Perfil

Perfil: Luís da Silva

10322_66cm_ 075

O nome dele é Luís. 35 anos.

É difícil precisar suas medidas. Provavelmente tem 1,70 e pesa 60 kg, talvez menos. Fala pouco e veste cinza. – É que ele tenta passar a vida despercebido.

Teve uma infância difícil no sertão. Árida de tudo.

Havia comida, mas não carinho. Pai e mãe estavam vivos, mas pareciam não estar.

Teve muita dificuldade na escola, demorou anos pra aprender o ABC. Apanhou e ouviu da mãe “burro, burro”” e “cabra cega!” Conseguiu forças nem sabe de onde pra estudar e acabou virando professor. Quem diria! Mas ganhava pouco e trabalhava demais.

Foi morar na cidade grande e virou funcionário público. Trabalhava escrevendo. Podia usar a máquina de escrever, as tintas caras e todos os papéis da repartição, só não podia usar criatividade: mandavam, ele escrevia. Pensativo, desabafa:

“Estava tão abandonado neste deserto… Só se dirigiam a mim para dar ordens: – Seu Luís, é bom modificar esta informação. Corrija isto, Seu Luís. Fora daí, o silêncio, a indiferença. Agradavam-me os passageiros que me pisavam os pés, nos bondes, e se voltavam atenciosos: – Perdão, perdão. Faz favor de desculpar. – Sem dúvida. Ora essa. Ou então: – Tem a bondade de me dizer onde fica a Rua do Apolo? – Perfeitamente, minha senhora. Vamos para lá. É o meu caminho.”

[página 24]

Esqueceu como criar, mas obedecer ele sabia. Obedecer e andar de cabeça baixa, desconfiado:

“Tenho a impressão de que estou cercado de inimigos, e como caminho devagar, noto que os outros têm demasiada pressa em pisar-me os pés e bater-me nos calcanhares. Quanto mais me vejo rodeado mais me isolo e entristeço. Quero recolher-me, afastar-me daqueles estranhos que não compreendo, ouvir o Currupaco, ler, escrever. A multidão é hostil e terrível.”

[página 123]

“Os olhos estão quase invisíveis por baixo da aba do chapéu, e uma folha da porta oculta-me o corpo. Uma criaturinha insignificante, um percevejo social, acanhado, encolhido para não ser empurrado pelos que entram e pelos que saem.”

[página 24]

Mora numa casa pequena, junto com a empregada Vitória e o louro Currupaco. O louro é dela e só fala com sua dona, já quase surda. Luís pode jurar que Vitória está lhe roubando umas moedas da carteira, mas é coisa pouca, e ela é tão besta e tão pobre. Os amigos dele dá pra contar em uma só mão: o pedinte / o revolucionário / o que ele odeia, mas frequenta a sua casa /  os ratos que roem seus livros de noite.

Luís não tem muitas ambições, nem vaidade e vive a esmo. Mas, um dia, avista Marina: cabelos vermelhos, olhos azuis, corpo de mulher.

Como lidar com esse querer repentino? Pra Luís: “o amor sempre foi uma coisa dolorosa, complicada, incompleta.”

Logo ele, que nunca quis nada, começa a sonhar, começa a querer.

Ele quer Marina. Quer ser considerado, ter o respeito que nunca teve:

“Se Doutor Gouveia, o Governador, o Secretário passarem por mim, não os verei: seguirei o meu caminho com dignidade curva, o espírito distante. Os conhecidos que me virem pensarão: -‘Luís da Silva é um sujeito que não tem subserviência nenhuma’. E os que me cumprimentarem e não obtiverem resposta dirão: -‘ Luís da Silva é uma besta, um imbecil, um cretino’. É bom não levantar a espinha. Se a levantasse, teria de baixá-la de novo a cada passo, aflito e apressado, o chapéu na mão. Assim não vejo ninguém, caminho batendo nos transeuntes, enrolando palavras de desculpa, entrando no futuro como um parafuso.

[página 114]

Luís nunca poderia imaginar que esse amor e essa vaidade o levariam a cometer um crime.

“Louco amor meu, que quando toca, fere e quando fere vibra. Mas prefere ferir a fenecer – e vive a esmo, fiel à sua lei de cada instante, desassombrado, doido, delirante. Numa paixão de tudo e de si mesmo.”

[Soneto do maior amor – Vinícius de Moraes]

Logo ele, que era tão certinho, que media 1,70 e vestia cinza. Logo ele.

Luís se arrepende e conclui:

sonhar não é pra todo mundo.


Luís da Silva

protagonista

romance: Angústia

autor: Graciliano Ramos

foto: Kubrick


Eric