Disney

Mãe Coringa

11251584_900448896694258_1626302420_n

Gente é um bicho complicado. Constantemente, relações geradas por mocinhos com boas intenções e corações maravilhosos vão à ruína porque, como já diria o sábio ditado: Cada cabeça é um mundo. E vivemos o tempo todo travando guerras entre esses mundos, que tantas vezes faz de tudo para nos ajudar e alguns até se arriscam nos protegendo dessa grande guerra que se chama vida.

Ser mãe exige, acima de tudo, dedicação. Dedicação para viver a sua vida para fazer outra feliz, exige amar incondicionalmente e o amor, apesar de ser um dom de Deus, pode falhar porque os humanos amam. Em Valente, acontece mais ou menos assim. Merida é uma princesa fora do tradicional, os cabelos ruivos, cacheados e assanhados expressam a principal característica da personalidade da garota: A espontaneidade. Ela odeia a mania que a mãe tem de ficar – o tempo inteiro – vomitando regras de como ser princesa e futura rainha. A Rainha Elinor, por sua vez, ama a princesa e enxerga todas aquelas regras e lendas como necessárias para o aprendizado da menina.

Todo filho já teve que ouvir alguma fábula com moral da história e se chatear por qualquer sermão que ouviu. Entretanto, a mensagem que o filme traz é que uma relação entre mãe e filho deve ser pautada em amor e, mais que isso: Um deve confiar no amor do outro. Saber que, apesar dos erros, cada um deles foi tentando acertar e que onde tem uma mãe, um filho não fica desamparado.

Apesar de toda a feminilidade e aparência frágil da mulher em uma sociedade machista, a Rainha mostra o pulso forte e leveza ao protagonizar as decisões da família, mesmo colocando o marido à frente, como se ele decidisse tudo. No final, como em qualquer clássico, as duas percebem que têm muito mais em comum do que imaginavam, porque a mãe é como uma carta coringa, válida para qualquer situação, adequada em todas as jogadas e extremamente preciosa.

Neide Andrade


Este post é dedicado especialmente às mães que mais apóiam este blog, nossas queridas Edneas Andrade, Conceição Rocha e Poliana Melo. <3

Anúncios

A imagem de quem sou

Era uma vez uma menina desengonçada, aquela ali – todos sabiam – nunca iria arrumar um casamento. Não conseguia se arrumar, nem mesmo se comportar, mal parecia uma mulher. No dia em que todas as moças da cidade foram à casamenteira, lá estava ela, mas óbvio: Não agradou a megera. Não adiantava esperteza, nem grilo falante, nem mesmo todo o esforço da família, Mulan seria uma desonra para os seus pais. Nunca arranjaria um marido, toda a China saberia que ela não serve pra nada, que é uma mulher sem dono e sem filhos.

Será?

mulanO filme Mulan foi produzido pela Disney em 1998, baseado em uma lenda chinesa. Não se sabe, ao certo, se a mulher existiu na realidade, mas – existindo ou não – é considerada, até hoje, como um exemplo de coragem, determinação, amor e, acima de tudo, ideologia. Na China da época (século VII), as mulheres tinham que aprender a conquistar um marido e mulher bem casada era a maior honra que uma família chinesa poderia ter. Um certo dia, o exército dos Hunos invade a China, apesar da muralha, e um homem da cada família seria obrigado a ir para guerra. O pai da nossa protagonista, Fa Zhou, era o único homem dos Fa, mas já trazia sequelas de outra guerra, era um alvo fácil em um campo de batalha e a moça, apesar de desajeitada e sem muita inteligência aparente, se disfarçou de homem durante toda a guerra para salvar a vida do pai.

Com curvas ou músculos, Mulan foi o melhor homem da China e voltou pra casa recebendo saudações honrosas até mesmo do imperador. O filme também mostra um noivo maravilhoso para ela: o capitão Shang. Mas ela não volta submissa como a cultura manda, os dois voltam parceiros, planejando as próximas missões e com respeito mútuo. O amor dos dois foi além da posse de alguém, além das honrarias obrigatórias e isso foi lindo! Eu gosto desse filme porque mostra resistência ao sistema extremamente machista, mostra amor pela família e coragem em fazer diferente. Mostra, ainda, a mudança que se pode proporcionar fazendo algo de bom. Mulan é diferente da maioria dos filmes da Disney porque rompe com a fórmula princesa + príncipe encantado. É uma história mais palpável – embora a chance de acontecer seja mínima – mas o público feminino consegue se encontrar mais em Mulan do que na Branca de Neve, por exemplo. Foi um filme necessário, que é atual até hoje.

