Angústia

Perfil: Luís da Silva

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O nome dele é Luís. 35 anos.

É difícil precisar suas medidas. Provavelmente tem 1,70 e pesa 60 kg, talvez menos. Fala pouco e veste cinza. – É que ele tenta passar a vida despercebido.

Teve uma infância difícil no sertão. Árida de tudo.

Havia comida, mas não carinho. Pai e mãe estavam vivos, mas pareciam não estar.

Teve muita dificuldade na escola, demorou anos pra aprender o ABC. Apanhou e ouviu da mãe “burro, burro”” e “cabra cega!” Conseguiu forças nem sabe de onde pra estudar e acabou virando professor. Quem diria! Mas ganhava pouco e trabalhava demais.

Foi morar na cidade grande e virou funcionário público. Trabalhava escrevendo. Podia usar a máquina de escrever, as tintas caras e todos os papéis da repartição, só não podia usar criatividade: mandavam, ele escrevia. Pensativo, desabafa:

“Estava tão abandonado neste deserto… Só se dirigiam a mim para dar ordens: – Seu Luís, é bom modificar esta informação. Corrija isto, Seu Luís. Fora daí, o silêncio, a indiferença. Agradavam-me os passageiros que me pisavam os pés, nos bondes, e se voltavam atenciosos: – Perdão, perdão. Faz favor de desculpar. – Sem dúvida. Ora essa. Ou então: – Tem a bondade de me dizer onde fica a Rua do Apolo? – Perfeitamente, minha senhora. Vamos para lá. É o meu caminho.”

[página 24]

Esqueceu como criar, mas obedecer ele sabia. Obedecer e andar de cabeça baixa, desconfiado:

“Tenho a impressão de que estou cercado de inimigos, e como caminho devagar, noto que os outros têm demasiada pressa em pisar-me os pés e bater-me nos calcanhares. Quanto mais me vejo rodeado mais me isolo e entristeço. Quero recolher-me, afastar-me daqueles estranhos que não compreendo, ouvir o Currupaco, ler, escrever. A multidão é hostil e terrível.”

[página 123]

“Os olhos estão quase invisíveis por baixo da aba do chapéu, e uma folha da porta oculta-me o corpo. Uma criaturinha insignificante, um percevejo social, acanhado, encolhido para não ser empurrado pelos que entram e pelos que saem.”

[página 24]

Mora numa casa pequena, junto com a empregada Vitória e o louro Currupaco. O louro é dela e só fala com sua dona, já quase surda. Luís pode jurar que Vitória está lhe roubando umas moedas da carteira, mas é coisa pouca, e ela é tão besta e tão pobre. Os amigos dele dá pra contar em uma só mão: o pedinte / o revolucionário / o que ele odeia, mas frequenta a sua casa /  os ratos que roem seus livros de noite.

Luís não tem muitas ambições, nem vaidade e vive a esmo. Mas, um dia, avista Marina: cabelos vermelhos, olhos azuis, corpo de mulher.

Como lidar com esse querer repentino? Pra Luís: “o amor sempre foi uma coisa dolorosa, complicada, incompleta.”

Logo ele, que nunca quis nada, começa a sonhar, começa a querer.

Ele quer Marina. Quer ser considerado, ter o respeito que nunca teve:

“Se Doutor Gouveia, o Governador, o Secretário passarem por mim, não os verei: seguirei o meu caminho com dignidade curva, o espírito distante. Os conhecidos que me virem pensarão: -‘Luís da Silva é um sujeito que não tem subserviência nenhuma’. E os que me cumprimentarem e não obtiverem resposta dirão: -‘ Luís da Silva é uma besta, um imbecil, um cretino’. É bom não levantar a espinha. Se a levantasse, teria de baixá-la de novo a cada passo, aflito e apressado, o chapéu na mão. Assim não vejo ninguém, caminho batendo nos transeuntes, enrolando palavras de desculpa, entrando no futuro como um parafuso.

[página 114]

Luís nunca poderia imaginar que esse amor e essa vaidade o levariam a cometer um crime.

“Louco amor meu, que quando toca, fere e quando fere vibra. Mas prefere ferir a fenecer – e vive a esmo, fiel à sua lei de cada instante, desassombrado, doido, delirante. Numa paixão de tudo e de si mesmo.”

[Soneto do maior amor – Vinícius de Moraes]

Logo ele, que era tão certinho, que media 1,70 e vestia cinza. Logo ele.

Luís se arrepende e conclui:

sonhar não é pra todo mundo.


Luís da Silva

protagonista

romance: Angústia

autor: Graciliano Ramos

foto: Kubrick


Eric

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Infância – Angústia

GRACILIANO

Serendipities. Acasos afortunados.

