Ezra Miller

PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN

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– Nós somos felizes, você não acha?

– Acho.

– Então qual é o problema?

– Talvez a gente seja feliz demais.


imageedit_15_7358108073É com esse diálogo curto que a gente começa a entender de que realmente fala essa obra-prima de Lionel Shriver. É a partir daí que a gente descobre que, na verdade, não é só sobre o Kevin que a gente precisa falar. Precisamos falar sobre nós mesmos, sobre as nossas culpas.

Tudo começa com uma mãe apática que finalmente aceitou seu destino terrível: o filho é um assassino. Dos mais frios. Logo nas primeiras páginas, a gente conhece o massacre causado por Kevin na sua escola: vários dos seus colegas de classe assassinados premeditadamente.

Tá lindo, mas o que o livro sobre um assassino tem a ver com a minha vida? Tudo, meu amigo, minha amiga. Tudo.

Através de cartas ao seu ex-marido Franklin – pai do Kevin – Eva (a mãe) nos conta a história de seu filho desde o começo, desde antes de ela estar grávida. Nessas páginas, vemos uma empresária bem-sucedida (e rica), casada com um marido amoroso e dona do emprego dos sonhos: ela viaja o mundo todo pra escrever aqueles guias de viagem, sabe? Emprego melhor tá pra nascer.

Eva é bem alegre, feliz mesmo, mas tem um momento em que aquela felicidade toda começa a incomodá-la um pouco. Tudo parece perfeito demais, monótono demais. E, porque ela estava entediada, resolveu ter um filho.imageedit_5_8731316186

Num instante, tudo mudou.

O amante ardente, sensual vira um paizão e a viajante libertina começa a observar horários, ficar em casa e amamentar uma criança – criança, aliás, que rejeita o peito da mãe e a sua própria presença, como se desde cedo já dissesse a que veio.

Kevin nasce, e Eva se arrepende – o que fazer agora?

Inevitável é não perceber a metáfora que grita nesse nome, nessa expressão. EVA. Eva se arrepende. Como a personagem bíblica, ela se arrepende do fruto do seu ventre, das expectativas depositadas naquele serzinho que chora o tempo inteiro. O que ela faz? Finge. Retira de si outra persona e vira a dona de casa, a mãe amável que faz biscoitos, confere a lição de casa e ensina a tabuada.

O problema é que Kevin finge também.

Pro pai, ele é o “filhão”, o “garotão alegre” e que “só precisa de um pouco de carinho, Eva!”. Com a mãe, ele é dolorosamente verdadeiro: rejeita o seio que o amamenta, a mão que o afaga e a voz que o repreende. Despreza tudo, absolutamente tudo. E o pior: ele é cruel. Assustadoramente cruel. Pequenas coisas começam a acontecer, várias delas, mas nenhuma parece ser culpa do menino. Eva percebe. O marido diz que é loucura, injustiça.

Carta a carta, essa mãe vai lembrando Franklin dos detalhes da infância, da adolescência de Kevin, das coisas que ela disse, das que deveria ter dito… Ela vai assumindo sua parte na culpa, apontando onde Franklin também errou e no final, dolorosamente, ela conclui: nunca gostei do meu filho.

Ninguém gosta de mães que “não gostam” dos próprios filhos.

Também não gosto muito dessas mães.

Eu tinha infringido a mais primitiva das regras, profanado o mais sagrado dos laços.

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imageedit_19_3377545386Aí está. A coragem de assumir os erros, os arrependimentos. Aquilo que a gente guarda bem escondido, como poeira velha embaixo do nosso tapete. Eva traz tudo à tona, tudo o que uma mãe, uma mulher, um ser humano nunca teria coragem de dizer. Ela diz, e de peito aberto. Parece que não há mais nada a perder.

Eu me rendo. Poderia passar o dia todo falando e não conseguiria mostrar pra vocês o quanto esse livro é incrível. Não é só sobre a mãe de um assassino, sabe? Vai além. Fala da hipocrisia nossa de cada dia, do falso perdão, das nossas insatisfações e da culpa. Da culpa dolorosa e do que a gente faz com ela. Comecei o livro achando bom, no meio me cansei um pouco dessa narradora egocêntrica e, no final, estava apaixonado pela sinceridade dela e pela força dessas páginas.

Quando o livro acaba, a sensação é de perfeição, de completude: a gente tá diante de uma obra-prima. Mais do que isso: levamos um tapa na cara. No meu caso, um tapa que vibra até agora. Dolorosamente.


Só para raros:

Vi o filme também.

As cenas são muito bem-feitas, bem filmadas. O tempo todo a cor vermelha persegue a mãe de Kevin, como um lembrete constante do que o filho fez e da dor que aquela história traz.

Ezra Miller [As Vantagens de Ser Invisível – post aquitá incrível como o Kevin: o desprezo no olhar, o jeito de se mover, tudo. Tilda Swinton faz uma boa Eva: fria, fisicamente parecida com a descrição do livro, mas muito unilateral. Senti falta da complexidade que a personalidade de Eva tem. Na verdade, se eu fosse usar uma palavra só pra definir o filme, seria essa: falta. 110 minutos não foram suficientes pra contar essa história.

Não me entenda mal: sei que filme e livro são formatos diferentes e é muito difícil condensar tudo pra fazer caber numa tela. Mas cara, não dá. O livro é INFINITAMENTE superior em todos os sentidos.

Enquanto o filme te impressiona, o livro te derruba, acaba com a tua raça e te faz pedir mais.

