Especial mulher

Especial mulher: suma

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É importante que comecemos a planejar e sonhar um mundo diferente. Um mundo mais justo. Um mundo de homens mais felizes e mulheres mais felizes, mais autênticos consigo mesmos. E é assim que devemos começar: precisamos criar nossas filhas de uma maneira diferente. Também precisamos criar nossos filhos de uma maneira diferente.

Nós ensinamos as garotas a se retraírem pra se tornarem menores. Nós dizemos às garotas: “Você pode ter ambição, mas não demais. Você deve buscar ser bem-sucedida, mas não tanto, senão você vai ameaçar os homens.” Nós ensinamos as meninas a se verem como concorrentes, não por empregos e conquistas – o que eu acho que seria algo bom – mas pela atenção dos homens. Nós as ensinamos que elas não podem ser dotadas de sexualidade, como os meninos são.

Feminista: pessoa que acredita na equivalência social, política e econômica dos sexos.

[Chimamanda Ngozi Adichie, em “Sejamos Todos Feministas”]


TEXTOS:

O que 50 tons de cinza tem a ver com a minha vida (e com a sua)?

5 músicas pra aprender a ser mulher

Fim do império: as mulheres do comendador

A imagem do que sou: Mulan – o filme

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A imagem de quem sou

Era uma vez uma menina desengonçada, aquela ali – todos sabiam – nunca iria arrumar um casamento. Não conseguia se arrumar, nem mesmo se comportar, mal parecia uma mulher. No dia em que todas as moças da cidade foram à casamenteira, lá estava ela, mas óbvio: Não agradou a megera. Não adiantava esperteza, nem grilo falante, nem mesmo todo o esforço da família, Mulan seria uma desonra para os seus pais. Nunca arranjaria um marido, toda a China saberia que ela não serve pra nada, que é uma mulher sem dono e sem filhos.

Será?

mulanO filme Mulan foi produzido pela Disney em 1998, baseado em uma lenda chinesa. Não se sabe, ao certo, se a mulher existiu na realidade, mas – existindo ou não – é considerada, até hoje, como um exemplo de coragem, determinação, amor e, acima de tudo, ideologia. Na China da época (século VII), as mulheres tinham que aprender a conquistar um marido e mulher bem casada era a maior honra que uma família chinesa poderia ter. Um certo dia, o exército dos Hunos invade a China, apesar da muralha, e um homem da cada família seria obrigado a ir para guerra. O pai da nossa protagonista, Fa Zhou, era o único homem dos Fa, mas já trazia sequelas de outra guerra, era um alvo fácil em um campo de batalha e a moça, apesar de desajeitada e sem muita inteligência aparente, se disfarçou de homem durante toda a guerra para salvar a vida do pai.

Com curvas ou músculos, Mulan foi o melhor homem da China e voltou pra casa recebendo saudações honrosas até mesmo do imperador. O filme também mostra um noivo maravilhoso para ela: o capitão Shang. Mas ela não volta submissa como a cultura manda, os dois voltam parceiros, planejando as próximas missões e com respeito mútuo. O amor dos dois foi além da posse de alguém, além das honrarias obrigatórias e isso foi lindo! Eu gosto desse filme porque mostra resistência ao sistema extremamente machista, mostra amor pela família e coragem em fazer diferente. Mostra, ainda, a mudança que se pode proporcionar fazendo algo de bom. Mulan é diferente da maioria dos filmes da Disney porque rompe com a fórmula princesa + príncipe encantado. É uma história mais palpável – embora a chance de acontecer seja mínima – mas o público feminino consegue se encontrar mais em Mulan do que na Branca de Neve, por exemplo. Foi um filme necessário, que é atual até hoje.

A trilha sonora é fantástica, como a maioria dos filmes da Disney. As músicas acompanham as cenas e, na maioria das vezes, revelam sentimentos e fazem uma diferença danada na narrativa.

Neide Andrade

5 músicas pra aprender a ser mulher

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“Não se nasce mulher: torna-se.”