Um desses aconteceu semanas atrás. Eis que eu e minha amiga Lara, no meio de um passeio, damos de cara com um sebo de livros armado dentro de um shopping.

Nada mais ao acaso, e nada mais afortunado. (Sebo é amor!) Um monte de livros baratos, de vários tipos.

Comprei um lindo da abril sobre Delacroix e dois de Graciliano Ramos, de capa dura marrom: Angústia (algum booktuber tinha dito que era bom) e Infância (tenho uma coleção de livros com esse tema). Comecei a ler os dois assim que saí do shopping, acabei esses dias. Precisava falar deles.

Comecei por Infância (meu vício esse tema, depois falo melhor sobre isso) e percebi que era praticamente autobiográfico. Acabei. Abri Angústia e logo nas primeiras páginas tive a mesma impressão. Aquilo não podia ser só um personagem! Era real demais o sentimento, a voz na cabeça do protagonista.

Depois que acabei o segundo, tive certeza: é a vida de Graciliano em dois volumes, em capa dura marrom – nada mais apropriado. Concordo com o posfácio do livro: é como se – na ficção de Angústia – a estrutura da narrativa, os personagens, tudo fosse sendo envolvido pela realidade, pela infância, pela personalidade de Graciliano. Os personagens secundários, as ações (inclusive criminosas), a cidade triste e o próprio personagem principal – parece que tudo é só o amparo, uma estrutura de metal que vai sendo preenchida pelo concreto e pelos tijolos. Tudo está imóvel e só tem vida quando a personalidade de Graciliano se deixa ver, quando ele vai transbordando tanto da estrutura que você é obrigado a enxergá-lo, a conviver com ele.

Que bom que li Infância primeiro! Assim consegui ver claramente a realidade de vida daquele menininho sertanejo impregnar seus personagens do outro livro. Luís da Silva – protagonista de Angústia – é o próprio Graciliano, despido de todo verniz civilizado, voltando a ser criança mesmo. Uma criança crescida e sozinha no meio de um mundo vilão.

Tenho a impressão de que estou cercado de inimigos, e como caminho devagar, noto que os outros têm demasiada pressa em pisar-me os pés e bater-me nos calcanhares. Quanto mais me vejo rodeado mais me isolo e entristeço. Quero recolher-me, afastar-me daqueles estranhos que não compreendo, ouvir o curupaco, ler, escrever. A multidão é hostil e terrível.

 (Angústia, página 123)

O mundo foi mau pra esse menino, desde muito cedo. Nem o pai, nem a mãe foram fonte de afeto. Se sentiram alguma coisa, nunca demonstraram. Mas repara: Graciliano não quer tua pena, nem a minha. Na verdade, a intenção dele parece ser ensinar à gente como o mundo é, só isso.

Logo no começo de Angústia, quando a realidade começa a se intrometer na ficção, ele narra o que “Luís” sentiu quando – ainda menino – perdeu o pai: solidão. Devia chorar, era o certo a fazer, mas ele não conseguia. E se culpava. Não tinha amor pelo pai, e ninguém até então tinha sido bom com ele. Pegou no sono pensando no pai morto. Horas depois, a empregada entra no lugar onde ele dormia e o acorda, dando um xícara de café. Vê o que ele diz sobre isso:

Quem me acordou foi Rosenda, que me trazia uma xícara de café. – Muito obrigado, Rosenda. E comecei a soluçar como um desgraçao. Desde esse dia tenho recebido muito coice. Também me apareceram alguns sujeitos que me fizeram favores. Mas até hoje, que me lembre, nada me sensibilizou tanto como aquele braço estirado, aquela fala mansa que me despertava. – Obrigado, Rosenda. Iam levando o cadáver de Camilo Pereira da Silva. Corri pra sala, chorando. Na verdade chorava por causa da xícara de café de Rosenda, mas consegui enganar-me e evitei remorsos.

(Angústia, pagina 18)

Finalmente: Infância conta pra nós como era o menino Graciliano e as histórias que moldaram o caráter dele (como a de Venta Romba e as dificuldades em se alfabetizar. Tudo o que o tornou seco, introspectivo e magoado pelo mundo tá escrito lá. E com objetividade – ele não quer a nossa pena. Em Angústia, há todo um enredo e personagens ficcionais, mas esse menino se deixa entrever e toma conta da história, fazendo o imaginário se curvar ao que é de verdade.

Preciso ler mais Graciliano.

Quem diria! Logo eu que mal leio literatura brasileira. Logo eu que só tinha lido Vidas Secas, e não tinha gostado.

Eric

Leia mais: Cinco Vidas Secas