Cinema Internacional

50 tons de cinza – o filme

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Sim, nós assistimos.

E, ao contrário do que a maioria dos blogs vêm dizendo, esse filme vale o ingresso.


Alguém não conhece a história? 5O Tons de Cinza foi baseado em um livro de mesmo nome – cuja qualidade, aliás, é bastante criticada – e conta a história de um casal: Anastasia (Ana), moça sem nenhuma graça, em vias de concluir o ensino superior e Christian Grey, jovem milionário, poderoso e cheio de mistério. Ana consegue de alguma maneira atrair o interesse sexual desse homem e ele a convida a ingressar no seu mundo particular, onde sexo é submissão (da parceira) e carinho é feito com chicote.

Em resumo, é isso. Confesso que não li o livro, então não me sinto à vontade pra criticá-lo. Mas o filme eu vi, e é dele que a gente vai falar nesse post.

Anastasia (interpretada por Dakota Johnson) é retratada desde o começo como uma mulher sem nenhum atrativo: as roupas são apagadas, o cabelo tá sempre bagunçado e a fala é quase um sussurro, combinando com os olhos baixos. Christian (Jamie Dornan) é o oposto perfeito: também jovem, mas já dono de empresa e milionário. Enquanto Anastasia fala baixinho e se confunde com o plano de fundo, Christian atrai olhares, flerta abertamente e impõe suas vontades a todos os que o cercam.

Os dois se conhecem. Ela se apaixona e ele, a princípio, não. Enquanto ela quer encontrar o amor naquele homem, o que ele procura é uma parceira submissa, pronta pra atender os seus desejos e expor a pele às suas chicotadas.

No decorrer do filme, Ana vai conhecendo aos poucos o universo dos instrumentos de tortura. Há todo um código, toda uma ética própria. Qual vara usar, como ser amarrada, onde se posicionar, quais restrições seguir: tudo é preciso e colabora pra proporcionar o máximo de prazer… a ele. E é aí que o filme se torna interessante. Quando a gente percebe que, apesar de Ana sentir prazer com algumas daquelas brincadeiras, o foco delas é sempre Christian. Quando ele desliza a mão pelas curvas dela e começa a deixar a pele branca marcada, isso pouco importa – o corpo dela pouco importa. A mulher é só um objeto, um brinquedo estimulante que se quebra aos poucos pra dar mais prazer.

Eric, você tá me dizendo que é ruim apanhar sem querer e que é errado se sujeitar à vontade do outro só pra manter um amor que não existe? | Sim, tô. | Mas isso não é extremamente óbvio? – Aí é que tá… será? Será que é tão óbvio assim? Claro que o caso de Ana e Christian é extremo, óbvio, caricatural mesmo, mas e o seu último relacionamento? Ele estava tão longe assim da essência dos 50 tons?

Lembra quando você ligava pra ele o tempo todo pra dar satisfação? Quando não podia ter amigos homens ou mesmo sair sem ele estar presente? Lembra daquelas decisões que você deixou de tomar porque ele “parecia tão seguro” e você “confiava nele“? Pois é. Você acha a história de Anastasia ridícula, mas também já sufocou sua vontade pra “fazer ele feliz”. A quantos lugares você já deixou de ir? Quantas pessoas deixou de conhecer e pior: quantos amigos e amigas perderam esse status e voltaram a ser apenas “conhecidos”?

Foi triste passar duas horas sentado naquela cadeira e ver cenas em que a mulher simplesmente abaixava a cabeça e se deixava ficar à mercê do homem, da vontade dele. No começo, ela era totalmente submissa, aceitava tudo sem questionar, mas no decorrer do filme a personagem vai impondo alguns limites, estabelecendo suas regras. O que ela não percebe é que as suas “imposições” e negativas serviam mais pra excitá-lo do que propriamente como meio de expressão da sua vontade.

Sabe por quê? Porque ela não gostava de apanhar. Ela não queria passar por nada daquilo. Tem uma cena em que, depois de apanhar com força, Ana pergunta a Christian, chorando: “Por que tem que ser assim? Por que você tem que me machucar?” Veja bem: qual o sentido de assinar um contrato (!) e criar regras específicas pra uma coisa que eu simplesmente não quero fazer?

É simples: manter. A perspectiva da vida sem Grey parecia tão desnorteante que Anastasia escolheu viver a vida dele, as suas fantasias, os seus desejos – tudo pra manter o homem pra si. Não eram só os pulsos de Ana que estavam amarrados naquela cama: ela toda parecia estar atada a esse amor-prisão. Um amor que é muito mais necessidade e desespero do que carinho e querer bem.

