Boyhood: da infância à juventude

Boyhood – da Infância à Juventude II

boyhood_still

Feito o convite nesse post aqui, voltei pra dizer a vocês o que achei do filme.

165 minutos. 165 minutos de nada.

Sem tiroteio, sequestro, reflexões profundas sobre a vida nem belíssima fotografia.

Desde o começo, Boyhood – da Infância à Juventude deixa duas coisas bem claras. Primeira: o diretor não quer te impressionar – nada de sensacionalismo, sangue nem melodrama. Segunda: ninguém ali tem pressa. Tudo acontece na hora que tem que acontecer, como na vida da gente.

Aliás, é exatamente esse o tema do filme: a vida, uma vida comum. A proposta é filmar o desenvolver de um garoto e sua família durante doze anos, com os mesmos atores e a mesma equipe. E dos seis aos dezoito anos de idade, as coisas mudam demais. O rosto perde a inocência, os olhos ganham mais conhecimento, escolhas são feitas e a fantasia vai morrendo.

Enquanto o garoto Mason vai crescendo diante dos nossos olhos, a gente vai lembrando como é crescer. Pára um pouco, lê com calma. Lembra comigo do teu primeiro beijo, da primeira decepção. Das brigas na família e da sensação de não pertencer a lugar nenhum. Do desconforto com o novo corpo e as novas responsabilidades. Dos tempos de colégio… Tudo passa rápido. E, obviamente, passa de um jeito diferente pra cada um.

Eu não fui Mason. Não nasci nos Estados Unidos, nem tive pais separados. Mas tive alguns dos medos dele, passei por situações parecidas, senti e pensei como ele. Cresci e, em alguns momentos, isso foi difícil. Então, de algum jeito, concluo que eu fui Mason também. Talvez você também tenha sido.

Hoje, já sou adulto / já somos adultos.

Escrevo esse texto aos 24 anos. Do alto da minha sensatez, da auto-suficiência. E, assim como você e Mason, perdi várias das minhas ilusões junto com a cara de criança e o cheiro de talco, mas não quero virar adulto por completo. Não ainda.

Sei que a gente tem que ter responsabilidade e simplesmente crescer, em algum momento. Mas é que esse mundo é apressado demais! Pede casa-carreira-família-relacionamentos, tudo correndo, no automático. Pronto: crescemos! Viramos gente! Só que, enquanto fazíamos isso, nosso coração morria, nossa essência nos deixava. Aí quando tá tudo terminado e bem estruturado, eventualmente percebemos que não era bem isso o que a gente queria.

No filme, a mãe de Mason sofreu muito, desses sofrimentos cotidianos (e, por isso, mais doloridos), virou adulta depressa. E com cinquenta anos, dois filhos na faculdade, ela pára. Sentada no apartamentozinho vazio que acabou de comprar, diz ao filho que tá indo morar no campus: – esse é o pior dia da minha vida.

Não entenda mal: ela está feliz pelas conquistas dele, pela vida que ela própria construiu, mas entre lágrimas conclui: – eu só achei que haveria mais. O tempo passou, as decisões certas foram tomadas, veio a maturidade a conclusão dela foi:

– Eu só achei que haveria mais.

Que decisões você tá tomando? Que tipo de vida tá construindo agora? – É isso que o filme de Richard parece perguntar a gente, durante os 165 minutos. 165 minutos de nada. Mas a nossa vida não é assim também? Anos e anos de nada. Casamento, casa, filhos, emprego, realização: tudo é tão banal. Realmente não parece o tipo de coisa que merece ser retratada no cinema. Só que uma coisa é ver o desfile do cotidiano passar diante de você numa telona, outra é viver esse desfile, fazer parte dele.

Em resumo: tudo bem se você achar o filme bobo. Ele é. E a razão pra isso é simples: a gente só pode ver o que Mason faz com a vida dele, não podemos agir em seu lugar, não podemos viver por ele. Mas, veja bem: a nossa vida nós podemos viver; de um jeito melhor, mais desperto.

Do alto de sua sinceridade, é esse o conselho da mãe de Mason: não passe a vida dormindo, porque o tempo vem e cobra a conta depois.

Uma conta cara.


Obrigado, Richard. 165 minutos de vida, vida de verdade na tela.

Difícil é não se identificar com o menino, com o pai idealista, a mãe responsável. Difícil não se emocionar.

Porque o drama até comove, mas é a realidade que emociona.

Eric

Boyhood-Da-Infância-à-Juventude-02

Anúncios

Boyhood – da infância à juventude

boyhood

Depois de ter falado de infância aqui e aqui, o Escrevo A|penas vem fazer um convite e algumas perguntas:

Você lembra de quando era criança?
E como foi crescer, ver o rosto ficar mais adulto, a alma mais marcada?
Lembra da sensação?

O diretor Richard Linklater promete trazer esses sentimentos de volta pra gente.
Não conhece o cara? Eu também não o conhecia de nome, mas descobri que é dele a trilogia-amor que começa com o filme Antes do Amanhecer, de 1995. Saudades…

Em Boyhood : da Infância a Juventude, Richard traz de volta o mesmo ator principal de sua trilogia famosa – Ethan Hawke – mas com um projeto muito mais ambicioso: filmar a nossa vida. Nesse caso, o diretor levou doze anos pra concluir o trabalho. Com a mesma equipe. Com os mesmos atores.

Na tela, a gente vai ver o menininho da foto amadurecer, sair dos seis anos e chegar aos dezoito bem na nossa frente. O trailer (clica aqui) promete trazer todas as angústias dessa transição, as mudanças na família, o divórcio e todas aquelas emoções que fazem a nossa vida ter cor, ser vida de verdade. Sem clichê, sem forçar a barra, sem inventar demais. Só a realidade mais banal e o seu encanto.

O editor que vos fala tem uma coleção de livros com protagonistas infantis, é viciado em Anos Incríveis e acha Meu Primeiro Amor o melhor filme do mundo. Será que eu ia perder essa estreia?

De jeito nenhum!

Boyhood estreou em julho nos Estados Unidos, dia 30/10 no Brasil e só dia 13/11 em Recife (poxa, Recife!).

Depois de tudo isso, quero te fazer um convite: vamo assistir?

Tá em cartaz no Shopping Plaza, de Casa Forte. As sessões aqui.

Daqui a uns dias eu volto e a gente divide nossas impressões sobre o filme.


Enquanto esse dia não chega, vem relembrar comigo essa música linda, trilha sonora da novela Coração de Estudante:

Eric