Simone de Beauvoir ousou dizer essa frase em 1949, no seu livro O Segundo Sexo. Para ela, observar os genitais de uma pessoa pra falar de gênero era muito pouco: ser mulher envolveria muito mais do que ter uma vagina. Desde muito cedo há brincadeiras de menina, brinquedos de menina, comportamento de mocinha – uma série de regras que vão moldando a pessoa com os anos e a enquadrando em determinados padrões ou papéis. Então, é impossível deixar de reconhecer que a sociedade tem um papel reservado pra mulher, um papel que ela precisa desempenhar.

Mas e quando a carapuça não serve? E quando o padrão te mutila enquanto pessoa? – Você deixa de ser considerada mulher?

Muito já foi conquistado por aquelas que saíram às ruas. Hoje vocês podem votar, ser votadas, usar minissaia, ser responsáveis por seus próprios atos. Mas ainda falta uma coisa essencial: o respeito. Respeito não só pra mulher que se encaixa perfeitamente naquele papel que a sociedade lhe impõe, mas pras que são diferentes, que têm vontades diferentes.

Não há duas pessoas idênticas nesse mundo, todos os homens não são iguais e as mulheres têm diversos tipos de corpo, de mente e de ideologia. Aceite isso.


5) JoJo – Too Little Too LateVocê não tem que se diminuir pra que alguém te ame

Com certeza essa música já esteve no seu mp3. Pode dar play e deixar aquela lágrima de saudade rolar pelo seu rosto! hahah A coisa aqui é simples: você se entregou naquele relacionamento, deixou de ser quem é, diminuiu-se. Tudo isso pra ter o amor daquela pessoa. Nada adiantou e, tempos depois, ela volta… E aí? Como lidar com isso?

Jojo diz numa frase: é tarde demais. Não é dela que o cara gosta, ele gosta do jogo. E isso simplesmente não é o bastante. In letting you go, I’m loving myself.

4) Tina Turner – Proud Mary | Você pode ser quem você quiser

Foi o Creedence Clearwater Revival que escreveu essa música em 1969, mas dois anos depois Tina Turner a toma pra si e torna sua versão infinitamente mais conhecida do que a original. A letra fala de emancipação, de quando você sai de casa, larga aquele emprego miserável e refaz sua vida do zero. Tudo pra ser quem você é.

Left a good job in the city | working for the man every night and day | And I never lost one minute of sleeping | Worrying ‘bout the way things might have been.

3) Beyoncé – ***FlawlessAceite quem você é e aprenda a se amar por inteiro

Eu tenho uma amiga (alô Manu) que vive dizendo como ***Flawless é estranha: alguém aí já viu uma música que tem um discurso no meio? Certo, tem aquelas em que o próprio cantor fala umas coisas jogadas, mas você já ouviu um discurso aleatório inteiro inserido no meio de uma música? ***Flawless é assim e deixa eu te dizer por que isso funciona.

A letra fala de empoderamento, de encontrar o próprio poder. O mundo vive dizendo que você é gorda demais, branca demais, negra demais, crespa demais, velha demais e Beyoncé simplesmente afirma: você é perfeita, você já acorda perfeita. E olha: perfeição aqui não significa ausência de defeitos, mas completude. Você é assim, como é. Ame isso, ame quem você é, com todos os seus defeitos.

Como um complemento perfeito da mensagem da cantora, a filósofa Chimamanda Adichie diz no seu discurso:

We teach girls to shrink themselves to make themselves smaller. We say to girls: “You can have ambition but not too much. You should aim to be successful but not too successful otherwise you will threaten the men.” Because I am female I am expected to aspire to marriage, I am expected to make my life choices always keeping in mind that marriage is the most important. Now marriage can be a source of joy and love and mutual support but why do we teach girls to aspire to marriage and we don’t teach boys the same? We raise girls to each other as competitors not for jobs or for accomplishments – which I think can be a good thing – but for the attention of men. We teach girls that they cannot be sexual beings in the way that boys are. Feminist – the person who believes in the social, political, and economic equality of the sexes.

