Poesia

Enlouquecer é preciso (passo a passo)

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Um dia desses, tenta olhar pras pessoas a tua volta. Pra quem vai contigo no ônibus, quem corre apressado na rua, pras mães acalentando seus filhos. Olha em volta e repara naquele homem de paletó, camisa e calça social. Gravata, em plenos trinta e tantos graus de Recife. Esse cara tá indo pro escritório, voltando do trabalho, defendendo um cliente, fazendo uma entrevista, dirigindo uma empresa, desempenhando um papel.

Todos estamos.

(mais…)

Batismo de fogo

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O que leva a gente a querer escrever sobre um livro?

Não sei.

Sei o que me leva a ler um: a vontade.

No caso de Batismo de Fogo, tive que insistir. Senti com esse livro a mesma dificuldade inicial que enfrento quando leio um livro de contos. Pra mim, é difícil acabar uma história em um parágrafo e no seguinte começar outra, com outros personagens, outros narradores. Em Batismo de Fogo não há contos: é uma história só, mas – ao mesmo tempo – são várias.

Em resumo, o livro trata do cotidiano de um colégio militar para adolescentes – aliás, pare e pense um pouco nesse conceito: colégio. militar. para. adolescentes. Sentiu o drama? Pois é. O Leôncio Prado recebe só meninos, todos os anos e fica próximo ao mar de Lima, no Peru. Aí a gente pensa: por que – e por quem – esses adolescentes foram obrigados a estudar num colégio interno (e militar)? Como é a vida lá dentro? Como eles lidam com a disciplina?

Várias vozes se alternam no texto pra responder essas perguntas: ora quem fala é o narrador impessoal, onisciente; ora é um dos alunos em primeira pessoa; um dos professores; outro aluno… Alguns parágrafos se passam no presente, páginas depois lemos sobre anos anteriores; descrições de eventos emendam com fluxos de consciência… Enfim: uma zona, mas uma zona escrita por Mario Vargas Llosa. Então tudo faz sentido e é bem feito.

Superada a dificuldade inicial com a alternância das vozes e do tempo, o livro pega você. Muito. Ver aqueles alunos adolescentes lutando pra se impor num ambiente hostil traz uma nostalgia danada. Lógico que tem situações tensas demais, que a gente como aluno comum dificilmente viveria, mas é muito fácil se identificar com os sentimentos, os diálogos e até algumas das situações vividas por esses meninos. Saudades oitava série do fundamental.

Mas Mario vai além: mais que criar um ambiente de identificação absurda, ele escreveu personagens lindos nesse livro. Desde os mais destemidos e subversores da ordem – como Jaguar – até os doces e mansos, que sofrem nas mãos dos outros – feito Ricardo Arana, o Escravo. Todos são escritos bem delicadamente, com cuidado. Não tem unilateralidade aqui – ninguém é vilão, ninguém é mocinho (não o tempo todo). Dá vontade de saber cada vez mais sobre a vida desses meninos. E Mario vai nos satisfazendo, contando pra gente aos pouquinhos, alternado – capítulo a capítulo – o personagem que fica sob o foco.

O Tripé, Crespo, Cava, Tenente Gamboa, Alberto, Jaguar, o Escravo, Tereza e até a danada da Mal-Paga têm seu momento de brilhar nesse livro. E como brilham! Adolescentes comuns, pais e mães comuns, problemas cotidianos de quem vive nos subúrbios da América Latina, mas retratados de um jeito sensível. As brigas, os amores, a amizade, pais e filhos, os conflitos morais: tá tudo lá, e difícil é não se importar com a vida de cada um desses meninos.

Quer um resumo? Vou te dar:

Imagina O Ateneu, de Raul Pompéia, casando com Capitães da Areia, de Jorge Amado. Tira a formalidade e adiciona sangue. Pronto!

* Imagem: do filme Conta Comigo, que eu assistiria, se fosse você.

Eric

Rabo de baleia – por que eu pinto?

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A primeira vez em que ouvi falar sobre esse livro foi no blog da Juliana Gervason.

