Amanhã é 23

6283913488_754ceb2ce8_b

As entradas no meu rosto | e os meus cabelos brancos | aparecem a cada ano | no final do mês de Agosto.

Quando a gente começa a contabilizar as primeiras rugas, os primeiros sinais de idade?

Lembro que fui uma criança muito atenta pra algumas coisas e muito desatenta pra outras. Sempre perdia coisas, esquecia onde tinha colocado as chaves, os cadernos, os óculos e, ao mesmo tempo, observava demais as pessoas – suas expressões, os detalhes do rosto. Observava primeiro elas, pra depois observar a mim mesmo.

E com que atenção! Desde muito pequeno sempre me olhei no espelho de um jeito diferente: não pra conferir se meu cabelo estava arrumado ou se meu olhos ainda estavam sujos de manhã. Eu procurava alguma coisa a mais, um indício, uma marca deixada pelo tempo ao passar pelo meu rosto. Sempre fui fascinado por linhas de expressão e marcas de idade. Observava meu pai rir e as marquinhas surgirem nos seus olhos, tias que eu não via há tempos voltando envelhecidas de viagens, da vida. E eu esperava acontecer comigo.

Repare: não desejava, ansiava – só esperava. Poque não se deseja o que parece inevitável.

E é assim que eu lembro do primeiro risco que surgiu abaixo dos meus olhos e dos outros três que o seguiram. Lembro da minha primeira barba e do riso que parecia dividido nas inúmeras linhas que meu rosto formava. Como se só riso de criança fosse inteiro. O do eu adulto já parecia viciado, repartido em mil pedaços, em traços que iam dos olhos fechando à boca que se abria.

Envelhecer é ficar mais gasto, mais fosco. Perder o brilho de coisa perfeita, bem acabada. É abandonar o perfil viçoso, imaculado e ir assumindo os traços, os rasgos que a vida faz quando caminha pelo corpo, pelo nosso corpo.

Nessa quase adolescência, percebendo-me envelhecer, descobri uma música que virou amor, uma tradição. Amanhã é 23.

As entradas do meu rosto
E os meus cabelos brancos
Aparecem a cada ano
No final do mês de Agosto

Há vinte anos você nasceu
Ainda guardo um retrato antigo
Mas agora que você cresceu
Não se parece nada comigo

Esse seu ar de tristeza
Alimenta a minha dor
Tua pose de princesa
De onde você tirou?

Amanhã! Amanhã!
Amanhã! Amanhã…

Amanhã é 23
São 8 dias para o fim do mês
Faz tanto tempo
Que eu não te vejo
Queria o seu beijo
Outra vez…

Não coincidentemente, amanhã realmente é 23 – são oito dias para o fim do mês. E desde o fim da infância, todos os anos eu contabilizo a minha vida, o passar do tempo, nesse mesmo dia. Fico pensativo, me olho diferente no espelho, acompanho o traçar de diversos caminhos na minha cara. É como se, por alguma mágica, eu envelhecesse todo o montante anual nessas 24 horas. Não dá pra evitar.

É inevitável a passagem do tempo pela nossa vida, pelo nosso rosto. Mas esse texto besta é pra dizer que não somos totalmente reféns, sabe? A gente pode escolher se o que risca a nossa cara nos enfeia ou nos enfeita, que marcas a gente deixa ficar, que arrependimentos. Às vezes, no final de agosto, me imagino na posição da mulher descrita nessa letra. E é tão triste quando a gente não reconhece o outro, não se reconhece mais. O tempo passou e a gente preso, feito refém. Da vida, do tempo, de nós.

Mas, calma. Amanhã é 23, então hoje ainda é 22. Dá tempo de mudar, de ser melhor, de amar mais. Ainda é tempo da gente escolher o que fica

e o que vai embora.

Eric

Foto: flickr

 

Anúncios

Madame Bovary sou eu!

httpwww.pedrinhofonseca.com

O livro, ao ser publicado,  gerou um processo por “ofensa à moral pública e religiosa e aos bons costumes”. Começou a caça pra saber quem era a devassa retratada na história, qual a verdadeira identidade de Madame Bovary? Pressionado, finalmente o autor responde: “Sou eu! Madame Bovary sou eu!”

Tem certos livros que a gente nunca vai saber por que teve de ler na época do colégio. Quem aí não lembra daquele clássico que seu professor de literatura mandou estudar porque caía no ENEM/vestibular? (mais…)

Anticristo: de quem se fala?

