jornalismo

Vale tudo: uma carta de saudade de Motta para Tim

Tratar com a impessoalidade do jornalismo uma história em que o autor é uma das principais fontes não é uma tarefa fácil. Em Vale tudo: O som e a fúria de Tim Maia, o biógrafo, jornalista e produtor musical Nelson Motta conta a história do amigo, desde a sua infância até a sua morte. Lançada em 2007, a biografia de Tim Maia traz uma linguagem que vem descritiva, com a influência dos anos de jornalismo do autor, peca um pouco pela falta de análise psicológica, mas ganha com a pessoalidade expressa por Nelson Motta do início ao fim do texto, usando, inclusive o “eu” em determinados momentos. Nelson conta o que viu de Tim, além do que descobriu. Ele foi testemunha ocular da história.

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A sangue frio – Capote

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Família Clutter: Nancy, Bonnie, Kenyon e Herb

Uma bolsa caída no chão e aberta em frente à escada, três quartos ocupados no primeiro andar. O primeiro, uma bagunça organizada. Coisas de menino. Um rádio, materiais de esporte. No último, um local ainda não totalmente habitado, um quarto de quem chegou, mas volta logo, ao contrario do segundo quarto que veio todo em um tom rosa, branco e azul bebê. Uma escrivaninha com um diário contendo os segredos mais loucos de uma adolescente comum, apesar de rica. Um urso de pelúcia ofertado pelo namorado no meio da cama expressava o desejo de ter o rapaz, ainda, por muito tempo. No porão, a sala de jogos guardava, consigo, um ar de pouca diversão: Tristeza. Um tom rubro vestia a casa: O sangue da família Clutter, derramado na madrugada daquele domingo, 15 de novembro de 1959.

Herb Clutter, um dos agricultores mais ricos e importantes do Kansas, naquela época, covardemente assassinado, junto com a sua esposa – Bonnie – e os seus dois filhos mais novos – Nancy, de 15 anos e Kenyon, com 9 anos.

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Sr. Herb Clutter

A família Clutter era conhecida na cidade Holcomb pela boa convivência que tinha com todos. A menina, Nancy, apesar de ser bonita e se destacar em todos os lugares que frequentava – igreja, escola, reuniões de família etc – sempre foi muito humilde. Teve “a sorte de um amor tranquilo” e, apesar de o Senhor Clutter não concordar muito com a ideia do relacionamento com aquele rapaz, Nancy e Bobby ficaram juntos até poucas horas antes do crime. O Senhor Clutter também, sempre muito atencioso com os empregados, tratando a todos com cordialidade, acreditava que esse comportamento era um dever dele enquanto cristão. O menino, Kenyon vivia em uma órbita secundaria, apenas dele. Apesar de não tratar ninguém mal e de não ser vitima da soberba cuja maioria dos ricos perecem, Kenyon não se comunicava muito bem e isso fazia com que ele fosse um pouco discrepante do pai e da irmã, mas muito parecido com a Sra Bonnie Clutter, que enfrentava, há anos, doenças psicológicas e há poucas semanas descobrira a causa real, o que poderia mudar a historia e a relação da família para melhor.

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Nancy Clutter, segundo o depoimento de um dos seus assassinos, Perry, manteve a calma e a simpatia até o momento da morte.

Paralelo à vida dos Clutter, dois amigos conseguiram a liberdade condicional e um deles tinha um plano: Assaltar a casa de um certo ricaço agricultor, no Kansas, tirar todo o dinheiro do cofre e refazer a vida no México: Obviamente, sem testemunhas. Dick, um belo moço de olhos azuis e cabelos claros, tinha o rosto um tanto torto devido a um acidente de moto. Ele provocava bem estar em quem estivesse por perto, sempre muito simpático e, claro, esperto. Dick planejou tudo, era o cabeça da situação. Perry, um baixinho frouxo e forte, sofrera um acidente de carro e sentia muitas dores nas pernas deformadas – tomava muito aspirina por causa disso, a ponto de ser um viciado. Perry foi o verdadeiro anti-herói da história, que levou um tanto de paz antes de disparar a arma para cada um dos membros da familia Clutter.

