Amor

Como superar? em 6 passos com Amaral

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Rompendo nosso silêncio de dois meses pra fazer uma enquete com vocês, daquelas de amigos em fim de festa, sabe?

Salão esvaziou, música baixinha tocando e a galera começa a falar sobre a vida. Familiar a cena? Nessa hora, sempre tem aquele mais afetado que levanta e faz uma pergunta aleatória. Hoje, sou eu. E a pergunta: no mundo, há dois tipos de pessoas, 1) as que superam o passado de boa, sacodem a poeira e dão a volta, etc e 2) aquelas que não superam, que se negam.

Adivinha em que grupo eu tô? (Risos) E você?

Mas, olha, trago hoje uma boa notícia: pode levar um ano, três, mais – a gente vai superar! #Oremos No caso de Amaral, porém, foram 19 anos, 7 CDs lançados e eles ainda estão tentando. Coragem! Aí você me pergunta: quem danado é Amaral? Pois bem, este post inteiro é pra te responder essa pergunta. (Ain, Eric, mas nunca ouvi falar… Eu sei! Confia em mim que vai valer a pena.) (mais…)

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Quem ama mais é o mais fraco, merece sofrer

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O namoro da gente acabou e foi tão fácil.

Eu disse umas palavras, apontei descontentamentos. Você retrucou, choramos, discutimos. Acabou. E, pelo que vi nos seus olhos, doeu muito mais em você do que em mim.

Recentemente um casal de amigos reviveu essa experiência tão comum a todos, tão nossa – o fim de um relacionamento. Alguém virou pro outro e disse: acabou. E isso me fez lembrar de um trecho do menor livro mais incrível de Thomas Mann – Tonio Kroeger:

“Aquele que mais ama é o mais fraco e tem que sofrer” (14).

Que horror, né?

É. Mas, ei, pode ser verdade também. (mais…)

Abrace alguém agora!

imageedit_3_4723661120Ando com uma vontade louca esses dias.

Sabe aquelas pessoas que vão pra um lugar movimentado no meio da cidade e penduram uma placa no pescoço? A frase varia: abraços grátis, free hugs, ganhe um abraço; a intenção é a mesma: pôr os braços ao redor do corpo de estranhos sem receber nada por isso. Certo, lindo. Mas a coisa toda me parece louca, por várias razões.

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Madame Bovary sou eu!

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O livro, ao ser publicado,  gerou um processo por “ofensa à moral pública e religiosa e aos bons costumes”. Começou a caça pra saber quem era a devassa retratada na história, qual a verdadeira identidade de Madame Bovary? Pressionado, finalmente o autor responde: “Sou eu! Madame Bovary sou eu!”

Tem certos livros que a gente nunca vai saber por que teve de ler na época do colégio. Quem aí não lembra daquele clássico que seu professor de literatura mandou estudar porque caía no ENEM/vestibular? (mais…)

Anticristo: de quem se fala?

Anticristo. Ao assistir ao filme, uma página ficou completamente rabiscada. Com letras garrafais grifadas com um marca-texto amarelo, uma pergunta gritava: sobre quem Lars fala? Muitas respostas foram encontradas, entre elas, a história dos gêneros, a dualidade medieval entre mulher e mãe, a culpa. Mas até agora nenhuma das respostas expressou o que a pergunta pede: Quem? A indagação pede um substantivo próprio, uma personalidade, alguém. Mas de quem esse diretor fala?

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Tudo Acontece em Elizabethtown

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Duas horas e três minutos é muito tempo de duração. Especialmente pra uma comédia romântica.

Eu pensava assim (acho que ainda penso), mas essa ideia não funciona com Elizabethtown por duas razões: 1) esse filme não é uma comédia romântica, 2) duas horas aqui duram muito mais de 120 minutos. parece uma vida, uma vida inteira! – Eu explico.

imageedit_13_7802360851Primeiro, esqueça aquele conceito de moça encontra rapaz, o amor vem, dificuldades assustam, o sentimento prevalece. Não é assim que funciona aqui. Na verdade, tem uma moça, um rapaz, amor, problemas: tudo igual. Então, o que é diferente? A essência.

Elizabethtown não parece um filme, é bonito demais, é real demais. Daquele tipo de realidade tocante e nostálgica que só Cameron Crowe sabe fazer (lembra dele? o mesmo diretor de Vanilla Sky e Quase Famosos <3).

