Jornalismo

Abrace alguém agora!

imageedit_3_4723661120Ando com uma vontade louca esses dias.

Sabe aquelas pessoas que vão pra um lugar movimentado no meio da cidade e penduram uma placa no pescoço? A frase varia: abraços grátis, free hugs, ganhe um abraço; a intenção é a mesma: pôr os braços ao redor do corpo de estranhos sem receber nada por isso. Certo, lindo. Mas a coisa toda me parece louca, por várias razões.

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6 músicas de verdade (ou Por que Amy Winehouse foi importante?)

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Hoje, 23 de julho de 2015, faz exatamente quatro anos que ela foi embora. Acabou a esperança de um cd novo – talvez tão bom quanto Back to Black – e, junto, acabou também a angústia de esperar os novos vexames que ela invariavelmente protagonizaria. Um documentário inglês lançado agora, no mês de aniversário da sua morte, promete trazer todas essas memórias de volta. A história de uma vida contada através de vídeos caseiros e depoimentos. Mata um pouco da saudade, mas não muda o fato: Amy Winehouse morreu. Vítima de causas indeterminadas, do álcool, de si mesma.
Certo, e o que te importa tudo isso?

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Versos: O caminho de volta pra casa

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Foto: Rafael Leite

Jefferson é uma figura um tanto rara no Recife. Ele é de Itapetim, Sertão do Pajeú, veio à capital pra fazer faculdade e depois que chegou aqui, aos 18 anos, passou a consumir e produzir com mais paixão e fidelidade alguns elementos da sua cultura local. Não teve sucesso nas faculdades do interior e resolveu chegar de mala e cuia no Recife porque tinha uma casa da sua família aqui. Gegê, como é conhecido no sertão, um apelido dado pelos seus familiares, escreve versos com rimas e métricas pra mostrar o cotidiano, o sentimento e o que queira expressar com um jeito de quem veio do Sertão do Pajeú. Sempre com um sorriso no rosto, Jefferson leva o sotaque, a simplicidade e a poesia da sua terra por onde anda.

Neide Andrade

Açude

Lembro-me daquele açude
Lá no sítio de tia Maria
Onde a água refletia
Meu rosto com plenitude
Lá estava a juventude
Que nunca mais revivi
Só me restou, por fim
A pior das crueldades
Me banhar com as saudades
Que a gente sente de si

Por que você começou a escrever poesia?

Eu já escrevia o que a gente pode tachar como poesia, mas não a poesia que eu escrevo hoje. Quando eu era mais novo, por volta de 10 anos eu já escrevia, mas não era com a estética desta cena poética… Eu venho do Pajeú, lá é muito forte a poesia metrificada, que é a ligada muito ao repente e cada verso tem a mesma quantidade de sílabas. Mas eu comecei a produção textual tendo concepção de que eu tava fazendo poesia quando eu cheguei aqui. Porque lá é tudo muito normal, as aulas de literatura são voltadas pra o regional também. Quando eu cheguei aqui, em 2012, eu tive que entender que eu deixei tudo que era meu lá, então eu costumo dizer que a gente é feito do que tá em volta da gente. E eu deixei pra trás o que podia ser definido como ‘eu’, como amigos, família… E aí veio a questão que, na minha opinião, é o ponto mais forte pra se fazer poesia: a saudade! A saudade foi a primeira a atiçar essa história de fazer poesia e eu comecei a consumir a cultura regional da minha terra depois que eu saí de lá por saudade mesmo. É o modo que eu encontrei de ficar ligado com a minha terra.

E nem parece que essa poesia metrificada ainda existe!

É. E tem a questão da sílaba poética, que é mais a sonoridade do que a sílaba gramatical. Por isso que se você for no Pajeú, você vai encontrar poetas que escrevem coisa de mais de cinquenta versos, todos metrificados, e são analfabetos. Então ele recita na hora, ele tem uma noção contextual, a narrativa deles é incrível. E isso é coisa que é muito forte, porque vem de muito tempo.

Sobre o que você procura falar nos seus versos?

Uma coisa marcante desta poesia regionalista não é você falar, propriamente, da caatinga… Eles só falam da caatinga porque eles moram na caatinga. Eu moro aqui na zona metropolitana do Recife então eu passo a escrever muito sobre aqui. Já falei até sobre a trajetória do ‘Rio Doce – Princesa Isabel’, é o meu dia-a-dia e aí eu terminei escrevendo sobre isso também.

