Especial Viagem

Especial VIAGEM – Suma

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Um dia a viagem acaba e a gente volta pra vida real

Fevereiro começou e, com ele, um desafio:

vamos tornar nossa realidade mais bonita, mais prazerosa?

Que a gente encontre pausas de leveza no nosso cotidiano de trabalho e estudo, e a que a vida possa ser mais doce em 2015! Posso dar um conselho? Deixa as malas pesadas no caminho e volta pra realidade sem nada nas mãos, com a cabeça cheia de felicidade.

O batente te espera, as obrigações não faltam, mas a gente tá aqui ;] e em 2015 vamos trazer muito mais amor pro teu cotidiano. Amor em forma de literatura, cinema e música.

Enquanto isso, que tal lembrar das viagens que o blog fez em janeiro?

Perdeu alguma coisa? Não se preocupa! Eu te conto pra onde a gente foi.


DESTINOS:

Lago Walden/EUA – ano novo começou, mas como faço pra fugir da minha vida?

Itália, 1327 – o mundo é melhor porque O Nome da Rosa existe

Itália, 1327 – se um dos seus personagens favoritos pudesse falar, o que ele diria?

Espanha – meu coração se perdeu nO Labirinto do Fauno

França – a Disney e sua obra de arte, o Corcunda de Notre Dame

O mundo – música boa fora do inglês, sim existe

Cidade de Deus – um dos filmes mais bonitos que o Brasil já fez

A estrada – música pra quem vai viajar de carro

✈

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Vou pegar o carro, vou sair pra rua

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Destino de hoje: A estrada

Às vezes te dá aquela vontade louca de largar tudo, pegar o carro e sair sem destino por aí?

Eu sei que é segunda-feira e você tá trabalhando, sei também que o trânsito desafia a paciência de qualquer um: como pensar em viajar de carro se a gente mal consegue chegar em casa a tempo pro jantar? Você tá certo, tá certa. Mas será que é impossível tirar prazer dos nossos percursos diários?

Eu acredito que não, por isso tenho uma proposta a fazer: vira a chave na ignição, põe o pé na embreagem, abre a nossa playlist. A gente acredita que música boa tem poder, então esquece os carros na tua frente, e os do retrovisor. Ignora quem se atravessa sem dar a seta e as motos que disputam o espaço na tua faixa.

Só dá play na música e deixa rolar.

Se você tiver ar condicionado, ótimo – verão tá de matar – mas, se não tiver, não se preocupa: “algumas músicas precisam de ar”. Então baixa as janelas, aumenta o som e vem curtir a estrada com a gente.

12 faixas – pop, rock, indie e músicas que precisam de ar: clica aqui.

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Eric

Leia mais: música e amor, em três fases

Um ciclo vicioso

Destino de hoje: Cidade de Deus, 2002

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A viagem de hoje não é das mais alegres, mas é muito boa. Não vai fazer você morrer de assassinado mas, provavelmente, vai doer.

Se me perguntarem sobre a trilha sonora do filme eu digo que, entre tantos outros sons, predominam os tiros. Os tiros são mais altos que as vozes, que os gritos de socorro, mais altos que os escrúpulos das autoridades, mais altos, muito mais altos… Como crianças mal-educadas que quando crescem ninguém mais segura… Este é o som de lá: Um lugar com todo tipo de gente, como qualquer outro. No entanto, gente esquecida e marginalizada. Gente que não teve direito a uma boa escola, como tantas outras gentes. Gente que não teve direito a ir com a certeza de voltar, como tantas outras gentes. Gente que foi jogada na Cidade de Deus.

Cidade de Deus pode ser considerado um dos melhores filmes brasileiros. Tem 12 anos, mas ainda é muito atual. Traz a história do local falando sobre os moradores, as suas origens, o que costumam fazer e o seu caráter. Com discussões válidas na nossa sociedade, abre os olhos e amplia os horizontes para tantas questões que, diversas vezes, passam sem perceber, ou simplesmente não damos a real importância, acreditando que existe uma verdade absoluta. E eu gosto da maneira como essas questões são levantadas, porque mais parecem que não se quer discutir, apenas mostrar que existem. Diferente, por exemplo, da corrupção mostrada em Tropa de Elite, Cidade de Deus pontua este fator, deixando claro que não é o único e sim mais um. É uma maneira de mostrar que existe lei na favela, existe corrupção, omissão e dois tipos de bandidos: os que estão naquela vida por crueldade e os que estão ali porque não tiveram escolha. Existem crianças metidas no tráfico porque são obrigadas, mas também tem criança metida no tráfico porque quer… Como resolver de maneira tão fácil a questão da maioridade penal, neste sentido?

