Nacional

Recife de Mentira: O universo de Praça Walt Disney

Praça Walt Disney (2011), é um curta-metragem, dirigido por Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, que traz de maneira clara através de música e imagens uma crítica ferrenha ao rumo que a cidade do Recife tem tomado em relação a qualidade de vida dos seus moradores, às paisagens e ao relacionamento do recifense com o local.

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(Indesejada) Permanência

Romper um tanto a rotina, os paradigmas esperados e até mesmo com os finais felizes pode fazer bem, pode fazer com que o espectador se enxergue, talvez, em uma fotografia de um filme ofertado durante uma triste, necessária e esperada despedida. Permanência é um filme pernambucano de Leonardo Lacca e trata aspectos da vida, do cotidiano e quão benéficas ou maléficas podem ser as nossas escolhas.

Ivo (Irandhir Santos) é um fotógrafo recifense, que encontra em São Paulo uma galeria para fazer a sua primeira exposição. A película é calma e, por vezes, monótona propositalmente para mostrar aspectos de uma vida infeliz, sem uma paixão explícita em fazer cada coisa. Chegando em São Paulo, Ivo se hospeda na casa de Rita (Rita Carelli), que foi sua namorada. Agora, Rita está casada e Ivo deixou uma namorada no Recife. Entretanto, como se comportar diante do cheiro e da conversa de uma mulher, características que nunca mudam?

Regados a xícaras e mais xícaras de café, o casal do passado bebe e se aprisiona ao próprio silêncio: Sem mais conversas, completamente sem assuntos, uma vida pautada por reticências e por um líquido amargo que se tornou a falta do que foi perdido. Paralelo a isso, Ivo com a sua parceira, no presente, vivem uma relação vazia, de pouca expressão no filme, assim como na rotina.

O filme vale como um exercício para observar a vida. Conseguir se ver, como em um quadro. Se cada momento fosse uma fotografia, qual seria a expressão em cada um deles? O que faz bem? O que sufoca? O que prende? Se alguém que te conhece como ninguém te observar hoje, vai encontrar a tão sonhada felicidade?

Isso é conversa demais. Um café, por favor!

Neide Andrade

A glória de chorar

Olinda, 15 de outubro de 2010.

Já estava tudo certo. Roupa separada, sapato também. Cheguei, entrei na fila. Os amigos já marcavam o lugar. Na frente. Mas que demora, quanta espera. Me compre uma água. Não aguento mais. Será que ninguém tinha reparado no meu tênis novo? Mas não importa, de fato não importa. Importava a vontade imensa que eu estava de ir embora porque as portas simplesmente não abriam.

Todos de pé. Abriram os portões. Todos correram ao entrar pra ficar o mais perto possível. Nossa, como eu estava a fim de ficar lá na frente, bem na frente. Gozando de toda a falta de ar e cheirando todos os sovacos que eu pudesse contar. Sempre sonhei com isso! Enquanto a banda não chega, bota o DJ, cujo nome eu não me lembraria nem quando ele saiu do palco. Até um raio de dois metros de mim, todos se divertiram com o som e faziam uma dança ora se abanando, ora chamando o rapaz que vendia água, dispostos a pagar quanto fosse.

Abre parênteses

Esse rapaz da água, que tanto falavam desde o início do show, para mim, já era alguma miragem de quem estava mais pra lá do que pra cá, sob efeito de algum vento diferente do normal. E ainda diziam que ele cobrava cinco – cinco – reais.

Fecha parênteses

Um telão avisava: Eles estão chegando!

A sensação de tê-los tão perto renovava o fôlego dos amigos lunáticos que resolveram trocar o ar e o sossego pela possibilidade de vê-los de perto. Um letreiro no telão conduzia todo o público imenso, cantando Olha lá quem vem do lado oposto / Vem sem gosto de viver / Olha lá que os fracos/ São escravos sãos e salvos de sofrer / Olha lá quem acha que perder / É ser menor na vida / Olha lá quem sempre quer vitória / E perde a glória de chorar.

Como um coração adolescente pode resistir aos Hermanos? Depois de cantar O Vencedor diversas vezes, a banda entra e cumprimenta o público com a simplicidade de quem ainda está tirando um som na própria faculdade.

