Literatura

Madame Bovary sou eu!

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O livro, ao ser publicado,  gerou um processo por “ofensa à moral pública e religiosa e aos bons costumes”. Começou a caça pra saber quem era a devassa retratada na história, qual a verdadeira identidade de Madame Bovary? Pressionado, finalmente o autor responde: “Sou eu! Madame Bovary sou eu!”

Tem certos livros que a gente nunca vai saber por que teve de ler na época do colégio. Quem aí não lembra daquele clássico que seu professor de literatura mandou estudar porque caía no ENEM/vestibular? (mais…)

Batismo de fogo

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O que leva a gente a querer escrever sobre um livro?

Não sei.

Sei o que me leva a ler um: a vontade.

No caso de Batismo de Fogo, tive que insistir. Senti com esse livro a mesma dificuldade inicial que enfrento quando leio um livro de contos. Pra mim, é difícil acabar uma história em um parágrafo e no seguinte começar outra, com outros personagens, outros narradores. Em Batismo de Fogo não há contos: é uma história só, mas – ao mesmo tempo – são várias.

Em resumo, o livro trata do cotidiano de um colégio militar para adolescentes – aliás, pare e pense um pouco nesse conceito: colégio. militar. para. adolescentes. Sentiu o drama? Pois é. O Leôncio Prado recebe só meninos, todos os anos e fica próximo ao mar de Lima, no Peru. Aí a gente pensa: por que – e por quem – esses adolescentes foram obrigados a estudar num colégio interno (e militar)? Como é a vida lá dentro? Como eles lidam com a disciplina?

Várias vozes se alternam no texto pra responder essas perguntas: ora quem fala é o narrador impessoal, onisciente; ora é um dos alunos em primeira pessoa; um dos professores; outro aluno… Alguns parágrafos se passam no presente, páginas depois lemos sobre anos anteriores; descrições de eventos emendam com fluxos de consciência… Enfim: uma zona, mas uma zona escrita por Mario Vargas Llosa. Então tudo faz sentido e é bem feito.

Superada a dificuldade inicial com a alternância das vozes e do tempo, o livro pega você. Muito. Ver aqueles alunos adolescentes lutando pra se impor num ambiente hostil traz uma nostalgia danada. Lógico que tem situações tensas demais, que a gente como aluno comum dificilmente viveria, mas é muito fácil se identificar com os sentimentos, os diálogos e até algumas das situações vividas por esses meninos. Saudades oitava série do fundamental.

Mas Mario vai além: mais que criar um ambiente de identificação absurda, ele escreveu personagens lindos nesse livro. Desde os mais destemidos e subversores da ordem – como Jaguar – até os doces e mansos, que sofrem nas mãos dos outros – feito Ricardo Arana, o Escravo. Todos são escritos bem delicadamente, com cuidado. Não tem unilateralidade aqui – ninguém é vilão, ninguém é mocinho (não o tempo todo). Dá vontade de saber cada vez mais sobre a vida desses meninos. E Mario vai nos satisfazendo, contando pra gente aos pouquinhos, alternado – capítulo a capítulo – o personagem que fica sob o foco.

O Tripé, Crespo, Cava, Tenente Gamboa, Alberto, Jaguar, o Escravo, Tereza e até a danada da Mal-Paga têm seu momento de brilhar nesse livro. E como brilham! Adolescentes comuns, pais e mães comuns, problemas cotidianos de quem vive nos subúrbios da América Latina, mas retratados de um jeito sensível. As brigas, os amores, a amizade, pais e filhos, os conflitos morais: tá tudo lá, e difícil é não se importar com a vida de cada um desses meninos.

Quer um resumo? Vou te dar:

Imagina O Ateneu, de Raul Pompéia, casando com Capitães da Areia, de Jorge Amado. Tira a formalidade e adiciona sangue. Pronto!

* Imagem: do filme Conta Comigo, que eu assistiria, se fosse você.

Eric

PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN

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– Nós somos felizes, você não acha?

– Acho.

– Então qual é o problema?

– Talvez a gente seja feliz demais.


imageedit_15_7358108073É com esse diálogo curto que a gente começa a entender de que realmente fala essa obra-prima de Lionel Shriver. É a partir daí que a gente descobre que, na verdade, não é só sobre o Kevin que a gente precisa falar. Precisamos falar sobre nós mesmos, sobre as nossas culpas.