“Eu fumo, eu cheiro, já matei e já roubei. Sou Sujeito homem.”

A frase acima é dita por um personagem que deve ter menos de dez anos de idade. E, como este, vários atores mirins são encontrados no filme segurando armas e fazendo absurdos… Mesmo sabendo que é ficção, este aspecto é um pouco desesperador… Quantas crianças anônimas estão metidas no tráfico de drogas todos os dias? Não sabemos e, muitas vezes, não queremos responder.

Eu gosto do narrador do filme, o personagem Buscapé (Alexandre Rodrigues) porque ele tem um olhar de quem sonha e luta pra escapar da favela e de tudo de ruim que ela traz. E acho interessante a maneira que eles expressam este sonho. O menino tem a cultura da favela, é malandro, esperto, mas também tenta sair dali e não se meter no crime. A principal mensagem do filme é dita na última cena, quando uma terceira geração passa a comandar a cidade de Deus: O ciclo continua.

Vale lembrar que Fernando Meirelles é um verdadeiro artista. Além dirigir Cidade de Deus, dirigiu também alguns episódios de Castelo Rá-tim-bum e a série de TV Cidade dos Homens, e, ainda, Ensaio sobre a cegueira. Foi produtor em O ano em que meus pais saíram de férias Antônia. E eu, enquanto não resenho, indico todos esses filmes porque são bons, de verdade!

Neide Andrade

Viaja com a gente!

Destino de hoje: O mundo

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Mais uma segunda de trabalho ou de estudo, e você aí de mau humor

Que tal fazer uma coisa diferente? Vamo viajar? Melhor: vamo viajar pelo mundo! Eu sei, a fatura das compras de natal já chegou. Mas calma que é por conta da casa e tu não precisa nem se levantar de onde tá sentado. Anota aí o material necessário:

✈ um assento confortável

✈ fone de ouvido

✈ paciência – sim, paciência

imageedit_21_9761861957Uma das críticas mais recorrentes que eu recebo – especialmente dos meus amigos pernambucanidade indie – é: Eric, você não ouve música brasileira. Sim, confesso que é verdade. Sei que nossa música é muito rica e admiro vários dos artistas daqui, mas se você olhar o player do meu celular só vai encontrar artistas de fora. Música em espanhol, francês, italiano, hebraico (!) e sim, inglês. Claro que tem uma ou outra coisa em português – beijo, Alcione! – mas não são as que eu mais ouço no dia-a-dia.

Disse tudo isso pra te fazer um convite: aproveita essa segunda-feira chata pra se livrar dos teus preconceitos! Ah, odeio música em espanhol. | Francês soa tão estranho. | Não dá pra entender nada do que ele tá cantando.

Pega o restinho da tua paciência nesse início de semana e ouve as músicas daqui de baixo. Mesmo que tu não entenda a letra, mesmo que teu instinto peça… pelo amor de Deus… Jorge e Mateus.

Resista!

Vem viajar com a mente, conhecer coisa nova:

♜ Os Azeitonas – Anda Comigo Ver os Aviões

Sim, português de Portugal é praticamente outra língua. E não, nem tudo é fado ou música folclórica. Confesso que eu tinha um preconceitozinho com o sotaque deles – especialmente cantado – mas minha amiga Lara me apresentou essa música há uns anos e eu achei tão lindinha. Sabe aquela canção que combina com biscoito de polvilho e fim de tarde? É ela.

♝ Coeur de Pirate – Francis

Ainda no clima fofura, me diga: como não esboçar pelo menos um sorriso com a delicadeza de Francis? Piano, uma vozinha delicada e um francês rápido e felizinho que não podia sair da França. Coeur de Pirate é o nome artístico de Béatrice Martin – uma canadense, de Quebec – e a voz dela é tão singela quanto o nome que escolheu pra si.

♗ Dalida – Je Suis Malade

Sabe Lana del Rey? Adele? Amy Winehouse? O estilo de música que elas cantam pode não ser o mesmo, mas o jeitinho vintage, a maquiagem, o sofrimento colocado na interpretação: tudo isso elas têm em comum. E é impossível dar play nesse vídeo de Dalida e não reconhecer um pouco de cada uma das três. Só que – veja bem – Dalida cantava nos anos 70. Então ela não se inspirou nessas meninas, ela era a inspiração. E que inspiração!

