drama

Não esqueça do Pequeno Príncipe!

É triste perceber o padrão que o mundo tem tomado. Pior ainda é notar que somos sujeitos ativos nessa ditadura de “senta feito menina” ou “não há tempo pra brincar, vá estudar”. Terminamos acreditando nas mentiras que nos contam e resolvemos andar com o sapato apertado que faz calos, fechamos as pernas e ajeitamos as gravatas até nos faltar o fôlego, afinal, queremos vencer na vida.

O Pequeno Príncipe (2015) chegou aos cinemas com o formato de animação e as crianças, apesar de lotarem a sala, não parecem ser o público-alvo. Com questões de gente grande, as perguntas pulam da telona: qual o objetivo de tudo isso? O que realmente importa? Quem você tem cativado? Que adulto foi esse que você se tornou? Para que esquecer a criança que vive dentro de você?

Tudo começa com a mãe da garotinha lutando para que ela estude na melhor escola. A menina tem o seu horário todo cronometrado, com hora para fazer tudo e não deve se atrasar para nada. O vizinho, O Aviador, é o escritor que nos deixou a obra do Pequeno Príncipe… Ele conheceu o menininho no deserto do Saara e nunca esqueceu o tanto de coisa que aprendeu com aquela criança. O Aviador conta a história para a menina, que vai tentar se livrar do destino de ser mais uma adulta comum.

Um filme que fala com o público, assim eu descreveria este. A geração pós-moderna, que luta para que os filhos estudem nas melhores escolas, façam a carreira perfeita, que paga curso de inglês, francês e ballet ou judô para as crianças terminou se esquecendo de como é bom brincar e como é bom, até mesmo, ter tempo para não fazer nada. Adultos que esqueceram como os adultos são esquisitos.

Mas, afinal, o que é ser adulto? Que implicações e responsabilidades isso traz? O filme não é fiel à obra francesa, mas foca nas discrepâncias entre a infância e a vida adulta e em como o mundo poderia ser mais leve se fosse visto com o olhar de uma criança. Como a vida poderia ser mais original se os padrões nos permitissem ser diferentes, se pudéssemos não esquecer de quem fomos um dia.

Por isso é importante não esquecer do Pequeno Príncipe, nem das suas fantasias. É importante lembrar que um dia fomos capazes de imaginar e que a beleza da vida está nisso… Nos sonhos, em acreditar nos contos e em sorrir, acima de tudo. Deixemos o relógio tiquetaqueando um pouco só.

Neide Andrade

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Anticristo: de quem se fala?

Anticristo. Ao assistir ao filme, uma página ficou completamente rabiscada. Com letras garrafais grifadas com um marca-texto amarelo, uma pergunta gritava: sobre quem Lars fala? Muitas respostas foram encontradas, entre elas, a história dos gêneros, a dualidade medieval entre mulher e mãe, a culpa. Mas até agora nenhuma das respostas expressou o que a pergunta pede: Quem? A indagação pede um substantivo próprio, uma personalidade, alguém. Mas de quem esse diretor fala?

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Confissão de Adultério

Em nome de um amor Casmurro

Eu volto a conjugar verbos, mas me enxergo cada vez mais desejando colocar o passado no futuro. Só pra ter de novo o prazer daquela gargalhada, de te ver lutando por mim e me chamando na janela. Mas por estar presa aos encantos e desencantos, que me faziam felizes de maneira independentes, coloco-me a disposição do destino, só que não consigo largar o volante… Apesar de passiva, tenho me comportado como um agente extremamente ativo em toda a situação que diz respeito a nós dois. Mas, no fim das contas, não sou eu que decido o nosso “sim” de cada dia.

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Tudo Acontece em Elizabethtown

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Duas horas e três minutos é muito tempo de duração. Especialmente pra uma comédia romântica.