Na cultura da sua infância tem mais coisas? Por que escolheu a poesia?

No Pajeú, o mais forte é mesmo a poesia. Lá você não começa na música pra ir pra poesia… Você começa na poesia pra ir pra música. Então a poesia está ligada na maioria dos gêneros lá e todo mundo tem isso muito forte eles cultivam isso ainda de uma maneira impressionante! Você olhando com uma visão da capital, talvez não tenha noção do que se passa por lá.

Como aprendeu a usar a métrica?

Nós somos apresentados à métrica de uma forma diferente, fora das aulas de literatura. Mas, por exemplo, se eu estou no Rio de Janeiro, não quer dizer que eu saiba sambar. É a mesma coisa. Você mora lá, a gente vê muita poesia, mas eu não consumia. Eu fiz parte de uma geração que cresceu preparada pra consumir o que é externo, e não o que é de casa, só consome pop americano mesmo. E quando cheguei aqui, senti falta e comecei a escrever, cometi alguns erros e quando fui pra lá de férias, conversei com um poeta, que me deu uns toques sobre métrica, dizendo o que era certo ou errado. E fui praticando.

Qual é o seu sonho?

Eu penso muito em, pelo menos, seguir uma carreira de produção textual. Não necessariamente pra poesia metrificada, mas eu quero isso também. O que muita gente não sabe é que essas pessoas do interior produzem muito texto, lançam muitos livros, que às vezes não chegam pra cá porque muitos são independentes. E eu tenho essa vontade de um dia poder seguir uma carreira nesse rumo não só pra poesia, mas de uma forma literária, no geral, com contos e romances que eu também escrevo…

Mas não publica, né?

Não publico porque falta essa questão de motivação. Como eu sou do Pajeú, fazendo poesia regional, eu sei que vou estar com público. Eu tenho uma fanpage, que tem pouco mais de 4.000 seguidores, e eu sei que eu to falando pra o público cuja maioria é pernambucano de interior. Então eu sei que se eu escrever uma poesia metrificada eles vão consumir aquilo. Pra ser um produtor textual independente aqui no Brasil é muito complicado, embora Pernambuco, ao meu ver, esteja um passo à frente. Mas mesmo assim é muito complicado… Falta apoio, realmente.

Você inventa história ou é tudo verdade nos versos?

Tem um poema de Manoel Barros que diz que noventa por cento do que ele fala é invenção, mas só dez por cento é mentira. Isso é a maior verdade pra um poeta. O poeta foi feito pra inventar e a invenção dele é a maior realidade pra ele. Então você cria um mundo que, por incrível que pareça, não é perfeito… O poeta gosta de sofrimento, gosta de inventar, não gosta de nada simples. A tristeza é quem faz o poeta. E a poesia regionalista é muito descritiva também. Temos a literatura de cordel, por exemplo. O cordelista escreve por amor a alguém, às vezes sobre algum fato importante, ou como a cachorra dele atravessou a rua pra roubar carne do outro lado… Existe uma descrição do dia-a-dia, mas o poeta não deixa, por isso, de ser um sonhador. O poeta gosta de inventar, incrementar.

Qual é o teu sentimento em relação à poesia?

Eu me divirto com a emoção que eu tenho da minha terra. Porque eu volto pra o interior e eu me sinto muito separado de lá. É como se eu não conseguisse entrar no interior, onde eu nasci, é como se eu tivesse superficial. E estar dentro da poesia, pra mim, é estar com o sangue, ainda, da minha terra. Eu sei da importância daquilo pra mim e também é uma forma de analisar os meus pensamentos… É uma alegria que eu tenho em poder repassar o sentimento que eu tenho tanto da cidade, de saudade, quanto do que a poesia regional me deu: De voltar pro interior em cada verso e também ter uma perspectiva melhor do mundo. Eu sou aquele rapaz do interior, ainda, olhando o mundo gigante e escrevendo o meu ponto de vista.