A fotografia do filme é boa, a escolha de músicas pra compor a trilha sonora acerta muitas vezes e as cenas de sexo são bem-filmadas, passando longe do vulgar – mas nada disso vale o ingresso. Seus vinte reais começam realmente a valer a pena quando você se enxerga em Anastasia (ou em Christian) e descobre que apego e troca de farpas é o que você vem chamando de “amor”. E que talvez chegue o dia em que você se olhe no espelho e – de tão outra – não se reconheça; segurando um contrato assinado nas mãos, cujas cláusulas você não redigiu, talvez nem sequer leu.

É quando a gente percebe que tem coisas que amarram mais do que algemas. E sentimentos tão ambivalentes que são pintados em mais de cinquenta tons.

Feliz dia da mulher!

Eric

As vantagens de ser invisível

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Lembra aquele dia em que você pegou o carro com seus amigos e saiu sem destino certo? Lembra do vento no teu rosto, da sensação de liberdade? Parecia que a noite, o vento e você eram uma coisa só e, porque eram todos um, você era eterno, e infinito.
Charlie também sentiu tudo isso e conta pra gente como foi em As Vantagens de Ser Invisível, livro de Stephen Chbosky. O personagem principal é um adolescente daqueles invisíveis, filho mais novo de uma família de estrelas: o irmão mais velho, astro do futebol e a do meio, brilhante e linda. Charlie não é burro, não é feio, nem é desajeitado. Mas também não é brilhante, lindo ou habilidoso. Ele é como aquelas plantas de consultório de médico, sabe? Tem seu valor, mas ninguém realmente repara.
WAliás, tô escrevendo esse texto no consultório médico e, enquanto tento me concentrar pra lembrar os detalhes da história, uma paciente de farda resmunga pra mãe: primeiro ano do ensino médio é o pior ano na vida de uma pessoa! – Queria que vocês tivessem ouvido o tom dela ao falar isso, o jeito de quem acabou de dizer uma verdade absoluta. Confesso que sorri e achei meio exagerado, mas entendo a menina. Entendo muito. Lembro do medo de enfrentar uma sala de no mínimo 50 alunos (quando as anteriores tinham no máximo 30), de pensar no vestibular pela primeira vez, de me preocupar com o futuro. Na verdade, a gente ta sempre se preocupando e pensando no futuro, mas, no primeiro ano do ensino médio, isso parece tão precoce. A gente nem sabe direito quem é e já tem que pensar no que vai ser.
Charlie tá passando exatamente por isso no livro de Stephen, os medos, a ansiedade, a sensação de não se ajustar. Tudo em sua vida parece meio fadado ao fracasso, quando ele conhece Sam e Patrick, um casal (de irmãos) prestes a se formar no ensino médio. Enquanto a maioria das pessoas na sala deles está preocupada com a admissão na faculdade, os dois escrevem numa revista independente e atuam numa peça-releitura de Rocky Horror Picture Show <3 Eles saem de carro à noite, vão a festas de verdade e parecem muito seguros de si. Sabe os adolescentes populares do teu ensino médio? Pronto, Sam e Patrick são o oposto: eles são aqueles desajustados, loucos por música, que se juntam, se entendem e vivem a vida sem se importar com a opinião dos outros.
Ao longo do livro, Charlie vira amigo dos dois, sai junto com eles, começa a conhecê-los de verdade e finalmente descobre: aquela segurança que os irmãos pareciam ter era, na verdade, uma resposta ao mundo, um grito de sobrevivência de quem foi muito magoado pela vida e precisou encontrar forças em si, descobrir e aceitar quem se é. Nesse momento, a gente percebe que Charlie também teve uma vida difícil e seu coração já foi muito magoado, mas tem um problema: ele ainda não encontrou forças. Nosso menino é fraco demais pra encarar seu passado e, por isso, não consegue seguir em frente. Em um dado momento, ele percebe que tem coisas que a gente não conseguem encobrir, feridas que são tão profundas que gritam, rompem as ataduras e se revelam ainda vivas, inalteradas.
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Todo esse texto pra dizer que o livro é ótimo. E o filme é incrível, é melhor.
Não sei se interfere no meu julgamento a questão de eu ter visto o filme antes de ler o livro. De todo jeito, apesar de ter achado prazeroso ler sobre Charlie, Sam, Patrick e conhecê-los mais profundamente, o fato é que realmente achei o filme melhor.
A adaptação é bem fiel ao livro, mas a mudança de formato faz muita diferença: a história editada ganha bem mais força; no filme, da pra ouvir as músicas lindas que o autor cita durante o texto; e o melhor: a atuação dos protagonistas é muito boa. Ezra Miller tá maravilhoso como Patrick, Emma Watson faz uma Sam incrível e Logan Lerman tá simplesmente perfeito como Charlie! O jeito baixo do olhar, a fala meio arrastada, o desespero latente: é realmente como ver o Charlie do texto em carne e osso. Todo o livro, na verdade, parece ganhar vida na tela e e impossível não se emocionar com isso.
Dito isso, me resta finalizar dizendo que As Vantagens de Ser Invisível não é só sobre adolescência, amizade ou futuro, é sobre ser. Sobre aquele momento em que a gente rompe com o passado e começa a viver a nossa vida. A nossa vida, não a do outro.
Recomendo muito. Em especial pra quem acha que, em qualquer idade, é possível crescer.
Tem no netflix aqui.