Tudo começa com uma mãe apática que finalmente aceitou seu destino terrível: o filho é um assassino. Dos mais frios. Logo nas primeiras páginas, a gente conhece o massacre causado por Kevin na sua escola: vários dos seus colegas de classe assassinados premeditadamente.

Tá lindo, mas o que o livro sobre um assassino tem a ver com a minha vida? Tudo, meu amigo, minha amiga. Tudo.

Através de cartas ao seu ex-marido Franklin – pai do Kevin – Eva (a mãe) nos conta a história de seu filho desde o começo, desde antes de ela estar grávida. Nessas páginas, vemos uma empresária bem-sucedida (e rica), casada com um marido amoroso e dona do emprego dos sonhos: ela viaja o mundo todo pra escrever aqueles guias de viagem, sabe? Emprego melhor tá pra nascer.

Eva é bem alegre, feliz mesmo, mas tem um momento em que aquela felicidade toda começa a incomodá-la um pouco. Tudo parece perfeito demais, monótono demais. E, porque ela estava entediada, resolveu ter um filho.imageedit_5_8731316186

Num instante, tudo mudou.

O amante ardente, sensual vira um paizão e a viajante libertina começa a observar horários, ficar em casa e amamentar uma criança – criança, aliás, que rejeita o peito da mãe e a sua própria presença, como se desde cedo já dissesse a que veio.

Kevin nasce, e Eva se arrepende – o que fazer agora?

Inevitável é não perceber a metáfora que grita nesse nome, nessa expressão. EVA. Eva se arrepende. Como a personagem bíblica, ela se arrepende do fruto do seu ventre, das expectativas depositadas naquele serzinho que chora o tempo inteiro. O que ela faz? Finge. Retira de si outra persona e vira a dona de casa, a mãe amável que faz biscoitos, confere a lição de casa e ensina a tabuada.

O problema é que Kevin finge também.

Pro pai, ele é o “filhão”, o “garotão alegre” e que “só precisa de um pouco de carinho, Eva!”. Com a mãe, ele é dolorosamente verdadeiro: rejeita o seio que o amamenta, a mão que o afaga e a voz que o repreende. Despreza tudo, absolutamente tudo. E o pior: ele é cruel. Assustadoramente cruel. Pequenas coisas começam a acontecer, várias delas, mas nenhuma parece ser culpa do menino. Eva percebe. O marido diz que é loucura, injustiça.

Carta a carta, essa mãe vai lembrando Franklin dos detalhes da infância, da adolescência de Kevin, das coisas que ela disse, das que deveria ter dito… Ela vai assumindo sua parte na culpa, apontando onde Franklin também errou e no final, dolorosamente, ela conclui: nunca gostei do meu filho.

Ninguém gosta de mães que “não gostam” dos próprios filhos.

Também não gosto muito dessas mães.

Eu tinha infringido a mais primitiva das regras, profanado o mais sagrado dos laços.

[462]

imageedit_19_3377545386Aí está. A coragem de assumir os erros, os arrependimentos. Aquilo que a gente guarda bem escondido, como poeira velha embaixo do nosso tapete. Eva traz tudo à tona, tudo o que uma mãe, uma mulher, um ser humano nunca teria coragem de dizer. Ela diz, e de peito aberto. Parece que não há mais nada a perder.

Eu me rendo. Poderia passar o dia todo falando e não conseguiria mostrar pra vocês o quanto esse livro é incrível. Não é só sobre a mãe de um assassino, sabe? Vai além. Fala da hipocrisia nossa de cada dia, do falso perdão, das nossas insatisfações e da culpa. Da culpa dolorosa e do que a gente faz com ela. Comecei o livro achando bom, no meio me cansei um pouco dessa narradora egocêntrica e, no final, estava apaixonado pela sinceridade dela e pela força dessas páginas.

Quando o livro acaba, a sensação é de perfeição, de completude: a gente tá diante de uma obra-prima. Mais do que isso: levamos um tapa na cara. No meu caso, um tapa que vibra até agora. Dolorosamente.


Só para raros:

Vi o filme também.

As cenas são muito bem-feitas, bem filmadas. O tempo todo a cor vermelha persegue a mãe de Kevin, como um lembrete constante do que o filho fez e da dor que aquela história traz.

