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Capitu em 5 atos

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Apresento-lhes a obra de Machado de Assis contada através de um mundo lúdico, porém realista. Como em primeira pessoa, a adaptação obedece igualitariamente as páginas do livro de Assis. De início é possível perceber uma mistura de épocas, confundindo prazerosamente os séculos e nos exibindo de imediato quem iria narrar a história que ali se iniciara.

Bentinho ou, se preferir, Dom casmurro nos leva à particularidade de sua vida e com uma linguagem irônica, rebuscada e debocha do passado e da sua atual existência, que logo nos faz premeditar seu fim trágico e melancólico  diante uma  maquiagem suja e preta escancarada no seu rosto.

O autor assiste à sua obra assim como nós, e atrás de cortinas teatrais está sempre a espera de alguma resposta ou do próximo capítulo. Não menos merecida do que a obra escrita no livro, esta, oferece-nos bem mais que palavras: cinema, teatro e ópera aos olhos nus.

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A história é contada em 5 atos com tempos preenchidos e vividos simetricamente, sem direito a buracos vazios. A narração é interrompida, às vezes, para ser contada por danças mudas, o que nos faz apreciá-la com uma visão ainda mais fantasiosa. Mas a realidade com o mundo moderno aparece para chocar o telespectador. Nós, e o que talvez seria o certo para nos confundir ainda mais, serve também  para encontrarmos as respostas ainda menos.

O conto já seria por si só, algo bom de ser assistido, mas foi na música escolhida para protagonizar a história que lhe deu uma vida mais eterna aos nossos olhos e as canções mescladas por estilos fez do destino da obra um favor aos nossos ouvidos.

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Capitu foi a coadjuvante do seu título dando chance à Dom Casmurro acreditar que seria o dono da sua história. E como as palavras não terminam, não seria aqui que as cortinas iriam se fechar, dando a Bentinho, ao menos agora, o direito à última frase por ora: “O destino não é só dramaturgo, é também o seu próprio contra-regra, isto é, designa a entrada dos seus próprios personagens em cena”.

Renata Cavalcanti

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Análise: Sia – Chandelier

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Após uma semana com textos tão inspirados nas palavras de Graciliano, fico numa situação complicada ao escrever a respeito qualquer outro tema que seja. Mas, como esse blog tem a cara de seus donos, optei por dissertar sobre uma música sobre a qual já conversei muito com Eric. A música – Chandelier, de Sia – apesar de aos olhos de muitos parecer mais uma música pop criada para ser comercial, me tocou sobremaneira, principalmente após assistir o clipe.

Se você ainda não assistiu, por favor só continue a leitura após assistir.

Não sou uma pessoa acostumada a falar sobre música, e por sinal entendo muito pouco sobre o assunto, mas essa música e esse clipe falam coisas importantes até para o mais leigo dos ouvintes (estou incluída nesse grupo).

Como Eric, também sou fascinada pelo tema infância, creio pelo fato de ter sido nesta fase que as maiores mudanças da minha vida aconteceram, em diversos aspectos. E o clipe remete muito a esse universo infantil e maduro ao mesmo tempo.

A criança do vídeo nos recepciona na porta de uma espécie de apartamento vazio e frio onde está trancada. Parece que ela está nos esperando, como uma forma de amor que não possui e fica rodando e dançando e pulando e gritando como se aquele fosse o melhor lugar do mundo. Mas ela está completamente sozinha, desnuda e perdida. Em contrapartida, a música tempera o clipe tornando-o mais amargo ainda.

A personagem (que poderia ser eu ou você) toma a decisão de viver como se não houvesse amanhã. A princípio você pode pensar que este rumo que a vida dela vai tomar seja a melhor solução para uma vida feliz, contudo a música revela exatamente o contrário. Ela está vivendo como se fosse o último dia porque no mais profundo do ser é o que deseja de verdade: que haja um fim. Porque está insuportável, inviável e infeliz. Embora ela seja a que todos ligam para festejar por conta de seu alto astral, o seu íntimo não está tão em celebração assim.

Isso me faz pensar: até que ponto conhecemos alguém de verdade? Será que nosso melhor amigo, nossa mãe ou nosso irmão estão vivendo como se fosse o último dia da vida deles? Será que eu mesma não estou fazendo isso? Será que você não já optou por isso?

A criança que eu comentei do clipe eu entendo como a verdadeira alma da personagem da música, aquela que está presa em um apartamento preto e branco, tentando de todas as formas arrumar um sentido para viver ali dentro. Ela quer voar, correr pelo mundo, ter diversão mas tudo que ela consegue é estar presa à vontade de que tudo aquilo acabe. E, mesmo utilizando tudo que o apartamento oferece, ela não consegue ser feliz.

Penso que conosco é a mesma coisa. A todo momento tentamos usar tudo que a vida nos oferece para ser feliz. Pode ser uma pessoa, um carro, uma viagem, um dinheiro ou qualquer outra coisa que não parta de nós mesmos. Parece que a felicidade é simplesmente uma palavra sem sentido que foi inserida na terra de forma dissimulada para iludir os que ainda a buscam. Sei que o mais clichê que se pode dizer é que a felicidade tem que partir de nós mesmos. “Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.” (Drummond, Carlos). Mas às vezes essa parece ser a única solução do teorema, quando a variável é o nosso próprio ser.

No final do clipe, a criança faz uma pequena reverência para quem está assistindo, como se agradecesse pela visita ao seu eu verdadeiro. Pois, no fim das contas, o que queremos é que alguém nos conheça de verdade. Assim teríamos mais uma variável para nos ajudar a encontrar a felicidade trancados em um apartamento gélido.

O que mais me deixa angustiada é que eu acabei por acreditar que aquela cena era verdadeira e que eu precisava fazer alguma coisa para ajudá-la.

Essa cena já deve ter acontecido tantas vezes em tantas pessoas no mundo, em amigos meus e até mesmo (isso falo com propriedade) em mim mesma. Quando eu me dou conta da realidade, percebo que tudo se resume ao teorema que citei antes.

Mas quem sou eu para dizer tudo isso?

Porque só estou aguentando firme esta noite, me ajude, estou aguentando firme pela vida.

Te dou a chave, venha me visitar quando tiver vontade. Prometo dançar para que você possa me conhecer.

Quem é você mesmo?

Priscila Queiroz.

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