Cinema

Enlouquecer é preciso (passo a passo)

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Um dia desses, tenta olhar pras pessoas a tua volta. Pra quem vai contigo no ônibus, quem corre apressado na rua, pras mães acalentando seus filhos. Olha em volta e repara naquele homem de paletó, camisa e calça social. Gravata, em plenos trinta e tantos graus de Recife. Esse cara tá indo pro escritório, voltando do trabalho, defendendo um cliente, fazendo uma entrevista, dirigindo uma empresa, desempenhando um papel.

Todos estamos.

(mais…)

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Tudo Acontece em Elizabethtown

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Duas horas e três minutos é muito tempo de duração. Especialmente pra uma comédia romântica.

Eu pensava assim (acho que ainda penso), mas essa ideia não funciona com Elizabethtown por duas razões: 1) esse filme não é uma comédia romântica, 2) duas horas aqui duram muito mais de 120 minutos. parece uma vida, uma vida inteira! – Eu explico.

imageedit_13_7802360851Primeiro, esqueça aquele conceito de moça encontra rapaz, o amor vem, dificuldades assustam, o sentimento prevalece. Não é assim que funciona aqui. Na verdade, tem uma moça, um rapaz, amor, problemas: tudo igual. Então, o que é diferente? A essência.

Elizabethtown não parece um filme, é bonito demais, é real demais. Daquele tipo de realidade tocante e nostálgica que só Cameron Crowe sabe fazer (lembra dele? o mesmo diretor de Vanilla Sky e Quase Famosos <3).

Vou me explicar melhor: sabe aqueles momentos preciosos que a gente vive poucas vezes? É tão especial, tão diferente, a pessoa é tão única que inevitavelmente você pensa: parece que eu tô vivendo um filme! É assim. Elizabethtown é um filme que parece a nossa vida ou aquele momento da vida da gente que parece um filme.

imageedit_19_2826229680Drew (Orlando Bloom) acabou de falhar miseravelmente na carreira. Perdeu tanto dinheiro que está prestes a ficar famoso como o maior exemplo de fracasso da história na profissão dele. Tanto tempo investido pra nada. Pra completar, a irmã do cara liga e conta que o pai dos dois morreu no interior do país, numa cidade chamada Elizabethtown. Tem mais: ele, o filho mais velho, teria que ir lá e cuidar das coisas do corpo. Bem no interiorzão do país, onde mora aquela parte distante da família que fala: “olha como você cresceu”, “tá a cara do pai”. Imagina!

Na viagem de ida, ele conhece uma aeromoça – Claire (Kirsten Dunst) – uma daquelas pessoas que você só encontra uma vez na vida. Diferente, cheia de ideias próprias, cheia de vida. Tudo o que ele não é no momento. Os dois se despedem, Drew vai encarar os parentes. Sozinho, em meio à família barulhenta, às dificuldades do enterro, ele procura alguém pra ligar. Acha o número de Claire. Os dois começam a conversar, a se conhecer melhor. Uma noite e uma madrugada inteira falando sobre tudo, sobre nada (alguém aí já viveu isso?). Pronto. Um momento bonito numa circunstância pontual. Daquele tipo de coisa que passa, que está destinada a não durar.

Será?

Nas conversas de Drew e Claire é impossível não se reconhecer um pouco. É tudo muito universal e, ao mesmo tempo, pessoal demais. A gente viveu aquilo também, nossos amigos choraram pelas mesmas razões. Medo do fracasso, mágoas antigas, tempo perdido, a angústia de não saber amar. Num dos momentos mais bonitos do filme, Claire fala sobre seus amores do passado, numa auto-avaliação. Eu sou uma pessoa substituta, ela diz. No começo, eu não entendi. Drew também não. Mas ela explica: nunca vou ser uma Ellen (Deus me livre!), nunca vou ser uma Cindy, eu sou só a substituta. Alguém destinado a ocupar um lugar que não lhe pertence, o lugar de outro|de outra.

Doeu. É verdade demais na cara da gente. E pior, dita de um jeito leve, despretensioso. Como se, com o tempo, as coisas que doem também fizessem a gente se acostumar.

No fim, descobri porque Elizabethtown dura duas horas inteiras. É preciso. Como um amigo, essa história vai se apresentando aos poucos: cena por cena, frase por frase – vai nos desarmando. E o tempo é necessário: ele faz a gente se apaixonar.

GIF1Numa das última sequências do filme, Drew sai numa viagem de carro de volta pra casa, jogando as cinzas do pai morto pelas curvas do caminho. Os dois finalmente juntos, numa viagem que deveria ter sido feita há muito tempo. Há tempo demais. E, se você me perdoa a metáfora besta (mas verdadeira): como as cinzas do pai se espalham pelo vento, as sensações que esse filme traz se pulverizam na mente da gente. Uma saudade, uma melancolia doce. Aquele desejo de fazer o que é especial durar pra sempre.