Ezra Miller [As Vantagens de Ser Invisível – post aquitá incrível como o Kevin: o desprezo no olhar, o jeito de se mover, tudo. Tilda Swinton faz uma boa Eva: fria, fisicamente parecida com a descrição do livro, mas muito unilateral. Senti falta da complexidade que a personalidade de Eva tem. Na verdade, se eu fosse usar uma palavra só pra definir o filme, seria essa: falta. 110 minutos não foram suficientes pra contar essa história.

Não me entenda mal: sei que filme e livro são formatos diferentes e é muito difícil condensar tudo pra fazer caber numa tela. Mas cara, não dá. O livro é INFINITAMENTE superior em todos os sentidos.

Enquanto o filme te impressiona, o livro te derruba, acaba com a tua raça e te faz pedir mais.

Eric

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As vantagens de ser invisível

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Lembra aquele dia em que você pegou o carro com seus amigos e saiu sem destino certo? Lembra do vento no teu rosto, da sensação de liberdade? Parecia que a noite, o vento e você eram uma coisa só e, porque eram todos um, você era eterno, e infinito.
Charlie também sentiu tudo isso e conta pra gente como foi em As Vantagens de Ser Invisível, livro de Stephen Chbosky. O personagem principal é um adolescente daqueles invisíveis, filho mais novo de uma família de estrelas: o irmão mais velho, astro do futebol e a do meio, brilhante e linda. Charlie não é burro, não é feio, nem é desajeitado. Mas também não é brilhante, lindo ou habilidoso. Ele é como aquelas plantas de consultório de médico, sabe? Tem seu valor, mas ninguém realmente repara.
WAliás, tô escrevendo esse texto no consultório médico e, enquanto tento me concentrar pra lembrar os detalhes da história, uma paciente de farda resmunga pra mãe: primeiro ano do ensino médio é o pior ano na vida de uma pessoa! – Queria que vocês tivessem ouvido o tom dela ao falar isso, o jeito de quem acabou de dizer uma verdade absoluta. Confesso que sorri e achei meio exagerado, mas entendo a menina. Entendo muito. Lembro do medo de enfrentar uma sala de no mínimo 50 alunos (quando as anteriores tinham no máximo 30), de pensar no vestibular pela primeira vez, de me preocupar com o futuro. Na verdade, a gente ta sempre se preocupando e pensando no futuro, mas, no primeiro ano do ensino médio, isso parece tão precoce. A gente nem sabe direito quem é e já tem que pensar no que vai ser.
Charlie tá passando exatamente por isso no livro de Stephen, os medos, a ansiedade, a sensação de não se ajustar. Tudo em sua vida parece meio fadado ao fracasso, quando ele conhece Sam e Patrick, um casal (de irmãos) prestes a se formar no ensino médio. Enquanto a maioria das pessoas na sala deles está preocupada com a admissão na faculdade, os dois escrevem numa revista independente e atuam numa peça-releitura de Rocky Horror Picture Show <3 Eles saem de carro à noite, vão a festas de verdade e parecem muito seguros de si. Sabe os adolescentes populares do teu ensino médio? Pronto, Sam e Patrick são o oposto: eles são aqueles desajustados, loucos por música, que se juntam, se entendem e vivem a vida sem se importar com a opinião dos outros.
Ao longo do livro, Charlie vira amigo dos dois, sai junto com eles, começa a conhecê-los de verdade e finalmente descobre: aquela segurança que os irmãos pareciam ter era, na verdade, uma resposta ao mundo, um grito de sobrevivência de quem foi muito magoado pela vida e precisou encontrar forças em si, descobrir e aceitar quem se é. Nesse momento, a gente percebe que Charlie também teve uma vida difícil e seu coração já foi muito magoado, mas tem um problema: ele ainda não encontrou forças. Nosso menino é fraco demais pra encarar seu passado e, por isso, não consegue seguir em frente. Em um dado momento, ele percebe que tem coisas que a gente não conseguem encobrir, feridas que são tão profundas que gritam, rompem as ataduras e se revelam ainda vivas, inalteradas.
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Todo esse texto pra dizer que o livro é ótimo. E o filme é incrível, é melhor.
Não sei se interfere no meu julgamento a questão de eu ter visto o filme antes de ler o livro. De todo jeito, apesar de ter achado prazeroso ler sobre Charlie, Sam, Patrick e conhecê-los mais profundamente, o fato é que realmente achei o filme melhor.
A adaptação é bem fiel ao livro, mas a mudança de formato faz muita diferença: a história editada ganha bem mais força; no filme, da pra ouvir as músicas lindas que o autor cita durante o texto; e o melhor: a atuação dos protagonistas é muito boa. Ezra Miller tá maravilhoso como Patrick, Emma Watson faz uma Sam incrível e Logan Lerman tá simplesmente perfeito como Charlie! O jeito baixo do olhar, a fala meio arrastada, o desespero latente: é realmente como ver o Charlie do texto em carne e osso. Todo o livro, na verdade, parece ganhar vida na tela e e impossível não se emocionar com isso.
Dito isso, me resta finalizar dizendo que As Vantagens de Ser Invisível não é só sobre adolescência, amizade ou futuro, é sobre ser. Sobre aquele momento em que a gente rompe com o passado e começa a viver a nossa vida. A nossa vida, não a do outro.
Recomendo muito. Em especial pra quem acha que, em qualquer idade, é possível crescer.
Tem no netflix aqui.