Sei que vocês provavelmente vão estranhar esse jeito de cantar – muito formal – e a falta das firulas e superproduções de hoje em dia, mas ela não precisa disso. Dalida era daquela época em que pra ser cantor bastava pegar o microfone e pôr a alma pra fora.

O vídeo faz muito mais sentido se você sabe a letra da música. Vê um trecho do que ela tá cantando:

Não quero mais viver a minha vida, tudo parou quando você se foi. Eu não tenho mais vida. E a minha cama, ela se transformou num cais.

Sentiu?

♞ Amaral – Te Necesito

Você é daqueles que ouve qualquer música em espanhol e já diz: “parece Rebelde“? Por favor, pare. =p A gente sempre tem preconceito com alguma coisa e muita gente, muita mesmo, tem abusinho de música em espanhol. Difícil explicar por quê. Minha teoria é a de que esse preconceito – como muitos outros – vem da falta de conhecimento mesmo. Não conheço música boa em espanhol, logo: música nesse idioma não presta.

Deixa eu te mostrar que não é assim.

Amaral é uma banda espanhola de dois integrantes principais: Juan Aguirre (tocando mil instrumentos) e Eva Amaral (violão e voz). A voz de Eva é boa, as músicas são muito bem produzidas e as letras são incríveis. Definir estilo é difícil, mas o que eu garanto é que o rótulo de pop-rock é muito pequeno pra abarcar Amaral. De verdade. Tem muito de poesia e de mistério nas músicas deles. Deixa eu me expressar melhor: sabe toda a música pobre de hoje em dia? Eles são o oposto. Pode esperar mais posts sobre essa dupla aqui no blog!

♘ Orishas – Represent Cuba (+ Heather Headley)

Sentiu falta da latinidade e sensualidade do espanhol? Toma! Orishas é uma banda de Cuba ☭ e Heather é uma cantora de Trinidad e Tobago ☼, junta os dois e dá o que? Sensualidade, caribe, malemolência. Essa música é uma delícia, só por ela já vale assistir Dirty Dancing 2 – Noites de Havana (sim, eu assisti o 1 e o 2 – me julgue). É aquele tipo de música que não dá pra dançar sozinho, precisa de outra pessoa; não dá pra dançar afastado, precisa juntar mais um pouco; não dá…

♚ Chiara Civello – Otto Storie | Problemi

Não sei se acontece com vocês, mas italiano é aquela língua que eu ouço e já vou me arrepiando… E como a gente ainda tá na vibe sensualidade, resolvi usar Chiara como exemplo perfeito do que a Itália representa pra mim: prazer e drama.

Otto Storie é aquele tipo de música com percussão marcada, baixo forte e um ritmo que te envolve. Toda a cadência que o italiano permite tá executada nessa música, e perfeitamente.

Mas e quando o amor não dá certo? E quando a entrega do começo parece que só serviu pra te desiludir? Aí você põe um vestido apertado e desfila sua dor pela avenida, cantando Problemi. (Música, aliás, feita em parceria com Ana Carolina):

♙ Música Tradicional – Yerushalayim Shel Zahav

E pra quem duvidou que eu tinha uma música em hebraico no celular: há! Jerusalém de ouro é grandiosa demais, daquelas canções que você ouve e se sente arrepiar inteiro. Minha mãe me conta que, quando visitou Jerusalém, subiu num lugar alto, de onde dava pra ver a cidade quase toda. Assim que o grupo dela chegou lá, o guia começou a tocar essa música e foi impossível não se emocionar.



 ☁ Senhoras, senhores, desembarque no portão 6 ☁

Faltou muita coisa na lista, né? Eu sei. Até conheço mais algumas bandas em cada uma dessas línguas, mas tive que escolher só duas de cada senão o post ficava gigante.

E você, é do tipo que só ouve música em português/inglês ou já se aventurou por outras línguas também? Me conta.

Boa semana pra nós!

[Chega logo, sexta]

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Eric

Leia mais: Suécia, essa delícia!

O Corcunda de Notre Dame – filme

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Destino de hoje: Paris/França, 1482

Você gosta de animação?