Só para raros:

YThere are people who forget what it’s like to be 16 when they turn 17. I know these will all be stories someday. And our pictures will become old photographs. We’ll all become somebody’s mom or dad. But right now these moments are not stories. This is happening, I am here and I am looking at her. And she is so beautiful. I can see it. This one moment when you know you’re not a sad story. You are alive, and you stand up and see the lights on the buildings, and you’re listening to that song and that drive with the people you love most in this world. And in this moment I swear, we are infinite.

Há pessoas que esquecem como é ter dezesseis anos quando fazem dezessete. Eu sei que tudo isso vai ser história algum dia e nossas fotos vão se tornar velhas fotografias, nós vamos nos tornar mãe ou pai de alguém. Mas nesse momento isso não é história. Está acontecendo. Eu estou aqui e estou olhando pra ela, e ela é tão linda, eu posso ver. É aquele momento único em que você sabe que você não é uma história triste. Você está vivo! Você fica de pé e vê as luzes e está ouvindo aquela música, no carro ao lado das pessoas que você mais ama no mundo. E nesse momento, eu juro, nós somos infinitos.

Eric

Festa, cores, alegria, alegria…

Tem gente que tudo o que quer é conhecer gente. Tem gente que não gosta de gente. E, pensando nelas – que são como nós dois – preparamos umas dicas, que já foram faladas aqui mesmo no blog. Se você não aguenta mais a transmissão da globo, não tem dinheiro pra viajar, não quer cair na folia… Corre aqui e olha as nossas dicas. Tem um livro lindo, músicas maravilhosas e filmes inesquecíveis.
Beijos e bom carnaval!
Eric e Neidinha

O corcunda de Notredame

O Labirinto do Fauno

Suécia, essa delícia

Pássaro Branco na Nevasca

Boyhood

Meu pé de laranja Lima

O Clube dos Cinco

BC

Pra que escrever uma redação sobre o que somos? O senhor nos vê como quer! Nos termos mais simples, nas definições mais convenientes.

Um vagabundo, um jogador, uma princesinha, um CDF, uma porra-louca.

São esses cinco os personagens integrantes do clube.

Clube, aliás, que nenhum deles queria formar.

Por pequenas ou grandes faltas, esses cinco adolescentes foram obrigados a ficar juntos num sábado na escola, sozinhos. Eles, o zelador, o diretor e mais ninguém, forçados a refletir sobre o que fizeram e escrever uma redação sobre “o que eles acham que são?”.

Essa é a história do The Breakfast Club. Só isso. Mais um filmezinho americano sobre adolescentes, colégios, líderes de torcida e tal. Foi o que eu achei quando li a sinopse e vi as fotos de divulgação.

Eu estava errado.

Esse texto é pra dizer por quê.

Lógico que os clichês estão lá. Pô, colégio americano e cinco estereótipos, queria o quê? Todos se odeiam entre si, ninguém parece ter nada a ver com o outro. Eles só querem que o dia acabe logo, pra saírem dali. Mas tudo muda quando o primeiro pergunta: “E você… Como é na sua casa?”

Pára um pouco. Imagina alguém que você não conhece direito te fazendo essa pergunta. O primeiro ímpeto é dar uma resposta seca – ninguém tem nada a ver com a tua vida. Só que tem dias que a gente tá mais frágil, meio perdido, quando todas as nossas angústias parecem se materializar numa mão que sufoca a garganta da gente. Coincidentemente, os cinco estavam num dia assim.

Os disfarces de mau e indiferente começam a cair e eles falam aos poucos da própria vida, dos problemas mais pessoais. Falam de quem são e do que fingem ser, falam de mim e de você também. Sem afetação, sem complexidade forçada. Como numa conversa de verdade, sem script nem politicamente correto. [Tanto, que o diretor permitiu que a cena mais importante do filme fosse rodada totalmente no improviso. Meia hora de filme correndo solta, sem falas pré-determinadas. Dá pra imaginar o efeito disso no resultado?]