Desejar não faz mal. Faz?


Personalíssimo (só para raros):

tumblr_n0ptcyMu8Q1rrm2zoo2_500A cena em que Drew começa a conversar com as cinzas, com a urna do pai, afivelada no banco da frente do carro. Minha garganta aperta só de lembrar. Como a gente deixa o que é valioso se perder no tempo!

Essa sequência já seria linda sem som, mas Cameron Crowe é mau demais pra deixar isso acontecer. Vou te contar uma coisa: a trilha sonora toda desse filme é incrível. De verdade! Mas a música que toca nessa hora é especial. Foi Elizabethtown que me apresentou esse single de Elton John chamado My Father’s Gun. Eu amo Elton, muito mesmo, mas ainda não conhecia essa música.

Se você chegou até aqui, me faz um favor, um último? Clica embaixo e vê esse vídeo com Elton e algumas cenas do filme.

É verdade demais pra seis minutos só. É bonito demais.

Eric

PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN

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– Nós somos felizes, você não acha?

– Acho.

– Então qual é o problema?

– Talvez a gente seja feliz demais.


imageedit_15_7358108073É com esse diálogo curto que a gente começa a entender de que realmente fala essa obra-prima de Lionel Shriver. É a partir daí que a gente descobre que, na verdade, não é só sobre o Kevin que a gente precisa falar. Precisamos falar sobre nós mesmos, sobre as nossas culpas.

Tudo começa com uma mãe apática que finalmente aceitou seu destino terrível: o filho é um assassino. Dos mais frios. Logo nas primeiras páginas, a gente conhece o massacre causado por Kevin na sua escola: vários dos seus colegas de classe assassinados premeditadamente.

Tá lindo, mas o que o livro sobre um assassino tem a ver com a minha vida? Tudo, meu amigo, minha amiga. Tudo.

Através de cartas ao seu ex-marido Franklin – pai do Kevin – Eva (a mãe) nos conta a história de seu filho desde o começo, desde antes de ela estar grávida. Nessas páginas, vemos uma empresária bem-sucedida (e rica), casada com um marido amoroso e dona do emprego dos sonhos: ela viaja o mundo todo pra escrever aqueles guias de viagem, sabe? Emprego melhor tá pra nascer.

Eva é bem alegre, feliz mesmo, mas tem um momento em que aquela felicidade toda começa a incomodá-la um pouco. Tudo parece perfeito demais, monótono demais. E, porque ela estava entediada, resolveu ter um filho.imageedit_5_8731316186

Num instante, tudo mudou.

O amante ardente, sensual vira um paizão e a viajante libertina começa a observar horários, ficar em casa e amamentar uma criança – criança, aliás, que rejeita o peito da mãe e a sua própria presença, como se desde cedo já dissesse a que veio.

Kevin nasce, e Eva se arrepende – o que fazer agora?

Inevitável é não perceber a metáfora que grita nesse nome, nessa expressão. EVA. Eva se arrepende. Como a personagem bíblica, ela se arrepende do fruto do seu ventre, das expectativas depositadas naquele serzinho que chora o tempo inteiro. O que ela faz? Finge. Retira de si outra persona e vira a dona de casa, a mãe amável que faz biscoitos, confere a lição de casa e ensina a tabuada.

O problema é que Kevin finge também.

Pro pai, ele é o “filhão”, o “garotão alegre” e que “só precisa de um pouco de carinho, Eva!”. Com a mãe, ele é dolorosamente verdadeiro: rejeita o seio que o amamenta, a mão que o afaga e a voz que o repreende. Despreza tudo, absolutamente tudo. E o pior: ele é cruel. Assustadoramente cruel. Pequenas coisas começam a acontecer, várias delas, mas nenhuma parece ser culpa do menino. Eva percebe. O marido diz que é loucura, injustiça.

Carta a carta, essa mãe vai lembrando Franklin dos detalhes da infância, da adolescência de Kevin, das coisas que ela disse, das que deveria ter dito… Ela vai assumindo sua parte na culpa, apontando onde Franklin também errou e no final, dolorosamente, ela conclui: nunca gostei do meu filho.

Ninguém gosta de mães que “não gostam” dos próprios filhos.

Também não gosto muito dessas mães.

Eu tinha infringido a mais primitiva das regras, profanado o mais sagrado dos laços.