Em post, em vídeo, diretamente, nas entrelinhas. Sempre que Ju mencionava Rabo de Baleia ou sua autora, Alice Sant’anna, o rosto dela se iluminava. Entrar no canal dela ou ler um dos textos era um convite constante. Então, na primeira promoção que apareceu – desculpa, sou liso – comprei o livro e comecei a ler. Só que tive alguns problemas.

Eu não sou leitor de poesia.

Veja bem, não é que eu não goste. Amo poesia e, inclusive, escrevo. Mas tenho uma certa dificuldade em abstrair, sabe?

Minha escritora favorita de poesia é Cecília Meireles (falei sobre ela aqui). Amo demais essa mulher! Parece uma amiga querida que puxa uma cadeira do nosso lado e começa a falar sobre a vida, a abrir o coração. Ela é direta, e simples. Não precisa de grandes abstrações.

Pois bem, Alice Sant’anna é simples, mas não é direta.

As palavras são despretensiosas, os cenários são cotidianos. Ela não tenta soar difícil, nem é metida a besta. O problema que eu tive pra ler Alice foi o mesmo que as pessoas têm pra ler a mim: ela é meio fechada. Se Cecília é aquela amiga triste, que tá tão mal que não se importa de falar claramente; Alice é a que está mal, mas tenta ser forte. E, ao invés de dizer logo qual é o problema, prefere falar por alto. Fala algumas coisas e guarda outras pra si.

Mas tem algumas coisas que Alice não consegue guardar. E o pouco que ela deixa a gente ver, justifica a existência do livro todo.

“alguma coisa sempre escurecia / de noite uma vontade de ficar um pouco mais / os carros dos pais que chegavam / como besouros lentos e gordos / os carros que não deviam / não podiam”

“ainda sobra algum espaço nas laterais / uma nesga de lençol, mas não / o suficiente para caber / ela também”

“tenho te escrito com calma / cartas em um caderno azul / arranco da espiral e não posto / por preguiça ou nem morta / tenho medo da espera / durante dias ou semanas um animal horrível / (espécie de raposa) vai me perseguir / por dentro, ou serei eu mesma / enquanto a resposta não chega”

Rabo de baleia é sobre ausência, saudade, cotidiano, mas principalmente sobre sumir, desaparecer. Sabe aquela vontade de desistir de tudo, de não estar onde você está? De pegar o primeiro avião e ir embora? Pronto. Só que, pra Alice, avião não serve! Ela pega um rabo de baleia. Olha o poema-título do livro:

UM ENORME RABO DE BALEIA

cruzaria a sala neste momento

sem barulho algum o bicho

afundaria nas tábuas corridas

e sumiria sem que percebêssemos

no sofá a falta de assunto

o que eu queria mas não te conto

era abraçar a baleia mergulhar com ela

sinto um tédio pavoroso esses dias

de água parada acumulando mosquito

apesar da agitação dos dias

da exaustão dos dias

o corpo que chega exausto em casa

com a mão esticada em busca

de um copo d’água

a urgência de seguir para uma terça

ou quarta boia, e a vontade

é de abraçar um enorme

rabo de baleia seguir com ela


Personalíssimo

Este blog é meu rabo de baleia mais recente, mas há meses atrás ele ainda não tinha nascido. E eu achava que não podia mais suportar as decorebas pra concurso, os livros sem alma. Quando eu pensei que ia enlouquecer (de verdade), peguei o primeiro giz de cera e comecei a rabiscar minha apostila da OAB (sim). Não sei dizer como isso me faz feliz, como eu me sinto inteiro quando tô pintando. Depois do giz, comprei guache e telas, e hoje pinto. Parte das imagens que postamos no instagram do blog fui eu que pintei. E isso me deixa feliz. Peguei meu rabo de baleia e sumi, pra poder voltar mais inteiro.

E você?

Tem vontade de agarrar um rabo de baleia?

