Infância

Batismo de fogo

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O que leva a gente a querer escrever sobre um livro?

Não sei.

Sei o que me leva a ler um: a vontade.

No caso de Batismo de Fogo, tive que insistir. Senti com esse livro a mesma dificuldade inicial que enfrento quando leio um livro de contos. Pra mim, é difícil acabar uma história em um parágrafo e no seguinte começar outra, com outros personagens, outros narradores. Em Batismo de Fogo não há contos: é uma história só, mas – ao mesmo tempo – são várias.

Em resumo, o livro trata do cotidiano de um colégio militar para adolescentes – aliás, pare e pense um pouco nesse conceito: colégio. militar. para. adolescentes. Sentiu o drama? Pois é. O Leôncio Prado recebe só meninos, todos os anos e fica próximo ao mar de Lima, no Peru. Aí a gente pensa: por que – e por quem – esses adolescentes foram obrigados a estudar num colégio interno (e militar)? Como é a vida lá dentro? Como eles lidam com a disciplina?

Várias vozes se alternam no texto pra responder essas perguntas: ora quem fala é o narrador impessoal, onisciente; ora é um dos alunos em primeira pessoa; um dos professores; outro aluno… Alguns parágrafos se passam no presente, páginas depois lemos sobre anos anteriores; descrições de eventos emendam com fluxos de consciência… Enfim: uma zona, mas uma zona escrita por Mario Vargas Llosa. Então tudo faz sentido e é bem feito.

Superada a dificuldade inicial com a alternância das vozes e do tempo, o livro pega você. Muito. Ver aqueles alunos adolescentes lutando pra se impor num ambiente hostil traz uma nostalgia danada. Lógico que tem situações tensas demais, que a gente como aluno comum dificilmente viveria, mas é muito fácil se identificar com os sentimentos, os diálogos e até algumas das situações vividas por esses meninos. Saudades oitava série do fundamental.

Mas Mario vai além: mais que criar um ambiente de identificação absurda, ele escreveu personagens lindos nesse livro. Desde os mais destemidos e subversores da ordem – como Jaguar – até os doces e mansos, que sofrem nas mãos dos outros – feito Ricardo Arana, o Escravo. Todos são escritos bem delicadamente, com cuidado. Não tem unilateralidade aqui – ninguém é vilão, ninguém é mocinho (não o tempo todo). Dá vontade de saber cada vez mais sobre a vida desses meninos. E Mario vai nos satisfazendo, contando pra gente aos pouquinhos, alternado – capítulo a capítulo – o personagem que fica sob o foco.

O Tripé, Crespo, Cava, Tenente Gamboa, Alberto, Jaguar, o Escravo, Tereza e até a danada da Mal-Paga têm seu momento de brilhar nesse livro. E como brilham! Adolescentes comuns, pais e mães comuns, problemas cotidianos de quem vive nos subúrbios da América Latina, mas retratados de um jeito sensível. As brigas, os amores, a amizade, pais e filhos, os conflitos morais: tá tudo lá, e difícil é não se importar com a vida de cada um desses meninos.

Quer um resumo? Vou te dar:

Imagina O Ateneu, de Raul Pompéia, casando com Capitães da Areia, de Jorge Amado. Tira a formalidade e adiciona sangue. Pronto!

* Imagem: do filme Conta Comigo, que eu assistiria, se fosse você.

Eric

Boyhood – da infância à juventude

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Depois de ter falado de infância aqui e aqui, o Escrevo A|penas vem fazer um convite e algumas perguntas:

Você lembra de quando era criança?
E como foi crescer, ver o rosto ficar mais adulto, a alma mais marcada?
Lembra da sensação?

O diretor Richard Linklater promete trazer esses sentimentos de volta pra gente.
Não conhece o cara? Eu também não o conhecia de nome, mas descobri que é dele a trilogia-amor que começa com o filme Antes do Amanhecer, de 1995. Saudades…

Em Boyhood : da Infância a Juventude, Richard traz de volta o mesmo ator principal de sua trilogia famosa – Ethan Hawke – mas com um projeto muito mais ambicioso: filmar a nossa vida. Nesse caso, o diretor levou doze anos pra concluir o trabalho. Com a mesma equipe. Com os mesmos atores.

Na tela, a gente vai ver o menininho da foto amadurecer, sair dos seis anos e chegar aos dezoito bem na nossa frente. O trailer (clica aqui) promete trazer todas as angústias dessa transição, as mudanças na família, o divórcio e todas aquelas emoções que fazem a nossa vida ter cor, ser vida de verdade. Sem clichê, sem forçar a barra, sem inventar demais. Só a realidade mais banal e o seu encanto.

O editor que vos fala tem uma coleção de livros com protagonistas infantis, é viciado em Anos Incríveis e acha Meu Primeiro Amor o melhor filme do mundo. Será que eu ia perder essa estreia?

De jeito nenhum!

Boyhood estreou em julho nos Estados Unidos, dia 30/10 no Brasil e só dia 13/11 em Recife (poxa, Recife!).

Depois de tudo isso, quero te fazer um convite: vamo assistir?

Tá em cartaz no Shopping Plaza, de Casa Forte. As sessões aqui.

Daqui a uns dias eu volto e a gente divide nossas impressões sobre o filme.


Enquanto esse dia não chega, vem relembrar comigo essa música linda, trilha sonora da novela Coração de Estudante:

Eric

Pra se encantar

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Um dia desses, eu estava sentada pelos sofás da faculdade e comecei a conversar com uma menina, que estava se formando em cinema e contava sobre suas batalhas por patrocínio para os seus projetos. Um desses projetos é curta “Não tem só Mandacaru” que fala sobre a poesia nordestina de São José do Egito pelo olhar de vários poetas, em especial o grupo Em canto e poesia, que desde que ouvi pela primeira vez, me encantei de um jeito ímpar.

