Chiara Civello

Como foi viajar pra Europa? – parte II

(Clique nas fotos pra vê-las em tamanho grande)

Depois de todos os lugares lindos que eu visitei sem expectativa alguma (explico melhor na parte I), chegou a hora de falar das cidades que eu mais queria conhecer e cujas expectativas eram as maiores possíveis: Veneza, Paris e Roma. Em ordem crescente de vontade e expectativa =D Eu também conheci Florença, mas ela não tá na lista porque eu só passei uma noite, então não deu pra sentir a vibe do lugar, nem conhecer nada que me chamasse muito a atenção. Só algumas coisas/pessoas, mas isso nem é assunto pra esse post. hahah Vale listar que Florença é a cidade daquelas casas construídas em cima das pontes, sabe como? E que é bem charmosa e encantadora, especialmente pra caminhar à noite. Enfim, vamo conhecer Veneza, Roma e Paris? =P

Primeiro, a cidade, dentre as três, que eu menos queria conhecer: Veneza. Não é por nada, mas dizem que Veneza é a cidade mais romântica do mundo e tal e como eu sou um cara solteiro, não estava no clima de romance. Achei que não ia curtir muito a coisa toda. No começo, realmente me decepcionei um pouquinho: as pontes, canais e gôndolas não me pareceram tão bonitos quanto eu tinha imaginado. Mas, depois de andar boa parte de Veneza, chegamos a Piazza di San Marco, que é essa aí da foto. Chegamos bem na hora do pôr-do-sol, imagina! Sentamos perto do cais e ficamos ouvindo música até o sol desaparecer, ou melhor, até expulsarem a gente. =D (A realidade é bem menos poética hahah) Enfim, no meio daquele pôr-do-sol e ouvindo a voz de Tulipa Ruiz, nessa música, acho que eu consegui apreender Veneza em si. Quando a gente se levantou e foi andando, procurando o Rialto, a letra da música de Tulipa – que se chama “Efêmera” – ficou na minha cabeça e me lembrou uma outra bem nada a ver, do meu querido Bruce Springsteen: Devils and Dust. Acho que eu lembrei dela porque efemeridade sempre me lembra vento, poeira, coisas assim. E a música de Bruce me traz à mente justamente essa imagem: vento, poeira, pôr-do-sol, efemeridade e Veneza, por que não? =~

Agora, a cidade mais famosa do mundo: Paris. Impossível não chegar ali com uma idéia pré-concebida: torre Eiffel, bistrôs, Arco do Triunfo, Notre Dame, charme, elegância e tal. Todo mundo, mesmo antes de conhecer, pensa que Paris é a cidade mais charmosa do mundo. Pois bem, depois de pegar uns sete trens, saindo de Haia (Holanda) até chegar na Gare du Nord, em Paris, eu cheguei a duvidar um pouco disso. A periferia da cidade, que vimos pela janela do trem, é bem feinha e a própria área da Gare du Nord é meio bad vibe, uma muvuca danada, mil pessoas indo e vindo. Enfim, charme zero. #burguesinho #iludido Mas, depois de sairmos da estação pra ir pro nosso primeiro albergue parisiense, a paisagem começou a mudar e tudo foi ficando mais interessante. Nosso albergue era em Montmartre, num “bairro” mais alternativo e meio afastado do centro da cidade. Próximo a ele ficam a Sacre-Coeur, o Moulin Rouge e a Pigalle. Em um dos dias lá em Montmartre, eu acordei mais cedo que o povo e fui andando do albergue até a Sacre-Coeur pra conhecê-la pela manhã, já que só a tinha visto à noite, no dia anterior. Na volta pro albergue, eu me perdi. (Minha cara hahah) E fui fazendo um caminho diferente, por umas ruelas estreitas, mas bem bonitas. Livrarias cheias de exemplares antigos, pequenos cafés nas esquinas, tudo bem pequeno e encantador. Achei, inclusive, duas praças bem interessantes: uma em homenagem a Dalida (uma cantora massa, que você devia conhecer) e outra com a estátua de um casal apaixonado: quer coisa mais Paris que isso? Enfim, andar por Montmartre foi minha primeira experiência de verdade com Paris e, dia a dia, eu fui tendo mais e mais experiências: andar de barco no rio Sena, caminhar ao largo dele, olhando as pontes, visitar o Louvre, Notre-Dame, encontrar patisseries escondidas pra comer coisas de chocolate. Tudo isso foi me aproximando da cidade, de modo che: sono innamorato haha Em Paris, até me vieram à mente algumas músicas francesas, como Pour un Infidèle, de banda canadense Coeur de Pirate e Hier Encore, a minha favorita de Aznavour, mas nenhuma delas definia a cidade pra mim. Mas eis que, no nosso terceiro albergue, estamos nós de 5 da manhã esperando a hora dos metrôs abrirem pra pegamos o avião que nos levaria a Espanha, quando a recepcionista do lugar colocou um CD pra tocar. “The Soul of a Bell”, do William Bell. Nunca tinha ouvido falar, mas todas as músicas eram ótimas. Dentre elas, uma em especial me chamou a atenção. I’ve Been Loving You Too Long, escrita por Otis Redding. A versão de William que eu linkei aí em cima é ótima, mas pra mim a de Otis é melhor. No momento em que ouvi essa música, eu achei a cara da minha Paris. Digo “minha” porque tem uma lenda de que essa cidade é única pra cada pessoa que a visita. Pois bem, a minha Paris tem o céu azul sem lua, é fria e dança ao som de Otis Redding.