É daqueles que vão correndo pro cinema assim que a Pixar lança qualquer coisa ou é do time que se acha “adulto demais” pra isso? Confesso que faço parte do segundo grupo. Isso mesmo, sinto muito. Não é que eu ache animação uma coisa besta ou que eu me ache “inteligente demais pra perder meu tempo vendo desenho” (sim, tem gente que pensa assim). A questão é a seguinte: chorei com O Rei Leão, ri muito com Dori em Procurando Nemo, achei incrível a proposta de Wall-E, mas animação não é um gênero que me prende em especial. Nunca foi. Gosto de alguns filmes, admiro outros, mas não consigo me envolver tanto por aquela aura de fantasia, sabe? Terapia deve explicar.

Essa introdução toda foi pra vocês encararem esse texto com o mesmo espanto que eu: Eric. escrevendo. sobre. animação. – Sim. E mais: eu escrevendo sobre um dos filmes mais incríveis que assisti na vida e que, por acaso, é um desenho da Disney: O Corcunda de Notre Dame.

imageedit_17_5923395723Você deve conhecer a história, mas, de todo jeito, eu conto rapidinho: um bebê deformado é abandonado na porta de uma Igreja, a catedral de Notre-Dame, em Paris. Um juiz eclesiástico chamado Frolo resolve criar o menino – não por compaixão, mas por culpa – e dá a ele o nome de Quasímodo, que significa “Meio Homem”. E essa criança cresce assim: tratada com indiferença e ouvindo todo dia que não passava de um monstro, um deformado que um dia foi acolhido pela bondade do seu mestre Frolo, a quem deve a vida.

Quasímodo mora só, na Igreja, observando toda a Paris de cima e sabendo que sua condição nunca vai permitir que ele viva entre as pessoas normais. Mas o menino é bom, não se queixa e se sente muito grato ao seu mestre, alheio à indiferença com que ele o trata.  Os anos vão passando, Quasímodo se torna um jovem e, um dia, o desejo de voar e de viver tocam o coração do rapaz e ele resolve descer das torres de Notre-Dame para participar da alegria de um festival de camponeses.

Nesse dia, ele vê como o mundo pode ser mau. E, ao mesmo tempo, conhece o amor: uma das razões mais bonitas para se viver. Mas será que ele tem força pra disputar com outro o amor de uma mulher? E ela, será que consegue ver quem mora atrás daquele rosto deformado? Isso eu não conto, e nem importa, porque o filme vai além dessas questões. Muito além.

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Eu nunca me encaixaria lá fora, eu não sou… normal

Durante as duas horas em que convivemos com nosso amigo corcunda, ele parece nos perguntar o tempo todo: Você já sentiu como se não pertencesse a esse mundo?

É como se tudo parecesse mau demais.

Em 1989, Renato Russo dizia: “Quero me encontrar mas não sei onde estou, vem comigo procurar algum lugar mais calmo. Longe dessa confusão, e dessa gente que não se respeita. Tenho quase certeza que eu não sou daqui!” Nada mudou. As pessoas ainda se respeitam muito pouco, o mundo anda confuso e tão, tão complicado. E o pior: na maior parte dos dias, a gente vive nossa vida alheio a tudo isso. Aquela pessoa pedindo dinheiro na rua – é tão mais fácil fingir que não vi | Uma conversa entre amigos – é tão mais fácil falar mais de mim, falar só de mim | O diferente – é tão mais fácil olhar com desdém, com preconceito.

Difícil é ter empatia, difícil é ser humano.

O corcunda ensina a gente que é normal ser diferente. É normal se sentir desajustado nesse mundo. Estranho é quem se adapta completamente, quem se sente em casa. Estranho é quem olha ao redor e não sente nada.

Mais do que a corrupção da Igreja, as dificuldades dos excluídos e a fraqueza do homem diante do seu desejo. Pra mim, o corcunda fala de duas coisas: empatia e .

Da empatia eu já falei.

imageedit_11_7160618953E a fé se revela numa das cenas mais lindas desse filme, provavelmente uma das mais tocantes da minha vida. Esmeralda, perseguida na rua por ser cigana e  “feiticeira”, entra na Catedral e clama santuário: na época, a garantia de que não poderia ser presa lá dentro.

Respeitosamente, ela observa as pessoas que fazem suas orações. Começa a caminhar por Notre Dame – que, em francês, quer dizer “Nossa Senhora” – e vê a imagem da santa na parede. Os acordes de um piano começam a tocar e Esmeralda se dirige à imagem. Numa conversa simples, ela pede ajuda. Pede não por ela, mas pelos seus amigos, por aqueles que estão na rua e precisam de pão, de amor.