97 minutos depois, a que conclusão cheguei:

O filme inteiro se passa dentro do colégio, mas podia ser na casa de um deles, ou num salão de festas vazio – ou na praia de madrugada, como eu prefiro. Os personagens principais são cinco estereótipos, mas podia acontecer comigo e com meus amigos, com você e os seus. Porque, na verdade, esse é um filme sobre gente de verdade, gente que se deixa conhecer. Sobre aquele momento de loucura quando você deixa a máscara sair do lugar e permite que os outros vejam como você é por dentro, com todas as falhas e sem a assepsia que a sociedade às vezes impõe.

Não é um filme pra todo mundo.

Não veja se sua vida for perfeita. Se você for bonzinho demais. Ou se você já for um adulto completo.

É porque quando a gente vira adulto de vez, nosso coração morre.

E quem se importa?

Eu me importo!

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“Olha-me de novo. Com menos altivez. E mais atento”

[Hilda Hilst]


Faltou dizer que o filme se passa nos anos oitenta – essa época maravilhosa -, tem cheirinho de sessão da tarde e uma trilha sonora massa! E está disponível online no Netflix. Corre!

Faltou também agradecer a minha amiga Rafaela, sem a qual eu não teria conhecido esse filme, nem John Hughes, nem o Apanhador no Campo de Centeio, ou Anos Incríveis [Lara também tem crédito nessa], nem diversas outras coisas boas. Boas de verdade.

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Eric

SE EU FICAR

Sem título

Poucos sons têm mais beleza que os dos músicos apaixonados… Apaixonados, não necessariamente por alguém, mas por qualquer coisa. Quem sabe se expressar com música faz isso muito bem e poucos sabem entender. Mas, quando dois se entendem, a história fica linda! Eu fiquei dividida, sem saber se deveria escrever sobre a trilha sonora ou sobre o filme, então resolvi fazer os dois de uma vez. Vou colocar a música e é pra ler ao som dela.

Mia (Chlöe Grace Moretz) é uma menina quieta, filha de roqueiros, mas que logo na infância descobriu o amor pela música clássica. Tinha uma família perfeita, mas nunca se sentiu da tribo deles, apesar de amá-los. Durante o colégio, enquanto ensaia com o violoncelo, passa a ser observada por Adam (Jamie Blackley), o vocalista de uma banda local. Diferente dos filmes comuns que usam a fórmula menina tímida + menino popular = confusão na escola, não tem confusão e Mia é bem recebida pelos amigos dele.

Adam logo é aceito pelos pais de Mia, que viram seus amigos, afinal, ele também é roqueiro. Mia rompe preconceitos e passa a conviver mais com o mundo e, apesar de continuar apaixonada pelo violoncelo, agora outra paixão rouba o seu tempo: Adam. Os dois já fazem planos pro futuro e  não observam que, mais cedo ou mais tarde, a separação será necessária… Teoricamente, rock não combina com clássico.

Mia é o suporte de Adam. É nela que ele encontra a família que nunca teve, a amizade verdadeira, a confiança. Mas esse relacionamento, apesar de verdadeiro, é constantemente ameaçado. Os dois têm planos diferentes, em lugares diferentes. Mia quer estudar em Nova Iorque, enquanto ele quer correr o país inteiro em turnês com a banda.

O casal se separa. Adam vai para as suas turnês e Mia começa a lutar por uma vaga na renomada escola de música Julliard. Entretanto, apesar de realizar sonhos, não estão felizes um longe do outro.

Em uma manhã de neve, a família de Mia decide sair pra se divertir e, na estrada, sofre um acidente. Enquanto ela está em coma, repensa as suas escolhas e no que importa, de fato. Pensa em quais são os seus sonhos e o que mudou enquanto isso. Ouve histórias da melhor amiga, do avô, até mesmo de Adam.

O filme não passa de mais um drama romântico clichê. Entretanto, um clichê contado de uma maneira fabulosa, linda e apaixonante. Já quero ver de novo!

Neide Andrade

Top 5 – trilhas sonoras originais

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Duas observações antes de você começar a ler essa lista:

1) Teve uma discussãozinha teórica aqui sobre o que faz uma música ser classificada como trilha sonora original. Alguns dizem que só são classificadas assim canções que foram compostas especialmente para aquele determinado filme. Eu discordo. Para mim, músicas antigas que, num determinado filme, foram repaginadas ou cantadas por pessoas diferentes das originais também contam como trilha sonora original. Em resumo: eu fiz a lista sem roubar sim!