Em tradução livre: Nós ensinamos as garotas a se retraírem pra se tornarem menores. Nós dizemos às garotas: “Você pode ter ambição, mas não demais. Você deve buscar ser bem-sucedida, mas não tanto, senão você vai ameaçar os homens.” Porque eu sou mulher, espera-se que eu queira me casar, espera-se que eu faça minhas escolhas na vida sempre tendo em mente que o casamento é a mais importante delas. O casamento pode ser fonte de alegria, amor e apoio mútuo, mas por que nós ensinamos as garotas a ansiar pelo casamento e não ensinamos aos garotos o mesmo? Nós ensinamos as meninas a se verem como concorrentes, não por empregos e conquistas – o que eu acho que seria algo bom – mas pela atenção dos homens. Nós as ensinamos que elas não podem ser seres dotados de sexualidade, como os homens são. Feminista – pessoa que acredita na equivalência social, política e econômica dos sexos.

2) Cyndi Lauper – Girls Just Wanna Have Fun | Não é errado querer se divertir!

Melhor clipe, sim ou claro? hahah Aqui Cyndi diz uma coisa simples, mas profunda: as mulheres querem se divertir. Nos anos 80 era comum ver as mulheres em casa, tomando conta dos filhos – sua vida girando em torno daquelas pequenas criaturas. O homem casava com aquela mulher bonita, tomava ela pra si e a afastava do mundo. Às vezes, anos depois, a personalidade minguava, o riso ia morrendo… Cyndi diz: eu não quero ser escondida, eu quero ser aquela que anda na rua, sob o sol.

I come home in the morning light my mother says “When you gonna live your life right?” | Oh mother dear we’re not fortunate ones, oh girls they wanna have fun | When the working day is done | girls just wanna have fun.

1) Aretha Franklin – Respect | Você sabe que merece respeito, então comece a exigi-lo!

Em plenos anos 60, Aretha toma uma música em que um homem pede respeito e grita com a sua voz gigante: R-E-S-P-E-I-T-O, eu é que quero isso. Chega de humilhação, de se sentir menor, de ser desconsiderada, feita de vítima, enquadrada em modelos que me sufocam!

A resposta foi o primeiro lugar na lista das mais ouvidas Billboard Hot 100, em 1967.

Como eu disse no começo, muita coisa mudou, mas o que persiste é uma demanda só.

Respeito pra você mulher, independente da simetria do seu rosto, da agudeza da sua ideologia ou do tamanho da sua calça.

Eric

50 tons de cinza – o filme

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Sim, nós assistimos.

E, ao contrário do que a maioria dos blogs vêm dizendo, esse filme vale o ingresso.


Alguém não conhece a história? 5O Tons de Cinza foi baseado em um livro de mesmo nome – cuja qualidade, aliás, é bastante criticada – e conta a história de um casal: Anastasia (Ana), moça sem nenhuma graça, em vias de concluir o ensino superior e Christian Grey, jovem milionário, poderoso e cheio de mistério. Ana consegue de alguma maneira atrair o interesse sexual desse homem e ele a convida a ingressar no seu mundo particular, onde sexo é submissão (da parceira) e carinho é feito com chicote.

Em resumo, é isso. Confesso que não li o livro, então não me sinto à vontade pra criticá-lo. Mas o filme eu vi, e é dele que a gente vai falar nesse post.

Anastasia (interpretada por Dakota Johnson) é retratada desde o começo como uma mulher sem nenhum atrativo: as roupas são apagadas, o cabelo tá sempre bagunçado e a fala é quase um sussurro, combinando com os olhos baixos. Christian (Jamie Dornan) é o oposto perfeito: também jovem, mas já dono de empresa e milionário. Enquanto Anastasia fala baixinho e se confunde com o plano de fundo, Christian atrai olhares, flerta abertamente e impõe suas vontades a todos os que o cercam.

Os dois se conhecem. Ela se apaixona e ele, a princípio, não. Enquanto ela quer encontrar o amor naquele homem, o que ele procura é uma parceira submissa, pronta pra atender os seus desejos e expor a pele às suas chicotadas.

