Cinema

A Bela e a Fera – O preço da rosa

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Ver os personagens, antes animados, agora de carne e osso dá ideia de realidade, de contemporaneidade, nostalgia, de acreditar que o sonho da Disney é possível. A Bela e a Fera (2017) trouxe isso ao público, com riqueza de efeitos especiais, uma versão em 3D diferenciada, reunindo todas as idades em uma sala de cinema com um único propósito: contemplar uma história de amor. Marcado por polêmicas, boicotes, o filme foi vendido como algo revolucionário, diferenciado, empoderador, mas será?

A personagem de Bela (Emma Watson) é tida como avançada para a sua época. Leitora, resiste aos estereótipos do seu tempo através da leitura, improviso de uma máquina de lavar para poder fazer o que, de fato, a interessa. Não se dobra ao charme do Gaston (Luke Evans), homem que enxerga o casamento como o único meio de ascensão social para uma mulher. Desimpedida, Bela fica sozinha em casa enquanto o seu pai, Maurice (Kevin Kline), vai viajar, e pede apenas uma rosa como lembrança da viagem. No percurso, uma tempestade faz o pai errar o caminho em uma floresta cheia de lobos. Para se salvar, o velhinho se abriga no castelo da Fera (Dan Stevens), um príncipe amaldiçoado para viver viver no corpo de um animal para sempre se não aprender a amar e ser amado até a última pétala de uma rosa encantada cair.

Ao sair do castelo, Maurice observa rosas amarelas no jardim e lembra do pedido de Bela. Volta para pegar, quando a Fera o prende por roubo. Ao saber disso, Bela vai ao encontro do seu pai e toma o lugar dele, vira uma prisioneira. O tempo passa e, a partir daí, acontece o romance da Bela e a Fera. Se conhecem, se apaixonam, até que a moça recebe a informação de que o seu pai está em perigo. A fera diz “vá ao encontro dele!” A moça salva o pai, volta para o castelo, a maldição se quebra e a Fera torna a ser um príncipe.

A Bela e a Fera (2017) não traz nenhuma novidade, nada a mais em relação a empoderamento feminino, ou de LGBTs, pelo contrário, a tentativa de avanço mais pareceu um retrocesso, afirmando estereótipos e submissão dos elementos femininos. O primeiro personagem gay da Disney, LeFou (Josh Gad), que nutre sentimentos pelo vilão Gaston, é representado por esterótipos femininos, não somente no comportamento, mas na responsabilidade social. Existe uma hierarquia clara de Gaston sobre LeFou e, esta submissão se faz pelos sentimentos e admiração profunda não correspondidos. É de LeFou a responsabilidade de trazer consciência a Gaston, como se o vilão fosse mau por natureza, mas LeFou tem a responsabilidade de fazer com ele seja bom, tomando para si os padrões femininos, de que a mulher deve ser apaziguadora, enquanto o marido pode expressar todos os demônios de dentro de si.

O mesmo vale para a Fera. Uma flor foi o preço da prisão da moça, mas quando ele permite que a Bela vá até o seu pai, é dada uma conotação de piedade, como se fosse direito da Fera manter Bela presa no castelo. E esse pensamento é o da própria Bela, a mulher empoderada da época. Ela volta ao castelo para salvar a Fera de Gaston porque ele a deixou sair, como se a liberdade não fosse um direito dela. E o filme mostra a razão de Gaston: para Bela, o único meio de ascensão social foi o casamento com a Fera.

É válido lembrar que, no contexto da história, Bela é sim uma mulher à frente do seu tempo, teimosa quanto aos padrões estabelecidos. Mas quando se põe esse contexto em 2017 e se fala em avanços, se fala que ser aquilo é ser avançado, quando não é mais. Não é avançado suportar abusos morais e prisões de uma fera em nome de um amor que ainda vai acontecer, esperando a maldição se quebrar. Não é avançado ter hierarquia entre um personagem que mostre características masculinas – a Fera e Gaston com músculos salientes, pavio curto, superioridade – e outro que mostre características femininas – Bela e LeFou calmos, apaziguadores e submissos.

Dessa forma, percebe-se que A Bela e a Fera pecou por perder a oportunidade de mostrar um relacionamento saudável e com igualdade e companheirismo entre o masculino e o feminino, mostrando personalidades diferentes, mas não estereotipadas, nem mesmo submissas.