Só para raros:

YThere are people who forget what it’s like to be 16 when they turn 17. I know these will all be stories someday. And our pictures will become old photographs. We’ll all become somebody’s mom or dad. But right now these moments are not stories. This is happening, I am here and I am looking at her. And she is so beautiful. I can see it. This one moment when you know you’re not a sad story. You are alive, and you stand up and see the lights on the buildings, and you’re listening to that song and that drive with the people you love most in this world. And in this moment I swear, we are infinite.

Há pessoas que esquecem como é ter dezesseis anos quando fazem dezessete. Eu sei que tudo isso vai ser história algum dia e nossas fotos vão se tornar velhas fotografias, nós vamos nos tornar mãe ou pai de alguém. Mas nesse momento isso não é história. Está acontecendo. Eu estou aqui e estou olhando pra ela, e ela é tão linda, eu posso ver. É aquele momento único em que você sabe que você não é uma história triste. Você está vivo! Você fica de pé e vê as luzes e está ouvindo aquela música, no carro ao lado das pessoas que você mais ama no mundo. E nesse momento, eu juro, nós somos infinitos.

Eric

Festa, cores, alegria, alegria…

Tem gente que tudo o que quer é conhecer gente. Tem gente que não gosta de gente. E, pensando nelas – que são como nós dois – preparamos umas dicas, que já foram faladas aqui mesmo no blog. Se você não aguenta mais a transmissão da globo, não tem dinheiro pra viajar, não quer cair na folia… Corre aqui e olha as nossas dicas. Tem um livro lindo, músicas maravilhosas e filmes inesquecíveis.
Beijos e bom carnaval!
Eric e Neidinha

O corcunda de Notredame

O Labirinto do Fauno

Suécia, essa delícia

Pássaro Branco na Nevasca

Boyhood

Meu pé de laranja Lima

Walden, ou “vamos fugir”

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Destino de hoje: Concord, Massachusetts/EUA, 1854

Mais um ano começa.

Mais uma vez a gente promete que vai ser diferente, que vai fazer diferente.

Só que vem a primeira segunda-feira do ano, a primeira sexta. Vem o primeiro fim de semana e a segunda-feira seguinte a ele. Continua difícil acordar de manhã, encarar a mesa de trabalho e o telefone, o caderno de questões e a pilha de apostilas. Tudo parece urgente! O futuro é agora. Tem que estudar, tem que ler, tem que passar, tem que ser o melhor. Tem que ter sucesso, tem que ter dinheiro.

Parece familiar? E se eu te contar de um homem que largou todo esse mundo – e tudo o que tinha na vida – pra viver sozinho… na mata? Louco, né? Foram dois anos de isolamento, vivendo perto de um lago [esse aqui], numa cidadezinha chamada Concord, em Massachusetts/EUA. Essa experiência rendeu ao escritor H. D. Thoreau o incrível Walden, ou A vida nos Bosques, publicado em 1854.