Enquanto canta, ela olha pro céu, esperando encontrar lá em cima alguém que se importe, alguém a quem chamar de amigo:

Tocante demais essa música. Tá entre as minhas cinco ~ músicas de filme ~ favoritas. A letra é simples, mas suficiente.

É isso: a gente precisa acreditar.

Precisa acreditar que as coisas podem ser melhores, que as pessoas podem ser boas. A gente precisa acreditar que amanhã vai ser melhor e que, se um dia a gente cair, uma mão amorosa vai nos ajudar a ficar em pé de novo.

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Só para raros:

O Corcunda de Notre-Dame é considerado um dos maiores riscos que a Disney já tomou. Por duas razões.

A primeira é que em 1994 – só dois anos antes – a empresa tinha lançado seu sucesso absoluto de bilheteria e crítica: O Rei Leão. Como competir com isso? A segunda, e mais importante, é que o público da empresa era basicamente composto por… crianças, e o Corcunda não é um filme feito pra crianças. Claro que tem personagens carismáticos, cenas divertidas e tal (é Disney!), mas o todo dele é sombrio demais e cheio de temas adultos.

Crítica ao clero, injustiças sociais, a fraqueza do ser humano diante do seu desejo sexual – tudo isso é tema do Corcunda. A complexidade da temática se estende ao visual e é impossível não se encantar com a riqueza dos desenhos. A catedral de Notre-Dame é representada em detalhes: a fachada, os santos, os vitrais, até a luz das velas é perfeita.tumblr_n541pyXb6g1s693wso1_500

Por último, a trilha sonora é o oposto do que poderia se esperar de um filme da Disney. Não é pop, contagiante, nem dá vontade de cantar junto. Para contar a história do Corcunda, o produtor usou do mais inusitado: música erudita. Música erudita numa animação! Parece louco, mas funciona perfeitamente com a atmosfera do filme. As músicas têm a letra direta, sem floreios, mas guardam toda aquela grandiosidade da música clássica: os coros, o canto gregoriano, os agudos cheios. Não é o tipo de música que você vai querer ficar ouvindo sempre, mas – ao mesmo tempo – não dá pra ouvir sem se arrepiar, é incrível de verdade.

Vê um exemplo aqui (especialmente a partir de 1:27):

Todo esse risco assumido rendeu ao estúdio uma bilheteria inferior à de seus maiores sucessos. Mas esse foi um preço pequeno demais a pagar diante da obra de arte que esse filme é. Tá certo, sei que parece exagero meu – e pode até ser -, mas repare: o Corcunda tá no Netflix! Então proponho um desafio: assiste e volta aqui pra gente conversar sobre ele! Daí tu me conta se eu exagerei ou não.

E aí, vai encarar o desafio?

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* Desculpa a quantidade de gifs. Não resisti!

Eric

O Labirinto do Fauno

Destino: Labirinto na Propriedade do Capitão Vidal, Espanha, 1944

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No contexto da Guerra Civil Espanhola, Ophélia viaja com a sua mãe, que acaba de se casar com o temível Capitão Vidal pra escapar das mazelas da viuvez. Tudo isso porque o seu primeiro marido e pai de Ophélia morreu durante a guerra. A mulher está prestes a dar a luz e não passa nada bem.

Ophélia não aceita o capitão como pai e cria uma realidade paralela para fugir das garras do padrasto. E é a partir desta criação que o filme se desenrola: uma hora na realidade, outra na fantasia, com momentos em que as duas se misturam e tudo flui de maneira maravilhosa.

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No seu mundo paralelo, a menina é a reencarnação de uma princesa cujo reino é fabuloso, cheio de criaturas fantásticas… Ela fugiu da sua terra há milhares de anos. O seu pai abriu portais por todo o mundo para encontrar a sua filha perdida. O último portal é um labirinto antigo nas dependências do Capitão Vidal, guardado por um fauno que, definitivamente, não é deste mundo!

A princesa só pode retornar ao seu reino se cumprir três tarefas para provar que não se corrompeu no mundo dos humanos. Ela deve ser corajosa, obediente e justa. E a justiça deve ser maior que todas as coisas, até mesmo que a sua vontade de viver um conto de fadas.

No universo real, ela é completamente apaixonada pelos livros e vive um verdadeiro inferno na sua casa. O capitão é um homem mau e não quer saber de mais ninguém, além do seu filho, que a mãe de Ophélia espera. A menina sofre bastante e se joga nas histórias, acredita nelas e cria a sua própria.