Dor(mente)

A dor que guardo na mente
Debruça-se sob meu peito
Com tanta força dum jeito
Que já ficou foi dormente
Mas meu medo, tão perene
Não é que venha formigar
Mas que de tanto esperar
Ele se acostume parado
E meu fim chegue calado
Antes mesmo d’eu te beijar

Leia mais: Pra se encantar

Maratona no Cinema da Fundação

Hoje à tarde o Cinema da Fundação, localizado no Derby (na rua do Colégio Militar), começou com uma maratona: 62 filmes serão exibidos até o dia 21 de dezembro. A oportunidade é ótima para quem ainda não conhece o espaço, que é lindo e muito aconchegante! Com preços bem aconchegantes também, garanto!

O pernambucano Tatuagem, com Irandhir Santos está na lista, assim como o polêmico Ninfomaníaca, indico os dois, e também Boyhood, já falamos dele por aqui. Confira a programação, veja o que lhe agrada e dê uma chance aos novos pontos de vista… Afinal, não há nada mais lindo que sair de casa para ir ao cinema, sem necessariamente ter que passar pelo shopping.

Bom filme!

Neide Andrade

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Fonte: Cinema da Fundação

Vida longa, Chespirito

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Percorreu gerações: Foi figurinha de álbum, capa de caderno, emoticon de MSN, meme no Instagram e rendeu milhares de retweets. Roberto Gómes Bolaños, foi o nosso Chapolin e o eterno Chaves. Sem sombra de dúvidas, um grande artista, que uniu pais, filhos e avós na sala de casa pra rir das suas piadas. Hoje, todos os periódicos contam o fim da história: E agora, quem irá nos defender?

asdApesar do momento triste, Bolaños ficou eternizado na televisão brasileira e até na internet, sempre com um sucesso incontestável. Por isso, neste sábado, a gente recomenda juntar a família pra curtir – de novo – as histórias do menino do barril e do Chapolin, que nunca perdem a graça e são aceitas pela maioria dos telespectadores. Aí embaixo, temos um episódio que é super curtinho e dá pra assistir em dois tempos.

Dono de muitos bordões, os personagens de Roberto Bolaños estão nas nossas conversas até hoje… Foi sem querer querendo! É você, Satanás? Meu coração por ti bate feito caroço de abacate! Não contavam com a minha astúcia! Então vamos usar este sábado pra curtir a saudade e relembrar as piadas.

Até mais!

Neide Andrade

Nossa Escolhas na Black Friday

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Pedimos permissão a vocês pra dar um pause no Especial Amor!

O motivo, nada mais justo: dinheiro. Ou melhor, poupar dinheiro! ♡ Nesses dias loucos de Black Friday, acha que é tudo balela, que não tem nada que valha a pena? Engano seu! A gente veio te falar rapidinho das nossas escolhas, dos preços mais legais.

Vem se desesperar junto com a gente!

1) Clássicos Caríssimos

Sabe aquele livro bom de verdade que você sempre quis ter na sua coleção, mas o dinheiro nunca deu? Esse é o momento!

– Os Miseráveis (Victor Hugo): Edição linda, em box rígido, dois volumes da editora mais cara e mais amada do Brasil: Cosac&Naify. Sério. Algum dia, dá uma olhada no catálogo e nas edições primorosas dessa editora, depois olha o preço… Tudo lindo, mas caríssimo. Repara: na black friday, tem um monte de livro com 50% de desconto! Os Miseráveis é um deles. clássico absoluto, de 119,00 por 59,50. Clica aqui pra ver.

–  Crime e Castigo / Irmãos Karamazov (do russo Dostoiévski): Quado as pessoas pensam em clássico, falam logo no nome desse homem. Mas as edições, apesar de lindas e bem cuidadas, costumam ser caras. A Martin Claret tá oferendo esses dois livros por 69,90 cada. Edição bonita, capa dura e tal. (Tenho algum receito com a Martin porque anos atrás comprei alguns livros dela e as traduções não eram tão boas, nem as edições bem cuidadas. Mas ela reformulou todo o projeto gráfico, reorganizou o catálogo e tudo, então vale à pena conferir numa livraria física se a qualidade da edição é compatível com o preço). Clica aquiaqui pra ver.