Eric

Versos: O caminho de volta pra casa

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Foto: Rafael Leite

Jefferson é uma figura um tanto rara no Recife. Ele é de Itapetim, Sertão do Pajeú, veio à capital pra fazer faculdade e depois que chegou aqui, aos 18 anos, passou a consumir e produzir com mais paixão e fidelidade alguns elementos da sua cultura local. Não teve sucesso nas faculdades do interior e resolveu chegar de mala e cuia no Recife porque tinha uma casa da sua família aqui. Gegê, como é conhecido no sertão, um apelido dado pelos seus familiares, escreve versos com rimas e métricas pra mostrar o cotidiano, o sentimento e o que queira expressar com um jeito de quem veio do Sertão do Pajeú. Sempre com um sorriso no rosto, Jefferson leva o sotaque, a simplicidade e a poesia da sua terra por onde anda.

Neide Andrade

Açude

Lembro-me daquele açude
Lá no sítio de tia Maria
Onde a água refletia
Meu rosto com plenitude
Lá estava a juventude
Que nunca mais revivi
Só me restou, por fim
A pior das crueldades
Me banhar com as saudades
Que a gente sente de si

Por que você começou a escrever poesia?

Eu já escrevia o que a gente pode tachar como poesia, mas não a poesia que eu escrevo hoje. Quando eu era mais novo, por volta de 10 anos eu já escrevia, mas não era com a estética desta cena poética… Eu venho do Pajeú, lá é muito forte a poesia metrificada, que é a ligada muito ao repente e cada verso tem a mesma quantidade de sílabas. Mas eu comecei a produção textual tendo concepção de que eu tava fazendo poesia quando eu cheguei aqui. Porque lá é tudo muito normal, as aulas de literatura são voltadas pra o regional também. Quando eu cheguei aqui, em 2012, eu tive que entender que eu deixei tudo que era meu lá, então eu costumo dizer que a gente é feito do que tá em volta da gente. E eu deixei pra trás o que podia ser definido como ‘eu’, como amigos, família… E aí veio a questão que, na minha opinião, é o ponto mais forte pra se fazer poesia: a saudade! A saudade foi a primeira a atiçar essa história de fazer poesia e eu comecei a consumir a cultura regional da minha terra depois que eu saí de lá por saudade mesmo. É o modo que eu encontrei de ficar ligado com a minha terra.

E nem parece que essa poesia metrificada ainda existe!

É. E tem a questão da sílaba poética, que é mais a sonoridade do que a sílaba gramatical. Por isso que se você for no Pajeú, você vai encontrar poetas que escrevem coisa de mais de cinquenta versos, todos metrificados, e são analfabetos. Então ele recita na hora, ele tem uma noção contextual, a narrativa deles é incrível. E isso é coisa que é muito forte, porque vem de muito tempo.

Sobre o que você procura falar nos seus versos?

Uma coisa marcante desta poesia regionalista não é você falar, propriamente, da caatinga… Eles só falam da caatinga porque eles moram na caatinga. Eu moro aqui na zona metropolitana do Recife então eu passo a escrever muito sobre aqui. Já falei até sobre a trajetória do ‘Rio Doce – Princesa Isabel’, é o meu dia-a-dia e aí eu terminei escrevendo sobre isso também.

Na cultura da sua infância tem mais coisas? Por que escolheu a poesia?

No Pajeú, o mais forte é mesmo a poesia. Lá você não começa na música pra ir pra poesia… Você começa na poesia pra ir pra música. Então a poesia está ligada na maioria dos gêneros lá e todo mundo tem isso muito forte eles cultivam isso ainda de uma maneira impressionante! Você olhando com uma visão da capital, talvez não tenha noção do que se passa por lá.

Como aprendeu a usar a métrica?

Nós somos apresentados à métrica de uma forma diferente, fora das aulas de literatura. Mas, por exemplo, se eu estou no Rio de Janeiro, não quer dizer que eu saiba sambar. É a mesma coisa. Você mora lá, a gente vê muita poesia, mas eu não consumia. Eu fiz parte de uma geração que cresceu preparada pra consumir o que é externo, e não o que é de casa, só consome pop americano mesmo. E quando cheguei aqui, senti falta e comecei a escrever, cometi alguns erros e quando fui pra lá de férias, conversei com um poeta, que me deu uns toques sobre métrica, dizendo o que era certo ou errado. E fui praticando.