2) Certamente, essa é uma das listas mais ecléticas do mundo

Filme cult? Tem. | Animação? Tem. | Filme brega? Também.

3) Não consigo fazer uma lista sem roubar


5) T. V. CARPIO – I WANNA HOLD YOUR HAND

[Across The Universe]

Sim, é versão de uma música dos Beatles. Se você é fã xiita, lide com isso. O filme – Across the Universe – é um musical de 2007 só com versões de músicas deles. O diretor costura os maiores sucessos desses 4 rapazinhos junto com o enredo, como se as canções contassem uma história: o mocinho sai da Inglaterra e vai pros Estados Unidos procurar o pai. Lá, conhece outro mocinho rebelde e sua irmã e todos juntos entram em contato com a psicodelia dos anos 60, aquela vibe Woodstock e tal. É um filme de descoberta, de auto-descoberta. E I Wanna Hold Your Hand tem um papel importante nisso. A versão é bem diferente da original, é muito mais lenta e cantada por uma mulher. A fragilidade da interpretação e o timbre da voz casam perfeitamente com o sentido que o filme dá a letra da música. Não é só mais uma canção de amor. É como se a intérprete colocasse pra fora quem ela é de verdade, através da voz.

4) MERYL STREEP – THE WINNER TAKES IT ALL

[Mamma Mia!]

Eu sei que é brega, não precisa tirar onda nos comentários. Mamma Mia é um musical todo composto de canções do grupo sueco ABBA (YOU ARE THE DANCING QUEEN, YOUNG AND SWEET)  O filme de 2008 é um musical, com a mesma proposta de Across The Universe: contar uma história através das músicas de um só artista. No caso, como as músicas são de ABBA, não podia ser diferente: Mamma Mia! é alegre, contagiante e tocante em vários momentos. Conta a história de uma menina que nunca conheceu o pai, tudo o que ela sabe é que o diário da mãe menciona três ex-namorados. No dia do seu casamento, a menina espera os três em sua casa para que o pai verdadeiro a leve até o altar. [Eu sei que a sinopse ficou ruim, mas todo mundo já viu esse filme e eu precisava inserir esse link pra valorizar a cultura pernambucana]. Enfim, a música é lindamente interpretada por Meryl e não deve nada à original. Ninguém mais está autorizado a fazer uma versão de The Winner Takes It All depois dessa.

3) ALEX BEAUPAIN – J’AI CRU ENTENDRE

[Les Chanson D’Amour]

Casal jovem com problemas no relacionamento pede a uma amiga em comum que os ajude. Tudo parece bem, mas um fato repentino muda tudo. – É o máximo de roteiro que posso dar sem falar um spoiler. Mas sabe quando a trilha sonora faz o filme? Pronto. Na verdade, tô sendo injusto: os atores também são muito bons e estão todos – TODOS – ótimos nesse filme. Se você analisar o roteiro de Chansons sem esses elementos, o caminho que o filme vai tomando parece meio improvável. Mas, repare: acrescente a trilha + os atores/atrizes e você é levado a pensar que tudo tinha que acontecer daquele jeito, exatamente daquele jeito. As músicas – todas compostas por Alex Beaupain – são tão boas e as letras tão bem-escritas que a função delas não é ornamentar o musical ou criar um clima, mas substituir as falas. Parece que chega um momento em que as palavras não conseguem expressar o que os personagens tão sentindo. Quando isso acontece, eles cantam. E a letra da música diz tudo. No caso de J’ai Cru Entendre, a letra fala de alguém que precisa de um consolo, um amor refúgio, sem-promessas e da outra pessoa, a que aceita. As letras de todas as músicas desse filme são incríveis.

2) GARY JULES – MAD WORLD

[Donnie Darko]

Comprei o DVD desse filme pro meu amigo Pedro no começo de 2013, de aniversário. Até hoje ele não viu. Nem culpo o coitado. Dar uma sinopse de Donnie Darko a alguém é quase impossível. Tem viagem no tempo? Tem. | Tem romance? Também. | Tem filosofia? Tem. | Tem adolescente protagonista? Também. Se eu puder sugerir algo a você, eu digo: esqueça a capa e as sinopses, assista esse filme! É melancólico, bonito, interessante e te amarra na cadeira. Os atores estão espetaculares, especialmente Jake Gyllenhaal e Drew Barrymore. E, arrematando tudo, a versão que Gary Jules fez pro clássico do R.E.M. Ela faz jus à melancolia do enredo e é o final perfeito pra um filme que te faz pensar na vida, em como ela pode ser louca. Mad world.