O que esse livro velho escrito por um louco tem a ver com você? Ouve a justificativa dele:

14205782374124Fui para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se poderia aprender o que ela tinha a me ensinar, em vez de – quando morresse – descobrir que não tinha vivido. Não queria viver o que não era vida, viver é tão caro! (…) Queria viver profundamente e sugar a vida até a medula, viver com tanto vigor (…) que eliminasse tudo aquilo que não fosse vida. [95]

Parece absurdo viver assim, comendo o que se planta, numa cabana feita com as próprias mãos? Eu sei. Mas repara: a gente também vive de um jeito absurdo. Se o dinheiro, um dia, foi instrumento pra que conseguíssemos o que queríamos, hoje nós somos o instrumento e o dinheiro é tudo o que a gente quer. “Os homens se tornaram os instrumentos de seus instrumentos. O homem independente que colhia os frutos quando estava com fome virou agricultor; aquele que se abrigava sob uma árvore agora tem uma casa para cuidar.” [47]

lonely-old-womanEm 300 páginas, Thoreau nos mostra o abismo entre o que a gente precisa pra ser feliz e o que a gente acha que precisa; fala sobre a vida que tinha antes, e as escolhas que fez; sobre as pessoas à sua volta e a sociedade da sua época; fala do silêncio, da leitura, dos animais, da solidão; fala da felicidade. Tudo isso de um jeito fácil, objetivo. Não tem floreios de escritor aqui: é só um bom amigo que aconselha a gente, baseado em seu exemplo.

O livro vai acabando e é inevitável não pensar: será que eu teria coragem? De sumir e largar as coisas que eu tenho assim, de uma hora pra outra? Tudo o que Thoreau diz é bonito e parece tão puro, tão simples. Mas nem ele conseguiu viver desse jeito por mais de dois anos! Como conceber uma vida assim: tão seca, tão sozinha?

Chega o último capítulo e, com ele, a resposta pra nossa pergunta (e o melhor momento do livro):

Deixei a mata por uma razão tão boa quanto a que me levou para lá. Talvez me parecesse que eu tinha várias outras vidas a viver, e não podia dedicar mais tempo àquela. É notável a facilidade e a insensibilidade com que caímos numa determinada rotina, e construímos uma trilha batida para nós mesmos.

É isso! Não é preciso fugir pra um lago no meio do mato, nem parar de fazer as coisas que te dão prazer. Ter uma rotina, dinheiro, buscar o sucesso não é errado. Errado é se deixar cegar por tudo isso e parar de viver de verdade.

Errado é chegar no leito de morte e pensar: todos esses anos… e eu não vivi.

É tradição desejar algo ao outro sempre que um ano começa, e é isso que eu te desejo: que você viva muito nesse ano novo!


Personalíssimo (só para raros):

Sim, conheci Thoreau através do incrível Sociedade dos Poetas Mortos. [Se não viu esse filme, corre pra ver] Me apaixonei pelo Capitão John Keating e por cada um dos alunos daquele colégio interno. Tudo o que eu achei sobre a história e a trilha sonora, conto num post logo menos, mas quero lembrar a vocês uma cena em especial. Aquela em que o Capitão anda lentamente, em frente ao mural de fotos, sussurrando para os alunos:

Carpe. Carrrpe. Carpe Diem. Seize the day, boys. Make your lives Extraordinary!

Como esquecer?

E na cena de abertura da Sociedade, lembra do texto que eles declamam? É de Thoreau sim, mas adivinha de que livro dele…

I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived – H. D. Thoreau, Walden.

Eric

AMAR: VERBO INTRANSITIVO

Sem título

É possível ensinar um homem a amar?

Elza acha que sim. Mais do que isso, ela encarna a própria tarefa: professora de amor.

Começa serena e rígida, logo nos primeiros dias: “Me chame de Fräulein“. Ensina o alemão, piano, poesia, matemática. O rosto macio encosta no do aluno ao dizer a lição, a mão adulta segura a palma adolescente e ajuda a escrever o ditado. Contato. Aproximação. Aprendizado.

Nenhum menino era único. Com seus 35 anos, Fräulein já tinha ensinado vários. Mas com Carlos foi diferente. E é nesse rapaz que Mário de Andrade põe os holofotes de sua obra Amar, verbo intransitivo.

Na década de 20, a Alemanha de Elza estava quebrada. Pra sobreviver, ela fora obrigada a partir pra América. Escolheu o Brasil, pra tentar domar o amor louco dos latinos, ensinar um sentimento mais puro, mais honrado. O plano era ganhar oito conto de réis por trabalho, fazer uma poupança e voltar o mais rápido possível pra Alemanha.