Neide Andrade

Recife de Mentira: O universo de Praça Walt Disney

Praça Walt Disney (2011), é um curta-metragem, dirigido por Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, que traz de maneira clara através de música e imagens uma crítica ferrenha ao rumo que a cidade do Recife tem tomado em relação a qualidade de vida dos seus moradores, às paisagens e ao relacionamento do recifense com o local.

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Não esqueça do Pequeno Príncipe!

É triste perceber o padrão que o mundo tem tomado. Pior ainda é notar que somos sujeitos ativos nessa ditadura de “senta feito menina” ou “não há tempo pra brincar, vá estudar”. Terminamos acreditando nas mentiras que nos contam e resolvemos andar com o sapato apertado que faz calos, fechamos as pernas e ajeitamos as gravatas até nos faltar o fôlego, afinal, queremos vencer na vida.

O Pequeno Príncipe (2015) chegou aos cinemas com o formato de animação e as crianças, apesar de lotarem a sala, não parecem ser o público-alvo. Com questões de gente grande, as perguntas pulam da telona: qual o objetivo de tudo isso? O que realmente importa? Quem você tem cativado? Que adulto foi esse que você se tornou? Para que esquecer a criança que vive dentro de você?

Tudo começa com a mãe da garotinha lutando para que ela estude na melhor escola. A menina tem o seu horário todo cronometrado, com hora para fazer tudo e não deve se atrasar para nada. O vizinho, O Aviador, é o escritor que nos deixou a obra do Pequeno Príncipe… Ele conheceu o menininho no deserto do Saara e nunca esqueceu o tanto de coisa que aprendeu com aquela criança. O Aviador conta a história para a menina, que vai tentar se livrar do destino de ser mais uma adulta comum.

Um filme que fala com o público, assim eu descreveria este. A geração pós-moderna, que luta para que os filhos estudem nas melhores escolas, façam a carreira perfeita, que paga curso de inglês, francês e ballet ou judô para as crianças terminou se esquecendo de como é bom brincar e como é bom, até mesmo, ter tempo para não fazer nada. Adultos que esqueceram como os adultos são esquisitos.

Mas, afinal, o que é ser adulto? Que implicações e responsabilidades isso traz? O filme não é fiel à obra francesa, mas foca nas discrepâncias entre a infância e a vida adulta e em como o mundo poderia ser mais leve se fosse visto com o olhar de uma criança. Como a vida poderia ser mais original se os padrões nos permitissem ser diferentes, se pudéssemos não esquecer de quem fomos um dia.

Por isso é importante não esquecer do Pequeno Príncipe, nem das suas fantasias. É importante lembrar que um dia fomos capazes de imaginar e que a beleza da vida está nisso… Nos sonhos, em acreditar nos contos e em sorrir, acima de tudo. Deixemos o relógio tiquetaqueando um pouco só.

Neide Andrade

Anticristo: de quem se fala?

Anticristo. Ao assistir ao filme, uma página ficou completamente rabiscada. Com letras garrafais grifadas com um marca-texto amarelo, uma pergunta gritava: sobre quem Lars fala? Muitas respostas foram encontradas, entre elas, a história dos gêneros, a dualidade medieval entre mulher e mãe, a culpa. Mas até agora nenhuma das respostas expressou o que a pergunta pede: Quem? A indagação pede um substantivo próprio, uma personalidade, alguém. Mas de quem esse diretor fala?

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Enlouquecer é preciso (passo a passo)

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Um dia desses, tenta olhar pras pessoas a tua volta. Pra quem vai contigo no ônibus, quem corre apressado na rua, pras mães acalentando seus filhos. Olha em volta e repara naquele homem de paletó, camisa e calça social. Gravata, em plenos trinta e tantos graus de Recife. Esse cara tá indo pro escritório, voltando do trabalho, defendendo um cliente, fazendo uma entrevista, dirigindo uma empresa, desempenhando um papel.

Todos estamos.