Anticristo. Ao assistir ao filme, uma página ficou completamente rabiscada. Com letras garrafais grifadas com um marca-texto amarelo, uma pergunta gritava: sobre quem Lars fala? Muitas respostas foram encontradas, entre elas, a história dos gêneros, a dualidade medieval entre mulher e mãe, a culpa. Mas até agora nenhuma das respostas expressou o que a pergunta pede: Quem? A indagação pede um substantivo próprio, uma personalidade, alguém. Mas de quem esse diretor fala?

(mais…)

TEM ABBA NO TEU CELULAR E TU NEM SABIA

abba

YOU ARE THE DANCING QUEEN, YOUNG AND SWEET, ONLY SEVENTEEN

Eu sei, você conheceu ABBA graças àquele DJ que tocava Dancing Queen, junto com I Will Survive e Robocop Gay, no fim de todas as festas de 15 anos (ainda existe isso?). Mas aí em 2008 vieram Meryl Streep, Colin Firth, Pierce Brosnan, a galera toda e ABBA passou a ser a música daquele filme, o Mamma Mia! (<3)

Para mim, pelo menos, foi desse jeito. Sempre ouvi muita coisa antiga na minha adolescência, mas me detinha nas músicas de chorar (#gueba) As animadinhas, feitas pra dançar, eu odiava antes mesmo de ouvir. Pra mim, ABBA era bem isso: aquele popzinho rasteiro, poperô, feito pras tias dançarem. E eu estava certo! Mas hoje eu sou tiozão quem disse que isso é um problema? Aliás, quem disse que as bandas de hoje tão distantes disso?

(mais…)

6 músicas de verdade (ou Por que Amy Winehouse foi importante?)

acf0031661

Hoje, 23 de julho de 2015, faz exatamente quatro anos que ela foi embora. Acabou a esperança de um cd novo – talvez tão bom quanto Back to Black – e, junto, acabou também a angústia de esperar os novos vexames que ela invariavelmente protagonizaria. Um documentário inglês lançado agora, no mês de aniversário da sua morte, promete trazer todas essas memórias de volta. A história de uma vida contada através de vídeos caseiros e depoimentos. Mata um pouco da saudade, mas não muda o fato: Amy Winehouse morreu. Vítima de causas indeterminadas, do álcool, de si mesma.
Certo, e o que te importa tudo isso?

(mais…)

Vale tudo: uma carta de saudade de Motta para Tim

Tratar com a impessoalidade do jornalismo uma história em que o autor é uma das principais fontes não é uma tarefa fácil. Em Vale tudo: O som e a fúria de Tim Maia, o biógrafo, jornalista e produtor musical Nelson Motta conta a história do amigo, desde a sua infância até a sua morte. Lançada em 2007, a biografia de Tim Maia traz uma linguagem que vem descritiva, com a influência dos anos de jornalismo do autor, peca um pouco pela falta de análise psicológica, mas ganha com a pessoalidade expressa por Nelson Motta do início ao fim do texto, usando, inclusive o “eu” em determinados momentos. Nelson conta o que viu de Tim, além do que descobriu. Ele foi testemunha ocular da história.

(mais…)

Como foi viajar pra Europa? – parte II

(Clique nas fotos pra vê-las em tamanho grande)

Depois de todos os lugares lindos que eu visitei sem expectativa alguma (explico melhor na parte I), chegou a hora de falar das cidades que eu mais queria conhecer e cujas expectativas eram as maiores possíveis: Veneza, Paris e Roma. Em ordem crescente de vontade e expectativa =D Eu também conheci Florença, mas ela não tá na lista porque eu só passei uma noite, então não deu pra sentir a vibe do lugar, nem conhecer nada que me chamasse muito a atenção. Só algumas coisas/pessoas, mas isso nem é assunto pra esse post. hahah Vale listar que Florença é a cidade daquelas casas construídas em cima das pontes, sabe como? E que é bem charmosa e encantadora, especialmente pra caminhar à noite. Enfim, vamo conhecer Veneza, Roma e Paris? =P

