

Foto: Rafael Leite

Jefferson é uma figura um tanto rara no Recife. Ele é de Itapetim, Sertão do Pajeú, veio à capital pra fazer faculdade e depois que chegou aqui, aos 18 anos, passou a consumir e produzir com mais paixão e fidelidade alguns elementos da sua cultura local. Não teve sucesso nas faculdades do interior e resolveu chegar de mala e cuia no Recife porque tinha uma casa da sua família aqui. Gegê, como é conhecido no sertão, um apelido dado pelos seus familiares, escreve versos com rimas e métricas pra mostrar o cotidiano, o sentimento e o que queira expressar com um jeito de quem veio do Sertão do Pajeú. Sempre com um sorriso no rosto, Jefferson leva o sotaque, a simplicidade e a poesia da sua terra por onde anda.

Neide Andrade

Açude

Lembro-me daquele açude
Lá no sítio de tia Maria
Onde a água refletia
Meu rosto com plenitude
Lá estava a juventude
Que nunca mais revivi
Só me restou, por fim
A pior das crueldades
Me banhar com as saudades
Que a gente sente de si

Por que você começou a escrever poesia?

Eu já escrevia o que a gente pode tachar como poesia, mas não a poesia que eu escrevo hoje. Quando eu era mais novo, por volta de 10 anos eu já escrevia, mas não era com a estética desta cena poética… Eu venho do Pajeú, lá é muito forte a poesia metrificada, que é a ligada muito ao repente e cada verso tem a mesma quantidade de sílabas. Mas eu comecei a produção textual tendo concepção de que eu tava fazendo poesia quando eu cheguei aqui. Porque lá é tudo muito normal, as aulas de literatura são voltadas pra o regional também. Quando eu cheguei aqui, em 2012, eu tive que entender que eu deixei tudo que era meu lá, então eu costumo dizer que a gente é feito do que tá em volta da gente. E eu deixei pra trás o que podia ser definido como ‘eu’, como amigos, família… E aí veio a questão que, na minha opinião, é o ponto mais forte pra se fazer poesia: a saudade! A saudade foi a primeira a atiçar essa história de fazer poesia e eu comecei a consumir a cultura regional da minha terra depois que eu saí de lá por saudade mesmo. É o modo que eu encontrei de ficar ligado com a minha terra.

E nem parece que essa poesia metrificada ainda existe!

É. E tem a questão da sílaba poética, que é mais a sonoridade do que a sílaba gramatical. Por isso que se você for no Pajeú, você vai encontrar poetas que escrevem coisa de mais de cinquenta versos, todos metrificados, e são analfabetos. Então ele recita na hora, ele tem uma noção contextual, a narrativa deles é incrível. E isso é coisa que é muito forte, porque vem de muito tempo.

Sobre o que você procura falar nos seus versos?

Uma coisa marcante desta poesia regionalista não é você falar, propriamente, da caatinga… Eles só falam da caatinga porque eles moram na caatinga. Eu moro aqui na zona metropolitana do Recife então eu passo a escrever muito sobre aqui. Já falei até sobre a trajetória do ‘Rio Doce – Princesa Isabel’, é o meu dia-a-dia e aí eu terminei escrevendo sobre isso também.

Na cultura da sua infância tem mais coisas? Por que escolheu a poesia?

No Pajeú, o mais forte é mesmo a poesia. Lá você não começa na música pra ir pra poesia… Você começa na poesia pra ir pra música. Então a poesia está ligada na maioria dos gêneros lá e todo mundo tem isso muito forte eles cultivam isso ainda de uma maneira impressionante! Você olhando com uma visão da capital, talvez não tenha noção do que se passa por lá.

Como aprendeu a usar a métrica?

Nós somos apresentados à métrica de uma forma diferente, fora das aulas de literatura. Mas, por exemplo, se eu estou no Rio de Janeiro, não quer dizer que eu saiba sambar. É a mesma coisa. Você mora lá, a gente vê muita poesia, mas eu não consumia. Eu fiz parte de uma geração que cresceu preparada pra consumir o que é externo, e não o que é de casa, só consome pop americano mesmo. E quando cheguei aqui, senti falta e comecei a escrever, cometi alguns erros e quando fui pra lá de férias, conversei com um poeta, que me deu uns toques sobre métrica, dizendo o que era certo ou errado. E fui praticando.