Por fim, a última cidade, a minha preferida de todos os tempos… Roma. Na verdade não é nem Roma apenas, mas toda a Itália. Senti necessidade de individualizar Veneza, já que ela tem características bem próprias, mas Roma – nesse post, e para mim – representa toda a Itália, de Nápoles a Milão. Pois bem, amo a Itália por diversas razões: a culinária, as paisagens, as pessoas mas, acima de tudo, por causa do idioma! Quem me conhece ao menos um pouco sabe que eu sou apaixonado por italiano, acho a sonoridade linda e a escrita mais linda ainda. Inclusive tendo a gostar de músicas em italiano sem nem ao menos conhecê-las. E, de fato, conheço muitas músicas em italiano: algumas da época da infância (como as cantadas por Laura Pausini), outras cantadas por brasileiros (como as daquele CD de Renato Russo, o “Equilíbrio Distante”) e alguns amores recentes, como é o caso de Chiara Civello. Conhecendo tanta gente, de tanta época diferente, ficou meio difícil selecionar alguma canção que definisse Roma (e a Itália em si) pra mim. Me senti um pouco tentado a escolher alguma das músicas feel good de Chiara que venho ouvindo muito esses dias, como Dimmi Perché, mas a vibe dessas músicas não combinava com tudo o que eu estava vendo e vivendo em Roma. Mas aí me lembrei de uma música cantada por Pavarotti chamada ‘O Surdato ‘Nnammurato que é tipo uma marchinha de carnaval, só que em italiano. É bem alegrinha e a cara da Itália, mas o problema dessa versão é que ela une Pavarotti, The Corrs (sdds anos 90, quem lembra?) e um coral de um milhão de criancinhas, ou seja, é barulhenta demais, o que destoa um pouco da música em si. Procurando outras versões na internet, achei essa aqui, de Massimo Ranieri. Nunca nem ouvi falar do cara, mas o cover dele ficou ótimo: alegre na medida certa e a cara da Itália! Mas não resisti – acabei revolvendo mais o baú da memória e lembrei daquele CD todo em italiano da Zizi Possi – o “Per Amore” – que tem várias músicas lindas, dentre elas, minhas favoritas Vurria e Lacreme Napulitane, ambas juntas por Zizi numa faixa só. As duas músicas falam de Nápoles – outra cidade italiana – mas, na minha mente incoerente, eu só ouvia essas músicas enquanto me encantava com o pôr-do-sol na Villa Borghese, que tá nessa foto aí em cima.

Por fim, eu posso reiterar o clichê e dizer que é sempre ruim pôr expectativas demais em algo ou em alguém, como eu coloquei em Roma. Só que, como toda regra tem exceção (outro clichê), eu acabei me encantando com a cidade, a despeito de toda expectativa. Cada rua, cada ruína, as pessoas, O SORVETE (QUE TEM QUE SER PATRIMÔNIO INTERNACIONAL, SÉRIO), sem falar na comida de modo geral, né? (tirando a pizza barata do primeiro dia). Mas o melhor, com certeza, foi ouvir esse idioma lindo pelas ruas. Ahhh, o italiano. <3


Posso dizer, ao final de todas essas linhas, que essa minha viagem rendeu pra mim bem mais que dois posts. Ficou em mim, sabe? Espero ter compartilhado direito parte das descobertas e alegrias que a Europa me trouxe, e que venham mais viagens! E mais posts!

Pra quem chegou até aqui, mais algumas fotos e um até logo.

Eric

Viaja com a gente!