Eu pensava assim (acho que ainda penso), mas essa ideia não funciona com Elizabethtown por duas razões: 1) esse filme não é uma comédia romântica, 2) duas horas aqui duram muito mais de 120 minutos. parece uma vida, uma vida inteira! – Eu explico.

imageedit_13_7802360851Primeiro, esqueça aquele conceito de moça encontra rapaz, o amor vem, dificuldades assustam, o sentimento prevalece. Não é assim que funciona aqui. Na verdade, tem uma moça, um rapaz, amor, problemas: tudo igual. Então, o que é diferente? A essência.

Elizabethtown não parece um filme, é bonito demais, é real demais. Daquele tipo de realidade tocante e nostálgica que só Cameron Crowe sabe fazer (lembra dele? o mesmo diretor de Vanilla Sky e Quase Famosos <3).

Vou me explicar melhor: sabe aqueles momentos preciosos que a gente vive poucas vezes? É tão especial, tão diferente, a pessoa é tão única que inevitavelmente você pensa: parece que eu tô vivendo um filme! É assim. Elizabethtown é um filme que parece a nossa vida ou aquele momento da vida da gente que parece um filme.

imageedit_19_2826229680Drew (Orlando Bloom) acabou de falhar miseravelmente na carreira. Perdeu tanto dinheiro que está prestes a ficar famoso como o maior exemplo de fracasso da história na profissão dele. Tanto tempo investido pra nada. Pra completar, a irmã do cara liga e conta que o pai dos dois morreu no interior do país, numa cidade chamada Elizabethtown. Tem mais: ele, o filho mais velho, teria que ir lá e cuidar das coisas do corpo. Bem no interiorzão do país, onde mora aquela parte distante da família que fala: “olha como você cresceu”, “tá a cara do pai”. Imagina!

Na viagem de ida, ele conhece uma aeromoça – Claire (Kirsten Dunst) – uma daquelas pessoas que você só encontra uma vez na vida. Diferente, cheia de ideias próprias, cheia de vida. Tudo o que ele não é no momento. Os dois se despedem, Drew vai encarar os parentes. Sozinho, em meio à família barulhenta, às dificuldades do enterro, ele procura alguém pra ligar. Acha o número de Claire. Os dois começam a conversar, a se conhecer melhor. Uma noite e uma madrugada inteira falando sobre tudo, sobre nada (alguém aí já viveu isso?). Pronto. Um momento bonito numa circunstância pontual. Daquele tipo de coisa que passa, que está destinada a não durar.

Será?

Nas conversas de Drew e Claire é impossível não se reconhecer um pouco. É tudo muito universal e, ao mesmo tempo, pessoal demais. A gente viveu aquilo também, nossos amigos choraram pelas mesmas razões. Medo do fracasso, mágoas antigas, tempo perdido, a angústia de não saber amar. Num dos momentos mais bonitos do filme, Claire fala sobre seus amores do passado, numa auto-avaliação. Eu sou uma pessoa substituta, ela diz. No começo, eu não entendi. Drew também não. Mas ela explica: nunca vou ser uma Ellen (Deus me livre!), nunca vou ser uma Cindy, eu sou só a substituta. Alguém destinado a ocupar um lugar que não lhe pertence, o lugar de outro|de outra.

Doeu. É verdade demais na cara da gente. E pior, dita de um jeito leve, despretensioso. Como se, com o tempo, as coisas que doem também fizessem a gente se acostumar.

No fim, descobri porque Elizabethtown dura duas horas inteiras. É preciso. Como um amigo, essa história vai se apresentando aos poucos: cena por cena, frase por frase – vai nos desarmando. E o tempo é necessário: ele faz a gente se apaixonar.

GIF1Numa das última sequências do filme, Drew sai numa viagem de carro de volta pra casa, jogando as cinzas do pai morto pelas curvas do caminho. Os dois finalmente juntos, numa viagem que deveria ter sido feita há muito tempo. Há tempo demais. E, se você me perdoa a metáfora besta (mas verdadeira): como as cinzas do pai se espalham pelo vento, as sensações que esse filme traz se pulverizam na mente da gente. Uma saudade, uma melancolia doce. Aquele desejo de fazer o que é especial durar pra sempre.