Então eu pude entender o motivo de tanto sucesso. Pude entender porque tomei fôlego com a chegada deles. E entendi também o motivo de eu estar ali. Eles falavam de mim. Falavam de cada um ali presente. Falavam de amor, saudade, planos, vitórias, derrotas, passado e luta. Quem não passa por tudo isso? E quem não quer gritar junto? Quem não quer extravasar todas as mazelas que rodeiam a nossa existência?

Sendo assim, que comece a festa!

Neide Andrade

Capitu em 5 atos

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Apresento-lhes a obra de Machado de Assis contada através de um mundo lúdico, porém realista. Como em primeira pessoa, a adaptação obedece igualitariamente as páginas do livro de Assis. De início é possível perceber uma mistura de épocas, confundindo prazerosamente os séculos e nos exibindo de imediato quem iria narrar a história que ali se iniciara.

Bentinho ou, se preferir, Dom casmurro nos leva à particularidade de sua vida e com uma linguagem irônica, rebuscada e debocha do passado e da sua atual existência, que logo nos faz premeditar seu fim trágico e melancólico  diante uma  maquiagem suja e preta escancarada no seu rosto.

O autor assiste à sua obra assim como nós, e atrás de cortinas teatrais está sempre a espera de alguma resposta ou do próximo capítulo. Não menos merecida do que a obra escrita no livro, esta, oferece-nos bem mais que palavras: cinema, teatro e ópera aos olhos nus.

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A história é contada em 5 atos com tempos preenchidos e vividos simetricamente, sem direito a buracos vazios. A narração é interrompida, às vezes, para ser contada por danças mudas, o que nos faz apreciá-la com uma visão ainda mais fantasiosa. Mas a realidade com o mundo moderno aparece para chocar o telespectador. Nós, e o que talvez seria o certo para nos confundir ainda mais, serve também  para encontrarmos as respostas ainda menos.

O conto já seria por si só, algo bom de ser assistido, mas foi na música escolhida para protagonizar a história que lhe deu uma vida mais eterna aos nossos olhos e as canções mescladas por estilos fez do destino da obra um favor aos nossos ouvidos.

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Capitu foi a coadjuvante do seu título dando chance à Dom Casmurro acreditar que seria o dono da sua história. E como as palavras não terminam, não seria aqui que as cortinas iriam se fechar, dando a Bentinho, ao menos agora, o direito à última frase por ora: “O destino não é só dramaturgo, é também o seu próprio contra-regra, isto é, designa a entrada dos seus próprios personagens em cena”.

Renata Cavalcanti

Clandestina Felicidade

“Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim.”

Clandestina felicidade é um curta inspirado em um conto de Clarice Lispector, Felicidade Clandestina. Traz também traços de outras obras da autora, como o nome Macabéia, protagonista de A hora da estrela.

Gravado em 1998, dirigido por Beto Normal e Marcelo Gomes, a história é gravada em preto e branco e retrata a relação de Clarice com a leitura e com o Recife, através de passagens autobiográficas.

Para qualquer Recifense o curta é emocionante, porque mostra vários cartões postais daqui no preto e branco, que é muito bem utilizado. Ver o Recife e suas pontes retratados com tanta beleza é maravilhoso! A história gira em torno de três elementos: Um livro, uma menina mimada e uma menina pobre que quer ler o livro da menina mimada.

Como tantas outras estórias que lemos na nossa infância, esta é mais uma de criança egoísta que não quer emprestar os seus brinquedos. Neste caso, um livro! E Macabéia, personagem principal, é pobre, não tem dinheiro pra comprar. Durante os 15 minutos do filme, Macabéia desenvolve o sonho de ler o livro Reinações de Narizinho, mas a dona, cujo pai tem uma livraria, é incapaz de emprestar e fica inventando desculpas o tempo inteiro.

Quando, finalmente, Macabéia consegue o livro, Lispector, no conto, e os diretores, no filme, deixam claro o sentimento de brincar com a felicidade. Fingir que ela não chegou, fazer de conta que o livro está lá, de surpresa de novo, pra ter a mesma sensação novamente, se alegrando constantemente com a realização de um sonho.