A trilha sonora é fantástica, como a maioria dos filmes da Disney. As músicas acompanham as cenas e, na maioria das vezes, revelam sentimentos e fazem uma diferença danada na narrativa.

Neide Andrade

O Corcunda de Notre Dame – filme

imageedit_5_3282707083

Destino de hoje: Paris/França, 1482

Você gosta de animação?

É daqueles que vão correndo pro cinema assim que a Pixar lança qualquer coisa ou é do time que se acha “adulto demais” pra isso? Confesso que faço parte do segundo grupo. Isso mesmo, sinto muito. Não é que eu ache animação uma coisa besta ou que eu me ache “inteligente demais pra perder meu tempo vendo desenho” (sim, tem gente que pensa assim). A questão é a seguinte: chorei com O Rei Leão, ri muito com Dori em Procurando Nemo, achei incrível a proposta de Wall-E, mas animação não é um gênero que me prende em especial. Nunca foi. Gosto de alguns filmes, admiro outros, mas não consigo me envolver tanto por aquela aura de fantasia, sabe? Terapia deve explicar.

Essa introdução toda foi pra vocês encararem esse texto com o mesmo espanto que eu: Eric. escrevendo. sobre. animação. – Sim. E mais: eu escrevendo sobre um dos filmes mais incríveis que assisti na vida e que, por acaso, é um desenho da Disney: O Corcunda de Notre Dame.

imageedit_17_5923395723Você deve conhecer a história, mas, de todo jeito, eu conto rapidinho: um bebê deformado é abandonado na porta de uma Igreja, a catedral de Notre-Dame, em Paris. Um juiz eclesiástico chamado Frolo resolve criar o menino – não por compaixão, mas por culpa – e dá a ele o nome de Quasímodo, que significa “Meio Homem”. E essa criança cresce assim: tratada com indiferença e ouvindo todo dia que não passava de um monstro, um deformado que um dia foi acolhido pela bondade do seu mestre Frolo, a quem deve a vida.

Quasímodo mora só, na Igreja, observando toda a Paris de cima e sabendo que sua condição nunca vai permitir que ele viva entre as pessoas normais. Mas o menino é bom, não se queixa e se sente muito grato ao seu mestre, alheio à indiferença com que ele o trata.  Os anos vão passando, Quasímodo se torna um jovem e, um dia, o desejo de voar e de viver tocam o coração do rapaz e ele resolve descer das torres de Notre-Dame para participar da alegria de um festival de camponeses.

Nesse dia, ele vê como o mundo pode ser mau. E, ao mesmo tempo, conhece o amor: uma das razões mais bonitas para se viver. Mas será que ele tem força pra disputar com outro o amor de uma mulher? E ela, será que consegue ver quem mora atrás daquele rosto deformado? Isso eu não conto, e nem importa, porque o filme vai além dessas questões. Muito além.

tumblr_mofl3flevc1soni85o1_500

Eu nunca me encaixaria lá fora, eu não sou… normal

Durante as duas horas em que convivemos com nosso amigo corcunda, ele parece nos perguntar o tempo todo: Você já sentiu como se não pertencesse a esse mundo?

É como se tudo parecesse mau demais.

Em 1989, Renato Russo dizia: “Quero me encontrar mas não sei onde estou, vem comigo procurar algum lugar mais calmo. Longe dessa confusão, e dessa gente que não se respeita. Tenho quase certeza que eu não sou daqui!” Nada mudou. As pessoas ainda se respeitam muito pouco, o mundo anda confuso e tão, tão complicado. E o pior: na maior parte dos dias, a gente vive nossa vida alheio a tudo isso. Aquela pessoa pedindo dinheiro na rua – é tão mais fácil fingir que não vi | Uma conversa entre amigos – é tão mais fácil falar mais de mim, falar só de mim | O diferente – é tão mais fácil olhar com desdém, com preconceito.