Qual é o seu sonho?

Eu penso muito em, pelo menos, seguir uma carreira de produção textual. Não necessariamente pra poesia metrificada, mas eu quero isso também. O que muita gente não sabe é que essas pessoas do interior produzem muito texto, lançam muitos livros, que às vezes não chegam pra cá porque muitos são independentes. E eu tenho essa vontade de um dia poder seguir uma carreira nesse rumo não só pra poesia, mas de uma forma literária, no geral, com contos e romances que eu também escrevo…

Mas não publica, né?

Não publico porque falta essa questão de motivação. Como eu sou do Pajeú, fazendo poesia regional, eu sei que vou estar com público. Eu tenho uma fanpage, que tem pouco mais de 4.000 seguidores, e eu sei que eu to falando pra o público cuja maioria é pernambucano de interior. Então eu sei que se eu escrever uma poesia metrificada eles vão consumir aquilo. Pra ser um produtor textual independente aqui no Brasil é muito complicado, embora Pernambuco, ao meu ver, esteja um passo à frente. Mas mesmo assim é muito complicado… Falta apoio, realmente.

Você inventa história ou é tudo verdade nos versos?

Tem um poema de Manoel Barros que diz que noventa por cento do que ele fala é invenção, mas só dez por cento é mentira. Isso é a maior verdade pra um poeta. O poeta foi feito pra inventar e a invenção dele é a maior realidade pra ele. Então você cria um mundo que, por incrível que pareça, não é perfeito… O poeta gosta de sofrimento, gosta de inventar, não gosta de nada simples. A tristeza é quem faz o poeta. E a poesia regionalista é muito descritiva também. Temos a literatura de cordel, por exemplo. O cordelista escreve por amor a alguém, às vezes sobre algum fato importante, ou como a cachorra dele atravessou a rua pra roubar carne do outro lado… Existe uma descrição do dia-a-dia, mas o poeta não deixa, por isso, de ser um sonhador. O poeta gosta de inventar, incrementar.

Qual é o teu sentimento em relação à poesia?

Eu me divirto com a emoção que eu tenho da minha terra. Porque eu volto pra o interior e eu me sinto muito separado de lá. É como se eu não conseguisse entrar no interior, onde eu nasci, é como se eu tivesse superficial. E estar dentro da poesia, pra mim, é estar com o sangue, ainda, da minha terra. Eu sei da importância daquilo pra mim e também é uma forma de analisar os meus pensamentos… É uma alegria que eu tenho em poder repassar o sentimento que eu tenho tanto da cidade, de saudade, quanto do que a poesia regional me deu: De voltar pro interior em cada verso e também ter uma perspectiva melhor do mundo. Eu sou aquele rapaz do interior, ainda, olhando o mundo gigante e escrevendo o meu ponto de vista.

Dor(mente)

A dor que guardo na mente
Debruça-se sob meu peito
Com tanta força dum jeito
Que já ficou foi dormente
Mas meu medo, tão perene
Não é que venha formigar
Mas que de tanto esperar
Ele se acostume parado
E meu fim chegue calado
Antes mesmo d’eu te beijar

Leia mais: Pra se encantar

Pra se encantar

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Um dia desses, eu estava sentada pelos sofás da faculdade e comecei a conversar com uma menina, que estava se formando em cinema e contava sobre suas batalhas por patrocínio para os seus projetos. Um desses projetos é curta “Não tem só Mandacaru” que fala sobre a poesia nordestina de São José do Egito pelo olhar de vários poetas, em especial o grupo Em canto e poesia, que desde que ouvi pela primeira vez, me encantei de um jeito ímpar.

