Divã

Confissão de Adultério

Em nome de um amor Casmurro

Eu volto a conjugar verbos, mas me enxergo cada vez mais desejando colocar o passado no futuro. Só pra ter de novo o prazer daquela gargalhada, de te ver lutando por mim e me chamando na janela. Mas por estar presa aos encantos e desencantos, que me faziam felizes de maneira independentes, coloco-me a disposição do destino, só que não consigo largar o volante… Apesar de passiva, tenho me comportado como um agente extremamente ativo em toda a situação que diz respeito a nós dois. Mas, no fim das contas, não sou eu que decido o nosso “sim” de cada dia.

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Temo e teAmo

Neide Andrade

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Eu sempre quis encontrar o meu olhar no seu e, de alguma maneira, fazer a minha história por ali mesmo. Eu sempre precisei ter o seu olhar em mim, cuidando, protegendo. Porque toda a minha marra, toda a minha aparência viril, ágil, esperta e sóbria vão abaixo quando o meu olhar encontra você. Qual seria o segredo dos seus olhos?

Quando te vejo fico frágil, tonto, lento e absolutamente embriagado com o cheiro e a paz que você traz ao ambiente. Apenas a ele. Porque em mim, tudo o que eu não sinto é paz ao seu lado. Eu nunca estou satisfeito e sempre quero mais, entretanto, estou condenado a uma prisão em qualquer lugar do mundo longe dos seus olhos castanhos penetrantes e oniscientes, que me rasgam e me penetram por inteiro.

Já tentei fugir, mas hoje fico. Já tentei me policiar, mas estou sempre hipnotizado com você. Já tentei me foçar a ser ativo, mas a passividade é o que me resta diante deste caso: Estou condenado, perpetuamente, ao seu serviço. Nunca me vi pronto para esse destino, mas aconteceu e é em você que deposito meus sonhos e pensamentos, meus devaneios.

Às vezes me ver condenado a você me faz feliz, me faz acreditar que tudo vai ser diferente um dia, eu nunca estarei sem nada, pelo fato de você ser tudo. Tudo de mais belo que possa existir. Entretanto, a possibilidade de enxergar os fatos nus e crus me desespera, faz com que eu queira me esconder, te ver só pela brechinha. Fingir que nem existo. Deixar uma flor na sua mesa, comprar um café na esquina, fazer a diferença na sua vida, mesmo que de maneira anônima.

A vida me condenou a você, mas a sentença não foi justa. Ela devia ter te condenado a mim também.

Do seu eterno, Benjamin.

Para sempre…

Neide Andrade

Era final de ano, fui correr, como de costume e, de repente, eu não sabia muito bem onde estava. Foi difícil pra mim aceitar a situação e as suas possibilidades. Eu precisava acreditar na minha desenvoltura e em tudo que conquistei na minha vida. Era tudo o que eu precisava trazer à memória: Meus artigos, minhas aulas, meu marido, meus filhos, minhas riquezas. Nos meus cinquenta anos vivi dias inesquecíveis… Que eu nem posso mais exemplificá-los. Digamos que foram importantes e muito especiais, nada para mim foi inesquecível. Deve ser maravilhosa a sensação de se casar… Dizer que “sim” no altar, escolher viver até a morte com a mesma pessoa.

Como será que nos conhecemos? Na casa de um amigo? Em uma semana santa? Ele é o homem que me dá o meu primeiro “bom dia” há anos, isso é o que importa! Onde começamos a namorar?  Em um parque, de um lado ou de outro do rio?! Dia 17, 21, 23, 25… Não me importa mais! Eu nunca mais terei o direito de lembrar disso. Mas eu imploro: Tirem-me todas as letras, as combinações dos signos, as vírgulas… Que eu me esqueça de tudo, menos do amor. Que eu seja incapaz de esquecer deste amor que me fez viver.

Às vezes me esqueço quem sou. Tenho dificuldade pra confiar plenamente no que me dizem. Mas essa é a minha única alternativa. Vejo as fotos antigas da família, os vídeos das crianças brincando na praia… Um dia, quando eu era segunda série, descobri na escola que as borboletas viviam uma vida curta, coisa de poucas semanas. Fiquei desesperada! Achei injusto algo tão majestoso como uma borboleta, que se esforçou tanto para ser quem é, morrer e ser esquecido assim, como em um piscar de olhos. Como eu, que tenho as minhas memórias esquecidas, que não sou mais ninguém. Que sempre ouço “Você foi uma grande mulher” porque não sou mais ninguém, vivo do que fui um dia e como sofro com isso! Mas sofro cada vez menos…  Meus sofrimentos também vão embora com as lembranças.