Destino de hoje: O mundo

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Mais uma segunda de trabalho ou de estudo, e você aí de mau humor

Que tal fazer uma coisa diferente? Vamo viajar? Melhor: vamo viajar pelo mundo! Eu sei, a fatura das compras de natal já chegou. Mas calma que é por conta da casa e tu não precisa nem se levantar de onde tá sentado. Anota aí o material necessário:

✈ um assento confortável

✈ fone de ouvido

✈ paciência – sim, paciência

imageedit_21_9761861957Uma das críticas mais recorrentes que eu recebo – especialmente dos meus amigos pernambucanidade indie – é: Eric, você não ouve música brasileira. Sim, confesso que é verdade. Sei que nossa música é muito rica e admiro vários dos artistas daqui, mas se você olhar o player do meu celular só vai encontrar artistas de fora. Música em espanhol, francês, italiano, hebraico (!) e sim, inglês. Claro que tem uma ou outra coisa em português – beijo, Alcione! – mas não são as que eu mais ouço no dia-a-dia.

Disse tudo isso pra te fazer um convite: aproveita essa segunda-feira chata pra se livrar dos teus preconceitos! Ah, odeio música em espanhol. | Francês soa tão estranho. | Não dá pra entender nada do que ele tá cantando.

Pega o restinho da tua paciência nesse início de semana e ouve as músicas daqui de baixo. Mesmo que tu não entenda a letra, mesmo que teu instinto peça… pelo amor de Deus… Jorge e Mateus.

Resista!

Vem viajar com a mente, conhecer coisa nova:

♜ Os Azeitonas – Anda Comigo Ver os Aviões

Sim, português de Portugal é praticamente outra língua. E não, nem tudo é fado ou música folclórica. Confesso que eu tinha um preconceitozinho com o sotaque deles – especialmente cantado – mas minha amiga Lara me apresentou essa música há uns anos e eu achei tão lindinha. Sabe aquela canção que combina com biscoito de polvilho e fim de tarde? É ela.

♝ Coeur de Pirate – Francis

Ainda no clima fofura, me diga: como não esboçar pelo menos um sorriso com a delicadeza de Francis? Piano, uma vozinha delicada e um francês rápido e felizinho que não podia sair da França. Coeur de Pirate é o nome artístico de Béatrice Martin – uma canadense, de Quebec – e a voz dela é tão singela quanto o nome que escolheu pra si.

♗ Dalida – Je Suis Malade

Sabe Lana del Rey? Adele? Amy Winehouse? O estilo de música que elas cantam pode não ser o mesmo, mas o jeitinho vintage, a maquiagem, o sofrimento colocado na interpretação: tudo isso elas têm em comum. E é impossível dar play nesse vídeo de Dalida e não reconhecer um pouco de cada uma das três. Só que – veja bem – Dalida cantava nos anos 70. Então ela não se inspirou nessas meninas, ela era a inspiração. E que inspiração!

Sei que vocês provavelmente vão estranhar esse jeito de cantar – muito formal – e a falta das firulas e superproduções de hoje em dia, mas ela não precisa disso. Dalida era daquela época em que pra ser cantor bastava pegar o microfone e pôr a alma pra fora.

O vídeo faz muito mais sentido se você sabe a letra da música. Vê um trecho do que ela tá cantando:

Não quero mais viver a minha vida, tudo parou quando você se foi. Eu não tenho mais vida. E a minha cama, ela se transformou num cais.

Sentiu?

♞ Amaral – Te Necesito

Você é daqueles que ouve qualquer música em espanhol e já diz: “parece Rebelde“? Por favor, pare. =p A gente sempre tem preconceito com alguma coisa e muita gente, muita mesmo, tem abusinho de música em espanhol. Difícil explicar por quê. Minha teoria é a de que esse preconceito – como muitos outros – vem da falta de conhecimento mesmo. Não conheço música boa em espanhol, logo: música nesse idioma não presta.

Deixa eu te mostrar que não é assim.

Amaral é uma banda espanhola de dois integrantes principais: Juan Aguirre (tocando mil instrumentos) e Eva Amaral (violão e voz). A voz de Eva é boa, as músicas são muito bem produzidas e as letras são incríveis. Definir estilo é difícil, mas o que eu garanto é que o rótulo de pop-rock é muito pequeno pra abarcar Amaral. De verdade. Tem muito de poesia e de mistério nas músicas deles. Deixa eu me expressar melhor: sabe toda a música pobre de hoje em dia? Eles são o oposto. Pode esperar mais posts sobre essa dupla aqui no blog!