Os meninos do Em Canto e Poesia cantam e contam, em versos, o nordeste e os sentimentos dos que vivem por aqui. Fico super feliz todas as vezes em que ouço o trabalho deles porque são a nossa cultura viva e muito preservada – eles são jovens! Os três são netos de ninguém menos que Louro do Pajeú, um dos maiores repentistas da região.

Nos versos encontramos temas como a saudade, as belezas do sertão, as injustiças sociais, a infância… Tudo que causa nostalgia em quem passou, pelo menos uma semana no interior quando era criança. Vale a pena ouvir cada verso, ver cada expressão e perceber o amor que eles transmitem em cada palavra.

Confiram os vídeos de Tauna Uchôa, a menina que me apresentou ao Em canto e Poesia.

Neide Andrade

Carta para Cecília

Cecília Meireles

Oi, Cecília.

Dia sete de novembro tu completou 113 anos.

É meio difícil escrever pra alguém que a gente ama. Muitas palavras vêm à mente, muitas lembranças.

Difícil organizar tudo na cabeça. Difícil parar de lembrar e começar a escrever.

Tu sabe que eu não sou conhecedor da tua obra, só tenho um livro teu.

E ele tá velhinho, o bichinho.

Comprei num sebo por quinze reais, há um monte de tempo. Ele perdeu a capa, amarelou, amassou. As páginas tão todas cheias de orelhas e rabiscos. Difícil é achar alguma ainda intacta.

Foi menino ainda que comecei a aprender contigo sobre a vida, sobre como é perder.

Você sempre soube. Perdeu um pai, dois. Um marido, dois. A casa, a família, os amigos. Tudo ia escapando das tuas mãos. Até o que parecia mais concreto virava pó, virava areia. Foi você que me ensinou: nada dura pra sempre. “Sempre” é uma palavra muito grande pra os homens usarem.

Mas o que eu sinto por você é grande também, Cecília. Então deixa eu usar essa palavra?

Eu te amo pra sempre.

Chorei junto contigo e te abracei pra te confortar. Tu me deu a mão, me falou da vida, disse que tudo ia passar logo.

E passou.

Hoje não tenho mais aquele boneco de pelúcia, não sou mais criança. Mas ainda tenho você e tudo o que a gente compartilhou.

Obrigado por não ter morrido ainda. Obrigado por me entender, por continuar tão viva nas páginas do meu livro.

Obrigado por me amar também.


Disseste “Sempre!” e estavas longe, e eu te escutava com ternura: porque essa é uma grande palavra, para viver no tempo humano.

Eis o que somos: pobre coisa afogada neste mar da memória.

Ninguém me venha a dar vida, que estou morrendo de amor / que estou feliz de morrer, que não tenho mal nem dor. / Que estou de sonho ferida, que não me quero curar / que estou deixando de ser, e não me quero encontrar.

O amor sozinho vagava. Sem mais nada além de mim… numa eternidade inútil.

Vou por este caminho, certa de que tudo é vão. Que tudo é menos que o vento, menos que as folhas do chão.

Inclino-me docemente para impossíveis janelas. Não creio nos meus olhos. Não creio na paisagem. Não creio em nada do que se tem dito. Creio nos espaços em branco. Nas entrelinhas de profecia. Na humilde ignorância, exposta sem defesa entre o incansável tempo múltiplo e o tempo incansável e único.

Conheço a residência da dor. Às vezes sento-me à sua porta, na sombra das suas árvores. E ouço dizer: “Quem visse, como vês, a dor, já não sofria”. E olho para ela, imensamente. Conheço há muito tempo a dor. Conheço-a de perto. Pessoalmente.

Felizes os que podem mover facilmente os olhos, sem os ver transbordar. Eu, do coração para cima, sou toda lágrimas: qualquer movimento abala esta secreta arquitetura.

CANÇÃO DAS VÍTIMAS

Não se morre para sempre, meu amor.

Mata-me devagarinho:

há muitos tempos de dor.

Mata-me só por enquanto,

desta vez…

Vai-se aos poucos contemplando

o que no mundo se fez.

E quem sabe, se arrepende

tua mão

com mais punhais do que o espaço

que existe em meu coração?

Eric