Eric

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As vantagens de ser invisível

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Lembra aquele dia em que você pegou o carro com seus amigos e saiu sem destino certo? Lembra do vento no teu rosto, da sensação de liberdade? Parecia que a noite, o vento e você eram uma coisa só e, porque eram todos um, você era eterno, e infinito.
Charlie também sentiu tudo isso e conta pra gente como foi em As Vantagens de Ser Invisível, livro de Stephen Chbosky. O personagem principal é um adolescente daqueles invisíveis, filho mais novo de uma família de estrelas: o irmão mais velho, astro do futebol e a do meio, brilhante e linda. Charlie não é burro, não é feio, nem é desajeitado. Mas também não é brilhante, lindo ou habilidoso. Ele é como aquelas plantas de consultório de médico, sabe? Tem seu valor, mas ninguém realmente repara.
WAliás, tô escrevendo esse texto no consultório médico e, enquanto tento me concentrar pra lembrar os detalhes da história, uma paciente de farda resmunga pra mãe: primeiro ano do ensino médio é o pior ano na vida de uma pessoa! – Queria que vocês tivessem ouvido o tom dela ao falar isso, o jeito de quem acabou de dizer uma verdade absoluta. Confesso que sorri e achei meio exagerado, mas entendo a menina. Entendo muito. Lembro do medo de enfrentar uma sala de no mínimo 50 alunos (quando as anteriores tinham no máximo 30), de pensar no vestibular pela primeira vez, de me preocupar com o futuro. Na verdade, a gente ta sempre se preocupando e pensando no futuro, mas, no primeiro ano do ensino médio, isso parece tão precoce. A gente nem sabe direito quem é e já tem que pensar no que vai ser.
Charlie tá passando exatamente por isso no livro de Stephen, os medos, a ansiedade, a sensação de não se ajustar. Tudo em sua vida parece meio fadado ao fracasso, quando ele conhece Sam e Patrick, um casal (de irmãos) prestes a se formar no ensino médio. Enquanto a maioria das pessoas na sala deles está preocupada com a admissão na faculdade, os dois escrevem numa revista independente e atuam numa peça-releitura de Rocky Horror Picture Show <3 Eles saem de carro à noite, vão a festas de verdade e parecem muito seguros de si. Sabe os adolescentes populares do teu ensino médio? Pronto, Sam e Patrick são o oposto: eles são aqueles desajustados, loucos por música, que se juntam, se entendem e vivem a vida sem se importar com a opinião dos outros.
Ao longo do livro, Charlie vira amigo dos dois, sai junto com eles, começa a conhecê-los de verdade e finalmente descobre: aquela segurança que os irmãos pareciam ter era, na verdade, uma resposta ao mundo, um grito de sobrevivência de quem foi muito magoado pela vida e precisou encontrar forças em si, descobrir e aceitar quem se é. Nesse momento, a gente percebe que Charlie também teve uma vida difícil e seu coração já foi muito magoado, mas tem um problema: ele ainda não encontrou forças. Nosso menino é fraco demais pra encarar seu passado e, por isso, não consegue seguir em frente. Em um dado momento, ele percebe que tem coisas que a gente não conseguem encobrir, feridas que são tão profundas que gritam, rompem as ataduras e se revelam ainda vivas, inalteradas.
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Todo esse texto pra dizer que o livro é ótimo. E o filme é incrível, é melhor.
Não sei se interfere no meu julgamento a questão de eu ter visto o filme antes de ler o livro. De todo jeito, apesar de ter achado prazeroso ler sobre Charlie, Sam, Patrick e conhecê-los mais profundamente, o fato é que realmente achei o filme melhor.
A adaptação é bem fiel ao livro, mas a mudança de formato faz muita diferença: a história editada ganha bem mais força; no filme, da pra ouvir as músicas lindas que o autor cita durante o texto; e o melhor: a atuação dos protagonistas é muito boa. Ezra Miller tá maravilhoso como Patrick, Emma Watson faz uma Sam incrível e Logan Lerman tá simplesmente perfeito como Charlie! O jeito baixo do olhar, a fala meio arrastada, o desespero latente: é realmente como ver o Charlie do texto em carne e osso. Todo o livro, na verdade, parece ganhar vida na tela e e impossível não se emocionar com isso.
Dito isso, me resta finalizar dizendo que As Vantagens de Ser Invisível não é só sobre adolescência, amizade ou futuro, é sobre ser. Sobre aquele momento em que a gente rompe com o passado e começa a viver a nossa vida. A nossa vida, não a do outro.
Recomendo muito. Em especial pra quem acha que, em qualquer idade, é possível crescer.
Tem no netflix aqui.

Só para raros:

YThere are people who forget what it’s like to be 16 when they turn 17. I know these will all be stories someday. And our pictures will become old photographs. We’ll all become somebody’s mom or dad. But right now these moments are not stories. This is happening, I am here and I am looking at her. And she is so beautiful. I can see it. This one moment when you know you’re not a sad story. You are alive, and you stand up and see the lights on the buildings, and you’re listening to that song and that drive with the people you love most in this world. And in this moment I swear, we are infinite.

Há pessoas que esquecem como é ter dezesseis anos quando fazem dezessete. Eu sei que tudo isso vai ser história algum dia e nossas fotos vão se tornar velhas fotografias, nós vamos nos tornar mãe ou pai de alguém. Mas nesse momento isso não é história. Está acontecendo. Eu estou aqui e estou olhando pra ela, e ela é tão linda, eu posso ver. É aquele momento único em que você sabe que você não é uma história triste. Você está vivo! Você fica de pé e vê as luzes e está ouvindo aquela música, no carro ao lado das pessoas que você mais ama no mundo. E nesse momento, eu juro, nós somos infinitos.

Eric