1) ROSANA – SALVE OS PROSCRITOS

[Disney – O Corcunda de Notre Dame]

Sim, uma animação levou o primeiro lugar dessa lista! E eu nem gosto taanto assim de animação. Mas Corcunda não é só meu filme favorito da Disney, é um dos meus filmes favoritos da vida. E grande parte do amor que eu tenho por esse musical é por causa dessa música. Rosana nunca interpretou tão bem, com tanta delicadeza e tanta entrega. A letra fala de alguém emocionado que tá fazendo uma oração, pedindo proteção para os perdidos, os proscritos. É tocante de verdade. Não consigo ouvir sem me arrepiar.

1) LANA DEL REY – RIDE

[O Filme que Não Existe]

Se você leu até aqui, observe-me dar uma roubadinha nessa lista. Ride não faz parte de nenhum filme. Mas, olha, deveria fazer. Na verdade, o clipe é praticamente um curta-metragem, e transmite bem o sentido da letra, mas sabe quando o vídeo acaba e você fica querendo mais? Pronto. Nesse clipe, Lana tá perdida. Ela quer se desapegar, se jogar na estrada, ser livre e – ao mesmo tempo – pede pro amor dela: “não vai embora, não me diz adeus, não vira as costas.” Uma das melhores músicas do Born to Die! Só por ela, já vale comprar a versão deluxe do cd.

‘Been trying hard not to get into touble, but I / I’ve got a war in my mind / I just ride.

⇧ Se quer ouvir só a música, adianta para 3:15


Esqueci de alguma?

Conta aí nos comentários qual é a música de filme que faz você ficar assim:

xxx

Eric

Boyhood – da Infância à Juventude II

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Feito o convite nesse post aqui, voltei pra dizer a vocês o que achei do filme.

165 minutos. 165 minutos de nada.

Sem tiroteio, sequestro, reflexões profundas sobre a vida nem belíssima fotografia.

Desde o começo, Boyhood – da Infância à Juventude deixa duas coisas bem claras. Primeira: o diretor não quer te impressionar – nada de sensacionalismo, sangue nem melodrama. Segunda: ninguém ali tem pressa. Tudo acontece na hora que tem que acontecer, como na vida da gente.

Aliás, é exatamente esse o tema do filme: a vida, uma vida comum. A proposta é filmar o desenvolver de um garoto e sua família durante doze anos, com os mesmos atores e a mesma equipe. E dos seis aos dezoito anos de idade, as coisas mudam demais. O rosto perde a inocência, os olhos ganham mais conhecimento, escolhas são feitas e a fantasia vai morrendo.

Enquanto o garoto Mason vai crescendo diante dos nossos olhos, a gente vai lembrando como é crescer. Pára um pouco, lê com calma. Lembra comigo do teu primeiro beijo, da primeira decepção. Das brigas na família e da sensação de não pertencer a lugar nenhum. Do desconforto com o novo corpo e as novas responsabilidades. Dos tempos de colégio… Tudo passa rápido. E, obviamente, passa de um jeito diferente pra cada um.

Eu não fui Mason. Não nasci nos Estados Unidos, nem tive pais separados. Mas tive alguns dos medos dele, passei por situações parecidas, senti e pensei como ele. Cresci e, em alguns momentos, isso foi difícil. Então, de algum jeito, concluo que eu fui Mason também. Talvez você também tenha sido.

Hoje, já sou adulto / já somos adultos.

Escrevo esse texto aos 24 anos. Do alto da minha sensatez, da auto-suficiência. E, assim como você e Mason, perdi várias das minhas ilusões junto com a cara de criança e o cheiro de talco, mas não quero virar adulto por completo. Não ainda.

Sei que a gente tem que ter responsabilidade e simplesmente crescer, em algum momento. Mas é que esse mundo é apressado demais! Pede casa-carreira-família-relacionamentos, tudo correndo, no automático. Pronto: crescemos! Viramos gente! Só que, enquanto fazíamos isso, nosso coração morria, nossa essência nos deixava. Aí quando tá tudo terminado e bem estruturado, eventualmente percebemos que não era bem isso o que a gente queria.

No filme, a mãe de Mason sofreu muito, desses sofrimentos cotidianos (e, por isso, mais doloridos), virou adulta depressa. E com cinquenta anos, dois filhos na faculdade, ela pára. Sentada no apartamentozinho vazio que acabou de comprar, diz ao filho que tá indo morar no campus: – esse é o pior dia da minha vida.

Não entenda mal: ela está feliz pelas conquistas dele, pela vida que ela própria construiu, mas entre lágrimas conclui: – eu só achei que haveria mais. O tempo passou, as decisões certas foram tomadas, veio a maturidade a conclusão dela foi:

– Eu só achei que haveria mais.