Desejar não faz mal. Faz?


Personalíssimo (só para raros):

tumblr_n0ptcyMu8Q1rrm2zoo2_500A cena em que Drew começa a conversar com as cinzas, com a urna do pai, afivelada no banco da frente do carro. Minha garganta aperta só de lembrar. Como a gente deixa o que é valioso se perder no tempo!

Essa sequência já seria linda sem som, mas Cameron Crowe é mau demais pra deixar isso acontecer. Vou te contar uma coisa: a trilha sonora toda desse filme é incrível. De verdade! Mas a música que toca nessa hora é especial. Foi Elizabethtown que me apresentou esse single de Elton John chamado My Father’s Gun. Eu amo Elton, muito mesmo, mas ainda não conhecia essa música.

Se você chegou até aqui, me faz um favor, um último? Clica embaixo e vê esse vídeo com Elton e algumas cenas do filme.

É verdade demais pra seis minutos só. É bonito demais.

Eric

(Indesejada) Permanência

Romper um tanto a rotina, os paradigmas esperados e até mesmo com os finais felizes pode fazer bem, pode fazer com que o espectador se enxergue, talvez, em uma fotografia de um filme ofertado durante uma triste, necessária e esperada despedida. Permanência é um filme pernambucano de Leonardo Lacca e trata aspectos da vida, do cotidiano e quão benéficas ou maléficas podem ser as nossas escolhas.

Ivo (Irandhir Santos) é um fotógrafo recifense, que encontra em São Paulo uma galeria para fazer a sua primeira exposição. A película é calma e, por vezes, monótona propositalmente para mostrar aspectos de uma vida infeliz, sem uma paixão explícita em fazer cada coisa. Chegando em São Paulo, Ivo se hospeda na casa de Rita (Rita Carelli), que foi sua namorada. Agora, Rita está casada e Ivo deixou uma namorada no Recife. Entretanto, como se comportar diante do cheiro e da conversa de uma mulher, características que nunca mudam?

Regados a xícaras e mais xícaras de café, o casal do passado bebe e se aprisiona ao próprio silêncio: Sem mais conversas, completamente sem assuntos, uma vida pautada por reticências e por um líquido amargo que se tornou a falta do que foi perdido. Paralelo a isso, Ivo com a sua parceira, no presente, vivem uma relação vazia, de pouca expressão no filme, assim como na rotina.

O filme vale como um exercício para observar a vida. Conseguir se ver, como em um quadro. Se cada momento fosse uma fotografia, qual seria a expressão em cada um deles? O que faz bem? O que sufoca? O que prende? Se alguém que te conhece como ninguém te observar hoje, vai encontrar a tão sonhada felicidade?

Isso é conversa demais. Um café, por favor!

Neide Andrade

O atalho que a dor traz

 

Em nome do pai é uma narrativa avassaladora. O filme conta a história verídica de Garry Conlon (Daniel Day-Lewis), um delinquente dos anos 70, em um contexto político e cultural difícil. Garry é filho de Giuseppe Conlon (Pete Postlethwaite) e é a partir da relação entre os dois que a trama se desenrola, a partir de contrastes como o céu e o inferno. De início, a relação dos dois era extremamente conturbada, o filho não demonstrava amor, nem mesmo vontade de preservar o pai diante das encrencas que arranjava. O pai, por sua vez, sempre zeloso, não conseguia falar a linguagem do filho, que tantas vezes ouviu sermões imensos, mas nenhum deles adiantou.

O que ninguém sabia era o que este delinquente seria capaz de fazer para defender o velho Giuseppe. O inferno da relação entre o pai e o filho se transformou em um céu no contexto horrorizado de uma prisão. Garry foi forçado a confessar um crime que não cometeu sob a ameaça da morte do pai. Xenofobia extrema. Injustiças dos bastidores. Daquelas que nós sabemos que acontecem, daquelas que nós vemos as denúncias, mas nunca são provadas.