Então a minha mãe me deu um colar com um pingente de borboleta e disse que aquela ali poderia viver muito, porque se tornou eterna. Eu me vejo e espero ser eterna. Eu quero, todos os dias, que alguém use um livro meu em sala de aula, mesmo esquecendo o seu título. Eu preciso que olhem para mim como alguém que ainda existe, que ainda pode servir para alguma coisa. Mas não, eu não sirvo para dizer aos meus filhos que o amo, mal me lembro que tenho filhos, troco os nomes… Não sou mais capaz de fazer ninguém se sentir especial.

Nesta semana, uma moça chegou para cuidar de mim. Está no quarto da Lydia, minha filha caçula. Ela é tão amorosa, lê histórias pra mim, ele chega tarde, meu marido é médico e trabalha muito, não lembro bem onde é. Está cada vez mais frio aqui fora, temo não aguentar…

Alice

Norte da Itália, 1327

Não foi a primeira vez que fiz aquela viagem, então eu já estava calejado. Já conhecia o sistema, já sabia o objetivo deles. Entendia tudo aquilo e tinha, dentro de mim, uma raiva guardada, uma certa amargura em não poder fazer nada. E, dentro da minha sabedoria, que demorei a vida toda para adquirir, entendi que só deveria falar quando me fosse pedido e, ainda assim, deveria concordar com o que afirma a Igreja e a Santa Inquisição.

Uma vida inteira dedicada. Nenhuma mulher, nenhum amor, nada de filhos. Um companheiro: Adso, cujo pai me confiou a sua educação. O meu sonho é ver justiça. Me enoja a maneira como o clero é bom com os pobres, jogando restos de comida no chão para as pessoas, como se fossem porcos atrás daquela lavagem. Trocando uma galinha magra e doente pelas carícias de uma mulher no mesmo estado. Eu tenho que suportar, desde sempre, esta mania imunda de guardar e proibir qualquer pensamento diferente, qualquer confronto de opinião. Até quando seremos tão atrasados? Até quando o nome de Deus será colocado no meio disso? Até quando verei assassinos matando em nome de Deus? Até quando terei que ficar calado, com pensamentos marginalizados? Parece mais que a verdade insiste em não aparecer.

É difícil, para mim, ensinar a Adso toda essa cautela. A juventude dele parece gritar, espernear. Mesmo crescendo e amadurecendo, ele ainda é jovem. E a juventude grita mais alto que qualquer coisa quando se tem menos de trinta anos. Eu sabia que Adso poderia me dar problemas, mas confiava nos meus ensinamentos e confiava que ele seria fiel a mim. A minha confiança estava certa. Em meio aos perigos daquela viagem, em meio a todas as circunstâncias, aquele bambino nunca me abandonou e sofreu grandes riscos por minha causa, um verdadeiro filho que a vida me deu.

Quando chegamos ao mosteiro beneditino, no norte da Itália, estávamos em novembro de 1327. Os costumes daqueles monges eu já conhecia: Homossexualidade de um, passado herege do outro, promiscuidade de mais um, arrogância, intolerância, falta de piedade. Sei que, por ser um franciscano, não deveria me acostumar. Mas aquilo tudo, para mim, já era tão normal, que quando Adso se surpreendia, por exemplo, com a maneira como eles tratavam os pobres, eu já explicava pra ele com a maior naturalidade do mundo. Eu conhecia aquela realidade há muito tempo, não tinha como negar.

No entanto, o que mexia comigo, de verdade, era a maneira dominadora como o clero manuseava um tesouro incalculável que faziam questão de esconder, por saber a liberdade que traria para a humanidade. Livros de grandes filósofos, como Aristóteles, estavam escondidos naquele local. Aquele mosteiro era famoso por abrigar uma das maiores bibliotecas de toda a cristandade e, confesso, a esperança de poder ler cada um daqueles pergaminhos me levou até ali.

Aquele conteúdo não poderia passar despercebido pelas gerações, precisava ser conhecido! Pessoas morreram e mataram por ele. Eu precisei lutar por aquelas informações, precisei me arriscar por elas… Eu tinha direito àquele conhecimento, a humanidade tinha! E fiz o que meu coração mandou. Meu comportamento foi de um maluco com vinte anos, mas consegui uma parte daqueles escritos.

Espero que, um dia, você também possa fazer essa viagem. Desvendar as mortes e os seus verdadeiros motivos. Exorcizar o demônio que, provavelmente, ainda existe na mente de muitos monges que estão ali. Fui louco, mas valeu a pena cada uma das minhas loucuras. A minha vida teria valido a pena, se fosse preciso!