Que decisões você tá tomando? Que tipo de vida tá construindo agora? – É isso que o filme de Richard parece perguntar a gente, durante os 165 minutos. 165 minutos de nada. Mas a nossa vida não é assim também? Anos e anos de nada. Casamento, casa, filhos, emprego, realização: tudo é tão banal. Realmente não parece o tipo de coisa que merece ser retratada no cinema. Só que uma coisa é ver o desfile do cotidiano passar diante de você numa telona, outra é viver esse desfile, fazer parte dele.

Em resumo: tudo bem se você achar o filme bobo. Ele é. E a razão pra isso é simples: a gente só pode ver o que Mason faz com a vida dele, não podemos agir em seu lugar, não podemos viver por ele. Mas, veja bem: a nossa vida nós podemos viver; de um jeito melhor, mais desperto.

Do alto de sua sinceridade, é esse o conselho da mãe de Mason: não passe a vida dormindo, porque o tempo vem e cobra a conta depois.

Uma conta cara.


Obrigado, Richard. 165 minutos de vida, vida de verdade na tela.

Difícil é não se identificar com o menino, com o pai idealista, a mãe responsável. Difícil não se emocionar.

Porque o drama até comove, mas é a realidade que emociona.

Eric

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AMAR: VERBO INTRANSITIVO

Sem título

É possível ensinar um homem a amar?

Elza acha que sim. Mais do que isso, ela encarna a própria tarefa: professora de amor.

Começa serena e rígida, logo nos primeiros dias: “Me chame de Fräulein“. Ensina o alemão, piano, poesia, matemática. O rosto macio encosta no do aluno ao dizer a lição, a mão adulta segura a palma adolescente e ajuda a escrever o ditado. Contato. Aproximação. Aprendizado.

Nenhum menino era único. Com seus 35 anos, Fräulein já tinha ensinado vários. Mas com Carlos foi diferente. E é nesse rapaz que Mário de Andrade põe os holofotes de sua obra Amar, verbo intransitivo.

Na década de 20, a Alemanha de Elza estava quebrada. Pra sobreviver, ela fora obrigada a partir pra América. Escolheu o Brasil, pra tentar domar o amor louco dos latinos, ensinar um sentimento mais puro, mais honrado. O plano era ganhar oito conto de réis por trabalho, fazer uma poupança e voltar o mais rápido possível pra Alemanha.

Se o estado da Alemanha melhorasse, mais um ou dois serviços e podia partir. E a casinha sossegada… Rendimento certo, casava… O vulto ideal, esculpido com o pensamento de anos, atravessou devagarinho a memória dela. Comprido, magro… Apenas curvado, pelo prolongamento dos estudos… Científicos. Muito alvo, quase transparente. E a mancha irregular do sangue nas maçãs do rosto… Óculos sem aro…

[página 9]

Fraülein queria casar com seu cientista, com um homem da razão, sério, culto, estudioso – homem que só podia encontrar na Alemanha. E pra realizar esse sonho, trabalhava em casa de famílias ricas, ensinando aos rapazinhos. Nesse ponto do meu texto, acho que você tá entendendo errado. Elza não ia pras casas se entregar aos meninos – isso não era honrado, não era digno dela – Fräulein queria mais. Mário de Andrade pergunta: “É coisa que se ensine o amor? Creio que não. Pode ser que sim. Fräulein tinha um método bem dela.” Começava aos poucos, com toques sutis, insinuações, perguntas… Depois de investigar o passado do rapazinho, ela ensinava o ciúme; se mostrava recatada, mas disponível; interpretava o papel da mulher pura, idealizada, mas disponível ao toque e aos carinhos dos meninos. Os pais dos rapazes pensavam: “melhor aprender as coisas da vida com essa do que pegar uma doença, se envolver com as drogadas e os prostíbulos, decair.” Então Elza tinha o aval dos pais, e até as mães mais relutantes acabam achando valor nos serviços da governanta.

Com Carlos foi diferente.

Dezesseis anos. Encorpado, mas inocente. Obediente, mas impetuoso. “Ele é um forte de verdade. Um desses que só se comparam consigo mesmos.” Era valoroso, só que ainda muito menino: brincava com as irmãs mais novas, machucava. Estava na hora de aprender. Com Elza contratada, o serviço começava. O mesmo método, os mesmos passos… 15 dias de trabalho e nada! Nem sinal do menor interesse. A governanta começa a duvidar de sua capacidade: será que com esse ela não consegue nada?

Impossível! Estava trabalhando bem… Que nem das outras vezes. Até milhor, porque o menino lhe interessava, era muito… muito… simpatia? a inocência verdadeiramente esportiva? talvez a ingenuidade… A serena força… E tão simples, nem vaidades nem complicações… atraente. Fräulein principiara com mais entusiasmo que das outras vezes. E nada.

