Prosa

Quem ama mais é o mais fraco, merece sofrer

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O namoro da gente acabou e foi tão fácil.

Eu disse umas palavras, apontei descontentamentos. Você retrucou, choramos, discutimos. Acabou. E, pelo que vi nos seus olhos, doeu muito mais em você do que em mim.

Recentemente um casal de amigos reviveu essa experiência tão comum a todos, tão nossa – o fim de um relacionamento. Alguém virou pro outro e disse: acabou. E isso me fez lembrar de um trecho do menor livro mais incrível de Thomas Mann – Tonio Kroeger:

“Aquele que mais ama é o mais fraco e tem que sofrer” (14).

Que horror, né?

É. Mas, ei, pode ser verdade também. (mais…)

Madame Bovary sou eu!

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O livro, ao ser publicado,  gerou um processo por “ofensa à moral pública e religiosa e aos bons costumes”. Começou a caça pra saber quem era a devassa retratada na história, qual a verdadeira identidade de Madame Bovary? Pressionado, finalmente o autor responde: “Sou eu! Madame Bovary sou eu!”

Tem certos livros que a gente nunca vai saber por que teve de ler na época do colégio. Quem aí não lembra daquele clássico que seu professor de literatura mandou estudar porque caía no ENEM/vestibular? (mais…)

Confissão de Adultério

Em nome de um amor Casmurro

Eu volto a conjugar verbos, mas me enxergo cada vez mais desejando colocar o passado no futuro. Só pra ter de novo o prazer daquela gargalhada, de te ver lutando por mim e me chamando na janela. Mas por estar presa aos encantos e desencantos, que me faziam felizes de maneira independentes, coloco-me a disposição do destino, só que não consigo largar o volante… Apesar de passiva, tenho me comportado como um agente extremamente ativo em toda a situação que diz respeito a nós dois. Mas, no fim das contas, não sou eu que decido o nosso “sim” de cada dia.

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Sobre o Romantismo…

Se houve alguém nesse mundo que foi capaz de se eternizar, esse alguém foi o nosso grande escritor Machado de Assis. Descrevendo tantas personalidades, duas ficaram cravadas: Bentinho e Capitu, que viveram um amor intenso, mas não eterno. Maravilhoso, que terminou na desgraça da incredulidade, da saudade e, principalmente, da dúvida.

O amor dos dois já nasceu banhado pelo medo: alguém poderia impedir. E se não desse certo? Se a distância separasse os dois… se. Bentinho se desenvolveu e tornou-se um homem casmurro, o Dom Casmurro, que temia o tempo inteiro que cada segundo fosse convertido em distância da sua amada. Na realidade, um dos dois não soube amar. E nunca poderemos dizer quem foi o verdadeiro culpado.

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PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN

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– Nós somos felizes, você não acha?

– Acho.

– Então qual é o problema?

– Talvez a gente seja feliz demais.


imageedit_15_7358108073É com esse diálogo curto que a gente começa a entender de que realmente fala essa obra-prima de Lionel Shriver. É a partir daí que a gente descobre que, na verdade, não é só sobre o Kevin que a gente precisa falar. Precisamos falar sobre nós mesmos, sobre as nossas culpas.

Tudo começa com uma mãe apática que finalmente aceitou seu destino terrível: o filho é um assassino. Dos mais frios. Logo nas primeiras páginas, a gente conhece o massacre causado por Kevin na sua escola: vários dos seus colegas de classe assassinados premeditadamente.

Tá lindo, mas o que o livro sobre um assassino tem a ver com a minha vida? Tudo, meu amigo, minha amiga. Tudo.

Através de cartas ao seu ex-marido Franklin – pai do Kevin – Eva (a mãe) nos conta a história de seu filho desde o começo, desde antes de ela estar grávida. Nessas páginas, vemos uma empresária bem-sucedida (e rica), casada com um marido amoroso e dona do emprego dos sonhos: ela viaja o mundo todo pra escrever aqueles guias de viagem, sabe? Emprego melhor tá pra nascer.

Eva é bem alegre, feliz mesmo, mas tem um momento em que aquela felicidade toda começa a incomodá-la um pouco. Tudo parece perfeito demais, monótono demais. E, porque ela estava entediada, resolveu ter um filho.imageedit_5_8731316186

Num instante, tudo mudou.