William de Baskerville

Leia mais: O nome da Rosa

Divã

Este é um texto de Neide Andrade baseado na história de Michael Berg, personagem do filme O Leitorcom spoiler até dizer basta! :]

Sem título

Eu tinha 15 anos, estava voltando da escola pra casa e passei mal. Então uma mulher me ajudou. Era inverno de 1958. Ela me socorreu no meio da rua e me levou em casa. Os meus pais estavam preocupados demais, então chamaram o médico – mesmo sem a minha permissão. A doença era contagiosa, precisei ficar três meses de cama.

Quando melhorei, levei flores à casa daquela mulher que me ajudara. E agradeci. Ela perguntou pela minha escola, respondi que tinha ficado três meses parado. Fui me despedindo quando ela disse: “Me espere no corredor enquanto me troco, vou com você até a esquina”. A porta ficou entreaberta, eu não quis evitar e, pela primeira vez, vi o corpo de uma mulher. Um corpo pálido, simétrico e, aparentemente, frágil, cachos amarelos que faziam um conjunto singular e inesquecível. Ela viu. E quando o azul daqueles olhos me fitou com um ar de reprovação eu corri, corri o mais rápido que pude. Meu coração disparou de uma maneira diferente, o meu sangue estava fervendo. Eu não sabia explicar o que estava sentindo.

Até que voltei.

Voltei o mais rápido que pude. O mais rápido que consegui. Tentei esperar a calma nas minhas pernas, mas elas continuaram se batendo. Voltei em busca de algo que eu não sabia o que era, mas o meu instinto me mandava lá, eu precisava. Esperei que ela voltasse do trabalho e ela chegou carregando dois baldes de metralhas, mandou que eu pegasse mais dois no térreo e assim o fiz. Quando voltei, estava todo sujo, nunca havia feito nenhum trabalho parecido. Ela me ofereceu um banho e me espiou, assim como eu tinha feito antes. Confesso que me senti incomodado, mas gostei de acreditar na curiosidade dela quanto a mim. Massageou o meu ego saber que uma mulher mais velha tinha interesse, nem que fosse por trás da cortina. Quando terminei, ela pôs a toalha ao meu redor e pude perceber aquela pele em mim, como nunca sentira antes. Ela percebeu o meu assombramento e me tranquilizou: “Não foi pra isso que você veio?” Eu não tive como negar. E, pela primeira vez, conheci uma mulher. Uma mulher de verdade. Foi prazeroso, foi único e inesquecível.

Quando cansamos, ela veio de novo perguntar sobre a minha escola. Falei latim, grego e li em alemão pra ela. Como ela adorava me ver lendo! Eu era o leitor daquela dama, ainda anônima, que me ensinava tudo da vida, mas não se fazia conhecida por mim. Eu só sabia que ela era mais velha e trabalhava recolhendo os bilhetes no bonde. Então resolvi perguntar o seu nome… Para minha surpresa, ela estranhou a minha pergunta “Eu já vim aqui na sua casa três vezes, por que não posso saber o seu nome?” Hanna. Hanna era o seu nome. “E o seu?” “Michael”, respondi.

Eu e Hanna vivemos um relacionamento de apenas um verão, porém intenso, muito intenso. Eu a visitava todos os dias quando saía da escola, ela já me esperava, nós viajamos, conversamos. Nossos sentimentos eram urgentes, então quando eu chegava, já começávamos a tirar a roupa enquanto eu contava do meu dia. Eu precisava dela, do corpo dela. Ela era a minha válvula de escape, o meu porto seguro. Ela era quem me ensinava tudo. Ela era quem dizia para mim que eu era bom de leitura.

Foi na leitura que eu encontrei algo de bom pra fazer. Porque antes, eu tinha certeza: Não era bom em nada.

Odisséia. A dama do cachorrinho. Romances. Tragédias. Comédias… Eu li de tudo pra ela. Eu a amei. Eu não sabia mais como viver sem ela e a minha vida foi completamente transformada depois que ela chegou. Eu só era feliz ao lado dela. Mas eu novamente me preocupava: Ela nunca me contava nada sobre a vida dela. Porém não vou negar que aquele mistério me atraía ainda mais.

Foi quando, um dia, cheguei ao seu apartamento, ela não estava lá. Procurei suas roupas, comida… Nada estava lá. Hanna havia sumido. E nunca mais a vi. Sempre sinto saudades de trocar todas as sensações com ela. Ela, comigo, experimentava os sentimentos de todas as histórias do mundo. E eu, com ela, experimentava o sentimento que nenhuma história me traria.

Hanna sumiu.