Quem um dia imaginou que poderia se compadecer com a história de um ladrãozinho irresponsável? Quem poderia imaginar que diante das metáforas de um velho pai existia sabedoria? Quem foi capaz de enxergar a força diante da fragilidade de Giuseppe? A dor é a resposta pra todas as perguntas. É a alavanca que leva até o topo, ao triunfo. A dor é quem lapida, quem luta por justiça.

E por falar em luta, quantas vezes é mais fácil se conformar com a sua prisão perpétua! A sua vida cheia de nada, a sua condição de injustiçado. Diversas vezes é até possível acreditar no que dizem. Entretanto, é importante encontrar motivos para viver, alguém por quem lutar, foi neste ideal que Garry se abraçou.

Mas como falar em justiça diante de um lugar em que o fraco é sempre o dominado? Como falar de justiça onde quem manda não é justo? Como falar de justiça em um lugar em que não se tem o direito de defesa, digo, na prática? O remo contra a maré foi essencial na trajetória dos Conlon. Todos sabiam que eles não eram os culpados, mas se precisava encontrar um culpado.  E Garry era réu confesso.

Neide Andrade

Temo e teAmo

Neide Andrade

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Eu sempre quis encontrar o meu olhar no seu e, de alguma maneira, fazer a minha história por ali mesmo. Eu sempre precisei ter o seu olhar em mim, cuidando, protegendo. Porque toda a minha marra, toda a minha aparência viril, ágil, esperta e sóbria vão abaixo quando o meu olhar encontra você. Qual seria o segredo dos seus olhos?

Quando te vejo fico frágil, tonto, lento e absolutamente embriagado com o cheiro e a paz que você traz ao ambiente. Apenas a ele. Porque em mim, tudo o que eu não sinto é paz ao seu lado. Eu nunca estou satisfeito e sempre quero mais, entretanto, estou condenado a uma prisão em qualquer lugar do mundo longe dos seus olhos castanhos penetrantes e oniscientes, que me rasgam e me penetram por inteiro.

Já tentei fugir, mas hoje fico. Já tentei me policiar, mas estou sempre hipnotizado com você. Já tentei me foçar a ser ativo, mas a passividade é o que me resta diante deste caso: Estou condenado, perpetuamente, ao seu serviço. Nunca me vi pronto para esse destino, mas aconteceu e é em você que deposito meus sonhos e pensamentos, meus devaneios.

Às vezes me ver condenado a você me faz feliz, me faz acreditar que tudo vai ser diferente um dia, eu nunca estarei sem nada, pelo fato de você ser tudo. Tudo de mais belo que possa existir. Entretanto, a possibilidade de enxergar os fatos nus e crus me desespera, faz com que eu queira me esconder, te ver só pela brechinha. Fingir que nem existo. Deixar uma flor na sua mesa, comprar um café na esquina, fazer a diferença na sua vida, mesmo que de maneira anônima.

A vida me condenou a você, mas a sentença não foi justa. Ela devia ter te condenado a mim também.

Do seu eterno, Benjamin.

Eu sei quem conta o teu segredo

“Devia ver os olhos dele, estão sempre em um estado de puro amor. Consegue imaginar um amor assim? Sem o desgaste do cotidiano, das obrigações?”

É interessante pensar no que os nossos olhos dizem. Cúmplices de todos os crimes, sentimentos, vitórias e derrotas, são capazes de nos entregar quando menos queremos. Os olhos entregam as paixões que, na maioria dos casos, nos levam à ruína, ao estado que mais tememos: O nada. O tédio absoluto. A marginalização. Diversas coisas podem nos levar a uma vida cheia de nada e a maioria delas culmina em uma prisão. O amor que nunca foi efetivo leva-nos a uma vida cheia de nada, capaz trazer lembranças de momentos que nunca existiram. Um amor interrompido deixa-nos preso no passado e nos faz parar no tempo, sempre olhando para trás, enche a vida de passado e aniquila o futuro.