Primeiro, a cidade, dentre as três, que eu menos queria conhecer: Veneza. Não é por nada, mas dizem que Veneza é a cidade mais romântica do mundo e tal e como eu sou um cara solteiro, não estava no clima de romance. Achei que não ia curtir muito a coisa toda. No começo, realmente me decepcionei um pouquinho: as pontes, canais e gôndolas não me pareceram tão bonitos quanto eu tinha imaginado. Mas, depois de andar boa parte de Veneza, chegamos a Piazza di San Marco, que é essa aí da foto. Chegamos bem na hora do pôr-do-sol, imagina! Sentamos perto do cais e ficamos ouvindo música até o sol desaparecer, ou melhor, até expulsarem a gente. =D (A realidade é bem menos poética hahah) Enfim, no meio daquele pôr-do-sol e ouvindo a voz de Tulipa Ruiz, nessa música, acho que eu consegui apreender Veneza em si. Quando a gente se levantou e foi andando, procurando o Rialto, a letra da música de Tulipa – que se chama “Efêmera” – ficou na minha cabeça e me lembrou uma outra bem nada a ver, do meu querido Bruce Springsteen: Devils and Dust. Acho que eu lembrei dela porque efemeridade sempre me lembra vento, poeira, coisas assim. E a música de Bruce me traz à mente justamente essa imagem: vento, poeira, pôr-do-sol, efemeridade e Veneza, por que não? =~

Agora, a cidade mais famosa do mundo: Paris. Impossível não chegar ali com uma idéia pré-concebida: torre Eiffel, bistrôs, Arco do Triunfo, Notre Dame, charme, elegância e tal. Todo mundo, mesmo antes de conhecer, pensa que Paris é a cidade mais charmosa do mundo. Pois bem, depois de pegar uns sete trens, saindo de Haia (Holanda) até chegar na Gare du Nord, em Paris, eu cheguei a duvidar um pouco disso. A periferia da cidade, que vimos pela janela do trem, é bem feinha e a própria área da Gare du Nord é meio bad vibe, uma muvuca danada, mil pessoas indo e vindo. Enfim, charme zero. #burguesinho #iludido Mas, depois de sairmos da estação pra ir pro nosso primeiro albergue parisiense, a paisagem começou a mudar e tudo foi ficando mais interessante. Nosso albergue era em Montmartre, num “bairro” mais alternativo e meio afastado do centro da cidade. Próximo a ele ficam a Sacre-Coeur, o Moulin Rouge e a Pigalle. Em um dos dias lá em Montmartre, eu acordei mais cedo que o povo e fui andando do albergue até a Sacre-Coeur pra conhecê-la pela manhã, já que só a tinha visto à noite, no dia anterior. Na volta pro albergue, eu me perdi. (Minha cara hahah) E fui fazendo um caminho diferente, por umas ruelas estreitas, mas bem bonitas. Livrarias cheias de exemplares antigos, pequenos cafés nas esquinas, tudo bem pequeno e encantador. Achei, inclusive, duas praças bem interessantes: uma em homenagem a Dalida (uma cantora massa, que você devia conhecer) e outra com a estátua de um casal apaixonado: quer coisa mais Paris que isso? Enfim, andar por Montmartre foi minha primeira experiência de verdade com Paris e, dia a dia, eu fui tendo mais e mais experiências: andar de barco no rio Sena, caminhar ao largo dele, olhando as pontes, visitar o Louvre, Notre-Dame, encontrar patisseries escondidas pra comer coisas de chocolate. Tudo isso foi me aproximando da cidade, de modo che: sono innamorato haha Em Paris, até me vieram à mente algumas músicas francesas, como Pour un Infidèle, de banda canadense Coeur de Pirate e Hier Encore, a minha favorita de Aznavour, mas nenhuma delas definia a cidade pra mim. Mas eis que, no nosso terceiro albergue, estamos nós de 5 da manhã esperando a hora dos metrôs abrirem pra pegamos o avião que nos levaria a Espanha, quando a recepcionista do lugar colocou um CD pra tocar. “The Soul of a Bell”, do William Bell. Nunca tinha ouvido falar, mas todas as músicas eram ótimas. Dentre elas, uma em especial me chamou a atenção. I’ve Been Loving You Too Long, escrita por Otis Redding. A versão de William que eu linkei aí em cima é ótima, mas pra mim a de Otis é melhor. No momento em que ouvi essa música, eu achei a cara da minha Paris. Digo “minha” porque tem uma lenda de que essa cidade é única pra cada pessoa que a visita. Pois bem, a minha Paris tem o céu azul sem lua, é fria e dança ao som de Otis Redding.