O amante ardente, sensual vira um paizão e a viajante libertina começa a observar horários, ficar em casa e amamentar uma criança – criança, aliás, que rejeita o peito da mãe e a sua própria presença, como se desde cedo já dissesse a que veio.

Kevin nasce, e Eva se arrepende – o que fazer agora?

Inevitável é não perceber a metáfora que grita nesse nome, nessa expressão. EVA. Eva se arrepende. Como a personagem bíblica, ela se arrepende do fruto do seu ventre, das expectativas depositadas naquele serzinho que chora o tempo inteiro. O que ela faz? Finge. Retira de si outra persona e vira a dona de casa, a mãe amável que faz biscoitos, confere a lição de casa e ensina a tabuada.

O problema é que Kevin finge também.

Pro pai, ele é o “filhão”, o “garotão alegre” e que “só precisa de um pouco de carinho, Eva!”. Com a mãe, ele é dolorosamente verdadeiro: rejeita o seio que o amamenta, a mão que o afaga e a voz que o repreende. Despreza tudo, absolutamente tudo. E o pior: ele é cruel. Assustadoramente cruel. Pequenas coisas começam a acontecer, várias delas, mas nenhuma parece ser culpa do menino. Eva percebe. O marido diz que é loucura, injustiça.

Carta a carta, essa mãe vai lembrando Franklin dos detalhes da infância, da adolescência de Kevin, das coisas que ela disse, das que deveria ter dito… Ela vai assumindo sua parte na culpa, apontando onde Franklin também errou e no final, dolorosamente, ela conclui: nunca gostei do meu filho.

Ninguém gosta de mães que “não gostam” dos próprios filhos.

Também não gosto muito dessas mães.

Eu tinha infringido a mais primitiva das regras, profanado o mais sagrado dos laços.

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imageedit_19_3377545386Aí está. A coragem de assumir os erros, os arrependimentos. Aquilo que a gente guarda bem escondido, como poeira velha embaixo do nosso tapete. Eva traz tudo à tona, tudo o que uma mãe, uma mulher, um ser humano nunca teria coragem de dizer. Ela diz, e de peito aberto. Parece que não há mais nada a perder.

Eu me rendo. Poderia passar o dia todo falando e não conseguiria mostrar pra vocês o quanto esse livro é incrível. Não é só sobre a mãe de um assassino, sabe? Vai além. Fala da hipocrisia nossa de cada dia, do falso perdão, das nossas insatisfações e da culpa. Da culpa dolorosa e do que a gente faz com ela. Comecei o livro achando bom, no meio me cansei um pouco dessa narradora egocêntrica e, no final, estava apaixonado pela sinceridade dela e pela força dessas páginas.

Quando o livro acaba, a sensação é de perfeição, de completude: a gente tá diante de uma obra-prima. Mais do que isso: levamos um tapa na cara. No meu caso, um tapa que vibra até agora. Dolorosamente.


Só para raros:

Vi o filme também.

As cenas são muito bem-feitas, bem filmadas. O tempo todo a cor vermelha persegue a mãe de Kevin, como um lembrete constante do que o filho fez e da dor que aquela história traz.

Ezra Miller [As Vantagens de Ser Invisível – post aquitá incrível como o Kevin: o desprezo no olhar, o jeito de se mover, tudo. Tilda Swinton faz uma boa Eva: fria, fisicamente parecida com a descrição do livro, mas muito unilateral. Senti falta da complexidade que a personalidade de Eva tem. Na verdade, se eu fosse usar uma palavra só pra definir o filme, seria essa: falta. 110 minutos não foram suficientes pra contar essa história.

Não me entenda mal: sei que filme e livro são formatos diferentes e é muito difícil condensar tudo pra fazer caber numa tela. Mas cara, não dá. O livro é INFINITAMENTE superior em todos os sentidos.

Enquanto o filme te impressiona, o livro te derruba, acaba com a tua raça e te faz pedir mais.