Em O segredo dos seus olhos, as paixões, loucuras, tristezas e anseios dos personagens ficam estampados a partir de uma narrativa dupla, cujo ponto de partida é o recém aposentado da justiça penal argentina, Benjamín Espósito (Ricardo Darín). Espósito teme uma vida pacata, sem companhias e sem o seu grande amor, Irene (Soledad Villamil), que foi sua superior no antigo emprego. Resolve, a partir da aposentadoria, escrever um livro sobre um caso que ficou marcado na sua carreira: O estupro seguido de assassinato de Liliana Colotto, em 21 de junho de 1974. O amor nunca realizado entre a chefe e o subordinado e o amor interrompido entre Meireles e Liliana são narrados de maneira compassada e complementar até o final do filme, com alguns pontos de encontro emocionantes entre as duas histórias, que – na verdade – tornam-se uma. O longa ganhou, em 2010, o merecido óscar de melhor filme estrangeiro.

Os elementos narrativos são, de fato, o ponto mais marcante do filme. A crítica à justiça, que – tantas vezes – escolhe ser falha para garantir interesses próprios, sem ligar nem mesmo para a crueldade que se faz quando é omissa. A lei, neste caso, condenou – e condena, todos os dias – inocentes a uma prisão perpétua, coberta de nada. A direção (Juan José Companella) leva a história de maneira envolvente e dialoga perfeitamente com espectador, dando spoilers constantemente apenas com a direção e o enquadramento da câmera, isso deixa a trama ainda mais emocionante e prende ainda mais o espectador, além de uma maquiagem extremamente real.

O filme traz um discurso de valor que grita em todos os momentos, do início ao final. Apesar de ser baseado em fatos reais, a história é contada de maneira a dizer eu também temo viver um nada. Eu também temo o tédio. Todos temem a solidão. Todos, algum dia, procuraram um sentido para a sua vida que vá além da rotina. Eu só aconselho não confiar nos olhos para tudo, eles podem nos trair.

Neide Andrade

O Grande Hotel que conta a história do mundo inteiro

3

Richthofen. Nardoni. Carandiru. Daniella Perez. Chico Mendes. Chacina do Realengo. Vários casos entram no noticiário do dia e em menos de 48 horas viram histórias velhas, capazes de não nos emocionar, nem mesmo constranger. O ser humano parece estar sofrendo um processo contrário ao da civilização e tem se acostumado cada vez mais com a barbárie: Pai mata filhos, um mata muitos. Enquanto não se luta pela indignação, cada vez mais pessoas saem de casa com medo de não voltar e inseguras porque não conhecem absolutamente ninguém.

1Observar e retratar a sociedade moderna através de cenário, personagens e figurinos antigos não são, necessariamente, tarefas fáceis. O filme O Grande Hotel Budapeste fala, principalmente, de humanidade, em um contexto de Segunda Guerra Mundial, entretanto, atemporal. O longa mostra a história de pessoas solitárias que fogem da crueldade que a vida oferece através do companheirismo.

Um velório solitário. As companhias estavam numa sala ao lado, esperando, ansiosas, que o testamento fosse aberto. A família Villeneuve Desgoffe und Taxis inteira – filhos, sobrinhos, primos distantes – esperavam receber uma parte da fortuna da Madame D. (Tilda Swinton), que havia sido assassinada um dia antes por um deles. Todos se surpreendem ao perceber que o grande herdeiro havia sido o funcionário do Hotel Budapeste, amigo e amante, Monsieur Gustave H (Ralph Fiennes), que foi preso horas depois da leitura do testamento, acusado pelo homicídio de Madame D.

2Aquela morte transformou a solidão em companheirismo. O mensageiro Zero (Tony Revolori) narra a história de maneira acelerada e crua, apesar de sentimentalista. Zero viveu pelo seu mestre e o mestre morreu pelo garoto. Esta narrativa casa perfeitamente com a fotografia e o cenário, que se apresentam, diversas vezes, em um plano geral para mostrar todo o contexto semântico da cena: tons pretos, por exemplo, quando o verdadeiro assassino aparece; cenas com tons pastéis quando Zero está com a sua amada e, a partir desses elementos, o espectador passa a compreender a história e a se surpreender.