[página 21]

Fräulein não conseguia ser a mesma perto de Carlos. Permanecia fria, concentrada em seu trabalho, nos passos… Mas um sentimento sempre escapava… sentia vontade; se não cuidasse, acabaria se envolvendo. E isso não podia! Tinha que se concentrar no serviço. Insistiu, foi paciente. Tanto fez Elza, que acabou por conquistar nosso rapazinho:

Uma comoção doce, quase filial, esquentou Carlos novamente. E porque amava sem temor, nem pensamento, sem gozo, apenas por instinto e por amor, por gozo, iria se entregar.

[página 71]

Foi bonito, mas esse sentimento não podia durar. Ela sabia que teria de deixar o menino e seguir com sua vida, com seus sonhos. E tinha que ser traumático, pra ele sofrer, pra aprender que tem um jeito certo de amar. E um jeito errado. Mas a idéia de o deixar “doía. Talvez o amasse?” “Fraülein murmurou severamente o ‘não’, quase que os outros escutaram. Sorriu. Uma ternurinha só. Muito natural: era um bom menino.”

Elza ensinou o amor. Carlos aprendeu.

Não foi natural, não foi desinteressado. Mas foi amor.

Foi amar.

Do dicionário: verbo regular, transitivo direto.

Da vida: verbo irregular, intransitivo. Não precisa de complemento.


Vamo dialogar e  levar esse post a um outro nível:

Como defender um sentimento que nasce desse jeito, nessas condições? Como caracterizar na nossa cabeça um relação que já surge tão diferente?

Ela tem o poder, o conhecimento: é professora; ele é só aluno.

Ela adulta, 35 anos, projetos de vida. Ele menino, 16. Não mais criança, mas ainda bobinho, despreparado.

Não foi muito precoce essa aprendizagem? Quais as marcas que isso pode deixar na vida de um adolescente? Mais: independente da circunstância, será que a gente não devia ser poupado do amor até ter uma certa idade?

Por último: amar se ensina? Se aprende?

A foto que ilustra o post é de um filme com temática semelhante, o Notas Sobre um Escândalo: uma professora de colégio – turmas de ensino médio – começa a ter um relacionamento secreto com um dos seus alunos. Outra, mais antiga, descobre. Começa a chantagem.

Parece simples, mas esse filme leva as discussões do livro a um outro patamar. No drama de 2006, o adolescente não é passivo, não espera os avanços de uma Fräulein. Ele é forte, dominador e persuade a frágil professora a se envolver.

E nesse caso, como conceber o romance dos dois? Seria menos anti-ético, já que é o próprio rapaz que conduz a relação?

Deixo vocês pensando nisso e me despeço do mesmo jeito que Elza se despediu de seu menino:

Beijou-o na testa. Na testa, tal e qual fazem as mães.

O beijo foi comprido por demais.

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Eric

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Impressões na telona… Vidas secas

imagem para o post vidas secas - filme

Se existe uma obra encantadora na literatura brasileira, esta obra é Vidas Secas. Por isso estou aqui de novo para falar sobre o assunto. Transferir Graciliano para as telonas foi um trabalho maravilhoso, feito no ano de 1963 sob a direção de Nelson Pereira dos Santos.

Não considero um filme fácil de assistir, ao mesmo tempo em que o livro também não é fácil. A compreensão é maravilhosa, a prolixidade é zero, mas ver a realidade daquela maneira é triste demais… Ver, como é bom! Como foi boa a experiência de ter Vidas Secas projetada na minha frente. Como sempre digo: O cinema, pra mim, tem o poder de transformar tudo em realidade. E, de fato, eu acredito que os personagens e suas histórias foram reais, nem que sejam somente durante aqueles 100 minutos em preto e branco que passaram por mim.

Matar o papagaio pra poder comer. Matar a cadela pra sobreviver. Sonhar a todo custo com uma cama. Que vida miserável, que não dava às crianças o direito à infância, à inocência e ao principal, seja ele qual fosse. A película foi bem fiel ao livro, mas em caso de diferença, não a condenaria. A gente aprende, com o tempo, que são obras diferentes e que todos os artistas têm o direito de se expressar e fazer qualquer coisa com a sua obra.

Recomento muito o filme, que não substitui o livro, de maneira nenhuma. Mas acrescenta um valor inexplicável, faz a gente crescer como pessoa e entender o quanto somos afortunados.

Tem aí uma palhinha

Neide Andrade

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Cinco Vidas Secas

Infância – Angústia