Graciliano Ramos

Especial Graciliano Ramos – suma

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“Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões.”

[Graciliano Ramos – Memórias do Cárcere]

 

Obrigado por acompanhar a gente durante essa semana!

Muitos outros especiais virão.

Nos aguardem!


 

POSTS:

Vidas Secas (livro)

Infância | Angústia

Vidas Secas (filme)

Perfil: Luís da Silva

 

Perfil: Luís da Silva

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O nome dele é Luís. 35 anos.

É difícil precisar suas medidas. Provavelmente tem 1,70 e pesa 60 kg, talvez menos. Fala pouco e veste cinza. – É que ele tenta passar a vida despercebido.

Teve uma infância difícil no sertão. Árida de tudo.

Havia comida, mas não carinho. Pai e mãe estavam vivos, mas pareciam não estar.

Teve muita dificuldade na escola, demorou anos pra aprender o ABC. Apanhou e ouviu da mãe “burro, burro”” e “cabra cega!” Conseguiu forças nem sabe de onde pra estudar e acabou virando professor. Quem diria! Mas ganhava pouco e trabalhava demais.

Foi morar na cidade grande e virou funcionário público. Trabalhava escrevendo. Podia usar a máquina de escrever, as tintas caras e todos os papéis da repartição, só não podia usar criatividade: mandavam, ele escrevia. Pensativo, desabafa:

“Estava tão abandonado neste deserto… Só se dirigiam a mim para dar ordens: – Seu Luís, é bom modificar esta informação. Corrija isto, Seu Luís. Fora daí, o silêncio, a indiferença. Agradavam-me os passageiros que me pisavam os pés, nos bondes, e se voltavam atenciosos: – Perdão, perdão. Faz favor de desculpar. – Sem dúvida. Ora essa. Ou então: – Tem a bondade de me dizer onde fica a Rua do Apolo? – Perfeitamente, minha senhora. Vamos para lá. É o meu caminho.”

[página 24]

Esqueceu como criar, mas obedecer ele sabia. Obedecer e andar de cabeça baixa, desconfiado:

“Tenho a impressão de que estou cercado de inimigos, e como caminho devagar, noto que os outros têm demasiada pressa em pisar-me os pés e bater-me nos calcanhares. Quanto mais me vejo rodeado mais me isolo e entristeço. Quero recolher-me, afastar-me daqueles estranhos que não compreendo, ouvir o Currupaco, ler, escrever. A multidão é hostil e terrível.”

[página 123]

“Os olhos estão quase invisíveis por baixo da aba do chapéu, e uma folha da porta oculta-me o corpo. Uma criaturinha insignificante, um percevejo social, acanhado, encolhido para não ser empurrado pelos que entram e pelos que saem.”

[página 24]

Mora numa casa pequena, junto com a empregada Vitória e o louro Currupaco. O louro é dela e só fala com sua dona, já quase surda. Luís pode jurar que Vitória está lhe roubando umas moedas da carteira, mas é coisa pouca, e ela é tão besta e tão pobre. Os amigos dele dá pra contar em uma só mão: o pedinte / o revolucionário / o que ele odeia, mas frequenta a sua casa /  os ratos que roem seus livros de noite.

Luís não tem muitas ambições, nem vaidade e vive a esmo. Mas, um dia, avista Marina: cabelos vermelhos, olhos azuis, corpo de mulher.

Como lidar com esse querer repentino? Pra Luís: “o amor sempre foi uma coisa dolorosa, complicada, incompleta.”

Logo ele, que nunca quis nada, começa a sonhar, começa a querer.

Ele quer Marina. Quer ser considerado, ter o respeito que nunca teve:

“Se Doutor Gouveia, o Governador, o Secretário passarem por mim, não os verei: seguirei o meu caminho com dignidade curva, o espírito distante. Os conhecidos que me virem pensarão: -‘Luís da Silva é um sujeito que não tem subserviência nenhuma’. E os que me cumprimentarem e não obtiverem resposta dirão: -‘ Luís da Silva é uma besta, um imbecil, um cretino’. É bom não levantar a espinha. Se a levantasse, teria de baixá-la de novo a cada passo, aflito e apressado, o chapéu na mão. Assim não vejo ninguém, caminho batendo nos transeuntes, enrolando palavras de desculpa, entrando no futuro como um parafuso.