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Cinco filmes sobre mim

Olá, queridxs! Ontem Eric fez um post aqui no blog pra falar mais sobre ele e como as músicas serviram para mostrar a personalidade dele, assim como as pessoas que o influenciaram. Pessoas comuns, esta é a parte mais linda! Pois bem, hoje é o meu dia. Não sou muito ligada a música, poucas me emocionam e não sou a melhor crítica dessa linguagem por não saber interpretar com clareza. Por isso, fiquei em dúvida entre a literatura e cinema. Os livros me acompanham desde sempre. Minha mãe é daquelas que não mede esforços pra formar uma leitora, até hoje. Mas acredito que o cinema é o que me cativa mais… Talvez porque seja uma mídia que une literatura, teatro, música, fotografia e o que mais tiver de bom… Ou sabe-se lá o motivo. Escolhi cinco filmes que falam um pouco sobre mim: medos, sonhos, prazeres, amores e a minha própria história.

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Tudo Acontece em Elizabethtown

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Duas horas e três minutos é muito tempo de duração. Especialmente pra uma comédia romântica.

Eu pensava assim (acho que ainda penso), mas essa ideia não funciona com Elizabethtown por duas razões: 1) esse filme não é uma comédia romântica, 2) duas horas aqui duram muito mais de 120 minutos. parece uma vida, uma vida inteira! – Eu explico.

imageedit_13_7802360851Primeiro, esqueça aquele conceito de moça encontra rapaz, o amor vem, dificuldades assustam, o sentimento prevalece. Não é assim que funciona aqui. Na verdade, tem uma moça, um rapaz, amor, problemas: tudo igual. Então, o que é diferente? A essência.

Elizabethtown não parece um filme, é bonito demais, é real demais. Daquele tipo de realidade tocante e nostálgica que só Cameron Crowe sabe fazer (lembra dele? o mesmo diretor de Vanilla Sky e Quase Famosos <3).

Vou me explicar melhor: sabe aqueles momentos preciosos que a gente vive poucas vezes? É tão especial, tão diferente, a pessoa é tão única que inevitavelmente você pensa: parece que eu tô vivendo um filme! É assim. Elizabethtown é um filme que parece a nossa vida ou aquele momento da vida da gente que parece um filme.

imageedit_19_2826229680Drew (Orlando Bloom) acabou de falhar miseravelmente na carreira. Perdeu tanto dinheiro que está prestes a ficar famoso como o maior exemplo de fracasso da história na profissão dele. Tanto tempo investido pra nada. Pra completar, a irmã do cara liga e conta que o pai dos dois morreu no interior do país, numa cidade chamada Elizabethtown. Tem mais: ele, o filho mais velho, teria que ir lá e cuidar das coisas do corpo. Bem no interiorzão do país, onde mora aquela parte distante da família que fala: “olha como você cresceu”, “tá a cara do pai”. Imagina!

Na viagem de ida, ele conhece uma aeromoça – Claire (Kirsten Dunst) – uma daquelas pessoas que você só encontra uma vez na vida. Diferente, cheia de ideias próprias, cheia de vida. Tudo o que ele não é no momento. Os dois se despedem, Drew vai encarar os parentes. Sozinho, em meio à família barulhenta, às dificuldades do enterro, ele procura alguém pra ligar. Acha o número de Claire. Os dois começam a conversar, a se conhecer melhor. Uma noite e uma madrugada inteira falando sobre tudo, sobre nada (alguém aí já viveu isso?). Pronto. Um momento bonito numa circunstância pontual. Daquele tipo de coisa que passa, que está destinada a não durar.

Será?

Nas conversas de Drew e Claire é impossível não se reconhecer um pouco. É tudo muito universal e, ao mesmo tempo, pessoal demais. A gente viveu aquilo também, nossos amigos choraram pelas mesmas razões. Medo do fracasso, mágoas antigas, tempo perdido, a angústia de não saber amar. Num dos momentos mais bonitos do filme, Claire fala sobre seus amores do passado, numa auto-avaliação. Eu sou uma pessoa substituta, ela diz. No começo, eu não entendi. Drew também não. Mas ela explica: nunca vou ser uma Ellen (Deus me livre!), nunca vou ser uma Cindy, eu sou só a substituta. Alguém destinado a ocupar um lugar que não lhe pertence, o lugar de outro|de outra.

Doeu. É verdade demais na cara da gente. E pior, dita de um jeito leve, despretensioso. Como se, com o tempo, as coisas que doem também fizessem a gente se acostumar.