Qual é o seu sonho?

Eu penso muito em, pelo menos, seguir uma carreira de produção textual. Não necessariamente pra poesia metrificada, mas eu quero isso também. O que muita gente não sabe é que essas pessoas do interior produzem muito texto, lançam muitos livros, que às vezes não chegam pra cá porque muitos são independentes. E eu tenho essa vontade de um dia poder seguir uma carreira nesse rumo não só pra poesia, mas de uma forma literária, no geral, com contos e romances que eu também escrevo…

Mas não publica, né?

Não publico porque falta essa questão de motivação. Como eu sou do Pajeú, fazendo poesia regional, eu sei que vou estar com público. Eu tenho uma fanpage, que tem pouco mais de 4.000 seguidores, e eu sei que eu to falando pra o público cuja maioria é pernambucano de interior. Então eu sei que se eu escrever uma poesia metrificada eles vão consumir aquilo. Pra ser um produtor textual independente aqui no Brasil é muito complicado, embora Pernambuco, ao meu ver, esteja um passo à frente. Mas mesmo assim é muito complicado… Falta apoio, realmente.

Você inventa história ou é tudo verdade nos versos?

Tem um poema de Manoel Barros que diz que noventa por cento do que ele fala é invenção, mas só dez por cento é mentira. Isso é a maior verdade pra um poeta. O poeta foi feito pra inventar e a invenção dele é a maior realidade pra ele. Então você cria um mundo que, por incrível que pareça, não é perfeito… O poeta gosta de sofrimento, gosta de inventar, não gosta de nada simples. A tristeza é quem faz o poeta. E a poesia regionalista é muito descritiva também. Temos a literatura de cordel, por exemplo. O cordelista escreve por amor a alguém, às vezes sobre algum fato importante, ou como a cachorra dele atravessou a rua pra roubar carne do outro lado… Existe uma descrição do dia-a-dia, mas o poeta não deixa, por isso, de ser um sonhador. O poeta gosta de inventar, incrementar.

Qual é o teu sentimento em relação à poesia?

Eu me divirto com a emoção que eu tenho da minha terra. Porque eu volto pra o interior e eu me sinto muito separado de lá. É como se eu não conseguisse entrar no interior, onde eu nasci, é como se eu tivesse superficial. E estar dentro da poesia, pra mim, é estar com o sangue, ainda, da minha terra. Eu sei da importância daquilo pra mim e também é uma forma de analisar os meus pensamentos… É uma alegria que eu tenho em poder repassar o sentimento que eu tenho tanto da cidade, de saudade, quanto do que a poesia regional me deu: De voltar pro interior em cada verso e também ter uma perspectiva melhor do mundo. Eu sou aquele rapaz do interior, ainda, olhando o mundo gigante e escrevendo o meu ponto de vista.

Dor(mente)

A dor que guardo na mente
Debruça-se sob meu peito
Com tanta força dum jeito
Que já ficou foi dormente
Mas meu medo, tão perene
Não é que venha formigar
Mas que de tanto esperar
Ele se acostume parado
E meu fim chegue calado
Antes mesmo d’eu te beijar

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Pra se encantar

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Um dia desses, eu estava sentada pelos sofás da faculdade e comecei a conversar com uma menina, que estava se formando em cinema e contava sobre suas batalhas por patrocínio para os seus projetos. Um desses projetos é curta “Não tem só Mandacaru” que fala sobre a poesia nordestina de São José do Egito pelo olhar de vários poetas, em especial o grupo Em canto e poesia, que desde que ouvi pela primeira vez, me encantei de um jeito ímpar.

Os meninos do Em Canto e Poesia cantam e contam, em versos, o nordeste e os sentimentos dos que vivem por aqui. Fico super feliz todas as vezes em que ouço o trabalho deles porque são a nossa cultura viva e muito preservada – eles são jovens! Os três são netos de ninguém menos que Louro do Pajeú, um dos maiores repentistas da região.

Nos versos encontramos temas como a saudade, as belezas do sertão, as injustiças sociais, a infância… Tudo que causa nostalgia em quem passou, pelo menos uma semana no interior quando era criança. Vale a pena ouvir cada verso, ver cada expressão e perceber o amor que eles transmitem em cada palavra.

Confiram os vídeos de Tauna Uchôa, a menina que me apresentou ao Em canto e Poesia.

Neide Andrade