[462]

imageedit_19_3377545386Aí está. A coragem de assumir os erros, os arrependimentos. Aquilo que a gente guarda bem escondido, como poeira velha embaixo do nosso tapete. Eva traz tudo à tona, tudo o que uma mãe, uma mulher, um ser humano nunca teria coragem de dizer. Ela diz, e de peito aberto. Parece que não há mais nada a perder.

Eu me rendo. Poderia passar o dia todo falando e não conseguiria mostrar pra vocês o quanto esse livro é incrível. Não é só sobre a mãe de um assassino, sabe? Vai além. Fala da hipocrisia nossa de cada dia, do falso perdão, das nossas insatisfações e da culpa. Da culpa dolorosa e do que a gente faz com ela. Comecei o livro achando bom, no meio me cansei um pouco dessa narradora egocêntrica e, no final, estava apaixonado pela sinceridade dela e pela força dessas páginas.

Quando o livro acaba, a sensação é de perfeição, de completude: a gente tá diante de uma obra-prima. Mais do que isso: levamos um tapa na cara. No meu caso, um tapa que vibra até agora. Dolorosamente.


Só para raros:

Vi o filme também.

As cenas são muito bem-feitas, bem filmadas. O tempo todo a cor vermelha persegue a mãe de Kevin, como um lembrete constante do que o filho fez e da dor que aquela história traz.

Ezra Miller [As Vantagens de Ser Invisível – post aquitá incrível como o Kevin: o desprezo no olhar, o jeito de se mover, tudo. Tilda Swinton faz uma boa Eva: fria, fisicamente parecida com a descrição do livro, mas muito unilateral. Senti falta da complexidade que a personalidade de Eva tem. Na verdade, se eu fosse usar uma palavra só pra definir o filme, seria essa: falta. 110 minutos não foram suficientes pra contar essa história.

Não me entenda mal: sei que filme e livro são formatos diferentes e é muito difícil condensar tudo pra fazer caber numa tela. Mas cara, não dá. O livro é INFINITAMENTE superior em todos os sentidos.

Enquanto o filme te impressiona, o livro te derruba, acaba com a tua raça e te faz pedir mais.

Eric

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50 tons de cinza – o filme

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Sim, nós assistimos.

E, ao contrário do que a maioria dos blogs vêm dizendo, esse filme vale o ingresso.


Alguém não conhece a história? 5O Tons de Cinza foi baseado em um livro de mesmo nome – cuja qualidade, aliás, é bastante criticada – e conta a história de um casal: Anastasia (Ana), moça sem nenhuma graça, em vias de concluir o ensino superior e Christian Grey, jovem milionário, poderoso e cheio de mistério. Ana consegue de alguma maneira atrair o interesse sexual desse homem e ele a convida a ingressar no seu mundo particular, onde sexo é submissão (da parceira) e carinho é feito com chicote.

Em resumo, é isso. Confesso que não li o livro, então não me sinto à vontade pra criticá-lo. Mas o filme eu vi, e é dele que a gente vai falar nesse post.

Anastasia (interpretada por Dakota Johnson) é retratada desde o começo como uma mulher sem nenhum atrativo: as roupas são apagadas, o cabelo tá sempre bagunçado e a fala é quase um sussurro, combinando com os olhos baixos. Christian (Jamie Dornan) é o oposto perfeito: também jovem, mas já dono de empresa e milionário. Enquanto Anastasia fala baixinho e se confunde com o plano de fundo, Christian atrai olhares, flerta abertamente e impõe suas vontades a todos os que o cercam.

Os dois se conhecem. Ela se apaixona e ele, a princípio, não. Enquanto ela quer encontrar o amor naquele homem, o que ele procura é uma parceira submissa, pronta pra atender os seus desejos e expor a pele às suas chicotadas.

No decorrer do filme, Ana vai conhecendo aos poucos o universo dos instrumentos de tortura. Há todo um código, toda uma ética própria. Qual vara usar, como ser amarrada, onde se posicionar, quais restrições seguir: tudo é preciso e colabora pra proporcionar o máximo de prazer… a ele. E é aí que o filme se torna interessante. Quando a gente percebe que, apesar de Ana sentir prazer com algumas daquelas brincadeiras, o foco delas é sempre Christian. Quando ele desliza a mão pelas curvas dela e começa a deixar a pele branca marcada, isso pouco importa – o corpo dela pouco importa. A mulher é só um objeto, um brinquedo estimulante que se quebra aos poucos pra dar mais prazer.

Eric, você tá me dizendo que é ruim apanhar sem querer e que é errado se sujeitar à vontade do outro só pra manter um amor que não existe? | Sim, tô. | Mas isso não é extremamente óbvio? – Aí é que tá… será? Será que é tão óbvio assim? Claro que o caso de Ana e Christian é extremo, óbvio, caricatural mesmo, mas e o seu último relacionamento? Ele estava tão longe assim da essência dos 50 tons?