Se o estado da Alemanha melhorasse, mais um ou dois serviços e podia partir. E a casinha sossegada… Rendimento certo, casava… O vulto ideal, esculpido com o pensamento de anos, atravessou devagarinho a memória dela. Comprido, magro… Apenas curvado, pelo prolongamento dos estudos… Científicos. Muito alvo, quase transparente. E a mancha irregular do sangue nas maçãs do rosto… Óculos sem aro…

[página 9]

Fraülein queria casar com seu cientista, com um homem da razão, sério, culto, estudioso – homem que só podia encontrar na Alemanha. E pra realizar esse sonho, trabalhava em casa de famílias ricas, ensinando aos rapazinhos. Nesse ponto do meu texto, acho que você tá entendendo errado. Elza não ia pras casas se entregar aos meninos – isso não era honrado, não era digno dela – Fräulein queria mais. Mário de Andrade pergunta: “É coisa que se ensine o amor? Creio que não. Pode ser que sim. Fräulein tinha um método bem dela.” Começava aos poucos, com toques sutis, insinuações, perguntas… Depois de investigar o passado do rapazinho, ela ensinava o ciúme; se mostrava recatada, mas disponível; interpretava o papel da mulher pura, idealizada, mas disponível ao toque e aos carinhos dos meninos. Os pais dos rapazes pensavam: “melhor aprender as coisas da vida com essa do que pegar uma doença, se envolver com as drogadas e os prostíbulos, decair.” Então Elza tinha o aval dos pais, e até as mães mais relutantes acabam achando valor nos serviços da governanta.

Com Carlos foi diferente.

Dezesseis anos. Encorpado, mas inocente. Obediente, mas impetuoso. “Ele é um forte de verdade. Um desses que só se comparam consigo mesmos.” Era valoroso, só que ainda muito menino: brincava com as irmãs mais novas, machucava. Estava na hora de aprender. Com Elza contratada, o serviço começava. O mesmo método, os mesmos passos… 15 dias de trabalho e nada! Nem sinal do menor interesse. A governanta começa a duvidar de sua capacidade: será que com esse ela não consegue nada?

Impossível! Estava trabalhando bem… Que nem das outras vezes. Até milhor, porque o menino lhe interessava, era muito… muito… simpatia? a inocência verdadeiramente esportiva? talvez a ingenuidade… A serena força… E tão simples, nem vaidades nem complicações… atraente. Fräulein principiara com mais entusiasmo que das outras vezes. E nada.

[página 21]

Fräulein não conseguia ser a mesma perto de Carlos. Permanecia fria, concentrada em seu trabalho, nos passos… Mas um sentimento sempre escapava… sentia vontade; se não cuidasse, acabaria se envolvendo. E isso não podia! Tinha que se concentrar no serviço. Insistiu, foi paciente. Tanto fez Elza, que acabou por conquistar nosso rapazinho:

Uma comoção doce, quase filial, esquentou Carlos novamente. E porque amava sem temor, nem pensamento, sem gozo, apenas por instinto e por amor, por gozo, iria se entregar.

[página 71]

Foi bonito, mas esse sentimento não podia durar. Ela sabia que teria de deixar o menino e seguir com sua vida, com seus sonhos. E tinha que ser traumático, pra ele sofrer, pra aprender que tem um jeito certo de amar. E um jeito errado. Mas a idéia de o deixar “doía. Talvez o amasse?” “Fraülein murmurou severamente o ‘não’, quase que os outros escutaram. Sorriu. Uma ternurinha só. Muito natural: era um bom menino.”

Elza ensinou o amor. Carlos aprendeu.

Não foi natural, não foi desinteressado. Mas foi amor.

Foi amar.

Do dicionário: verbo regular, transitivo direto.

Da vida: verbo irregular, intransitivo. Não precisa de complemento.


Vamo dialogar e  levar esse post a um outro nível:

Como defender um sentimento que nasce desse jeito, nessas condições? Como caracterizar na nossa cabeça um relação que já surge tão diferente?

Ela tem o poder, o conhecimento: é professora; ele é só aluno.

Ela adulta, 35 anos, projetos de vida. Ele menino, 16. Não mais criança, mas ainda bobinho, despreparado.

Não foi muito precoce essa aprendizagem? Quais as marcas que isso pode deixar na vida de um adolescente? Mais: independente da circunstância, será que a gente não devia ser poupado do amor até ter uma certa idade?

Por último: amar se ensina? Se aprende?