– Laranja Mecânica (Anthony Burgess): O livro que gerou o famoso filme de Kubrick. A Livraria Saraiva chegou a vender ontem a edição simples desse livro por 19,90. Isso é de graça, quase! Só que ela já esgotou… =/ Mas calma, a edição de luxo tá de 79,00 por 35,82 no boleto. Ela é a edição comemorativa dos 50 anos da obra, vem numa capa dura linda, todo ilustrado, com vários ensaios críticos e uma entrevista com o autor. Se nada disso te convenceu, tento isso: antes da black friday, a edição que estava por esse preço (R$ 35) era a comum, de brochura. CORRE! Clica aqui.

2) Filmes e séries

– O Poderoso Chefão: A trilogia, clássica, aclamadíssima, caríssima. Hoje estão, os três dvds, por 16,90. Clica aqui.

– Friends (a série): O motivo por eu ter feito esse post. As dez temporadas, num box, por R$ 99,90. Corre! Clica aqui. Edit: Acabou o estoque na Saraiva, gente! Mas aqui na Cultura tem de 299 por 199!

3) Escolha afetiva

– Toda a poesia de Cecília Meireles – Falei o quanto eu amo essa mulher nesse post. Se você quiser me dar esse box lindo, com tudo de poesia que ela já escreveu, aviso que caiu o preço de 214,90 pra 96,71. Clica aqui e me compra de natal! =]

4) Extras: baratíssimos

– Conhece alguém que gosta de Valter Hugo Mãe? Tem quatro livros dele por 99 reais aqui. Edições lindas da Cosac.

– Conhece algum psicólogo/a? Curte Freud (Fróid)? Dois livros dele por 40 só, cada um por vinte, aqui. Edições lindas da Cosac também.

Não, não ganhamos nada da Saraiva, Cultura ou Cosac pra fazer a propaganda. Mas fizemos porque vale a pena!

Aproveitem com responsabilidade!

E aliás, quem precisa do especial amor? Diamonds are forever ♡

Eric

Boyhood – da infância à juventude

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Depois de ter falado de infância aqui e aqui, o Escrevo A|penas vem fazer um convite e algumas perguntas:

Você lembra de quando era criança?
E como foi crescer, ver o rosto ficar mais adulto, a alma mais marcada?
Lembra da sensação?

O diretor Richard Linklater promete trazer esses sentimentos de volta pra gente.
Não conhece o cara? Eu também não o conhecia de nome, mas descobri que é dele a trilogia-amor que começa com o filme Antes do Amanhecer, de 1995. Saudades…

Em Boyhood : da Infância a Juventude, Richard traz de volta o mesmo ator principal de sua trilogia famosa – Ethan Hawke – mas com um projeto muito mais ambicioso: filmar a nossa vida. Nesse caso, o diretor levou doze anos pra concluir o trabalho. Com a mesma equipe. Com os mesmos atores.

Na tela, a gente vai ver o menininho da foto amadurecer, sair dos seis anos e chegar aos dezoito bem na nossa frente. O trailer (clica aqui) promete trazer todas as angústias dessa transição, as mudanças na família, o divórcio e todas aquelas emoções que fazem a nossa vida ter cor, ser vida de verdade. Sem clichê, sem forçar a barra, sem inventar demais. Só a realidade mais banal e o seu encanto.

O editor que vos fala tem uma coleção de livros com protagonistas infantis, é viciado em Anos Incríveis e acha Meu Primeiro Amor o melhor filme do mundo. Será que eu ia perder essa estreia?

De jeito nenhum!

Boyhood estreou em julho nos Estados Unidos, dia 30/10 no Brasil e só dia 13/11 em Recife (poxa, Recife!).

Depois de tudo isso, quero te fazer um convite: vamo assistir?

Tá em cartaz no Shopping Plaza, de Casa Forte. As sessões aqui.

Daqui a uns dias eu volto e a gente divide nossas impressões sobre o filme.


Enquanto esse dia não chega, vem relembrar comigo essa música linda, trilha sonora da novela Coração de Estudante:

Eric

Perfil: Luís da Silva

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O nome dele é Luís. 35 anos.

É difícil precisar suas medidas. Provavelmente tem 1,70 e pesa 60 kg, talvez menos. Fala pouco e veste cinza. – É que ele tenta passar a vida despercebido.

Teve uma infância difícil no sertão. Árida de tudo.