Lembra quando você ligava pra ele o tempo todo pra dar satisfação? Quando não podia ter amigos homens ou mesmo sair sem ele estar presente? Lembra daquelas decisões que você deixou de tomar porque ele “parecia tão seguro” e você “confiava nele“? Pois é. Você acha a história de Anastasia ridícula, mas também já sufocou sua vontade pra “fazer ele feliz”. A quantos lugares você já deixou de ir? Quantas pessoas deixou de conhecer e pior: quantos amigos e amigas perderam esse status e voltaram a ser apenas “conhecidos”?

Foi triste passar duas horas sentado naquela cadeira e ver cenas em que a mulher simplesmente abaixava a cabeça e se deixava ficar à mercê do homem, da vontade dele. No começo, ela era totalmente submissa, aceitava tudo sem questionar, mas no decorrer do filme a personagem vai impondo alguns limites, estabelecendo suas regras. O que ela não percebe é que as suas “imposições” e negativas serviam mais pra excitá-lo do que propriamente como meio de expressão da sua vontade.

Sabe por quê? Porque ela não gostava de apanhar. Ela não queria passar por nada daquilo. Tem uma cena em que, depois de apanhar com força, Ana pergunta a Christian, chorando: “Por que tem que ser assim? Por que você tem que me machucar?” Veja bem: qual o sentido de assinar um contrato (!) e criar regras específicas pra uma coisa que eu simplesmente não quero fazer?

É simples: manter. A perspectiva da vida sem Grey parecia tão desnorteante que Anastasia escolheu viver a vida dele, as suas fantasias, os seus desejos – tudo pra manter o homem pra si. Não eram só os pulsos de Ana que estavam amarrados naquela cama: ela toda parecia estar atada a esse amor-prisão. Um amor que é muito mais necessidade e desespero do que carinho e querer bem.

A fotografia do filme é boa, a escolha de músicas pra compor a trilha sonora acerta muitas vezes e as cenas de sexo são bem-filmadas, passando longe do vulgar – mas nada disso vale o ingresso. Seus vinte reais começam realmente a valer a pena quando você se enxerga em Anastasia (ou em Christian) e descobre que apego e troca de farpas é o que você vem chamando de “amor”. E que talvez chegue o dia em que você se olhe no espelho e – de tão outra – não se reconheça; segurando um contrato assinado nas mãos, cujas cláusulas você não redigiu, talvez nem sequer leu.

É quando a gente percebe que tem coisas que amarram mais do que algemas. E sentimentos tão ambivalentes que são pintados em mais de cinquenta tons.

Feliz dia da mulher!

Eric

Clandestina Felicidade

“Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim.”

Clandestina felicidade é um curta inspirado em um conto de Clarice Lispector, Felicidade Clandestina. Traz também traços de outras obras da autora, como o nome Macabéia, protagonista de A hora da estrela.

Gravado em 1998, dirigido por Beto Normal e Marcelo Gomes, a história é gravada em preto e branco e retrata a relação de Clarice com a leitura e com o Recife, através de passagens autobiográficas.

Para qualquer Recifense o curta é emocionante, porque mostra vários cartões postais daqui no preto e branco, que é muito bem utilizado. Ver o Recife e suas pontes retratados com tanta beleza é maravilhoso! A história gira em torno de três elementos: Um livro, uma menina mimada e uma menina pobre que quer ler o livro da menina mimada.

Como tantas outras estórias que lemos na nossa infância, esta é mais uma de criança egoísta que não quer emprestar os seus brinquedos. Neste caso, um livro! E Macabéia, personagem principal, é pobre, não tem dinheiro pra comprar. Durante os 15 minutos do filme, Macabéia desenvolve o sonho de ler o livro Reinações de Narizinho, mas a dona, cujo pai tem uma livraria, é incapaz de emprestar e fica inventando desculpas o tempo inteiro.

Quando, finalmente, Macabéia consegue o livro, Lispector, no conto, e os diretores, no filme, deixam claro o sentimento de brincar com a felicidade. Fingir que ela não chegou, fazer de conta que o livro está lá, de surpresa de novo, pra ter a mesma sensação novamente, se alegrando constantemente com a realização de um sonho.

E nós podemos brincar um pouco com ela também. Quem sabe este carnaval não é o seu livro? São só quatro dias, mas a gente pode muito bem fazer de conta que não começou ainda, que sempre teremos mais quatro dias… Seja pra cair na folia, seja pra descansar, seja pra matar a saudade… Quatro dias pra se fazer o que quiser. Quatro dias de uma felicidade, um tanto clandestina, mas o que importa? O que vale é ser feliz!

