Entrevista

Versos: O caminho de volta pra casa

jeff

Foto: Rafael Leite

Jefferson é uma figura um tanto rara no Recife. Ele é de Itapetim, Sertão do Pajeú, veio à capital pra fazer faculdade e depois que chegou aqui, aos 18 anos, passou a consumir e produzir com mais paixão e fidelidade alguns elementos da sua cultura local. Não teve sucesso nas faculdades do interior e resolveu chegar de mala e cuia no Recife porque tinha uma casa da sua família aqui. Gegê, como é conhecido no sertão, um apelido dado pelos seus familiares, escreve versos com rimas e métricas pra mostrar o cotidiano, o sentimento e o que queira expressar com um jeito de quem veio do Sertão do Pajeú. Sempre com um sorriso no rosto, Jefferson leva o sotaque, a simplicidade e a poesia da sua terra por onde anda.

Neide Andrade

Açude

Lembro-me daquele açude
Lá no sítio de tia Maria
Onde a água refletia
Meu rosto com plenitude
Lá estava a juventude
Que nunca mais revivi
Só me restou, por fim
A pior das crueldades
Me banhar com as saudades
Que a gente sente de si

Por que você começou a escrever poesia?

Eu já escrevia o que a gente pode tachar como poesia, mas não a poesia que eu escrevo hoje. Quando eu era mais novo, por volta de 10 anos eu já escrevia, mas não era com a estética desta cena poética… Eu venho do Pajeú, lá é muito forte a poesia metrificada, que é a ligada muito ao repente e cada verso tem a mesma quantidade de sílabas. Mas eu comecei a produção textual tendo concepção de que eu tava fazendo poesia quando eu cheguei aqui. Porque lá é tudo muito normal, as aulas de literatura são voltadas pra o regional também. Quando eu cheguei aqui, em 2012, eu tive que entender que eu deixei tudo que era meu lá, então eu costumo dizer que a gente é feito do que tá em volta da gente. E eu deixei pra trás o que podia ser definido como ‘eu’, como amigos, família… E aí veio a questão que, na minha opinião, é o ponto mais forte pra se fazer poesia: a saudade! A saudade foi a primeira a atiçar essa história de fazer poesia e eu comecei a consumir a cultura regional da minha terra depois que eu saí de lá por saudade mesmo. É o modo que eu encontrei de ficar ligado com a minha terra.

E nem parece que essa poesia metrificada ainda existe!

É. E tem a questão da sílaba poética, que é mais a sonoridade do que a sílaba gramatical. Por isso que se você for no Pajeú, você vai encontrar poetas que escrevem coisa de mais de cinquenta versos, todos metrificados, e são analfabetos. Então ele recita na hora, ele tem uma noção contextual, a narrativa deles é incrível. E isso é coisa que é muito forte, porque vem de muito tempo.

Sobre o que você procura falar nos seus versos?

Uma coisa marcante desta poesia regionalista não é você falar, propriamente, da caatinga… Eles só falam da caatinga porque eles moram na caatinga. Eu moro aqui na zona metropolitana do Recife então eu passo a escrever muito sobre aqui. Já falei até sobre a trajetória do ‘Rio Doce – Princesa Isabel’, é o meu dia-a-dia e aí eu terminei escrevendo sobre isso também.

Na cultura da sua infância tem mais coisas? Por que escolheu a poesia?

No Pajeú, o mais forte é mesmo a poesia. Lá você não começa na música pra ir pra poesia… Você começa na poesia pra ir pra música. Então a poesia está ligada na maioria dos gêneros lá e todo mundo tem isso muito forte eles cultivam isso ainda de uma maneira impressionante! Você olhando com uma visão da capital, talvez não tenha noção do que se passa por lá.

Como aprendeu a usar a métrica?

Nós somos apresentados à métrica de uma forma diferente, fora das aulas de literatura. Mas, por exemplo, se eu estou no Rio de Janeiro, não quer dizer que eu saiba sambar. É a mesma coisa. Você mora lá, a gente vê muita poesia, mas eu não consumia. Eu fiz parte de uma geração que cresceu preparada pra consumir o que é externo, e não o que é de casa, só consome pop americano mesmo. E quando cheguei aqui, senti falta e comecei a escrever, cometi alguns erros e quando fui pra lá de férias, conversei com um poeta, que me deu uns toques sobre métrica, dizendo o que era certo ou errado. E fui praticando.

Qual é o seu sonho?

Eu penso muito em, pelo menos, seguir uma carreira de produção textual. Não necessariamente pra poesia metrificada, mas eu quero isso também. O que muita gente não sabe é que essas pessoas do interior produzem muito texto, lançam muitos livros, que às vezes não chegam pra cá porque muitos são independentes. E eu tenho essa vontade de um dia poder seguir uma carreira nesse rumo não só pra poesia, mas de uma forma literária, no geral, com contos e romances que eu também escrevo…

Mas não publica, né?

Não publico porque falta essa questão de motivação. Como eu sou do Pajeú, fazendo poesia regional, eu sei que vou estar com público. Eu tenho uma fanpage, que tem pouco mais de 4.000 seguidores, e eu sei que eu to falando pra o público cuja maioria é pernambucano de interior. Então eu sei que se eu escrever uma poesia metrificada eles vão consumir aquilo. Pra ser um produtor textual independente aqui no Brasil é muito complicado, embora Pernambuco, ao meu ver, esteja um passo à frente. Mas mesmo assim é muito complicado… Falta apoio, realmente.

Você inventa história ou é tudo verdade nos versos?

Tem um poema de Manoel Barros que diz que noventa por cento do que ele fala é invenção, mas só dez por cento é mentira. Isso é a maior verdade pra um poeta. O poeta foi feito pra inventar e a invenção dele é a maior realidade pra ele. Então você cria um mundo que, por incrível que pareça, não é perfeito… O poeta gosta de sofrimento, gosta de inventar, não gosta de nada simples. A tristeza é quem faz o poeta. E a poesia regionalista é muito descritiva também. Temos a literatura de cordel, por exemplo. O cordelista escreve por amor a alguém, às vezes sobre algum fato importante, ou como a cachorra dele atravessou a rua pra roubar carne do outro lado… Existe uma descrição do dia-a-dia, mas o poeta não deixa, por isso, de ser um sonhador. O poeta gosta de inventar, incrementar.

Qual é o teu sentimento em relação à poesia?

Eu me divirto com a emoção que eu tenho da minha terra. Porque eu volto pra o interior e eu me sinto muito separado de lá. É como se eu não conseguisse entrar no interior, onde eu nasci, é como se eu tivesse superficial. E estar dentro da poesia, pra mim, é estar com o sangue, ainda, da minha terra. Eu sei da importância daquilo pra mim e também é uma forma de analisar os meus pensamentos… É uma alegria que eu tenho em poder repassar o sentimento que eu tenho tanto da cidade, de saudade, quanto do que a poesia regional me deu: De voltar pro interior em cada verso e também ter uma perspectiva melhor do mundo. Eu sou aquele rapaz do interior, ainda, olhando o mundo gigante e escrevendo o meu ponto de vista.

Dor(mente)

A dor que guardo na mente
Debruça-se sob meu peito
Com tanta força dum jeito
Que já ficou foi dormente
Mas meu medo, tão perene
Não é que venha formigar
Mas que de tanto esperar
Ele se acostume parado
E meu fim chegue calado
Antes mesmo d’eu te beijar

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