Havia comida, mas não carinho. Pai e mãe estavam vivos, mas pareciam não estar.

Teve muita dificuldade na escola, demorou anos pra aprender o ABC. Apanhou e ouviu da mãe “burro, burro”” e “cabra cega!” Conseguiu forças nem sabe de onde pra estudar e acabou virando professor. Quem diria! Mas ganhava pouco e trabalhava demais.

Foi morar na cidade grande e virou funcionário público. Trabalhava escrevendo. Podia usar a máquina de escrever, as tintas caras e todos os papéis da repartição, só não podia usar criatividade: mandavam, ele escrevia. Pensativo, desabafa:

“Estava tão abandonado neste deserto… Só se dirigiam a mim para dar ordens: – Seu Luís, é bom modificar esta informação. Corrija isto, Seu Luís. Fora daí, o silêncio, a indiferença. Agradavam-me os passageiros que me pisavam os pés, nos bondes, e se voltavam atenciosos: – Perdão, perdão. Faz favor de desculpar. – Sem dúvida. Ora essa. Ou então: – Tem a bondade de me dizer onde fica a Rua do Apolo? – Perfeitamente, minha senhora. Vamos para lá. É o meu caminho.”

[página 24]

Esqueceu como criar, mas obedecer ele sabia. Obedecer e andar de cabeça baixa, desconfiado:

“Tenho a impressão de que estou cercado de inimigos, e como caminho devagar, noto que os outros têm demasiada pressa em pisar-me os pés e bater-me nos calcanhares. Quanto mais me vejo rodeado mais me isolo e entristeço. Quero recolher-me, afastar-me daqueles estranhos que não compreendo, ouvir o Currupaco, ler, escrever. A multidão é hostil e terrível.”

[página 123]

“Os olhos estão quase invisíveis por baixo da aba do chapéu, e uma folha da porta oculta-me o corpo. Uma criaturinha insignificante, um percevejo social, acanhado, encolhido para não ser empurrado pelos que entram e pelos que saem.”

[página 24]

Mora numa casa pequena, junto com a empregada Vitória e o louro Currupaco. O louro é dela e só fala com sua dona, já quase surda. Luís pode jurar que Vitória está lhe roubando umas moedas da carteira, mas é coisa pouca, e ela é tão besta e tão pobre. Os amigos dele dá pra contar em uma só mão: o pedinte / o revolucionário / o que ele odeia, mas frequenta a sua casa /  os ratos que roem seus livros de noite.

Luís não tem muitas ambições, nem vaidade e vive a esmo. Mas, um dia, avista Marina: cabelos vermelhos, olhos azuis, corpo de mulher.

Como lidar com esse querer repentino? Pra Luís: “o amor sempre foi uma coisa dolorosa, complicada, incompleta.”

Logo ele, que nunca quis nada, começa a sonhar, começa a querer.

Ele quer Marina. Quer ser considerado, ter o respeito que nunca teve:

“Se Doutor Gouveia, o Governador, o Secretário passarem por mim, não os verei: seguirei o meu caminho com dignidade curva, o espírito distante. Os conhecidos que me virem pensarão: -‘Luís da Silva é um sujeito que não tem subserviência nenhuma’. E os que me cumprimentarem e não obtiverem resposta dirão: -‘ Luís da Silva é uma besta, um imbecil, um cretino’. É bom não levantar a espinha. Se a levantasse, teria de baixá-la de novo a cada passo, aflito e apressado, o chapéu na mão. Assim não vejo ninguém, caminho batendo nos transeuntes, enrolando palavras de desculpa, entrando no futuro como um parafuso.

[página 114]

Luís nunca poderia imaginar que esse amor e essa vaidade o levariam a cometer um crime.

“Louco amor meu, que quando toca, fere e quando fere vibra. Mas prefere ferir a fenecer – e vive a esmo, fiel à sua lei de cada instante, desassombrado, doido, delirante. Numa paixão de tudo e de si mesmo.”

[Soneto do maior amor – Vinícius de Moraes]

Logo ele, que era tão certinho, que media 1,70 e vestia cinza. Logo ele.

Luís se arrepende e conclui:

sonhar não é pra todo mundo.


Luís da Silva

protagonista

romance: Angústia

autor: Graciliano Ramos

foto: Kubrick


Eric