E nós podemos brincar um pouco com ela também. Quem sabe este carnaval não é o seu livro? São só quatro dias, mas a gente pode muito bem fazer de conta que não começou ainda, que sempre teremos mais quatro dias… Seja pra cair na folia, seja pra descansar, seja pra matar a saudade… Quatro dias pra se fazer o que quiser. Quatro dias de uma felicidade, um tanto clandestina, mas o que importa? O que vale é ser feliz!

Não deixe de assistir o curta, são só 15 minutinhos ;)

Neide Andrade

Um ciclo vicioso

Destino de hoje: Cidade de Deus, 2002

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A viagem de hoje não é das mais alegres, mas é muito boa. Não vai fazer você morrer de assassinado mas, provavelmente, vai doer.

Se me perguntarem sobre a trilha sonora do filme eu digo que, entre tantos outros sons, predominam os tiros. Os tiros são mais altos que as vozes, que os gritos de socorro, mais altos que os escrúpulos das autoridades, mais altos, muito mais altos… Como crianças mal-educadas que quando crescem ninguém mais segura… Este é o som de lá: Um lugar com todo tipo de gente, como qualquer outro. No entanto, gente esquecida e marginalizada. Gente que não teve direito a uma boa escola, como tantas outras gentes. Gente que não teve direito a ir com a certeza de voltar, como tantas outras gentes. Gente que foi jogada na Cidade de Deus.

Cidade de Deus pode ser considerado um dos melhores filmes brasileiros. Tem 12 anos, mas ainda é muito atual. Traz a história do local falando sobre os moradores, as suas origens, o que costumam fazer e o seu caráter. Com discussões válidas na nossa sociedade, abre os olhos e amplia os horizontes para tantas questões que, diversas vezes, passam sem perceber, ou simplesmente não damos a real importância, acreditando que existe uma verdade absoluta. E eu gosto da maneira como essas questões são levantadas, porque mais parecem que não se quer discutir, apenas mostrar que existem. Diferente, por exemplo, da corrupção mostrada em Tropa de Elite, Cidade de Deus pontua este fator, deixando claro que não é o único e sim mais um. É uma maneira de mostrar que existe lei na favela, existe corrupção, omissão e dois tipos de bandidos: os que estão naquela vida por crueldade e os que estão ali porque não tiveram escolha. Existem crianças metidas no tráfico porque são obrigadas, mas também tem criança metida no tráfico porque quer… Como resolver de maneira tão fácil a questão da maioridade penal, neste sentido?

“Eu fumo, eu cheiro, já matei e já roubei. Sou Sujeito homem.”

A frase acima é dita por um personagem que deve ter menos de dez anos de idade. E, como este, vários atores mirins são encontrados no filme segurando armas e fazendo absurdos… Mesmo sabendo que é ficção, este aspecto é um pouco desesperador… Quantas crianças anônimas estão metidas no tráfico de drogas todos os dias? Não sabemos e, muitas vezes, não queremos responder.

Eu gosto do narrador do filme, o personagem Buscapé (Alexandre Rodrigues) porque ele tem um olhar de quem sonha e luta pra escapar da favela e de tudo de ruim que ela traz. E acho interessante a maneira que eles expressam este sonho. O menino tem a cultura da favela, é malandro, esperto, mas também tenta sair dali e não se meter no crime. A principal mensagem do filme é dita na última cena, quando uma terceira geração passa a comandar a cidade de Deus: O ciclo continua.

Vale lembrar que Fernando Meirelles é um verdadeiro artista. Além dirigir Cidade de Deus, dirigiu também alguns episódios de Castelo Rá-tim-bum e a série de TV Cidade dos Homens, e, ainda, Ensaio sobre a cegueira. Foi produtor em O ano em que meus pais saíram de férias Antônia. E eu, enquanto não resenho, indico todos esses filmes porque são bons, de verdade!

Neide Andrade

O Palhaço: A realidade da fantasia

“O gato bebe leite, o rato come queijo e eu sou palhaço.”