Por fim, a última cidade, a minha preferida de todos os tempos… Roma. Na verdade não é nem Roma apenas, mas toda a Itália. Senti necessidade de individualizar Veneza, já que ela tem características bem próprias, mas Roma – nesse post, e para mim – representa toda a Itália, de Nápoles a Milão. Pois bem, amo a Itália por diversas razões: a culinária, as paisagens, as pessoas mas, acima de tudo, por causa do idioma! Quem me conhece ao menos um pouco sabe que eu sou apaixonado por italiano, acho a sonoridade linda e a escrita mais linda ainda. Inclusive tendo a gostar de músicas em italiano sem nem ao menos conhecê-las. E, de fato, conheço muitas músicas em italiano: algumas da época da infância (como as cantadas por Laura Pausini), outras cantadas por brasileiros (como as daquele CD de Renato Russo, o “Equilíbrio Distante”) e alguns amores recentes, como é o caso de Chiara Civello. Conhecendo tanta gente, de tanta época diferente, ficou meio difícil selecionar alguma canção que definisse Roma (e a Itália em si) pra mim. Me senti um pouco tentado a escolher alguma das músicas feel good de Chiara que venho ouvindo muito esses dias, como Dimmi Perché, mas a vibe dessas músicas não combinava com tudo o que eu estava vendo e vivendo em Roma. Mas aí me lembrei de uma música cantada por Pavarotti chamada ‘O Surdato ‘Nnammurato que é tipo uma marchinha de carnaval, só que em italiano. É bem alegrinha e a cara da Itália, mas o problema dessa versão é que ela une Pavarotti, The Corrs (sdds anos 90, quem lembra?) e um coral de um milhão de criancinhas, ou seja, é barulhenta demais, o que destoa um pouco da música em si. Procurando outras versões na internet, achei essa aqui, de Massimo Ranieri. Nunca nem ouvi falar do cara, mas o cover dele ficou ótimo: alegre na medida certa e a cara da Itália! Mas não resisti – acabei revolvendo mais o baú da memória e lembrei daquele CD todo em italiano da Zizi Possi – o “Per Amore” – que tem várias músicas lindas, dentre elas, minhas favoritas Vurria e Lacreme Napulitane, ambas juntas por Zizi numa faixa só. As duas músicas falam de Nápoles – outra cidade italiana – mas, na minha mente incoerente, eu só ouvia essas músicas enquanto me encantava com o pôr-do-sol na Villa Borghese, que tá nessa foto aí em cima.

Por fim, eu posso reiterar o clichê e dizer que é sempre ruim pôr expectativas demais em algo ou em alguém, como eu coloquei em Roma. Só que, como toda regra tem exceção (outro clichê), eu acabei me encantando com a cidade, a despeito de toda expectativa. Cada rua, cada ruína, as pessoas, O SORVETE (QUE TEM QUE SER PATRIMÔNIO INTERNACIONAL, SÉRIO), sem falar na comida de modo geral, né? (tirando a pizza barata do primeiro dia). Mas o melhor, com certeza, foi ouvir esse idioma lindo pelas ruas. Ahhh, o italiano. <3


Posso dizer, ao final de todas essas linhas, que essa minha viagem rendeu pra mim bem mais que dois posts. Ficou em mim, sabe? Espero ter compartilhado direito parte das descobertas e alegrias que a Europa me trouxe, e que venham mais viagens! E mais posts!

Pra quem chegou até aqui, mais algumas fotos e um até logo.

Eric

Como foi viajar pra Europa? – parte I

Hoje, olhando meus arquivos antigos, redescobri 2 Gb de pura nostalgia: as fotos da minha primeira (e única, até agora) viagem internacional. Foi um mochilão que eu fiz na Europa, junto com meus amigos da faculdade, nos idos de 2010/2011. Junto com as imagens, achei também um texto emocionado que eu escrevi sobre a experiência, dias depois de voltar pro Brasil. Resolvi dividir com vocês (quase) sem cortes, em duas partes. Uma sai hoje, a outra amanhã.

Com vocês, o glorioso eu, aos vinte aninhos de puro sonho, sangue e América do sul.