Eric

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As vantagens de ser invisível

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Lembra aquele dia em que você pegou o carro com seus amigos e saiu sem destino certo? Lembra do vento no teu rosto, da sensação de liberdade? Parecia que a noite, o vento e você eram uma coisa só e, porque eram todos um, você era eterno, e infinito.
Charlie também sentiu tudo isso e conta pra gente como foi em As Vantagens de Ser Invisível, livro de Stephen Chbosky. O personagem principal é um adolescente daqueles invisíveis, filho mais novo de uma família de estrelas: o irmão mais velho, astro do futebol e a do meio, brilhante e linda. Charlie não é burro, não é feio, nem é desajeitado. Mas também não é brilhante, lindo ou habilidoso. Ele é como aquelas plantas de consultório de médico, sabe? Tem seu valor, mas ninguém realmente repara.
WAliás, tô escrevendo esse texto no consultório médico e, enquanto tento me concentrar pra lembrar os detalhes da história, uma paciente de farda resmunga pra mãe: primeiro ano do ensino médio é o pior ano na vida de uma pessoa! – Queria que vocês tivessem ouvido o tom dela ao falar isso, o jeito de quem acabou de dizer uma verdade absoluta. Confesso que sorri e achei meio exagerado, mas entendo a menina. Entendo muito. Lembro do medo de enfrentar uma sala de no mínimo 50 alunos (quando as anteriores tinham no máximo 30), de pensar no vestibular pela primeira vez, de me preocupar com o futuro. Na verdade, a gente ta sempre se preocupando e pensando no futuro, mas, no primeiro ano do ensino médio, isso parece tão precoce. A gente nem sabe direito quem é e já tem que pensar no que vai ser.
Charlie tá passando exatamente por isso no livro de Stephen, os medos, a ansiedade, a sensação de não se ajustar. Tudo em sua vida parece meio fadado ao fracasso, quando ele conhece Sam e Patrick, um casal (de irmãos) prestes a se formar no ensino médio. Enquanto a maioria das pessoas na sala deles está preocupada com a admissão na faculdade, os dois escrevem numa revista independente e atuam numa peça-releitura de Rocky Horror Picture Show <3 Eles saem de carro à noite, vão a festas de verdade e parecem muito seguros de si. Sabe os adolescentes populares do teu ensino médio? Pronto, Sam e Patrick são o oposto: eles são aqueles desajustados, loucos por música, que se juntam, se entendem e vivem a vida sem se importar com a opinião dos outros.
Ao longo do livro, Charlie vira amigo dos dois, sai junto com eles, começa a conhecê-los de verdade e finalmente descobre: aquela segurança que os irmãos pareciam ter era, na verdade, uma resposta ao mundo, um grito de sobrevivência de quem foi muito magoado pela vida e precisou encontrar forças em si, descobrir e aceitar quem se é. Nesse momento, a gente percebe que Charlie também teve uma vida difícil e seu coração já foi muito magoado, mas tem um problema: ele ainda não encontrou forças. Nosso menino é fraco demais pra encarar seu passado e, por isso, não consegue seguir em frente. Em um dado momento, ele percebe que tem coisas que a gente não conseguem encobrir, feridas que são tão profundas que gritam, rompem as ataduras e se revelam ainda vivas, inalteradas.
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Todo esse texto pra dizer que o livro é ótimo. E o filme é incrível, é melhor.
Não sei se interfere no meu julgamento a questão de eu ter visto o filme antes de ler o livro. De todo jeito, apesar de ter achado prazeroso ler sobre Charlie, Sam, Patrick e conhecê-los mais profundamente, o fato é que realmente achei o filme melhor.
A adaptação é bem fiel ao livro, mas a mudança de formato faz muita diferença: a história editada ganha bem mais força; no filme, da pra ouvir as músicas lindas que o autor cita durante o texto; e o melhor: a atuação dos protagonistas é muito boa. Ezra Miller tá maravilhoso como Patrick, Emma Watson faz uma Sam incrível e Logan Lerman tá simplesmente perfeito como Charlie! O jeito baixo do olhar, a fala meio arrastada, o desespero latente: é realmente como ver o Charlie do texto em carne e osso. Todo o livro, na verdade, parece ganhar vida na tela e e impossível não se emocionar com isso.
Dito isso, me resta finalizar dizendo que As Vantagens de Ser Invisível não é só sobre adolescência, amizade ou futuro, é sobre ser. Sobre aquele momento em que a gente rompe com o passado e começa a viver a nossa vida. A nossa vida, não a do outro.
Recomendo muito. Em especial pra quem acha que, em qualquer idade, é possível crescer.
Tem no netflix aqui.

