Série

Capitu em 5 atos

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Apresento-lhes a obra de Machado de Assis contada através de um mundo lúdico, porém realista. Como em primeira pessoa, a adaptação obedece igualitariamente as páginas do livro de Assis. De início é possível perceber uma mistura de épocas, confundindo prazerosamente os séculos e nos exibindo de imediato quem iria narrar a história que ali se iniciara.

Bentinho ou, se preferir, Dom casmurro nos leva à particularidade de sua vida e com uma linguagem irônica, rebuscada e debocha do passado e da sua atual existência, que logo nos faz premeditar seu fim trágico e melancólico  diante uma  maquiagem suja e preta escancarada no seu rosto.

O autor assiste à sua obra assim como nós, e atrás de cortinas teatrais está sempre a espera de alguma resposta ou do próximo capítulo. Não menos merecida do que a obra escrita no livro, esta, oferece-nos bem mais que palavras: cinema, teatro e ópera aos olhos nus.

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A história é contada em 5 atos com tempos preenchidos e vividos simetricamente, sem direito a buracos vazios. A narração é interrompida, às vezes, para ser contada por danças mudas, o que nos faz apreciá-la com uma visão ainda mais fantasiosa. Mas a realidade com o mundo moderno aparece para chocar o telespectador. Nós, e o que talvez seria o certo para nos confundir ainda mais, serve também  para encontrarmos as respostas ainda menos.

O conto já seria por si só, algo bom de ser assistido, mas foi na música escolhida para protagonizar a história que lhe deu uma vida mais eterna aos nossos olhos e as canções mescladas por estilos fez do destino da obra um favor aos nossos ouvidos.

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Capitu foi a coadjuvante do seu título dando chance à Dom Casmurro acreditar que seria o dono da sua história. E como as palavras não terminam, não seria aqui que as cortinas iriam se fechar, dando a Bentinho, ao menos agora, o direito à última frase por ora: “O destino não é só dramaturgo, é também o seu próprio contra-regra, isto é, designa a entrada dos seus próprios personagens em cena”.

Renata Cavalcanti

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Fim do Império: As mulheres do Comendador

Hoje é o último dia de Império, novela da Rede Globo que, podem me julgar, conseguiu a minha audiência por um bom tempo. Amo histórias que trazem um tom nordestino, com amores proibidos, riqueza, amores de infância etc… Amo qualquer história que seja contada por Aguinaldo Silva. Então se Aguinaldo Silva conta uma coisa dessas pra mim… Vai ter a minha audiência. NÃO ME JULGUE, POR FAVOR!

Pra combinar com o especial, a gente vai falar hoje de algumas mocinhas que fizeram a diferença no folhetim das 9h e serão inesquecíveis. Sem as mulheres do Comendador, a trama não aconteceria com tanta emoção, nem teria a mesma graça.

fr_8919-tratada2_-_fabio-e1417525066105Pra começar, apresento-lhes Cora, a louca interpretada por Marjorie Estiano, depois por Drica Moraes e depois, por motivos além da ficção, Marjorie Estiano de novo. Cora viveu para ser de José Alfredo (Alexandre Nero). A “cobra”, como é chamada em Santa Teresa, sempre foi alucinada pelo comendador, desde a época de Pernambuco, quando ele amava a irmã dela. No Rio de Janeiro, a mulher infernizou a vida dele, fez barganhas para conseguir uma noite de amor e até se preservou – V I R G E M – para o homem da sua vida: O Comendador José Alfredo de Medeiros. Como prova do seu amor, Cora se joga na frente da bala que era para o protagonista e morre por ele, casta, ou como queiram chamar. A mulher aprontou poucas e boas e merecia estar viva pra pagar pelo tanto que de gente que fez sofrer e pelo tanto de gente que matou.

João-Miguel-Júnior-TV-Globo3Cristina (Leandra Leal) é a filha de Eliane, irmã de cora e grande amor do Comendador, que a adotou depois de adulta. Cristina é a maior entre todos os herdeiros do pai: A mais parecida, a mais tinhosa, a mais criativa e mais simples entre todos os filhos. Cursou administração e salvou a Império, ajudou o pai a descobrir os mistérios que envolviam a empresa e os seus inimigos e foi peça fundamental para fechar a trama, tanto que foi sequestrada no penúltimo capítulo da novela e só hoje vamos saber o resultado. Teve um casamento LINDO (!) com Vicente, uma música linda para o casal, que vai aqui embaixo, porque vale a pena.

fm_0022---tratada-para-vpaOutra mulher que merece todo o destaque é Maria Marta (Lilia Cabral) que, pra mim, mostra o fiel retrato da mulher: Capaz de tudo pra fazer o bem a um amigo, como fez – inocentemente (acredito que sim até o penúltimo capítulo da novela) – colocando Silviano como seu mordomo. Marta também foi capaz de tudo para defender José Pedro, seu filho preferido, e se o autor não me apresentar um bom motivo pra essa preferência até hoje, confesso que ficarei decepcionada. Ela foi capaz de amar acima de tudo. Não é qualquer mulher que aceita o que ela aceitou, o Comendador José Alfredo é, olhando pela ótica dela, uma espécie de anti-herói. Mesmo sabendo que Marta não é a melhor das mulheres, não tem o melhor dos corações e (também) erra, ela foi capaz de todos os sofrimentos pra se manter ao lado do marido, segurou a império com mãos de ferro enquanto José Alfredo se fazia de morto, carregou uma expressão sobrecarregada, triste e abatida durante toda a trama. Mas na última semana, quando recebeu um beijo do marido – lembrando os tempos de felicidade da família Medeiros de Mendonça e Albuquerque – ela foi capaz de sorrir. Aquele sorriso, só Lilia Cabral poderia dar. Uma expressão fabulosa, um olhar alegre, um sorriso largo e uma lágrima de quem sabia que ele ia voltar pra Isis.

p1250382-tratadaPor fim, Isis (Marina Ruy Barbosa), que vive um grande amor com o Imperador, mas que desde o início é ameaçado. Zé Alfredo nunca a assumiu, de verdade, mesmo sem fazer questão de esconder o caso que tem com a jovem. Por outro lado, sempre fez questão de viver, mesmo em pé de guerra junto com Marta, que sempre foi quem o ajudou. No fim das contas, o nosso protagonista é um grande machista e vê em Isis um lugar pra se acalmar, pra desabafar. Enquanto Maria Marta é a sua cúmplice, esperta, que pensa rápido como ele. Se o Comendador é o que mostrou ser desde o início da novela, vai terminar com as duas. Mas se ele é quem eu quero, vai perdoar Maria Marta, viver com ela e com os seus filhos, porque ela provou estar do lado dele em todos os momentos. Maria Marta já comeu mais de 5 quilos de sal com o Imperador e continua amando e respeitando até a morte (se ela chegar).

Muitas outras mulheres foram essenciais para a construção da novela, mas essas são as do Comendador… Da vida dele, atualmente. Gostei muito da novela, de conhecer o trabalho de Alexandre Nero, me fez rir, me fez ter raiva, achei que ele foi um nordestino lindo e um personagem que se mostrou na íntegra: Com as suas falhas e virtudes no caráter. Gostei, de verdade, desse ângulo… Nem tão mocinho, nem tão vilão. Gostei também de Rafael Cardoso (Vicente), que fez um trabalho apaixonado tanto na cozinha, como no altar :P Agora eu vou apertar o “publique-se” como o Téo Pereira (Paulo Betti), que também foi fantástico e mostrou que está pronto pra se transformar em qualquer coisa – já que a profissão requer isso – inclusive em um jornalista SÉRIO!

Neide Andrade