O Grande Hotel Budapeste é, acima de tudo, uma metáfora da realidade esbanjada nas telas, fazendo com que o espectador não se surpreenda, por exemplo, em ver um filho matando a mãe, em ver uma mulher sendo velada por ela mesma e tantos empregados, tanta fortuna, para nada. A narrativa traz problemas atuais de humanidade: Quais são os relacionamentos que cultivamos? Quem é a nossa família? O que, de fato, importa? Quem, de fato, importa?

4Quando o filme termina, nota-se que uma vida inteira passou pela tela de maneira fugaz e fútil. E quando a vida passa não importa a alta do dólar, não importa quem ficou com os nossos bens, nem mesmo quantos a última bomba matou, não importa mais nada. Absolutamente nada. É nesta perspectiva triste que vive um menino, narrador da história e  eterno visitante do Grande Hotel Budapeste, hóspede do menor e mais escondido dos quartos.

 Neide Andrade

Para sempre…

Neide Andrade

Era final de ano, fui correr, como de costume e, de repente, eu não sabia muito bem onde estava. Foi difícil pra mim aceitar a situação e as suas possibilidades. Eu precisava acreditar na minha desenvoltura e em tudo que conquistei na minha vida. Era tudo o que eu precisava trazer à memória: Meus artigos, minhas aulas, meu marido, meus filhos, minhas riquezas. Nos meus cinquenta anos vivi dias inesquecíveis… Que eu nem posso mais exemplificá-los. Digamos que foram importantes e muito especiais, nada para mim foi inesquecível. Deve ser maravilhosa a sensação de se casar… Dizer que “sim” no altar, escolher viver até a morte com a mesma pessoa.

Como será que nos conhecemos? Na casa de um amigo? Em uma semana santa? Ele é o homem que me dá o meu primeiro “bom dia” há anos, isso é o que importa! Onde começamos a namorar?  Em um parque, de um lado ou de outro do rio?! Dia 17, 21, 23, 25… Não me importa mais! Eu nunca mais terei o direito de lembrar disso. Mas eu imploro: Tirem-me todas as letras, as combinações dos signos, as vírgulas… Que eu me esqueça de tudo, menos do amor. Que eu seja incapaz de esquecer deste amor que me fez viver.

Às vezes me esqueço quem sou. Tenho dificuldade pra confiar plenamente no que me dizem. Mas essa é a minha única alternativa. Vejo as fotos antigas da família, os vídeos das crianças brincando na praia… Um dia, quando eu era segunda série, descobri na escola que as borboletas viviam uma vida curta, coisa de poucas semanas. Fiquei desesperada! Achei injusto algo tão majestoso como uma borboleta, que se esforçou tanto para ser quem é, morrer e ser esquecido assim, como em um piscar de olhos. Como eu, que tenho as minhas memórias esquecidas, que não sou mais ninguém. Que sempre ouço “Você foi uma grande mulher” porque não sou mais ninguém, vivo do que fui um dia e como sofro com isso! Mas sofro cada vez menos…  Meus sofrimentos também vão embora com as lembranças.

Então a minha mãe me deu um colar com um pingente de borboleta e disse que aquela ali poderia viver muito, porque se tornou eterna. Eu me vejo e espero ser eterna. Eu quero, todos os dias, que alguém use um livro meu em sala de aula, mesmo esquecendo o seu título. Eu preciso que olhem para mim como alguém que ainda existe, que ainda pode servir para alguma coisa. Mas não, eu não sirvo para dizer aos meus filhos que o amo, mal me lembro que tenho filhos, troco os nomes… Não sou mais capaz de fazer ninguém se sentir especial.

Nesta semana, uma moça chegou para cuidar de mim. Está no quarto da Lydia, minha filha caçula. Ela é tão amorosa, lê histórias pra mim, ele chega tarde, meu marido é médico e trabalha muito, não lembro bem onde é. Está cada vez mais frio aqui fora, temo não aguentar…

Alice