[página 114]

Luís nunca poderia imaginar que esse amor e essa vaidade o levariam a cometer um crime.

“Louco amor meu, que quando toca, fere e quando fere vibra. Mas prefere ferir a fenecer – e vive a esmo, fiel à sua lei de cada instante, desassombrado, doido, delirante. Numa paixão de tudo e de si mesmo.”

[Soneto do maior amor – Vinícius de Moraes]

Logo ele, que era tão certinho, que media 1,70 e vestia cinza. Logo ele.

Luís se arrepende e conclui:

sonhar não é pra todo mundo.


Luís da Silva

protagonista

romance: Angústia

autor: Graciliano Ramos

foto: Kubrick


Eric

Impressões na telona… Vidas secas

imagem para o post vidas secas - filme

Se existe uma obra encantadora na literatura brasileira, esta obra é Vidas Secas. Por isso estou aqui de novo para falar sobre o assunto. Transferir Graciliano para as telonas foi um trabalho maravilhoso, feito no ano de 1963 sob a direção de Nelson Pereira dos Santos.

Não considero um filme fácil de assistir, ao mesmo tempo em que o livro também não é fácil. A compreensão é maravilhosa, a prolixidade é zero, mas ver a realidade daquela maneira é triste demais… Ver, como é bom! Como foi boa a experiência de ter Vidas Secas projetada na minha frente. Como sempre digo: O cinema, pra mim, tem o poder de transformar tudo em realidade. E, de fato, eu acredito que os personagens e suas histórias foram reais, nem que sejam somente durante aqueles 100 minutos em preto e branco que passaram por mim.

Matar o papagaio pra poder comer. Matar a cadela pra sobreviver. Sonhar a todo custo com uma cama. Que vida miserável, que não dava às crianças o direito à infância, à inocência e ao principal, seja ele qual fosse. A película foi bem fiel ao livro, mas em caso de diferença, não a condenaria. A gente aprende, com o tempo, que são obras diferentes e que todos os artistas têm o direito de se expressar e fazer qualquer coisa com a sua obra.

Recomento muito o filme, que não substitui o livro, de maneira nenhuma. Mas acrescenta um valor inexplicável, faz a gente crescer como pessoa e entender o quanto somos afortunados.

Tem aí uma palhinha

Neide Andrade

Leia mais: 

Cinco Vidas Secas

Infância – Angústia

Infância – Angústia

GRACILIANO

Serendipities. Acasos afortunados.

Um desses aconteceu semanas atrás. Eis que eu e minha amiga Lara, no meio de um passeio, damos de cara com um sebo de livros armado dentro de um shopping.

Nada mais ao acaso, e nada mais afortunado. (Sebo é amor!) Um monte de livros baratos, de vários tipos.

Comprei um lindo da abril sobre Delacroix e dois de Graciliano Ramos, de capa dura marrom: Angústia (algum booktuber tinha dito que era bom) e Infância (tenho uma coleção de livros com esse tema). Comecei a ler os dois assim que saí do shopping, acabei esses dias. Precisava falar deles.

Comecei por Infância (meu vício esse tema, depois falo melhor sobre isso) e percebi que era praticamente autobiográfico. Acabei. Abri Angústia e logo nas primeiras páginas tive a mesma impressão. Aquilo não podia ser só um personagem! Era real demais o sentimento, a voz na cabeça do protagonista.

Depois que acabei o segundo, tive certeza: é a vida de Graciliano em dois volumes, em capa dura marrom – nada mais apropriado. Concordo com o posfácio do livro: é como se – na ficção de Angústia – a estrutura da narrativa, os personagens, tudo fosse sendo envolvido pela realidade, pela infância, pela personalidade de Graciliano. Os personagens secundários, as ações (inclusive criminosas), a cidade triste e o próprio personagem principal – parece que tudo é só o amparo, uma estrutura de metal que vai sendo preenchida pelo concreto e pelos tijolos. Tudo está imóvel e só tem vida quando a personalidade de Graciliano se deixa ver, quando ele vai transbordando tanto da estrutura que você é obrigado a enxergá-lo, a conviver com ele.

