Los Hermanos

Eu gosto é do gasto

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Ventura: Destino (bom ou ruim); sorte.

Relacionamento é, por ora, a palavra que mais define os Hermanos. Tanto pelo próprio nome da banda, que conota companheirismo, como pela temática que cantam: Um eterno relacionamento com a vida, com o que está por vir, uma eterna coragem para abraçar o futuro, independente do que ele possa trazer, um público fiel que se relaciona. Com uma águia e um lindo horizonte, a banda se declara escrava sã e salva de vencer. Corre para o próprio destino e se coloca presa a amores, ao samba, como música de entrada, como um recado: A vida, a ventura, o destino, tudo que importa é um samba.

Quando os meninos falam em relacionamento, em público e fãs, é impossível não lembrar da época de adolescente, em que alguém dedicou uma frase de Último Romance para um amor também adolescente. O tempo passou, as lágrimas derramadas diante de Conversa de Botas Batidas completaram 12 anos e, nesse meio tempo, o disco Ventura foi considerado um dos 100 mais importantes da música brasileira e se destacou como a obra prima da banda que marcou gerações apaixonadas no Brasil.

A banda parou. Mas é possível perceber que Los Hermanos não acabam, pelo estrago que Ventura pode causar. Será que os meninos de 12 anos atrás sabiam o que diziam com o nome e a capa daquele disco? A partir dali, seriam capazes de alçar voos de escolha própria, grandes ou curtos. Parar. Desistir. Cantar. Compor. Poderiam conjugar os seus próprios verbos porque Ventura foi um manifesto de liberdade e, entretanto, uma eterna prisão no relacionamento sério com a música brasileira.

Roqueiro não sabe fazer samba? São roqueiros? Afinal, olha só que disco estranho que chegou! Sem se definir como Mpb ou pop-rock. Mas essa estranheza de Ventura trouxe a inesquecível sorte e o sucesso à banda. A imortalidade e o eterno relacionamento, com um público que, embora adormecido, ao ouvir qualquer faísca de música vai acompanhar, e gritar, e dizer que continua acompanhando e pedindo pra voltar.

Neide Andrade

A glória de chorar

Olinda, 15 de outubro de 2010.

Já estava tudo certo. Roupa separada, sapato também. Cheguei, entrei na fila. Os amigos já marcavam o lugar. Na frente. Mas que demora, quanta espera. Me compre uma água. Não aguento mais. Será que ninguém tinha reparado no meu tênis novo? Mas não importa, de fato não importa. Importava a vontade imensa que eu estava de ir embora porque as portas simplesmente não abriam.

Todos de pé. Abriram os portões. Todos correram ao entrar pra ficar o mais perto possível. Nossa, como eu estava a fim de ficar lá na frente, bem na frente. Gozando de toda a falta de ar e cheirando todos os sovacos que eu pudesse contar. Sempre sonhei com isso! Enquanto a banda não chega, bota o DJ, cujo nome eu não me lembraria nem quando ele saiu do palco. Até um raio de dois metros de mim, todos se divertiram com o som e faziam uma dança ora se abanando, ora chamando o rapaz que vendia água, dispostos a pagar quanto fosse.

Abre parênteses

Esse rapaz da água, que tanto falavam desde o início do show, para mim, já era alguma miragem de quem estava mais pra lá do que pra cá, sob efeito de algum vento diferente do normal. E ainda diziam que ele cobrava cinco – cinco – reais.

Fecha parênteses

Um telão avisava: Eles estão chegando!

A sensação de tê-los tão perto renovava o fôlego dos amigos lunáticos que resolveram trocar o ar e o sossego pela possibilidade de vê-los de perto. Um letreiro no telão conduzia todo o público imenso, cantando Olha lá quem vem do lado oposto / Vem sem gosto de viver / Olha lá que os fracos/ São escravos sãos e salvos de sofrer / Olha lá quem acha que perder / É ser menor na vida / Olha lá quem sempre quer vitória / E perde a glória de chorar.

Como um coração adolescente pode resistir aos Hermanos? Depois de cantar O Vencedor diversas vezes, a banda entra e cumprimenta o público com a simplicidade de quem ainda está tirando um som na própria faculdade.

Então eu pude entender o motivo de tanto sucesso. Pude entender porque tomei fôlego com a chegada deles. E entendi também o motivo de eu estar ali. Eles falavam de mim. Falavam de cada um ali presente. Falavam de amor, saudade, planos, vitórias, derrotas, passado e luta. Quem não passa por tudo isso? E quem não quer gritar junto? Quem não quer extravasar todas as mazelas que rodeiam a nossa existência?