Só para raros:

YThere are people who forget what it’s like to be 16 when they turn 17. I know these will all be stories someday. And our pictures will become old photographs. We’ll all become somebody’s mom or dad. But right now these moments are not stories. This is happening, I am here and I am looking at her. And she is so beautiful. I can see it. This one moment when you know you’re not a sad story. You are alive, and you stand up and see the lights on the buildings, and you’re listening to that song and that drive with the people you love most in this world. And in this moment I swear, we are infinite.

Há pessoas que esquecem como é ter dezesseis anos quando fazem dezessete. Eu sei que tudo isso vai ser história algum dia e nossas fotos vão se tornar velhas fotografias, nós vamos nos tornar mãe ou pai de alguém. Mas nesse momento isso não é história. Está acontecendo. Eu estou aqui e estou olhando pra ela, e ela é tão linda, eu posso ver. É aquele momento único em que você sabe que você não é uma história triste. Você está vivo! Você fica de pé e vê as luzes e está ouvindo aquela música, no carro ao lado das pessoas que você mais ama no mundo. E nesse momento, eu juro, nós somos infinitos.

Eric

Walden, ou “vamos fugir”

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Destino de hoje: Concord, Massachusetts/EUA, 1854

Mais um ano começa.

Mais uma vez a gente promete que vai ser diferente, que vai fazer diferente.

Só que vem a primeira segunda-feira do ano, a primeira sexta. Vem o primeiro fim de semana e a segunda-feira seguinte a ele. Continua difícil acordar de manhã, encarar a mesa de trabalho e o telefone, o caderno de questões e a pilha de apostilas. Tudo parece urgente! O futuro é agora. Tem que estudar, tem que ler, tem que passar, tem que ser o melhor. Tem que ter sucesso, tem que ter dinheiro.

Parece familiar? E se eu te contar de um homem que largou todo esse mundo – e tudo o que tinha na vida – pra viver sozinho… na mata? Louco, né? Foram dois anos de isolamento, vivendo perto de um lago [esse aqui], numa cidadezinha chamada Concord, em Massachusetts/EUA. Essa experiência rendeu ao escritor H. D. Thoreau o incrível Walden, ou A vida nos Bosques, publicado em 1854.

O que esse livro velho escrito por um louco tem a ver com você? Ouve a justificativa dele:

14205782374124Fui para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se poderia aprender o que ela tinha a me ensinar, em vez de – quando morresse – descobrir que não tinha vivido. Não queria viver o que não era vida, viver é tão caro! (…) Queria viver profundamente e sugar a vida até a medula, viver com tanto vigor (…) que eliminasse tudo aquilo que não fosse vida. [95]

Parece absurdo viver assim, comendo o que se planta, numa cabana feita com as próprias mãos? Eu sei. Mas repara: a gente também vive de um jeito absurdo. Se o dinheiro, um dia, foi instrumento pra que conseguíssemos o que queríamos, hoje nós somos o instrumento e o dinheiro é tudo o que a gente quer. “Os homens se tornaram os instrumentos de seus instrumentos. O homem independente que colhia os frutos quando estava com fome virou agricultor; aquele que se abrigava sob uma árvore agora tem uma casa para cuidar.” [47]

lonely-old-womanEm 300 páginas, Thoreau nos mostra o abismo entre o que a gente precisa pra ser feliz e o que a gente acha que precisa; fala sobre a vida que tinha antes, e as escolhas que fez; sobre as pessoas à sua volta e a sociedade da sua época; fala do silêncio, da leitura, dos animais, da solidão; fala da felicidade. Tudo isso de um jeito fácil, objetivo. Não tem floreios de escritor aqui: é só um bom amigo que aconselha a gente, baseado em seu exemplo.

O livro vai acabando e é inevitável não pensar: será que eu teria coragem? De sumir e largar as coisas que eu tenho assim, de uma hora pra outra? Tudo o que Thoreau diz é bonito e parece tão puro, tão simples. Mas nem ele conseguiu viver desse jeito por mais de dois anos! Como conceber uma vida assim: tão seca, tão sozinha?

Chega o último capítulo e, com ele, a resposta pra nossa pergunta (e o melhor momento do livro):

Deixei a mata por uma razão tão boa quanto a que me levou para lá. Talvez me parecesse que eu tinha várias outras vidas a viver, e não podia dedicar mais tempo àquela. É notável a facilidade e a insensibilidade com que caímos numa determinada rotina, e construímos uma trilha batida para nós mesmos.