Não deixe de assistir o curta, são só 15 minutinhos ;)

Neide Andrade

O Clube dos Cinco

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Pra que escrever uma redação sobre o que somos? O senhor nos vê como quer! Nos termos mais simples, nas definições mais convenientes.

Um vagabundo, um jogador, uma princesinha, um CDF, uma porra-louca.

São esses cinco os personagens integrantes do clube.

Clube, aliás, que nenhum deles queria formar.

Por pequenas ou grandes faltas, esses cinco adolescentes foram obrigados a ficar juntos num sábado na escola, sozinhos. Eles, o zelador, o diretor e mais ninguém, forçados a refletir sobre o que fizeram e escrever uma redação sobre “o que eles acham que são?”.

Essa é a história do The Breakfast Club. Só isso. Mais um filmezinho americano sobre adolescentes, colégios, líderes de torcida e tal. Foi o que eu achei quando li a sinopse e vi as fotos de divulgação.

Eu estava errado.

Esse texto é pra dizer por quê.

Lógico que os clichês estão lá. Pô, colégio americano e cinco estereótipos, queria o quê? Todos se odeiam entre si, ninguém parece ter nada a ver com o outro. Eles só querem que o dia acabe logo, pra saírem dali. Mas tudo muda quando o primeiro pergunta: “E você… Como é na sua casa?”

Pára um pouco. Imagina alguém que você não conhece direito te fazendo essa pergunta. O primeiro ímpeto é dar uma resposta seca – ninguém tem nada a ver com a tua vida. Só que tem dias que a gente tá mais frágil, meio perdido, quando todas as nossas angústias parecem se materializar numa mão que sufoca a garganta da gente. Coincidentemente, os cinco estavam num dia assim.

Os disfarces de mau e indiferente começam a cair e eles falam aos poucos da própria vida, dos problemas mais pessoais. Falam de quem são e do que fingem ser, falam de mim e de você também. Sem afetação, sem complexidade forçada. Como numa conversa de verdade, sem script nem politicamente correto. [Tanto, que o diretor permitiu que a cena mais importante do filme fosse rodada totalmente no improviso. Meia hora de filme correndo solta, sem falas pré-determinadas. Dá pra imaginar o efeito disso no resultado?]

97 minutos depois, a que conclusão cheguei:

O filme inteiro se passa dentro do colégio, mas podia ser na casa de um deles, ou num salão de festas vazio – ou na praia de madrugada, como eu prefiro. Os personagens principais são cinco estereótipos, mas podia acontecer comigo e com meus amigos, com você e os seus. Porque, na verdade, esse é um filme sobre gente de verdade, gente que se deixa conhecer. Sobre aquele momento de loucura quando você deixa a máscara sair do lugar e permite que os outros vejam como você é por dentro, com todas as falhas e sem a assepsia que a sociedade às vezes impõe.

Não é um filme pra todo mundo.

Não veja se sua vida for perfeita. Se você for bonzinho demais. Ou se você já for um adulto completo.

É porque quando a gente vira adulto de vez, nosso coração morre.

E quem se importa?

Eu me importo!

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“Olha-me de novo. Com menos altivez. E mais atento”

[Hilda Hilst]


Faltou dizer que o filme se passa nos anos oitenta – essa época maravilhosa -, tem cheirinho de sessão da tarde e uma trilha sonora massa! E está disponível online no Netflix. Corre!

Faltou também agradecer a minha amiga Rafaela, sem a qual eu não teria conhecido esse filme, nem John Hughes, nem o Apanhador no Campo de Centeio, ou Anos Incríveis [Lara também tem crédito nessa], nem diversas outras coisas boas. Boas de verdade.

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Eric

SE EU FICAR

Sem título

Poucos sons têm mais beleza que os dos músicos apaixonados… Apaixonados, não necessariamente por alguém, mas por qualquer coisa. Quem sabe se expressar com música faz isso muito bem e poucos sabem entender. Mas, quando dois se entendem, a história fica linda! Eu fiquei dividida, sem saber se deveria escrever sobre a trilha sonora ou sobre o filme, então resolvi fazer os dois de uma vez. Vou colocar a música e é pra ler ao som dela.

Mia (Chlöe Grace Moretz) é uma menina quieta, filha de roqueiros, mas que logo na infância descobriu o amor pela música clássica. Tinha uma família perfeita, mas nunca se sentiu da tribo deles, apesar de amá-los. Durante o colégio, enquanto ensaia com o violoncelo, passa a ser observada por Adam (Jamie Blackley), o vocalista de uma banda local. Diferente dos filmes comuns que usam a fórmula menina tímida + menino popular = confusão na escola, não tem confusão e Mia é bem recebida pelos amigos dele.