Vou me explicar melhor: sabe aqueles momentos preciosos que a gente vive poucas vezes? É tão especial, tão diferente, a pessoa é tão única que inevitavelmente você pensa: parece que eu tô vivendo um filme! É assim. Elizabethtown é um filme que parece a nossa vida ou aquele momento da vida da gente que parece um filme.

imageedit_19_2826229680Drew (Orlando Bloom) acabou de falhar miseravelmente na carreira. Perdeu tanto dinheiro que está prestes a ficar famoso como o maior exemplo de fracasso da história na profissão dele. Tanto tempo investido pra nada. Pra completar, a irmã do cara liga e conta que o pai dos dois morreu no interior do país, numa cidade chamada Elizabethtown. Tem mais: ele, o filho mais velho, teria que ir lá e cuidar das coisas do corpo. Bem no interiorzão do país, onde mora aquela parte distante da família que fala: “olha como você cresceu”, “tá a cara do pai”. Imagina!

Na viagem de ida, ele conhece uma aeromoça – Claire (Kirsten Dunst) – uma daquelas pessoas que você só encontra uma vez na vida. Diferente, cheia de ideias próprias, cheia de vida. Tudo o que ele não é no momento. Os dois se despedem, Drew vai encarar os parentes. Sozinho, em meio à família barulhenta, às dificuldades do enterro, ele procura alguém pra ligar. Acha o número de Claire. Os dois começam a conversar, a se conhecer melhor. Uma noite e uma madrugada inteira falando sobre tudo, sobre nada (alguém aí já viveu isso?). Pronto. Um momento bonito numa circunstância pontual. Daquele tipo de coisa que passa, que está destinada a não durar.

Será?

Nas conversas de Drew e Claire é impossível não se reconhecer um pouco. É tudo muito universal e, ao mesmo tempo, pessoal demais. A gente viveu aquilo também, nossos amigos choraram pelas mesmas razões. Medo do fracasso, mágoas antigas, tempo perdido, a angústia de não saber amar. Num dos momentos mais bonitos do filme, Claire fala sobre seus amores do passado, numa auto-avaliação. Eu sou uma pessoa substituta, ela diz. No começo, eu não entendi. Drew também não. Mas ela explica: nunca vou ser uma Ellen (Deus me livre!), nunca vou ser uma Cindy, eu sou só a substituta. Alguém destinado a ocupar um lugar que não lhe pertence, o lugar de outro|de outra.

Doeu. É verdade demais na cara da gente. E pior, dita de um jeito leve, despretensioso. Como se, com o tempo, as coisas que doem também fizessem a gente se acostumar.

No fim, descobri porque Elizabethtown dura duas horas inteiras. É preciso. Como um amigo, essa história vai se apresentando aos poucos: cena por cena, frase por frase – vai nos desarmando. E o tempo é necessário: ele faz a gente se apaixonar.

GIF1Numa das última sequências do filme, Drew sai numa viagem de carro de volta pra casa, jogando as cinzas do pai morto pelas curvas do caminho. Os dois finalmente juntos, numa viagem que deveria ter sido feita há muito tempo. Há tempo demais. E, se você me perdoa a metáfora besta (mas verdadeira): como as cinzas do pai se espalham pelo vento, as sensações que esse filme traz se pulverizam na mente da gente. Uma saudade, uma melancolia doce. Aquele desejo de fazer o que é especial durar pra sempre.

Desejar não faz mal. Faz?


Personalíssimo (só para raros):

tumblr_n0ptcyMu8Q1rrm2zoo2_500A cena em que Drew começa a conversar com as cinzas, com a urna do pai, afivelada no banco da frente do carro. Minha garganta aperta só de lembrar. Como a gente deixa o que é valioso se perder no tempo!

Essa sequência já seria linda sem som, mas Cameron Crowe é mau demais pra deixar isso acontecer. Vou te contar uma coisa: a trilha sonora toda desse filme é incrível. De verdade! Mas a música que toca nessa hora é especial. Foi Elizabethtown que me apresentou esse single de Elton John chamado My Father’s Gun. Eu amo Elton, muito mesmo, mas ainda não conhecia essa música.

Se você chegou até aqui, me faz um favor, um último? Clica embaixo e vê esse vídeo com Elton e algumas cenas do filme.

É verdade demais pra seis minutos só. É bonito demais.

Eric

Relicário

Lugar destinado para guardar ou proteger coisas preciosas e/ ou relíquias. Aquilo que tem um valor imenso; que é muito precioso. (Etm. do latim: reliquarium)

O gerúndio me faz pensar em como vou te querer, continuamente. O gerúndio revela o que sempre serei: Algo interminado, que jamais terá fim e eu amo o gerúndio, porque ele me traz a imortalidade, me deixa eterna, me crava neste mundo. Ao me enraizar em você eu posso perceber que, mesmo morrendo, deixo um pouco de mim e gente como você não morre nunca, gente como você fica guardado no mundo. Tanto pela beleza, como pela alma que me deixa maravilhada.