É isso! Não é preciso fugir pra um lago no meio do mato, nem parar de fazer as coisas que te dão prazer. Ter uma rotina, dinheiro, buscar o sucesso não é errado. Errado é se deixar cegar por tudo isso e parar de viver de verdade.

Errado é chegar no leito de morte e pensar: todos esses anos… e eu não vivi.

É tradição desejar algo ao outro sempre que um ano começa, e é isso que eu te desejo: que você viva muito nesse ano novo!


Personalíssimo (só para raros):

Sim, conheci Thoreau através do incrível Sociedade dos Poetas Mortos. [Se não viu esse filme, corre pra ver] Me apaixonei pelo Capitão John Keating e por cada um dos alunos daquele colégio interno. Tudo o que eu achei sobre a história e a trilha sonora, conto num post logo menos, mas quero lembrar a vocês uma cena em especial. Aquela em que o Capitão anda lentamente, em frente ao mural de fotos, sussurrando para os alunos:

Carpe. Carrrpe. Carpe Diem. Seize the day, boys. Make your lives Extraordinary!

Como esquecer?

E na cena de abertura da Sociedade, lembra do texto que eles declamam? É de Thoreau sim, mas adivinha de que livro dele…

I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived – H. D. Thoreau, Walden.

Eric

Meu pé de laranja lima

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Eu precisava me preparar para contar a experiência deste natal, que se prolongou até hoje, quando eu terminei de conhecer o menino Zezé. Eric me indicou o livo Meu pé de laraja lima e o diálogo foi mais ou menos o seguinte:

– Você tem que ler aquele livro!

– Como podes gostar de um livro tão pequeno desse jeito? Pode até ser bom, mas não dá pra ser esse desespero todo.

– Ele é maravilhoso, eu chorei copiosamente e não conseguia parar, o livro é muito emocionante!

– Isso é tudo frescura tua, que tem mania de chorar com tudo!

Só que eu esqueci de um pequeno detalhe: eu sou mais besta pra chorar do que Eric. Então comecei a ler o livro na mesma semana que ele me indicou (isso já faz mais de um ano). E eu chorei copiosamente. Não consegui ler mais nada porque a história de Zezé doeu muito em mim. E se passara o que? Cinco capítulos, no máximo!

Zezé é um menino de cinco anos, que tem uma família muito, muito pobre. E, pra piorar, cheia de irmãos! O pai está desempregado e, por isso, a mãe se mata de trabalhar como operária em uma fábrica da redondeza. A emoção e a tristeza do livro não estão no sofrimento da família de Zezé, mas na maneira como ele encara tudo aquilo. Podemos ver, nitidamente, a inocência virando maturidade.

Zezé cria fantasias, como toda criança. E passa a conversar com o pé de laranja lima e começa a fazer de conta. E  o maior faz de conta de todos é ele imaginar que aquela árvore fala com ele. E os dois – criança e árvore – tornam-se amigos e confidentes enquanto a história do menino se desenrola de maneira paralela: parte na fantasia, parte na realidade.

Tentei ler de novo o livro, mas a história do natal de uma criança pobre que vive em um ambiente hostil é triste demais! Então prometi pra mim mesma que Zezé seria digno da leitura completa, terminei agorinha. Eu me identifiquei tanto… Nunca fui pobre a ponto de não ter presentes no natal, nunca vivi em um ambiente hostil pra não me sentir querida, mas diversas vezes fui injusta com quem amo e possivelmente já estraguei o natal ou o dia de alguém. Zezé acha que ele foi um menino mau porque não ganhou presente do Papai Noel. Já eu acho que esse bom velhinho é muito injusto.

Recomendo o livro, especialmente agora, depois do natal. É bom comparar e olhar pra o lado, ver como somos sortudos. Como fomos preservados e aprendemos na hora certa o que é brincar de esconde-esconde e o que é sofrer.

Nesse momento, eu queria dizer pra Zezé o quanto ele se tornou especial pra mim. Queria abraçá-lo e ouvir as suas histórias todas, dizer que, quando eu crescer, quero ter um filho igual a ele. Esse privilégio ficou com o meu querido Eric bem aqui.

Neide Andrade

Carta para Zezé

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Carta escrita para um menininho de cinco anos, personagem principal do livro Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos.