A foto que ilustra o post é de um filme com temática semelhante, o Notas Sobre um Escândalo: uma professora de colégio – turmas de ensino médio – começa a ter um relacionamento secreto com um dos seus alunos. Outra, mais antiga, descobre. Começa a chantagem.

Parece simples, mas esse filme leva as discussões do livro a um outro patamar. No drama de 2006, o adolescente não é passivo, não espera os avanços de uma Fräulein. Ele é forte, dominador e persuade a frágil professora a se envolver.

E nesse caso, como conceber o romance dos dois? Seria menos anti-ético, já que é o próprio rapaz que conduz a relação?

Deixo vocês pensando nisso e me despeço do mesmo jeito que Elza se despediu de seu menino:

Beijou-o na testa. Na testa, tal e qual fazem as mães.

O beijo foi comprido por demais.

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Eric

Leia mais: Divã

Cinco vidas secas

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“A cabeça inclinada, o espinhaço curvo, agitava os braços para a direita e para a esquerda. Esses movimentos eram inúteis, mas o vaqueiro, o pai do vaqueiro, o avô e outros antepassados mais antigos haviam-se acostumado a percorrer veredas, afastando o mato com as mãos. E os filhos já começavam a reproduzir o gesto hereditário.”

Em um tempo que o nordestino é tão desvalorizado, tratado como se não valesse nada, é excelente dar uma olhada no livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Eu sou suspeita pra falar, porque adoro o calor, as praias, o povo e a cultura do meu Nordeste… Mas vamos combinar: Vidas Secas é uma obra prima, que retrata a realidade nua e crua, capaz de fazer qualquer coração de pedra chorar com a morte de uma cadela. Graciliano Ramos é nordestino e escreveu o Nordeste, denunciou nossas mazelas e hoje usufruímos de diferenças que homens como ele lutaram para que tivéssemos, pois apesar da pobreza e a natureza, às vezes cruel, somos vistos e reconhecidos pela nossa música, literatura, política, diversidade e, acima de tudo, resiliência. É por essas e outras que devemos repeito à Vidas Secas: Uma obra circular, que faz todo o sentido se quisermos embaralhar os capítulos ou lê-los salteados. Uma obra que, teoricamente, não tem fim. Esperamos que ela não morra, mas o fim dessa realidade, de um povo oprimido e vitimizado está cada vez mais próximo.

Em Vidas Secas, desde o primeiro capítulo, percebemos palavras duras como Infelizes, Famintos, Urubus, Espinhos, Catinga, Caatinga, Obstáculos e tantas outras expressões mostrando uma vida penosa e árida que aquela família de andarilhos enfrentava para correr do que não vinha muito atrás: Fabiano, sinha Vitória, seus dois filhos e a cachorra Baleia já estavam sendo consumidos pela fome, pela sede e os urubus sobrevoavam a região para se alimentar dos restos que a morte deixava.

A hostilidade do sertão fazia de Fabiano um bicho, por ora irracional, movido pelo instinto. “Caía no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos – e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera.” (Pg 18). Enquanto Fabiano era um bicho, sinha Vitória resistia e sonhava em virar gente, gente que fosse respeitada e tivesse a dignidade de ao menos ter uma cama de couro como a do seu Tomás da Bolandeira. Enquanto isso, a cachorra Baleia mais parecia ter sentimento e sonhos, recebe mais destaque que os próprios filhos de Fabiano. A humanização de Baleia não pode ser vista de melhor maneira que no filme, Vidas Secas, onde a cachorra foi interpretada. A morte de Baleia mostra o quanto a cachorra sonha, raciocina e nega a morte, quando foge de Fabiano, que resolve sacrificá-la para que ela não sofra mais com a doença. Enquanto isso, sinha Vitória tenta, do seu jeito, consolar os filhos que sofrem com a morte da companheira Baleia.

Como Eric já falou no post anterior, esta obra não é digna de ser lida na correria de um vestibular, nem precisa que nenhum professor obrigue ninguém a ler. Com maturidade, com mais anos vividos – um, dois ou dez – vidas secas será sempre presente na história do Nordeste e do país, deve ser lida com calma, com atenção. Todos os sentimentos devem ser experimentados, todas as lágrimas necessárias devem ser derramadas para que, por algumas horas, ou alguns dias, possamos fazer parte dessa peregrinação pelo sertão.

Neide Andrade

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