Então vou continuando da mesma maneira que quando fui te vendo: Pensando, querendo, sendo, tendo, amando, trazendo, deixando, cravando, enraizando, podendo, percebendo, morrendo e ficando. Ficando. E deixando de novo.

Como é bom ter um gerúndio pra chamar de meu! Pra tornar tudo de bom que pode ser passado em presente, em continuidade. Em pra sempre!

Sinceramente,

Neide

Recife e os amores de maio

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kk“Não me ame tanto! Eu tenho algum problema com amor demais… Eu jogo tudo no lixo! Sempre.”

Ah, as músicas de amor! Como é difícil encontrar sinceridade nas declarações dos apaixonados (ou dos desapaixonados). Dizem que maio é o mês do amor romântico e, pode até ser em outros estados, mas aqui em Pernambuco o buraco é mais embaixo. Amor aqui sempre foi sincero, visceral, autoral – de verdade. Música também.

O trecho do início é da pernambucana Karina Buhr. A tirada caústica lembra Clarice Falcão não é? Pois é, outra pernambucana. Não deixe o sotaque te enganar; aquela honestidade toda só podia ter vindo de Recife. É nessa terra que a sinceridade e o orgulho se juntam pra dançar frevo, baião, maracatu ou de tudo de uma vez só. Os trabalhos dos músicos daqui são uma revisita constante a esse espírito e a essas sonoridades.

É o caso de Karina, que nasceu em Salvador, mas é claramente recifense. A voz aguda e delicada ou o instrumental bem trabalhado podem enganar – mas cuidado! – o material-Buhr é perigosíssimo. A letra simples, direta e honesta, quase sussurrada, te tira do prumo, enquanto a melodia envolvente faz o trabalho de viciar. As guitarras melódicas e frases soltas se unem ao ritmo bem marcado e aos sintetizadores, como se o presente mais contemporâneo desse uma voltinha nas glórias do passado. Isso é Karina, isso é Pernambuco.

Nossa música, essa saudosa, gosta mesmo de celebrar o que já aconteceu, mas nunca se repete. É como se o Lázaro bíblico voltasse da tumba a cada nova banda, a cada nova sonoridade, totalmente transfigurado. Nesse momento, impossível não lembrar do nosso Cordel do Fogo Encantado – quecc pode até não ter trazido Lázaro de volta, mas fez melhor: nos trouxe Raul. Numa ressurreição à altura do Maluco Beleza. O Cordel é o amor-orgulho, orgulho do nosso folclore e da nossa cultura. Uma verdadeira volta à poesia profana, ao Brasil de décadas atrás e, ao mesmo tempo, uma reinvenção: Raul Seixas agora canta ao som de maracatu, do samba de côco e de tambores furiosíssimos. Extremamente pernambucano, nacional e internacional, tudo ao mesmo tempo. A banda acabou, mas nos restam três cds de poesia, de cordel, de encanto. Esses ninguém nos toma.

Por falar em fim, é quase pecado encerrar esse texto e deixar de mencionar a banda que mais celebra, a cada trabalho, seu amor pelos mombojo2pontos finais: Mombojó é o amor não só às paixões que acabam, mas ao final em si. Pernambucanos jovens se apaixonam, o sentimento acaba. Fim. Integrante tem enfarto aos vinte e quatro anos, a vida acaba. Fim. A crítica aponta os novos trabalhos como um recitar de idéias antigas, a criatividade acaba? Fim. De interrupção em interrupção, segue a Mombojó e sua mistura inusitada de mangue beat, rock e bossa nova, que o vocal de Felipe S. usa pra falar de amor, daquele tipo que se esfacela no vento.

Três bandas pernambucanas, três estilos completamente distintos e duas coisas em comum: o amor à nossa terra e a falta de reconhecimento. Os tempos são outros, ouve-se de tudo e a nossa própria identidade se enche de estrangeirismos e de um “jeitinho” às vezes mais carioca que recifense. O resto do país celebra o amor de Maio e suas canções açucaradas e nós, ingratos que somos, nos juntamos ao coro. Não que seja mau celebrar o romance e a música adocicada vez em quando, mas nosso “sangue de heróis, rubro veio” fala alto – especialmente em maio – pra nos acordar: valorizemos também nossa terra, nosso chão, nossa música!

Que nosso eu seja carioca, inglês, paulista, francês, soteropolitano. Tudo bem! Ninguém foi feito pra ser um só. Mas Karina pergunta: “Se você tiver que escolher entre você e o seu amor, você escolhe quem?” Ah, hoje eu escolho o amor. Eu escolho Pernambuco.

Eric