Sumiu e o vazio preencheu a minha vida. A minha família e os meus amigos, por mais que me amassem, não eram o abrigo do busto dela. Gostava quando ela me tratava apenas como um menino, mas não um menino qualquer. Eu gostava de acreditar que fazia diferença na vida dela… Mas ela simplesmente sumiu e levou consigo todo o que construímos naquele verão.

Eu continuei. Terminei a escola, ingressei na Faculdade de Direito, me casei, tive uma filha e, agora, estou me divorciando. Nunca mais amei ninguém. Nunca mais fui capaz de dizer palavras doces a uma mulher. No início da Faculdade, um professor muito querido nos levou para acompanhar um julgamento.

E naquele tribunal eu percebi: Hanna estava em apuros. Todo sentimento que eu tinha negado durante anos, mascarado com a raiva que sentia por ela ter ido embora, subiu até as maçãs do meu rosto e aos meus olhos. Que desespero o meu de não poder fazer nada por ela. Hanna estava no banco dos réus. Ela havia sido contratada para ser guarda em um campo de concentração e respondera pela morte de muitas judias. Eu era só um calouro. Não podia fazer nada por ela. Eu – mais uma vez – impotente diante da grandiosidade da minha Hanna.

“Cada guarda escolhia um certo número de mulheres… Hanna Shmit escolhia de maneira diferente. Tinham as suas preferidas, garotas – geralmente jovens – todas nós comentávamos, ela dava comida a elas e lugar pra dormir. De noite ela pedia que ficassem com ela e todas nós pensávamos que… bem, pode imaginar o que pensávamos. Depois descobrimos que as obrigava a lerem em voz alta para ela. Elas liam pra ela. No começo pensávamos que essa guarda era mais sensível, mais humana, mais bondosa. Ela sempre escolhia as fracas, as doentes, ela as escolhia… Parecia até que as protegia. Mas depois ela as despachava. Isso é bondade?”, disse uma das vítimas depoentes.

Me senti um frágil. Uma marionete nas mãos dela. Era sempre tudo do jeito dela. Fazíamos amor quando ela queria. Líamos livros quando ela queria. Saíamos quando ela queria.

Houve um episódio em que várias judias ficaram trancadas em uma igreja para dormir e as guardas em uma casa próxima. A igreja foi bombardeada e pegou fogo, mas as judias morreram queimadas porque a igreja estava trancada por fora. Todas as acusadas apontaram Hanna como a comandante no dia, não confirmaram que fosse uma ação em conjunto, mas que ela havia decidido que as judias deveriam ficar presas, mesmo que fossem queimadas vivas.

Existia um relatório assinado por todas as acusadas. Teoricamente, que escreveu o relatório estaria no comando. O juiz pediu uma amostra da letra de Hanna.

Então me lembrei.

Lembrei que ela nunca havia lido pra mim. Nunca havia pedido uma comida pelo cardápio. Nunca mostrara interesse por leitura, apenas por histórias… Hanna não sabia ler. Ela não tinha como estar no comando, porque não sabia escrever o relatório. Ela era apenas mais uma subordinada.

Eu precisava gritar e dizer a verdade. Mas ela confessou. Confessou que estava no comando. Foi condenada a prisão perpétua. Ela tinha vergonha de não saber ler.

Hoje, acabo de sair da penitenciária. A assistente social me ligou, porque eu era a única pessoa que mantinha contato com Hanna, pois ela não tinha família nem amigos. Eu gravava fitas pra ela lendo as histórias. Há uma semana a visitei… O mesmo corpo pálido, agora com rugas, o amarelado do cabelo ficou tão branco! O azul dos olhos cada vez mais vivo. A minha Hanna agora ainda me desperta muito amor, mas um amor acompanhado de compaixão, não mais de desejo. A vida nos afastou e eu não sei explicar muito bem isso, nem gosto de tentar entender, é o que sinto.

Hoje seria o dia da sua libertação, eu consegui um emprego pra ela, consegui um lugar pra ela morar. Mas ela me deixou, novamente. Hanna não arrumou as suas coisas. Ela nunca quis sair dali. E, hoje, conto essa história na frente do seu epitáfio. Esperando que seja um começo de uma nova fase. Esperando que eu consiga falar os meus sentimentos. Esperando que consiga sentir de novo, esperando, esperando… Esperando, talvez, ela, que nunca mais vai voltar. Ela não precisava de mais nada de mim. Nos últimos anos de vida, aprendeu a ler e a escrever. Pra ela, eu sou apenas um menino de quinze anos que é bom de leitura. E de que adianta ser bom de leitura para alguém que sabe ler?

Michael Berg

Alemanha, 1995

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