Que bom que li Infância primeiro! Assim consegui ver claramente a realidade de vida daquele menininho sertanejo impregnar seus personagens do outro livro. Luís da Silva – protagonista de Angústia – é o próprio Graciliano, despido de todo verniz civilizado, voltando a ser criança mesmo. Uma criança crescida e sozinha no meio de um mundo vilão.

Tenho a impressão de que estou cercado de inimigos, e como caminho devagar, noto que os outros têm demasiada pressa em pisar-me os pés e bater-me nos calcanhares. Quanto mais me vejo rodeado mais me isolo e entristeço. Quero recolher-me, afastar-me daqueles estranhos que não compreendo, ouvir o curupaco, ler, escrever. A multidão é hostil e terrível.

 (Angústia, página 123)

O mundo foi mau pra esse menino, desde muito cedo. Nem o pai, nem a mãe foram fonte de afeto. Se sentiram alguma coisa, nunca demonstraram. Mas repara: Graciliano não quer tua pena, nem a minha. Na verdade, a intenção dele parece ser ensinar à gente como o mundo é, só isso.

Logo no começo de Angústia, quando a realidade começa a se intrometer na ficção, ele narra o que “Luís” sentiu quando – ainda menino – perdeu o pai: solidão. Devia chorar, era o certo a fazer, mas ele não conseguia. E se culpava. Não tinha amor pelo pai, e ninguém até então tinha sido bom com ele. Pegou no sono pensando no pai morto. Horas depois, a empregada entra no lugar onde ele dormia e o acorda, dando um xícara de café. Vê o que ele diz sobre isso:

Quem me acordou foi Rosenda, que me trazia uma xícara de café. – Muito obrigado, Rosenda. E comecei a soluçar como um desgraçao. Desde esse dia tenho recebido muito coice. Também me apareceram alguns sujeitos que me fizeram favores. Mas até hoje, que me lembre, nada me sensibilizou tanto como aquele braço estirado, aquela fala mansa que me despertava. – Obrigado, Rosenda. Iam levando o cadáver de Camilo Pereira da Silva. Corri pra sala, chorando. Na verdade chorava por causa da xícara de café de Rosenda, mas consegui enganar-me e evitei remorsos.

(Angústia, pagina 18)

Finalmente: Infância conta pra nós como era o menino Graciliano e as histórias que moldaram o caráter dele (como a de Venta Romba e as dificuldades em se alfabetizar. Tudo o que o tornou seco, introspectivo e magoado pelo mundo tá escrito lá. E com objetividade – ele não quer a nossa pena. Em Angústia, há todo um enredo e personagens ficcionais, mas esse menino se deixa entrever e toma conta da história, fazendo o imaginário se curvar ao que é de verdade.

Preciso ler mais Graciliano.

Quem diria! Logo eu que mal leio literatura brasileira. Logo eu que só tinha lido Vidas Secas, e não tinha gostado.

Eric

Leia mais: Cinco Vidas Secas

Cinco vidas secas

imagem para o post vidas secas

“A cabeça inclinada, o espinhaço curvo, agitava os braços para a direita e para a esquerda. Esses movimentos eram inúteis, mas o vaqueiro, o pai do vaqueiro, o avô e outros antepassados mais antigos haviam-se acostumado a percorrer veredas, afastando o mato com as mãos. E os filhos já começavam a reproduzir o gesto hereditário.”

Em um tempo que o nordestino é tão desvalorizado, tratado como se não valesse nada, é excelente dar uma olhada no livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Eu sou suspeita pra falar, porque adoro o calor, as praias, o povo e a cultura do meu Nordeste… Mas vamos combinar: Vidas Secas é uma obra prima, que retrata a realidade nua e crua, capaz de fazer qualquer coração de pedra chorar com a morte de uma cadela. Graciliano Ramos é nordestino e escreveu o Nordeste, denunciou nossas mazelas e hoje usufruímos de diferenças que homens como ele lutaram para que tivéssemos, pois apesar da pobreza e a natureza, às vezes cruel, somos vistos e reconhecidos pela nossa música, literatura, política, diversidade e, acima de tudo, resiliência. É por essas e outras que devemos repeito à Vidas Secas: Uma obra circular, que faz todo o sentido se quisermos embaralhar os capítulos ou lê-los salteados. Uma obra que, teoricamente, não tem fim. Esperamos que ela não morra, mas o fim dessa realidade, de um povo oprimido e vitimizado está cada vez mais próximo.