No fim, descobri porque Elizabethtown dura duas horas inteiras. É preciso. Como um amigo, essa história vai se apresentando aos poucos: cena por cena, frase por frase – vai nos desarmando. E o tempo é necessário: ele faz a gente se apaixonar.

GIF1Numa das última sequências do filme, Drew sai numa viagem de carro de volta pra casa, jogando as cinzas do pai morto pelas curvas do caminho. Os dois finalmente juntos, numa viagem que deveria ter sido feita há muito tempo. Há tempo demais. E, se você me perdoa a metáfora besta (mas verdadeira): como as cinzas do pai se espalham pelo vento, as sensações que esse filme traz se pulverizam na mente da gente. Uma saudade, uma melancolia doce. Aquele desejo de fazer o que é especial durar pra sempre.

Desejar não faz mal. Faz?


Personalíssimo (só para raros):

tumblr_n0ptcyMu8Q1rrm2zoo2_500A cena em que Drew começa a conversar com as cinzas, com a urna do pai, afivelada no banco da frente do carro. Minha garganta aperta só de lembrar. Como a gente deixa o que é valioso se perder no tempo!

Essa sequência já seria linda sem som, mas Cameron Crowe é mau demais pra deixar isso acontecer. Vou te contar uma coisa: a trilha sonora toda desse filme é incrível. De verdade! Mas a música que toca nessa hora é especial. Foi Elizabethtown que me apresentou esse single de Elton John chamado My Father’s Gun. Eu amo Elton, muito mesmo, mas ainda não conhecia essa música.

Se você chegou até aqui, me faz um favor, um último? Clica embaixo e vê esse vídeo com Elton e algumas cenas do filme.

É verdade demais pra seis minutos só. É bonito demais.

Eric

(Indesejada) Permanência

Romper um tanto a rotina, os paradigmas esperados e até mesmo com os finais felizes pode fazer bem, pode fazer com que o espectador se enxergue, talvez, em uma fotografia de um filme ofertado durante uma triste, necessária e esperada despedida. Permanência é um filme pernambucano de Leonardo Lacca e trata aspectos da vida, do cotidiano e quão benéficas ou maléficas podem ser as nossas escolhas.

Ivo (Irandhir Santos) é um fotógrafo recifense, que encontra em São Paulo uma galeria para fazer a sua primeira exposição. A película é calma e, por vezes, monótona propositalmente para mostrar aspectos de uma vida infeliz, sem uma paixão explícita em fazer cada coisa. Chegando em São Paulo, Ivo se hospeda na casa de Rita (Rita Carelli), que foi sua namorada. Agora, Rita está casada e Ivo deixou uma namorada no Recife. Entretanto, como se comportar diante do cheiro e da conversa de uma mulher, características que nunca mudam?

Regados a xícaras e mais xícaras de café, o casal do passado bebe e se aprisiona ao próprio silêncio: Sem mais conversas, completamente sem assuntos, uma vida pautada por reticências e por um líquido amargo que se tornou a falta do que foi perdido. Paralelo a isso, Ivo com a sua parceira, no presente, vivem uma relação vazia, de pouca expressão no filme, assim como na rotina.

O filme vale como um exercício para observar a vida. Conseguir se ver, como em um quadro. Se cada momento fosse uma fotografia, qual seria a expressão em cada um deles? O que faz bem? O que sufoca? O que prende? Se alguém que te conhece como ninguém te observar hoje, vai encontrar a tão sonhada felicidade?

Isso é conversa demais. Um café, por favor!

Neide Andrade

O atalho que a dor traz

 

Em nome do pai é uma narrativa avassaladora. O filme conta a história verídica de Garry Conlon (Daniel Day-Lewis), um delinquente dos anos 70, em um contexto político e cultural difícil. Garry é filho de Giuseppe Conlon (Pete Postlethwaite) e é a partir da relação entre os dois que a trama se desenrola, a partir de contrastes como o céu e o inferno. De início, a relação dos dois era extremamente conturbada, o filho não demonstrava amor, nem mesmo vontade de preservar o pai diante das encrencas que arranjava. O pai, por sua vez, sempre zeloso, não conseguia falar a linguagem do filho, que tantas vezes ouviu sermões imensos, mas nenhum deles adiantou.