Adam logo é aceito pelos pais de Mia, que viram seus amigos, afinal, ele também é roqueiro. Mia rompe preconceitos e passa a conviver mais com o mundo e, apesar de continuar apaixonada pelo violoncelo, agora outra paixão rouba o seu tempo: Adam. Os dois já fazem planos pro futuro e  não observam que, mais cedo ou mais tarde, a separação será necessária… Teoricamente, rock não combina com clássico.

Mia é o suporte de Adam. É nela que ele encontra a família que nunca teve, a amizade verdadeira, a confiança. Mas esse relacionamento, apesar de verdadeiro, é constantemente ameaçado. Os dois têm planos diferentes, em lugares diferentes. Mia quer estudar em Nova Iorque, enquanto ele quer correr o país inteiro em turnês com a banda.

O casal se separa. Adam vai para as suas turnês e Mia começa a lutar por uma vaga na renomada escola de música Julliard. Entretanto, apesar de realizar sonhos, não estão felizes um longe do outro.

Em uma manhã de neve, a família de Mia decide sair pra se divertir e, na estrada, sofre um acidente. Enquanto ela está em coma, repensa as suas escolhas e no que importa, de fato. Pensa em quais são os seus sonhos e o que mudou enquanto isso. Ouve histórias da melhor amiga, do avô, até mesmo de Adam.

O filme não passa de mais um drama romântico clichê. Entretanto, um clichê contado de uma maneira fabulosa, linda e apaixonante. Já quero ver de novo!

Neide Andrade

Simplesmente Amor

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Natal. Acabou o peru do dia anterior, a família foi embora de casa. Você tá deitado (ou deitada) no sofá, sozinho, com o ventilador do lado. Tá procurando um filme bom pra ver hoje, antes de anoitecer? Tenho uma dica pra te dar!

Conheci Love Actually (Simplesmente Amor) através de uma amiga muito querida. Pessoa de hábitos que é, lembro de ela ter me dito – anos atrás – que assistia a esse filme todo natal, todos os anos. Na hora, não entendi por quê (meio bizarro né?). Isso mudou depois que resolvi fazer o mesmo que ela, num dia 25 de dezembro. Não que o filme seja profundíssimo, vá mudar sua vida ou te dar força pra começar o ano de um jeito diferente. Ele não é Augusto Cury.

A graça a respeito de Simplesmente Amor tá no próprio título: ele é simples. E é amor.

Se passa no natal de 2003, em Londres, e conta a história de várias pessoas bem diferentes que se relacionam de alguma maneira. Tem um cantor bizarro tentando emplacar sucessos depois da velhice / marido infiel e esposa triste / primeiro-ministro apaixonado por sua secretária / um viúvo lidando com a perda / dois melhores amigos e um segredo – Enfim, várias histórias. Todas acontecendo no natal.

Sei que não dei uma sinopse boa pra vocês – desculpa -, mas com Simplesmente Amor é difícil. Isso porque não tem um personagem principal ou um tema específico, esse filme fala da vida. De pessoas que traem e das que descobrem, de quem se apaixona pela primeira vez, das vezes em que não dá pra entender o que o outro quer dizer, de quando a gente simplesmente tem que aceitar o inevitável.

Fala de mim, de você, fala da gente, da nossa vida. Sem pretensões.

Se nada disso te convenceu a assistir esse filme hoje, vê o elenco: Colin Firth, Hugh Grant, Keira Knightley, Liam Neeson e Rodrigo Santoro (sim!).

Se não te convenci ainda, olha esses gifs ♡:

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Feliz natal! =]

Eric

Top 5 – trilhas sonoras originais

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Duas observações antes de você começar a ler essa lista:

1) Teve uma discussãozinha teórica aqui sobre o que faz uma música ser classificada como trilha sonora original. Alguns dizem que só são classificadas assim canções que foram compostas especialmente para aquele determinado filme. Eu discordo. Para mim, músicas antigas que, num determinado filme, foram repaginadas ou cantadas por pessoas diferentes das originais também contam como trilha sonora original. Em resumo: eu fiz a lista sem roubar sim!

2) Certamente, essa é uma das listas mais ecléticas do mundo

Filme cult? Tem. | Animação? Tem. | Filme brega? Também.