Pausa.

Como Capote enxergou qualquer tipo de coisa boa em um assassino covarde como o dos Clutter? Perry não era simpático, não era querido, mas tinha uma história que esse escritor esmiuçou. E a história de Perry estava estampada em cada corpo daquele: Uma posição melhor para O Sr. Clutter morrer e os nós em Nancy Clutter, que a protegeu de algo que, para muitos, pode ser pior que a morte. Apesar de ter disparado a arma, Perry salvou Nancy.

garden-city-telegram-bxOs dois bandidos se uniram e foram à casa dos Clutter naquela noite atrás do cofre para roubar uma quantia mínima de 10 mil dólares, que se converteu em cerca de 50 dólares, porque, como todo o Kansas sabe: Os Clutter pagam tudo em cheque.

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A história é real e virou uma reportagem escrita por Truman Capote no livro A Sangue Frio, que lhe rendeu a lembrança por quase um século depois: Apuração impecável, sem dúvidas ao leitor, um respeito imenso ao falar da família, dos amigos, dos assassinos e de quem ama os assassinos. Capote soube observar e entender que eles eram mais que personagens de um romance: Eram todos personagens de uma realidade cruel que precisava ser eternizada em uma obra prima como este livro.

A narrativa é avassaladora e altamente descritiva, nos projeta ao local da cena, de maneira que os sentimentos experimentados pelos personagens chegam até nós – eufemizados, obviamente. É uma leitura que vale o tempo, o livro e o que mais precisar!

Neide Andrade

Quanto vale uma morte?

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Há cerca de dez anos eu estava em uma praça, no interior do estado, uma mulher pegou um jornal e começou a chorar desesperadamente: A morte do irmão dela estava estampada na capa, e ela descobriu o crime pelo papel. Um jornalista, amigo nosso, começou a falar do absurdo que aquilo representava, eu não dei muita importância ao fato, mas deixei registrado na memória. Anos depois, comecei a faculdade. Desde as primeiras aulas de jornalismo, eu pude discutir com os meus professores sobre ética e, principalmente, limites. O que é notícia, o que não é. O que tem poder para ser notícia e, ao mesmo tempo, não pode ser de jeito nenhum.

O abutre conta a história de Louis Bloom (Jake Gyllenhaal), que enfrenta dificuldades financeiras e – de repente – decide ser um repórter freelancer, passando a cobrir os crimes mais chocantes de Los Angeles e arredores. A ideia de vender as imagens dos locais – e dos crimes – por um preço bom faz com que Louis não tenha limites e ele passa a mexer na cena do crime, colocando o corpo em um ângulo esteticamente mais interessante para ele, e até provoca situações para que grandes acontecimentos ocorram e ele possa filmar.

Com ares de psicopata, o personagem deixa uma questão: Quanto vale uma morte? Algumas trezentos dólares, outras três mil. E ele não faz distinção: De um colega de trabalho ao seu mais próximo companheiro de equipe. Louis caiu de paraquedas no jornalismo a fim de fazer dinheiro para si e audiência para as emissoras que comprarem o seu material. Nina Romina (Rene Russo), produtora do telejornal, sempre compra as imagens de Louis alegando a grande audiência que consegue e com uma frase típica de “assumo a multa”, alega que todos têm direito a ter notícia. Então, com isso, pergunta-se: Quem tem direito a não ser notícia?

O filme é bom de ser assistido. Tem muita ação e até um toque de mistério, que nos dá curiosidade e uma sensação que eu amo: Torcer pelo anti-herói! Isso me faz perceber o quanto sou/somos medíocres. Também valeu para me perguntar sobre o que é certo ou não… Tantas e tantas vezes nos divertimos com os massacres dos programas policiais, como o povo no Coliseu de Roma, mas, tenho certeza: Se algum dos meus queridos fossem lutar com as feras, eu acharia isso um grande absurdo.

 Neide Andrade