Os meninos do Em Canto e Poesia cantam e contam, em versos, o nordeste e os sentimentos dos que vivem por aqui. Fico super feliz todas as vezes em que ouço o trabalho deles porque são a nossa cultura viva e muito preservada – eles são jovens! Os três são netos de ninguém menos que Louro do Pajeú, um dos maiores repentistas da região.

Nos versos encontramos temas como a saudade, as belezas do sertão, as injustiças sociais, a infância… Tudo que causa nostalgia em quem passou, pelo menos uma semana no interior quando era criança. Vale a pena ouvir cada verso, ver cada expressão e perceber o amor que eles transmitem em cada palavra.

Confiram os vídeos de Tauna Uchôa, a menina que me apresentou ao Em canto e Poesia.

Neide Andrade

Infância – Angústia

GRACILIANO

Serendipities. Acasos afortunados.

Um desses aconteceu semanas atrás. Eis que eu e minha amiga Lara, no meio de um passeio, damos de cara com um sebo de livros armado dentro de um shopping.

Nada mais ao acaso, e nada mais afortunado. (Sebo é amor!) Um monte de livros baratos, de vários tipos.

Comprei um lindo da abril sobre Delacroix e dois de Graciliano Ramos, de capa dura marrom: Angústia (algum booktuber tinha dito que era bom) e Infância (tenho uma coleção de livros com esse tema). Comecei a ler os dois assim que saí do shopping, acabei esses dias. Precisava falar deles.

Comecei por Infância (meu vício esse tema, depois falo melhor sobre isso) e percebi que era praticamente autobiográfico. Acabei. Abri Angústia e logo nas primeiras páginas tive a mesma impressão. Aquilo não podia ser só um personagem! Era real demais o sentimento, a voz na cabeça do protagonista.

Depois que acabei o segundo, tive certeza: é a vida de Graciliano em dois volumes, em capa dura marrom – nada mais apropriado. Concordo com o posfácio do livro: é como se – na ficção de Angústia – a estrutura da narrativa, os personagens, tudo fosse sendo envolvido pela realidade, pela infância, pela personalidade de Graciliano. Os personagens secundários, as ações (inclusive criminosas), a cidade triste e o próprio personagem principal – parece que tudo é só o amparo, uma estrutura de metal que vai sendo preenchida pelo concreto e pelos tijolos. Tudo está imóvel e só tem vida quando a personalidade de Graciliano se deixa ver, quando ele vai transbordando tanto da estrutura que você é obrigado a enxergá-lo, a conviver com ele.

Que bom que li Infância primeiro! Assim consegui ver claramente a realidade de vida daquele menininho sertanejo impregnar seus personagens do outro livro. Luís da Silva – protagonista de Angústia – é o próprio Graciliano, despido de todo verniz civilizado, voltando a ser criança mesmo. Uma criança crescida e sozinha no meio de um mundo vilão.

Tenho a impressão de que estou cercado de inimigos, e como caminho devagar, noto que os outros têm demasiada pressa em pisar-me os pés e bater-me nos calcanhares. Quanto mais me vejo rodeado mais me isolo e entristeço. Quero recolher-me, afastar-me daqueles estranhos que não compreendo, ouvir o curupaco, ler, escrever. A multidão é hostil e terrível.

 (Angústia, página 123)

O mundo foi mau pra esse menino, desde muito cedo. Nem o pai, nem a mãe foram fonte de afeto. Se sentiram alguma coisa, nunca demonstraram. Mas repara: Graciliano não quer tua pena, nem a minha. Na verdade, a intenção dele parece ser ensinar à gente como o mundo é, só isso.

Logo no começo de Angústia, quando a realidade começa a se intrometer na ficção, ele narra o que “Luís” sentiu quando – ainda menino – perdeu o pai: solidão. Devia chorar, era o certo a fazer, mas ele não conseguia. E se culpava. Não tinha amor pelo pai, e ninguém até então tinha sido bom com ele. Pegou no sono pensando no pai morto. Horas depois, a empregada entra no lugar onde ele dormia e o acorda, dando um xícara de café. Vê o que ele diz sobre isso:

Quem me acordou foi Rosenda, que me trazia uma xícara de café. – Muito obrigado, Rosenda. E comecei a soluçar como um desgraçao. Desde esse dia tenho recebido muito coice. Também me apareceram alguns sujeitos que me fizeram favores. Mas até hoje, que me lembre, nada me sensibilizou tanto como aquele braço estirado, aquela fala mansa que me despertava. – Obrigado, Rosenda. Iam levando o cadáver de Camilo Pereira da Silva. Corri pra sala, chorando. Na verdade chorava por causa da xícara de café de Rosenda, mas consegui enganar-me e evitei remorsos.

(Angústia, pagina 18)

Finalmente: Infância conta pra nós como era o menino Graciliano e as histórias que moldaram o caráter dele (como a de Venta Romba e as dificuldades em se alfabetizar. Tudo o que o tornou seco, introspectivo e magoado pelo mundo tá escrito lá. E com objetividade – ele não quer a nossa pena. Em Angústia, há todo um enredo e personagens ficcionais, mas esse menino se deixa entrever e toma conta da história, fazendo o imaginário se curvar ao que é de verdade.

Preciso ler mais Graciliano.

Quem diria! Logo eu que mal leio literatura brasileira. Logo eu que só tinha lido Vidas Secas, e não tinha gostado.

Eric

Leia mais: Cinco Vidas Secas