O enredo é um dos mais criativos, emocionantes e apaixonados que já vi, de cair uma lágrima do lado do sorriso de compaixão. Mentira, chorei litros!

A partir dessas características, eu vou explicar porque vale a pena assistir este filme.

  1. Criatividade

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A maneira como a menina enfrenta o mundo é maravilhosa! E chega
a ser fantástica. Eu nunca conheci uma história parecida, tão bem contada, nem que se misturasse tão bem com o contexto histórico, com a fantasia. Vale a pena também falar das maquiagens extremamente bem feitas (que garantiu um óscar), diferentes, surreais quando precisa e reais também quando precisa. Como estamos acostumados a filmes brasileiros ou americanos, o toque espanhol fez a diferença, inclusive nos atores que, pra mim, eram desconhecidos. O filme mostrou muita novidade, achei fantástico isso.

  1. Emoção

A protagonista está o tempo inteiro vivendo aventuras que, pra gente, pode parecer besteira quando contada, mais uma mocinha em apuros com um simples lobo mau, mas acredite: Dá nervosismo, você quer gritar “Sai logo daí, Ophélia!!!!” “Não faz isso, menina burraa!!!” etc. O conjunto do filme faz com que a gente sinta também as dores dela e cada sofrimento faz chorar, cada descoberta provoca curiosidade. Essas coisas que só filme bom faz.

  1. Paixão

O filme, como eu já disse, nos deixa completamente a mercê dos sentimentos. Então o nosso coração fica apertado, especialmente. Porque, neste sentido, O labirinto do Fauno é um drama covarde, de péssima qualidade. Daqueles que nos deixam mal só de assistir. E pra quem diz que isso é besteira, eu digo, quantas vezes precisar: Não é! Porque pra mim e pra qualquer pessoa que assistir Ophélia, aqui ou em outro mundo, reina soberanamente de maneira corajosa, obediente e justa. Os seus súditos a amam e são completamente apaixonados por essa menina. Tenho certeza que, no fim do dia de trabalho, ela lê histórias pra todos eles.

Você nunca viu nada igual! E nem poderia ver… Ou você imaginava que, no meio da Guerra Civil Espanhola, uma menininha órfã poderia ser coroada? É um filme maravilhoso e, diferente de O nome da Rosa, pouca gente conhece. Vale a pena!

Essa música vai pra minha menininha que, junto com Zezé, do pé de laranja lima, fizeram – e fazem – uma diferença danada na minha vida! <3

     

Neide Andrade

O nome da Rosa

Destino de hoje: Norte da Itália. 1327

A primeira vez que fiz esta viagem foi em 2012, por pura obrigação… Ela estava no programa do vestibular. Mas gostei tanto, que refiz o roteiro pela terceira vez.

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É uma aventura cheia de frio na barriga, com um cenário lindo, numa época misteriosa. Cultura diferente, festa estranha com gente esquisita.

O jovem noviço  Adso de Melk (Christian Slater) nos conta uma história de mistério, amor e injustiças. O nome da rosa é um filme ambientado com o seu tempo e cenário: Norte da Itália, 1327. Baseado no romance italiano de Umberto Eco. Um mosteiro no Norte da Itália, cujo nome não deve ser mencionado por questões de cautela, abriga grandes segredos que deixam os seus moradores atordoados por acreditarem – ou não – na presença do demônio ativa naquele lugar.

Assassinatos estão ocorrendo no mosteiro e, neste contexto, o monge franciscano e intelectual William de Baskerville (Sean Connery) chega ao lugar, assessorado por Adso, seu discípulo. Contrariando muitos religiosos, William investiga os crimes e descobre que a principal causa é manter o segredo de livros de uma das maiores bibliotecas da Igreja, abrigada naquele mosteiro.

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O velho contraste entre a fé e a razão, a velha crítica à Igreja e à sua característica alienadora ganham espaço, mas também tem romantismo e, de vez em quando, um toque de graça com as trapalhadas da juventude do noviço Adso e a sabedoria do seu mestre William de Baskerville. O filme é apaixonante porque nos dá emoção, nos causa raiva por causa das injustiças e corrupções do clero, nos desperta sentimentos como piedade, curiosidade e até frio na barriga.

É uma crônica maravilhosa da vida dos religiosos medievais, com todas as críticas que foram feitas à Igreja ao longo do tempo. É uma aula de história de maneira romanceada, repito: Vale a pena!