3) Não consigo fazer uma lista sem roubar


5) T. V. CARPIO – I WANNA HOLD YOUR HAND

[Across The Universe]

Sim, é versão de uma música dos Beatles. Se você é fã xiita, lide com isso. O filme – Across the Universe – é um musical de 2007 só com versões de músicas deles. O diretor costura os maiores sucessos desses 4 rapazinhos junto com o enredo, como se as canções contassem uma história: o mocinho sai da Inglaterra e vai pros Estados Unidos procurar o pai. Lá, conhece outro mocinho rebelde e sua irmã e todos juntos entram em contato com a psicodelia dos anos 60, aquela vibe Woodstock e tal. É um filme de descoberta, de auto-descoberta. E I Wanna Hold Your Hand tem um papel importante nisso. A versão é bem diferente da original, é muito mais lenta e cantada por uma mulher. A fragilidade da interpretação e o timbre da voz casam perfeitamente com o sentido que o filme dá a letra da música. Não é só mais uma canção de amor. É como se a intérprete colocasse pra fora quem ela é de verdade, através da voz.

4) MERYL STREEP – THE WINNER TAKES IT ALL

[Mamma Mia!]

Eu sei que é brega, não precisa tirar onda nos comentários. Mamma Mia é um musical todo composto de canções do grupo sueco ABBA (YOU ARE THE DANCING QUEEN, YOUNG AND SWEET)  O filme de 2008 é um musical, com a mesma proposta de Across The Universe: contar uma história através das músicas de um só artista. No caso, como as músicas são de ABBA, não podia ser diferente: Mamma Mia! é alegre, contagiante e tocante em vários momentos. Conta a história de uma menina que nunca conheceu o pai, tudo o que ela sabe é que o diário da mãe menciona três ex-namorados. No dia do seu casamento, a menina espera os três em sua casa para que o pai verdadeiro a leve até o altar. [Eu sei que a sinopse ficou ruim, mas todo mundo já viu esse filme e eu precisava inserir esse link pra valorizar a cultura pernambucana]. Enfim, a música é lindamente interpretada por Meryl e não deve nada à original. Ninguém mais está autorizado a fazer uma versão de The Winner Takes It All depois dessa.

3) ALEX BEAUPAIN – J’AI CRU ENTENDRE

[Les Chanson D’Amour]

Casal jovem com problemas no relacionamento pede a uma amiga em comum que os ajude. Tudo parece bem, mas um fato repentino muda tudo. – É o máximo de roteiro que posso dar sem falar um spoiler. Mas sabe quando a trilha sonora faz o filme? Pronto. Na verdade, tô sendo injusto: os atores também são muito bons e estão todos – TODOS – ótimos nesse filme. Se você analisar o roteiro de Chansons sem esses elementos, o caminho que o filme vai tomando parece meio improvável. Mas, repare: acrescente a trilha + os atores/atrizes e você é levado a pensar que tudo tinha que acontecer daquele jeito, exatamente daquele jeito. As músicas – todas compostas por Alex Beaupain – são tão boas e as letras tão bem-escritas que a função delas não é ornamentar o musical ou criar um clima, mas substituir as falas. Parece que chega um momento em que as palavras não conseguem expressar o que os personagens tão sentindo. Quando isso acontece, eles cantam. E a letra da música diz tudo. No caso de J’ai Cru Entendre, a letra fala de alguém que precisa de um consolo, um amor refúgio, sem-promessas e da outra pessoa, a que aceita. As letras de todas as músicas desse filme são incríveis.

2) GARY JULES – MAD WORLD

[Donnie Darko]

Comprei o DVD desse filme pro meu amigo Pedro no começo de 2013, de aniversário. Até hoje ele não viu. Nem culpo o coitado. Dar uma sinopse de Donnie Darko a alguém é quase impossível. Tem viagem no tempo? Tem. | Tem romance? Também. | Tem filosofia? Tem. | Tem adolescente protagonista? Também. Se eu puder sugerir algo a você, eu digo: esqueça a capa e as sinopses, assista esse filme! É melancólico, bonito, interessante e te amarra na cadeira. Os atores estão espetaculares, especialmente Jake Gyllenhaal e Drew Barrymore. E, arrematando tudo, a versão que Gary Jules fez pro clássico do R.E.M. Ela faz jus à melancolia do enredo e é o final perfeito pra um filme que te faz pensar na vida, em como ela pode ser louca. Mad world.

1) ROSANA – SALVE OS PROSCRITOS

[Disney – O Corcunda de Notre Dame]

Sim, uma animação levou o primeiro lugar dessa lista! E eu nem gosto taanto assim de animação. Mas Corcunda não é só meu filme favorito da Disney, é um dos meus filmes favoritos da vida. E grande parte do amor que eu tenho por esse musical é por causa dessa música. Rosana nunca interpretou tão bem, com tanta delicadeza e tanta entrega. A letra fala de alguém emocionado que tá fazendo uma oração, pedindo proteção para os perdidos, os proscritos. É tocante de verdade. Não consigo ouvir sem me arrepiar.