Oi, Zezé.
Achei que as palavras do teu livro eram suficientes, mas quando acabei de ler tudo descobri que eu precisava falar contigo. Você é cruel, Zezé. Você dilacerou meu coração. Hoje eu tô aqui escrevendo essas linhas, encaro o papel e vejo meu olho transbordar.

Queria te dizer que senti cada uma daquelas palavras duras, os olhares atravessados, os vergalhões na pele. Todos foram direcionados a você, mas você era pequeno demais pra suportar tudo aquilo, pequeno demais. O sofrimento quando é grande, a gente tem que dividir. Quero te dizer que eu dividi contigo, Zezé. Eu dividi. Você não tá mais sozinho.

Lembro que quando pequeno eu tinha um urso de pelúcia, ele se chamava Tom. Nas noites que pareciam não ter fim, eu abraçava ele, pedia ajuda, um conselho. Às vezes, as lágrimas não me deixavam falar e eu só abraçava meu urso, meu amigo.

Eric tinha Tom, você tinha seu pé de laranja lima, Zezé. E porque a gente acreditava na fantasia, eu tinha a você e você também tinha a mim.

Se eu pudesse desejar alguma coisa nesse natal, pediria a Deus pra você crescer logo. Cresce logo! Eu sei que, quando a gente vira adulto, a fantasia vai morrendo e isso é ruim. Mas a gente também aprende a se defender. E você precisa aprender, meu pequeno. Pra não ter mais que correr com as perninhas machucadas, em direção ao amigo-laranja lima.

Que nesse natal, Jesus, que foi menino também, te proteja do sofrimento e da dor.

Um beijo, meu pequeno.

Eric

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Então é natal, e o que você fez?

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Então é natal, e o que você fez?

Não há brasileiro que não lembre dessa música quando dezembro começa. Mas vocês já pararam pra pensar no que diz essa letra de Simone?

Dezembro chegou de novo. E aí? O que você fez? Quem você amou? Como viveu?

Nem sempre a gente faz as melhores escolhas. Às vezes dinheiro parece mais importante que família, namoro mais que amizade. E tudo bem. São escolhas. A gente sabe o que tá fazendo com a nossa vida. Mas e quando vem a linha de chegada? Quando a vida que a gente conhece anuncia seu fim?

Meu amigo Ivan passou por isso. Tostói contou a história dele no seu A Morte de Ivan Ilitch, de 1886. Sim, lide com isso: o título já traz um spoiler gigante. E sim, o livro é russo, de 1980. Mas olha, nada disso o faz menos atual ou menos interessante.

Tudo começa com a morte de Ivan (lógico né). Os parentes e amigos de repartição pública ficam sabendo, todos se reúnem no velório. Aquela coisa de velório né: lágrimas, gente falsa, os sucessores do cargo, todos juntos fingindo se importar. Depois de mostrar o fim, Tolstói nos apresenta Ivan: funcionário publico, ambicioso, objetivo. Amigos tinham serventia, amores eram escolhidos a dedo. Pouca coisa era deixada ao acaso, tudo fazia parte do plano. Se formar numa faculdade boa (pública) estudar pra passar num concurso, fazer amigos pra conseguir cargos maiores, casar com a melhor esposa: tudo faz parte do plano. Parece familiar?

O livro conta, em menos de 100 páginas, um pouco das escolhas que Ivan fez durante a vida e como elas mudaram quando ele adoeceu. O que valia demais, passou a valer quase nada; o que era besteira, de repente se tornou importante. Só no leito de morte Ivan percebe que viveu anos e anos, mas não viveu de verdade. De que valeram todos aqueles planos se no final ele se sente assim?


Não se engane, apesar de a morte estar até no título do livro, não acho que é esse o tema central. Ela é só um exemplo. Na verdade, essas páginas falam sobre o fim da vida como nós a conhecemos. O relacionamento que termina, a faculdade que oferece seu grau, o ano que acaba.

Os ciclos antigos se fecham pra outros começarem e, no fim das contas, tudo se resume às decisões que a gente toma, aos caminhos que a gente escolhe trilhar.

2014 acabou.
Então é natal. E o que você fez? O que vai fazer?



No vídeo aqui embaixo (a partir dos 0:35), Alessandra Maestrini canta que a vida é frágil e Chiara faz a você a pergunta mais angustiante do mundo: What are you doin’ the rest of your life?

Eric