♘ Orishas – Represent Cuba (+ Heather Headley)

Sentiu falta da latinidade e sensualidade do espanhol? Toma! Orishas é uma banda de Cuba ☭ e Heather é uma cantora de Trinidad e Tobago ☼, junta os dois e dá o que? Sensualidade, caribe, malemolência. Essa música é uma delícia, só por ela já vale assistir Dirty Dancing 2 – Noites de Havana (sim, eu assisti o 1 e o 2 – me julgue). É aquele tipo de música que não dá pra dançar sozinho, precisa de outra pessoa; não dá pra dançar afastado, precisa juntar mais um pouco; não dá…

♚ Chiara Civello – Otto Storie | Problemi

Não sei se acontece com vocês, mas italiano é aquela língua que eu ouço e já vou me arrepiando… E como a gente ainda tá na vibe sensualidade, resolvi usar Chiara como exemplo perfeito do que a Itália representa pra mim: prazer e drama.

Otto Storie é aquele tipo de música com percussão marcada, baixo forte e um ritmo que te envolve. Toda a cadência que o italiano permite tá executada nessa música, e perfeitamente.

Mas e quando o amor não dá certo? E quando a entrega do começo parece que só serviu pra te desiludir? Aí você põe um vestido apertado e desfila sua dor pela avenida, cantando Problemi. (Música, aliás, feita em parceria com Ana Carolina):

♙ Música Tradicional – Yerushalayim Shel Zahav

E pra quem duvidou que eu tinha uma música em hebraico no celular: há! Jerusalém de ouro é grandiosa demais, daquelas canções que você ouve e se sente arrepiar inteiro. Minha mãe me conta que, quando visitou Jerusalém, subiu num lugar alto, de onde dava pra ver a cidade quase toda. Assim que o grupo dela chegou lá, o guia começou a tocar essa música e foi impossível não se emocionar.



 ☁ Senhoras, senhores, desembarque no portão 6 ☁

Faltou muita coisa na lista, né? Eu sei. Até conheço mais algumas bandas em cada uma dessas línguas, mas tive que escolher só duas de cada senão o post ficava gigante.

E você, é do tipo que só ouve música em português/inglês ou já se aventurou por outras línguas também? Me conta.

Boa semana pra nós!

[Chega logo, sexta]

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Eric

Leia mais: Suécia, essa delícia!

Então é natal, e o que você fez?

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Então é natal, e o que você fez?

Não há brasileiro que não lembre dessa música quando dezembro começa. Mas vocês já pararam pra pensar no que diz essa letra de Simone?

Dezembro chegou de novo. E aí? O que você fez? Quem você amou? Como viveu?

Nem sempre a gente faz as melhores escolhas. Às vezes dinheiro parece mais importante que família, namoro mais que amizade. E tudo bem. São escolhas. A gente sabe o que tá fazendo com a nossa vida. Mas e quando vem a linha de chegada? Quando a vida que a gente conhece anuncia seu fim?

Meu amigo Ivan passou por isso. Tostói contou a história dele no seu A Morte de Ivan Ilitch, de 1886. Sim, lide com isso: o título já traz um spoiler gigante. E sim, o livro é russo, de 1980. Mas olha, nada disso o faz menos atual ou menos interessante.

Tudo começa com a morte de Ivan (lógico né). Os parentes e amigos de repartição pública ficam sabendo, todos se reúnem no velório. Aquela coisa de velório né: lágrimas, gente falsa, os sucessores do cargo, todos juntos fingindo se importar. Depois de mostrar o fim, Tolstói nos apresenta Ivan: funcionário publico, ambicioso, objetivo. Amigos tinham serventia, amores eram escolhidos a dedo. Pouca coisa era deixada ao acaso, tudo fazia parte do plano. Se formar numa faculdade boa (pública) estudar pra passar num concurso, fazer amigos pra conseguir cargos maiores, casar com a melhor esposa: tudo faz parte do plano. Parece familiar?

O livro conta, em menos de 100 páginas, um pouco das escolhas que Ivan fez durante a vida e como elas mudaram quando ele adoeceu. O que valia demais, passou a valer quase nada; o que era besteira, de repente se tornou importante. Só no leito de morte Ivan percebe que viveu anos e anos, mas não viveu de verdade. De que valeram todos aqueles planos se no final ele se sente assim?


Não se engane, apesar de a morte estar até no título do livro, não acho que é esse o tema central. Ela é só um exemplo. Na verdade, essas páginas falam sobre o fim da vida como nós a conhecemos. O relacionamento que termina, a faculdade que oferece seu grau, o ano que acaba.

Os ciclos antigos se fecham pra outros começarem e, no fim das contas, tudo se resume às decisões que a gente toma, aos caminhos que a gente escolhe trilhar.

2014 acabou.
Então é natal. E o que você fez? O que vai fazer?



No vídeo aqui embaixo (a partir dos 0:35), Alessandra Maestrini canta que a vida é frágil e Chiara faz a você a pergunta mais angustiante do mundo: What are you doin’ the rest of your life?

Eric