Em Vidas Secas, desde o primeiro capítulo, percebemos palavras duras como Infelizes, Famintos, Urubus, Espinhos, Catinga, Caatinga, Obstáculos e tantas outras expressões mostrando uma vida penosa e árida que aquela família de andarilhos enfrentava para correr do que não vinha muito atrás: Fabiano, sinha Vitória, seus dois filhos e a cachorra Baleia já estavam sendo consumidos pela fome, pela sede e os urubus sobrevoavam a região para se alimentar dos restos que a morte deixava.

A hostilidade do sertão fazia de Fabiano um bicho, por ora irracional, movido pelo instinto. “Caía no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos – e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera.” (Pg 18). Enquanto Fabiano era um bicho, sinha Vitória resistia e sonhava em virar gente, gente que fosse respeitada e tivesse a dignidade de ao menos ter uma cama de couro como a do seu Tomás da Bolandeira. Enquanto isso, a cachorra Baleia mais parecia ter sentimento e sonhos, recebe mais destaque que os próprios filhos de Fabiano. A humanização de Baleia não pode ser vista de melhor maneira que no filme, Vidas Secas, onde a cachorra foi interpretada. A morte de Baleia mostra o quanto a cachorra sonha, raciocina e nega a morte, quando foge de Fabiano, que resolve sacrificá-la para que ela não sofra mais com a doença. Enquanto isso, sinha Vitória tenta, do seu jeito, consolar os filhos que sofrem com a morte da companheira Baleia.

Como Eric já falou no post anterior, esta obra não é digna de ser lida na correria de um vestibular, nem precisa que nenhum professor obrigue ninguém a ler. Com maturidade, com mais anos vividos – um, dois ou dez – vidas secas será sempre presente na história do Nordeste e do país, deve ser lida com calma, com atenção. Todos os sentimentos devem ser experimentados, todas as lágrimas necessárias devem ser derramadas para que, por algumas horas, ou alguns dias, possamos fazer parte dessa peregrinação pelo sertão.

Neide Andrade

Leia mais: Especial Graciliano Ramos

Especial Graciliano Ramos

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27 de Outubro.

Dia em que nasceu Graciliano Ramos.

Eu sei, você leu Vidas Secas pro vestibular e nem gostou de verdade. Certo?

Momento confissão: a gente também conhecia muito pouco de Graça, e nem gostava tanto assim dele – que, aliás, é considerado um dos maiores escritores do Brasil.

Isso mudou.

A gente leu Vidas Secas depois de adulto, viu o filme, leu Infância, Angústia, comprou São Bernardo, encomendou Memórias do Cárcere e pretende ler qualquer linha desse homem que aparecer pela frente. Mudou a nossa percepção das coisas que ele escreve. Parece que a obra de Graciliano tem um encanto maior quando você é adulto e descobre que o mundo pode ser um lugar mesquinho, e meio cruel.

Outubro de 2014.

122 anos depois do nascimento desse menino quieto, lá em Alagoas.

A gente quer comemorar a vida dele. Dividir com vocês uma impressão mais subjetiva – emocional mesmo – desse escritor sensível, que as salas de cursinho pré-ENEM costumam descaracterizar. Graciliano é mais que uma lista de características e umas poucas páginas de resumo de obra. Ele toca a alma da gente, arranca gentilmente lágrimas dos nossos olhos e acima de tudo: se mostra de peito aberto, pra que a gente o conheça. Sem pedir a nossa pena, nem a nossa simpatia.

Nesse especial prometemos posts emocionados sobre os livros que já lemos e sugestões de filmes sobre as obras.

Feliz dia vinte e sete!

E obrigado pela aprovação, Graciliano.

Eric

Assinatura de Graciliano Ramos

Leia mais: Cinco Vidas Secas