(Clique nas fotos pra ver em tamanho maior)


Eu acredito na teoria de que certos lugares podem mudar uma pessoa. Na verdade, não o lugar em si, mas a experiência de ouvir músicas diferentes, de decorar rostos novos. Sair do lugar de conforto é bom, mas melhor ainda é voltar pra ele com outras idéias, com histórias pra contar, cheio de experiências, cheio de vida. Eu me sinto meio assim depois desses míseros vinte dias longe do meu idioma e do meu povo. =~ Por mim, eu tinha passado mais 20, pra conhecer melhor cada cantinho que eu visitei e percorrer as ruas sem me preocupar com a hora do trem/ônibus/avião. Mas a saudade apertou (e o dinheiro acabou! hahah). O fato é: cá estou eu de novo. Mas, como disse, a gente volta com algumas coisas novas na bagagem: coisas que a gente não encontra no freeshop, mas numa ruazinha de Montmartre ou no meio do vento frio de Haia. Enfim, eu poderia passar um dia inteiro falando de cada lugar que eu conheci, mas prefiro fazer algo diferente: uma playlist especial, com músicas que me lembram cada uma das cidades que eu visitei. So… Andiamo. – (tudo o que tá sublinhado é link)

Comecemos, então, pela primeira cidade que eu conheci: Londres. Rapaz, confesso que, antes de ir, eu achava que não ia gostar muito de Londres. Na minha cabeça, ela parecia agitada demais e cheia de pessoas frias: duas características que, definitivamente, não têm nada a ver comigo. Mas nem foi assim. Eu conheci Londres em pleno natal, em meio a um friozinho bom e a parques enormes, cheios de árvores sem folhas. As casas iguais, a temperatura agradável e os parques lindos só me acalmaram e me deixaram encantado com essa cidade. Impossível andar em um lugar desses e não lembrar da voz de Elton John cantando “Your Song“. Achei muita paz nessa música e nos parques dessa cidade. Ora, Eric, mas e os pubs e boates e a vida noturna, cadê? hahah É… Londres não é só calmaria, e esse lado mais londrino da própria Londres me lembra muito “Move Along”, de uma banda norte-americana chamada The All-American Rejects. Sim, escolhi uma banda americana. A Inglaterra quase nem tem bandas de rock famosas, né? (BEATLES, OI? haha) Mais incoerente impossível. Mas um dos bordões dessa minha viagem foi “As pessoas não são coerentes”. Isso mesmo, nem as pessoas, nem eu.

Eis que depois de uma penosa e cara travessia, chegamos à Holanda, mais precisamente à Den Haag, ou melhor, Haia. Nossa intenção era pernoitar nessa cidade vizinha pra conhecer Amsterdam sem ter que perder perder mil euros em hospedagem. E, se desse, ainda conheceríamos a parte histórica de Haia e outra cidade chamada Leiden. Pois bem, devido a mil vicissitudes e alguns desencontros, conhecemos Amsterdam em um só dia e não vimos a cor da parte mais famosa de Haia: o centro. Ficamos, na verdade, numa zona bem mais afastada da área central, mas pertíssimo do mar – do nosso albergue até a praia eram cinco minutos de caminhada. Mas o albergue era tão bom, as pessoas eram tão gentis e a área onde estávamos era tão charmosa que acabou valendo à pena. Andar pela areia da praia, no meio de um vento frio nível Twister, só me fez lembrar de “Goodbye Yellow Brick Road“, composta por Elton John, mas interpretada muito bem por Keane. Apesar da original sempre ter me parecido melhor, a vibe da versão que Keane fez tem tudo a ver com as ruas da Haia em que eu fiquei. À noite, tudo meio silencioso e vazio, mas cheio de vento.

Depois da Holanda, veio Paris (falo dela na segunda parte desse post) e, saindo das terras francesas, chegamos no Barajas, em Madrid. De lá, fomos pra Salamanca no mesmo dia. Mais uma grata surpresa! Essa cidadezinha espanhola tem duas partes: uma histórica e toda de pedra, onde fica a faculdade, e a “parte nova”. Nossa visita se deteve a essa parte antiga e não poderia ter sido melhor! Além de acharmos um combinado de três pratos delicioso (e por um preço ótimo), ainda conhecemos uma cidade quase medieval em dois dias COMPLETAMENTE ensolarados, em que não se via nenhuma nuvem no céu e quase ninguém pelas ruas. Assim que eu comecei a andar por Salamanca só me veio uma música na cabeça: “En que Estrella Estará”, de Nena Daconte. Amo música em espanhol e nem gosto das outras músicas de Nena, mas foi impossível não lembrar dessa andando por aquelas ruas. Aliás, outra grata surpresa em Salamanca foi que ouvi muitas das minhas bandas espanholas favoritas (dentre elas, Amaral <3) em lojas, no meio da rua, em todo canto! Quase que eu surto, né? hahah Probabilidade zero de ouvir isso no Brasil. =/