No decorrer do filme, Ana vai conhecendo aos poucos o universo dos instrumentos de tortura. Há todo um código, toda uma ética própria. Qual vara usar, como ser amarrada, onde se posicionar, quais restrições seguir: tudo é preciso e colabora pra proporcionar o máximo de prazer… a ele. E é aí que o filme se torna interessante. Quando a gente percebe que, apesar de Ana sentir prazer com algumas daquelas brincadeiras, o foco delas é sempre Christian. Quando ele desliza a mão pelas curvas dela e começa a deixar a pele branca marcada, isso pouco importa – o corpo dela pouco importa. A mulher é só um objeto, um brinquedo estimulante que se quebra aos poucos pra dar mais prazer.

Eric, você tá me dizendo que é ruim apanhar sem querer e que é errado se sujeitar à vontade do outro só pra manter um amor que não existe? | Sim, tô. | Mas isso não é extremamente óbvio? – Aí é que tá… será? Será que é tão óbvio assim? Claro que o caso de Ana e Christian é extremo, óbvio, caricatural mesmo, mas e o seu último relacionamento? Ele estava tão longe assim da essência dos 50 tons?

Lembra quando você ligava pra ele o tempo todo pra dar satisfação? Quando não podia ter amigos homens ou mesmo sair sem ele estar presente? Lembra daquelas decisões que você deixou de tomar porque ele “parecia tão seguro” e você “confiava nele“? Pois é. Você acha a história de Anastasia ridícula, mas também já sufocou sua vontade pra “fazer ele feliz”. A quantos lugares você já deixou de ir? Quantas pessoas deixou de conhecer e pior: quantos amigos e amigas perderam esse status e voltaram a ser apenas “conhecidos”?

Foi triste passar duas horas sentado naquela cadeira e ver cenas em que a mulher simplesmente abaixava a cabeça e se deixava ficar à mercê do homem, da vontade dele. No começo, ela era totalmente submissa, aceitava tudo sem questionar, mas no decorrer do filme a personagem vai impondo alguns limites, estabelecendo suas regras. O que ela não percebe é que as suas “imposições” e negativas serviam mais pra excitá-lo do que propriamente como meio de expressão da sua vontade.

Sabe por quê? Porque ela não gostava de apanhar. Ela não queria passar por nada daquilo. Tem uma cena em que, depois de apanhar com força, Ana pergunta a Christian, chorando: “Por que tem que ser assim? Por que você tem que me machucar?” Veja bem: qual o sentido de assinar um contrato (!) e criar regras específicas pra uma coisa que eu simplesmente não quero fazer?

É simples: manter. A perspectiva da vida sem Grey parecia tão desnorteante que Anastasia escolheu viver a vida dele, as suas fantasias, os seus desejos – tudo pra manter o homem pra si. Não eram só os pulsos de Ana que estavam amarrados naquela cama: ela toda parecia estar atada a esse amor-prisão. Um amor que é muito mais necessidade e desespero do que carinho e querer bem.

A fotografia do filme é boa, a escolha de músicas pra compor a trilha sonora acerta muitas vezes e as cenas de sexo são bem-filmadas, passando longe do vulgar – mas nada disso vale o ingresso. Seus vinte reais começam realmente a valer a pena quando você se enxerga em Anastasia (ou em Christian) e descobre que apego e troca de farpas é o que você vem chamando de “amor”. E que talvez chegue o dia em que você se olhe no espelho e – de tão outra – não se reconheça; segurando um contrato assinado nas mãos, cujas cláusulas você não redigiu, talvez nem sequer leu.

É quando a gente percebe que tem coisas que amarram mais do que algemas. E sentimentos tão ambivalentes que são pintados em mais de cinquenta tons.

Feliz dia da mulher!

Eric

Especial mulher

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A partir do dia 8/3, um post por dia falando delas: das pobres e ricas, das recatadas e entregues, das que merecem respeito e das que merecem respeito. No dia internacional das mulheres, dê mais que flores: dê respeito.

Respeito que não seja de ocasião, nem por conveniência. Respeito de verdade.

Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e minha filha,
Minha irmã, minha menina
Mas sou minha, só minha e não de quem quiser.

[1º de Julho – Renato Russo]

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