1) LANA DEL REY – RIDE

[O Filme que Não Existe]

Se você leu até aqui, observe-me dar uma roubadinha nessa lista. Ride não faz parte de nenhum filme. Mas, olha, deveria fazer. Na verdade, o clipe é praticamente um curta-metragem, e transmite bem o sentido da letra, mas sabe quando o vídeo acaba e você fica querendo mais? Pronto. Nesse clipe, Lana tá perdida. Ela quer se desapegar, se jogar na estrada, ser livre e – ao mesmo tempo – pede pro amor dela: “não vai embora, não me diz adeus, não vira as costas.” Uma das melhores músicas do Born to Die! Só por ela, já vale comprar a versão deluxe do cd.

‘Been trying hard not to get into touble, but I / I’ve got a war in my mind / I just ride.

⇧ Se quer ouvir só a música, adianta para 3:15


Esqueci de alguma?

Conta aí nos comentários qual é a música de filme que faz você ficar assim:

xxx

Eric

Pássaro Branco na Nevasca

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Pois bem, meus queridos. Este é o último post do especial amor e o que vem agora é triste, mostra a falta de amor. Vamos falar sobre Pássaro Branco na Nevasca, um filme deste ano que alimenta nossas expectativas até o final.

Fui surpreendida em vários momentos, especialmente por analisar os personagens como humanos, sem um vilão explícito em uma história triste. Temos, aqui, drama, romance, suspense, mistérios, crueldade, sexo, drogas e rock and roll. Apesar de achar que caberia mais 30 minutos de filme para analisar melhor cada história, recomendo muito porque amo coisa que faz meu coração bater forte, que me faz chorar e que me faz descobrir (ou tentar descobrir) mistérios… Este filme fez tudo isso!

Kat (Shailene Woodley – mesma atriz de A culpa é das estrelas) é uma menina que pode ter todos os problemas emocionais possíveis, mas aos olhos do mundo, tinha uma família bem estruturada, sua mãe – Eve Connors, interpretada por Eva Green – era a dona de casa perfeita e o seu pai um homem de respeito e muito tradicional. Já dentro de casa, faltava amor na relação com os seus pais e, consequentemente, isso influenciava de maneira direta a vida de Kat, mesmo que ela tivesse uma vida social maravilhosa e uma vida sexual ativa.

Aquela família era o oposto do que aparentava ser. O casal não era feliz. E, desde muito nova, Kat já percebia isso. Neste filme, percebemos o tipo de amor mais pobre e triste que pode haver: O amor superficial, aparente.

“Ele era o capacho dela, ela o tratava como lixo e ele deixava. Imagine o choque quando eu visitei o meu pai no trabalho e descobri que ele tinha charme. Todas as mulheres estavam na dele. (…) O casamento dos meus pais era um longo gole d’água de uma fonte congelada: Tão fria que transformava os dentes em diamantes. Foi perturbador descobrir a vida sexual péssima deles. Enquanto isso, meu pai tinha a sua gaveta secreta. Então, continuaram assim. Minha mãe nunca gozava e meu pai se masturbava no porão. O tempo todo fingindo que estava tudo bem, que éramos uma família perfeita, vivendo uma vida perfeita.”

Kat carrega nos ombros a culpa de conseguir, aparentemente, o que a sua mãe nunca conseguiu com o pai. Phill (Shiloh Fernandez), o seu vizinho e namorado, fez com que ela conhecesse a vida sexual, coisa que a sua mãe não tinha há muito tempo. E isso, de certa forma, passa a incomodar Kat durante o desenrolar da trama. Eve, uma mulher fria e arrogante, some de casa e deixa o Sr. Connors e Kat sozinhos.

A menina, com 17 anos, aparentemente, não sofreu muito. Mas cresceu com medo de se tornar indesejável, como a mãe era. Viveu em busca de amores descartáveis, que não a levou a lugar nenhum. E a falta de amor entre o casal, além da falta de respeito e admiração, destruiu aquela família e a vida de Kat, que nunca teve paz, até descobrir o que, de fato, aconteceu pra sua mãe sair de casa.

Paro por aqui, porque se não vou falar demais e pouca gente assistiu ao filme :X CALA-TE BOCA! Pra mim, este filme é uma lição do que não deve acontecer com uma família. Mesmo que o amor acabe, todo ser humano é digno de respeito. Espero a opinião de vocês. Boa semana!

Neide Andrade

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