Frase do Palhaço Pangaré dita ao pai, Palhaço Puro Sangue, ao descobrir que, nessa vida, devemos fazer o que sabemos.

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Lançado no segundo semestre de 2011, a comédia dramática O Palhaço é uma direção de Selton Mello. Grande parte do público (como eu) foi às salas de cinema esperando algo extremamente risível, pelo fato de ter como diretor e ator principal o mesmo Selton Mello, que é também Chicó (Auto da Compadecida) e Leléu (Lisbela e o prisioneiro). Entretanto, por ser um profissional fantástico, o nosso Palhaço soube conduzir a situação proposta e mostrar, criticamente, onde vivem os artistas circenses brasileiros: Na periferia, mendigando os risos que distribuem, mas, ainda assim, o que fazem é feito com paixão. A arte e a alegria do circo estão presentes mesmo quando o artista não é reconhecido. Se formos ousados, podemos levar essa crítica a todo âmbito artístico brasileiro.

Será que existe algo, em artes cênicas, que Selton Mello seja ruim? Pensei durante as minhas interpretações precoces. Mas ri de mim no mesmo momento e admiti: Ele é um artista fantástico demais pra não saber dirigir um filme, se eu não gostei, é porque eu que sou ruim e não sei interpretar. É óbvio que, em algum lugar, o filme será bom. E a minha autoanálise estava correta.

O longa conta a história de Benjamin (Selton Mello), que é transformado em Palhaço Pangaré para se apresentar junto com o pai e dono do circo, Valdemar (Paulo José), que se apresenta como Palhaço Puro Sangue. Benjamin começa a trama cansado da correria do circo, sobrecarregado pelas responsabilidades além do palco. Com um comentário de Lola (Giselle Mota) – esposa de Valdemar e também artista circense – “Que calor, você devia ter um ventilador” Benjamin passa a sonhar com esse ventilador.

O protagonista se vê infeliz no universo alegre do circo e tudo que deseja conseguir é um ventilador, que se apresenta como um símbolo de dignidade, e um sutiã grande para Dona Zaira (Teuda Bara), porque o único que tinha havia rasgado. Com inúmeros simbolismos como colocar e tirar o nariz de palhaço e o riso do público contrastando com o seu semblante infeliz, o filme se apresenta como comédia e drama intimamente misturados a ponto de fazer o público se embriagar no riso de uma cena e se comover no drama da próxima. Emoções antagônicas como alegria e tristeza não são apenas mostradas, mas também experimentadas pelo espectador. É arte de primeira qualidade, que me faz acreditar no cinema brasileiro.

Neide Andrade

Impressões na telona… Vidas secas

imagem para o post vidas secas - filme

Se existe uma obra encantadora na literatura brasileira, esta obra é Vidas Secas. Por isso estou aqui de novo para falar sobre o assunto. Transferir Graciliano para as telonas foi um trabalho maravilhoso, feito no ano de 1963 sob a direção de Nelson Pereira dos Santos.

Não considero um filme fácil de assistir, ao mesmo tempo em que o livro também não é fácil. A compreensão é maravilhosa, a prolixidade é zero, mas ver a realidade daquela maneira é triste demais… Ver, como é bom! Como foi boa a experiência de ter Vidas Secas projetada na minha frente. Como sempre digo: O cinema, pra mim, tem o poder de transformar tudo em realidade. E, de fato, eu acredito que os personagens e suas histórias foram reais, nem que sejam somente durante aqueles 100 minutos em preto e branco que passaram por mim.

Matar o papagaio pra poder comer. Matar a cadela pra sobreviver. Sonhar a todo custo com uma cama. Que vida miserável, que não dava às crianças o direito à infância, à inocência e ao principal, seja ele qual fosse. A película foi bem fiel ao livro, mas em caso de diferença, não a condenaria. A gente aprende, com o tempo, que são obras diferentes e que todos os artistas têm o direito de se expressar e fazer qualquer coisa com a sua obra.

Recomento muito o filme, que não substitui o livro, de maneira nenhuma. Mas acrescenta um valor inexplicável, faz a gente crescer como pessoa e entender o quanto somos afortunados.

Tem aí uma palhinha

Neide Andrade

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