Saindo da cidade de pedra, a capital. Ei-la: Madri! =D Uma das cidades que eu mais queria conhecer, pela língua, pela cultura e… por essa música aqui hahah É, Madrid é meio suja e, em vários pontos, apresenta aquela balbúrdia típica de países subdesenvolvidos (#burguesinho #teamorecife <3). Falando sério agora: nem tudo é lindo em Madrid, mas Madrid é linda. E encantadora! O Prado, os prédios históricos, o palácio, o Parque del Retiro (incrível!), o templo egípcio. Tudo vibrante e cheio de vermelho por todos os lados.

Ainda deslumbrado, eis que no meio da Gran Vía me aparece num alto falante o cantor que eu menos esperaria ouvir no mundo: David Bisbal. Isso porque, na minha cabeça, ele nem era tão famoso assim e a música mais “conhecida” dele tocava anos atrás, tipo 2006. Ela é besta, gueba, mas eu amo. Poderia se chamar “Vergonha alheia”, mas o nome é “Quién me iba a decir”. Não clique nesse link! Enfim, adivinha que música tocou nesse dia, no meio da rua em Madrid? Pois é. Muito fera e inesperado =D Mas, depois de passar um dia inteiro na cidade, não foi bem David Bisbal que me veio à mente não. Pop/rock adolescente não combina com Madrid. Essa capital é tão impregnada de si mesma, de cultura, de espírito espanhol ou sei lá o quê que só me lembrei de Ella Baila Sola, uma dupla de música romântica, tipo sertaneja (risos). Mas sério, comendo paella e visitando os parques, quase consegui ver Marta e Marilia dedilhando o violão e cantando juntas minha favorita: “Quando los Sapos Bailen Flamenco”. (O título é uma expressão idiomática, tipo o nosso “nem que a vaca tussa”. No caso ela canta: você foi embora e eu sei que pensa em voltar algum dia… quando los sapos bailen flamenco. :# )

O roteiro inteiro da viagem foi o seguinte: Recife – Frankfurt – Londres – Haia/Amsterdam – Paris – Salamanca – Madrid – Roma – Florença – Veneza – ViennaFrankfurt – Recife. Como eu não conheci de verdade Frankfurt, ela foi só uma cidade-passagem, a última cidade que eu realmente conheci encerra o post de hoje: Vienna. Não poderia haver fechamento mais estonteante pra nossa viagem! Digo estonteante porque “linda” é um adjetivo simplório perto do palácio a céu aberto que é essa cidade. Você pode até pensar que eu tô exagerando, mas Vienna não tem só um ou dois palácios, mas um complexo deles, alguns aglomerados e outros pela ““periferia”” da cidade. Quando você entra em Vienna, é impossível não se sentir automaticamente transportado pra uma época diferente. Os prédios lindos, decorados com cobre e ouro parecem um lembrete constante de que ali viveu um império. Sabe uma impressão que eu tive vendo aquilo tudo? É como se alguém, pra se tornar imortal, tivesse construído essa cidade. E o mais incrível: conseguiu! Só que tem um paradoxo aí. Apesar de Vienna ser uma cidade imperial – histórica, portanto – cada prédio daquele tem um quê de imortalidade, de jovialidade. Pensando nisso, na hora me veio à mente “Forever Young”, de Alphaville. Tem tudo a ver com o que eu tava falando e com a cidade em si. É uma cidade velha, mas que vai ser jovem pra sempre, não vai morrer nunca.


Amanhã tem Paris, Roma e Veneza. Por ora, algumas fotos a mais e muita saudade.

Eric.

 

Enlouquecer é preciso (passo a passo)

1a19f40a8bff4428ceee25de5e795355

Um dia desses, tenta olhar pras pessoas a tua volta. Pra quem vai contigo no ônibus, quem corre apressado na rua, pras mães acalentando seus filhos. Olha em volta e repara naquele homem de paletó, camisa e calça social. Gravata, em plenos trinta e tantos graus de Recife. Esse cara tá indo pro escritório, voltando do trabalho, defendendo um cliente, fazendo uma entrevista, dirigindo uma empresa, desempenhando um papel.

Todos estamos.

(mais…)