Sendo assim, que comece a festa!

Neide Andrade

O Labirinto do Fauno

Destino: Labirinto na Propriedade do Capitão Vidal, Espanha, 1944

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No contexto da Guerra Civil Espanhola, Ophélia viaja com a sua mãe, que acaba de se casar com o temível Capitão Vidal pra escapar das mazelas da viuvez. Tudo isso porque o seu primeiro marido e pai de Ophélia morreu durante a guerra. A mulher está prestes a dar a luz e não passa nada bem.

Ophélia não aceita o capitão como pai e cria uma realidade paralela para fugir das garras do padrasto. E é a partir desta criação que o filme se desenrola: uma hora na realidade, outra na fantasia, com momentos em que as duas se misturam e tudo flui de maneira maravilhosa.

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No seu mundo paralelo, a menina é a reencarnação de uma princesa cujo reino é fabuloso, cheio de criaturas fantásticas… Ela fugiu da sua terra há milhares de anos. O seu pai abriu portais por todo o mundo para encontrar a sua filha perdida. O último portal é um labirinto antigo nas dependências do Capitão Vidal, guardado por um fauno que, definitivamente, não é deste mundo!

A princesa só pode retornar ao seu reino se cumprir três tarefas para provar que não se corrompeu no mundo dos humanos. Ela deve ser corajosa, obediente e justa. E a justiça deve ser maior que todas as coisas, até mesmo que a sua vontade de viver um conto de fadas.

No universo real, ela é completamente apaixonada pelos livros e vive um verdadeiro inferno na sua casa. O capitão é um homem mau e não quer saber de mais ninguém, além do seu filho, que a mãe de Ophélia espera. A menina sofre bastante e se joga nas histórias, acredita nelas e cria a sua própria.

O enredo é um dos mais criativos, emocionantes e apaixonados que já vi, de cair uma lágrima do lado do sorriso de compaixão. Mentira, chorei litros!

A partir dessas características, eu vou explicar porque vale a pena assistir este filme.

  1. Criatividade

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A maneira como a menina enfrenta o mundo é maravilhosa! E chega
a ser fantástica. Eu nunca conheci uma história parecida, tão bem contada, nem que se misturasse tão bem com o contexto histórico, com a fantasia. Vale a pena também falar das maquiagens extremamente bem feitas (que garantiu um óscar), diferentes, surreais quando precisa e reais também quando precisa. Como estamos acostumados a filmes brasileiros ou americanos, o toque espanhol fez a diferença, inclusive nos atores que, pra mim, eram desconhecidos. O filme mostrou muita novidade, achei fantástico isso.

  1. Emoção

A protagonista está o tempo inteiro vivendo aventuras que, pra gente, pode parecer besteira quando contada, mais uma mocinha em apuros com um simples lobo mau, mas acredite: Dá nervosismo, você quer gritar “Sai logo daí, Ophélia!!!!” “Não faz isso, menina burraa!!!” etc. O conjunto do filme faz com que a gente sinta também as dores dela e cada sofrimento faz chorar, cada descoberta provoca curiosidade. Essas coisas que só filme bom faz.

  1. Paixão

O filme, como eu já disse, nos deixa completamente a mercê dos sentimentos. Então o nosso coração fica apertado, especialmente. Porque, neste sentido, O labirinto do Fauno é um drama covarde, de péssima qualidade. Daqueles que nos deixam mal só de assistir. E pra quem diz que isso é besteira, eu digo, quantas vezes precisar: Não é! Porque pra mim e pra qualquer pessoa que assistir Ophélia, aqui ou em outro mundo, reina soberanamente de maneira corajosa, obediente e justa. Os seus súditos a amam e são completamente apaixonados por essa menina. Tenho certeza que, no fim do dia de trabalho, ela lê histórias pra todos eles.

Você nunca viu nada igual! E nem poderia ver… Ou você imaginava que, no meio da Guerra Civil Espanhola, uma menininha órfã poderia ser coroada? É um filme maravilhoso e, diferente de O nome da Rosa, pouca gente conhece. Vale a pena!

Essa música vai pra minha menininha que, junto com Zezé, do pé de laranja lima, fizeram – e fazem – uma diferença danada na minha vida! <3

     

Neide Andrade