Neide Andrade

Norte da Itália, 1327

Não foi a primeira vez que fiz aquela viagem, então eu já estava calejado. Já conhecia o sistema, já sabia o objetivo deles. Entendia tudo aquilo e tinha, dentro de mim, uma raiva guardada, uma certa amargura em não poder fazer nada. E, dentro da minha sabedoria, que demorei a vida toda para adquirir, entendi que só deveria falar quando me fosse pedido e, ainda assim, deveria concordar com o que afirma a Igreja e a Santa Inquisição.

Uma vida inteira dedicada. Nenhuma mulher, nenhum amor, nada de filhos. Um companheiro: Adso, cujo pai me confiou a sua educação. O meu sonho é ver justiça. Me enoja a maneira como o clero é bom com os pobres, jogando restos de comida no chão para as pessoas, como se fossem porcos atrás daquela lavagem. Trocando uma galinha magra e doente pelas carícias de uma mulher no mesmo estado. Eu tenho que suportar, desde sempre, esta mania imunda de guardar e proibir qualquer pensamento diferente, qualquer confronto de opinião. Até quando seremos tão atrasados? Até quando o nome de Deus será colocado no meio disso? Até quando verei assassinos matando em nome de Deus? Até quando terei que ficar calado, com pensamentos marginalizados? Parece mais que a verdade insiste em não aparecer.

É difícil, para mim, ensinar a Adso toda essa cautela. A juventude dele parece gritar, espernear. Mesmo crescendo e amadurecendo, ele ainda é jovem. E a juventude grita mais alto que qualquer coisa quando se tem menos de trinta anos. Eu sabia que Adso poderia me dar problemas, mas confiava nos meus ensinamentos e confiava que ele seria fiel a mim. A minha confiança estava certa. Em meio aos perigos daquela viagem, em meio a todas as circunstâncias, aquele bambino nunca me abandonou e sofreu grandes riscos por minha causa, um verdadeiro filho que a vida me deu.

Quando chegamos ao mosteiro beneditino, no norte da Itália, estávamos em novembro de 1327. Os costumes daqueles monges eu já conhecia: Homossexualidade de um, passado herege do outro, promiscuidade de mais um, arrogância, intolerância, falta de piedade. Sei que, por ser um franciscano, não deveria me acostumar. Mas aquilo tudo, para mim, já era tão normal, que quando Adso se surpreendia, por exemplo, com a maneira como eles tratavam os pobres, eu já explicava pra ele com a maior naturalidade do mundo. Eu conhecia aquela realidade há muito tempo, não tinha como negar.

No entanto, o que mexia comigo, de verdade, era a maneira dominadora como o clero manuseava um tesouro incalculável que faziam questão de esconder, por saber a liberdade que traria para a humanidade. Livros de grandes filósofos, como Aristóteles, estavam escondidos naquele local. Aquele mosteiro era famoso por abrigar uma das maiores bibliotecas de toda a cristandade e, confesso, a esperança de poder ler cada um daqueles pergaminhos me levou até ali.

Aquele conteúdo não poderia passar despercebido pelas gerações, precisava ser conhecido! Pessoas morreram e mataram por ele. Eu precisei lutar por aquelas informações, precisei me arriscar por elas… Eu tinha direito àquele conhecimento, a humanidade tinha! E fiz o que meu coração mandou. Meu comportamento foi de um maluco com vinte anos, mas consegui uma parte daqueles escritos.

Espero que, um dia, você também possa fazer essa viagem. Desvendar as mortes e os seus verdadeiros motivos. Exorcizar o demônio que, provavelmente, ainda existe na mente de muitos monges que estão ali. Fui louco, mas valeu a pena cada uma das minhas loucuras. A minha vida teria valido a pena, se fosse preciso!

William de Baskerville

Leia mais: O nome da Rosa

Walden, ou “vamos fugir”

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Destino de hoje: Concord, Massachusetts/EUA, 1854

Mais um ano começa.

Mais uma vez a gente promete que vai ser diferente, que vai fazer diferente.

Só que vem a primeira segunda-feira do ano, a primeira sexta. Vem o primeiro fim de semana e a segunda-feira seguinte a ele. Continua difícil acordar de manhã, encarar a mesa de trabalho e o telefone, o caderno de questões e a pilha de apostilas. Tudo parece urgente! O futuro é agora. Tem que estudar, tem que ler, tem que passar, tem que ser o melhor. Tem que ter sucesso, tem que ter dinheiro.