Difícil é ter empatia, difícil é ser humano.

O corcunda ensina a gente que é normal ser diferente. É normal se sentir desajustado nesse mundo. Estranho é quem se adapta completamente, quem se sente em casa. Estranho é quem olha ao redor e não sente nada.

Mais do que a corrupção da Igreja, as dificuldades dos excluídos e a fraqueza do homem diante do seu desejo. Pra mim, o corcunda fala de duas coisas: empatia e .

Da empatia eu já falei.

imageedit_11_7160618953E a fé se revela numa das cenas mais lindas desse filme, provavelmente uma das mais tocantes da minha vida. Esmeralda, perseguida na rua por ser cigana e  “feiticeira”, entra na Catedral e clama santuário: na época, a garantia de que não poderia ser presa lá dentro.

Respeitosamente, ela observa as pessoas que fazem suas orações. Começa a caminhar por Notre Dame – que, em francês, quer dizer “Nossa Senhora” – e vê a imagem da santa na parede. Os acordes de um piano começam a tocar e Esmeralda se dirige à imagem. Numa conversa simples, ela pede ajuda. Pede não por ela, mas pelos seus amigos, por aqueles que estão na rua e precisam de pão, de amor.

Enquanto canta, ela olha pro céu, esperando encontrar lá em cima alguém que se importe, alguém a quem chamar de amigo:

Tocante demais essa música. Tá entre as minhas cinco ~ músicas de filme ~ favoritas. A letra é simples, mas suficiente.

É isso: a gente precisa acreditar.

Precisa acreditar que as coisas podem ser melhores, que as pessoas podem ser boas. A gente precisa acreditar que amanhã vai ser melhor e que, se um dia a gente cair, uma mão amorosa vai nos ajudar a ficar em pé de novo.

1




Só para raros:

O Corcunda de Notre-Dame é considerado um dos maiores riscos que a Disney já tomou. Por duas razões.

A primeira é que em 1994 – só dois anos antes – a empresa tinha lançado seu sucesso absoluto de bilheteria e crítica: O Rei Leão. Como competir com isso? A segunda, e mais importante, é que o público da empresa era basicamente composto por… crianças, e o Corcunda não é um filme feito pra crianças. Claro que tem personagens carismáticos, cenas divertidas e tal (é Disney!), mas o todo dele é sombrio demais e cheio de temas adultos.

Crítica ao clero, injustiças sociais, a fraqueza do ser humano diante do seu desejo sexual – tudo isso é tema do Corcunda. A complexidade da temática se estende ao visual e é impossível não se encantar com a riqueza dos desenhos. A catedral de Notre-Dame é representada em detalhes: a fachada, os santos, os vitrais, até a luz das velas é perfeita.tumblr_n541pyXb6g1s693wso1_500

Por último, a trilha sonora é o oposto do que poderia se esperar de um filme da Disney. Não é pop, contagiante, nem dá vontade de cantar junto. Para contar a história do Corcunda, o produtor usou do mais inusitado: música erudita. Música erudita numa animação! Parece louco, mas funciona perfeitamente com a atmosfera do filme. As músicas têm a letra direta, sem floreios, mas guardam toda aquela grandiosidade da música clássica: os coros, o canto gregoriano, os agudos cheios. Não é o tipo de música que você vai querer ficar ouvindo sempre, mas – ao mesmo tempo – não dá pra ouvir sem se arrepiar, é incrível de verdade.

Vê um exemplo aqui (especialmente a partir de 1:27):

Todo esse risco assumido rendeu ao estúdio uma bilheteria inferior à de seus maiores sucessos. Mas esse foi um preço pequeno demais a pagar diante da obra de arte que esse filme é. Tá certo, sei que parece exagero meu – e pode até ser -, mas repare: o Corcunda tá no Netflix! Então proponho um desafio: assiste e volta aqui pra gente conversar sobre ele! Daí tu me conta se eu exagerei ou não.

E aí, vai encarar o desafio?

imageedit_5_6617626547

* Desculpa a quantidade de gifs. Não resisti!

Eric