O que ninguém sabia era o que este delinquente seria capaz de fazer para defender o velho Giuseppe. O inferno da relação entre o pai e o filho se transformou em um céu no contexto horrorizado de uma prisão. Garry foi forçado a confessar um crime que não cometeu sob a ameaça da morte do pai. Xenofobia extrema. Injustiças dos bastidores. Daquelas que nós sabemos que acontecem, daquelas que nós vemos as denúncias, mas nunca são provadas.

Quem um dia imaginou que poderia se compadecer com a história de um ladrãozinho irresponsável? Quem poderia imaginar que diante das metáforas de um velho pai existia sabedoria? Quem foi capaz de enxergar a força diante da fragilidade de Giuseppe? A dor é a resposta pra todas as perguntas. É a alavanca que leva até o topo, ao triunfo. A dor é quem lapida, quem luta por justiça.

E por falar em luta, quantas vezes é mais fácil se conformar com a sua prisão perpétua! A sua vida cheia de nada, a sua condição de injustiçado. Diversas vezes é até possível acreditar no que dizem. Entretanto, é importante encontrar motivos para viver, alguém por quem lutar, foi neste ideal que Garry se abraçou.

Mas como falar em justiça diante de um lugar em que o fraco é sempre o dominado? Como falar de justiça onde quem manda não é justo? Como falar de justiça em um lugar em que não se tem o direito de defesa, digo, na prática? O remo contra a maré foi essencial na trajetória dos Conlon. Todos sabiam que eles não eram os culpados, mas se precisava encontrar um culpado.  E Garry era réu confesso.

Neide Andrade

A glória de chorar

Olinda, 15 de outubro de 2010.

Já estava tudo certo. Roupa separada, sapato também. Cheguei, entrei na fila. Os amigos já marcavam o lugar. Na frente. Mas que demora, quanta espera. Me compre uma água. Não aguento mais. Será que ninguém tinha reparado no meu tênis novo? Mas não importa, de fato não importa. Importava a vontade imensa que eu estava de ir embora porque as portas simplesmente não abriam.

Todos de pé. Abriram os portões. Todos correram ao entrar pra ficar o mais perto possível. Nossa, como eu estava a fim de ficar lá na frente, bem na frente. Gozando de toda a falta de ar e cheirando todos os sovacos que eu pudesse contar. Sempre sonhei com isso! Enquanto a banda não chega, bota o DJ, cujo nome eu não me lembraria nem quando ele saiu do palco. Até um raio de dois metros de mim, todos se divertiram com o som e faziam uma dança ora se abanando, ora chamando o rapaz que vendia água, dispostos a pagar quanto fosse.

Abre parênteses

Esse rapaz da água, que tanto falavam desde o início do show, para mim, já era alguma miragem de quem estava mais pra lá do que pra cá, sob efeito de algum vento diferente do normal. E ainda diziam que ele cobrava cinco – cinco – reais.

Fecha parênteses

Um telão avisava: Eles estão chegando!

A sensação de tê-los tão perto renovava o fôlego dos amigos lunáticos que resolveram trocar o ar e o sossego pela possibilidade de vê-los de perto. Um letreiro no telão conduzia todo o público imenso, cantando Olha lá quem vem do lado oposto / Vem sem gosto de viver / Olha lá que os fracos/ São escravos sãos e salvos de sofrer / Olha lá quem acha que perder / É ser menor na vida / Olha lá quem sempre quer vitória / E perde a glória de chorar.

Como um coração adolescente pode resistir aos Hermanos? Depois de cantar O Vencedor diversas vezes, a banda entra e cumprimenta o público com a simplicidade de quem ainda está tirando um som na própria faculdade.

Então eu pude entender o motivo de tanto sucesso. Pude entender porque tomei fôlego com a chegada deles. E entendi também o motivo de eu estar ali. Eles falavam de mim. Falavam de cada um ali presente. Falavam de amor, saudade, planos, vitórias, derrotas, passado e luta. Quem não passa por tudo isso? E quem não quer gritar junto? Quem não quer extravasar todas as mazelas que rodeiam a nossa existência?

Sendo assim, que comece a festa!

Neide Andrade