Parece familiar? E se eu te contar de um homem que largou todo esse mundo – e tudo o que tinha na vida – pra viver sozinho… na mata? Louco, né? Foram dois anos de isolamento, vivendo perto de um lago [esse aqui], numa cidadezinha chamada Concord, em Massachusetts/EUA. Essa experiência rendeu ao escritor H. D. Thoreau o incrível Walden, ou A vida nos Bosques, publicado em 1854.

O que esse livro velho escrito por um louco tem a ver com você? Ouve a justificativa dele:

14205782374124Fui para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se poderia aprender o que ela tinha a me ensinar, em vez de – quando morresse – descobrir que não tinha vivido. Não queria viver o que não era vida, viver é tão caro! (…) Queria viver profundamente e sugar a vida até a medula, viver com tanto vigor (…) que eliminasse tudo aquilo que não fosse vida. [95]

Parece absurdo viver assim, comendo o que se planta, numa cabana feita com as próprias mãos? Eu sei. Mas repara: a gente também vive de um jeito absurdo. Se o dinheiro, um dia, foi instrumento pra que conseguíssemos o que queríamos, hoje nós somos o instrumento e o dinheiro é tudo o que a gente quer. “Os homens se tornaram os instrumentos de seus instrumentos. O homem independente que colhia os frutos quando estava com fome virou agricultor; aquele que se abrigava sob uma árvore agora tem uma casa para cuidar.” [47]

lonely-old-womanEm 300 páginas, Thoreau nos mostra o abismo entre o que a gente precisa pra ser feliz e o que a gente acha que precisa; fala sobre a vida que tinha antes, e as escolhas que fez; sobre as pessoas à sua volta e a sociedade da sua época; fala do silêncio, da leitura, dos animais, da solidão; fala da felicidade. Tudo isso de um jeito fácil, objetivo. Não tem floreios de escritor aqui: é só um bom amigo que aconselha a gente, baseado em seu exemplo.

O livro vai acabando e é inevitável não pensar: será que eu teria coragem? De sumir e largar as coisas que eu tenho assim, de uma hora pra outra? Tudo o que Thoreau diz é bonito e parece tão puro, tão simples. Mas nem ele conseguiu viver desse jeito por mais de dois anos! Como conceber uma vida assim: tão seca, tão sozinha?

Chega o último capítulo e, com ele, a resposta pra nossa pergunta (e o melhor momento do livro):

Deixei a mata por uma razão tão boa quanto a que me levou para lá. Talvez me parecesse que eu tinha várias outras vidas a viver, e não podia dedicar mais tempo àquela. É notável a facilidade e a insensibilidade com que caímos numa determinada rotina, e construímos uma trilha batida para nós mesmos.

É isso! Não é preciso fugir pra um lago no meio do mato, nem parar de fazer as coisas que te dão prazer. Ter uma rotina, dinheiro, buscar o sucesso não é errado. Errado é se deixar cegar por tudo isso e parar de viver de verdade.

Errado é chegar no leito de morte e pensar: todos esses anos… e eu não vivi.

É tradição desejar algo ao outro sempre que um ano começa, e é isso que eu te desejo: que você viva muito nesse ano novo!


Personalíssimo (só para raros):

Sim, conheci Thoreau através do incrível Sociedade dos Poetas Mortos. [Se não viu esse filme, corre pra ver] Me apaixonei pelo Capitão John Keating e por cada um dos alunos daquele colégio interno. Tudo o que eu achei sobre a história e a trilha sonora, conto num post logo menos, mas quero lembrar a vocês uma cena em especial. Aquela em que o Capitão anda lentamente, em frente ao mural de fotos, sussurrando para os alunos:

Carpe. Carrrpe. Carpe Diem. Seize the day, boys. Make your lives Extraordinary!

Como esquecer?

E na cena de abertura da Sociedade, lembra do texto que eles declamam? É de Thoreau sim, mas adivinha de que livro dele…

I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived – H. D. Thoreau, Walden.

Eric

Pelas ruas que andei

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Segunda semana de janeiro e cá estamos nós, prontos para embarcar em um roteiro inesquecível e emocionante. O nosso próximo especial mostrará viagens, histórias e aventuras por lugares maravilhosos, épicos ou não.

Vamos conhecer tudo sem sair do canto, mergulhando em um livro ou em um filme, ouvindo uma boa música e relaxando muito no sofá, na rede ou durante o percurso do ônibus. O portal é bem aqui, vamos logo! ;]

A propósito, ainda é tempo: feliz ano novo!

Eric e Neidinha