Eu preciso saber que você existe!

balloon-2

Acasos afortunados: já ouviu falar dessa expressão? Foi num deles que encontrei uma banda alemã dos anos 80 chamada Nena (relaxa, eu também nunca tinha ouvido falar) e seu maior sucesso: 99 Red Balloons.

Eu sei: é meio bizarra, a bichinha. Quem disse a eles que era ok fazer uma música de 4 minutos com três ritmos diferentes? Todavia (risos), não é por acaso que 99 Red Balloons tá aqui. Na verdade, até é, mas por um dos afortunados. Repara na história dessa canção:

  You and I in a little toy shop buy a bag of balloons with the money we’ve got. Set them free at the break of dawn. ‘Til one by one, they were gone

Dois loucos apaixonados entram numa loja de brinquedos e compram 99 balões vermelhos. Pra quê? Pra soltar no ar e… olhar pra cima. Ah, o amor Mas, veja bem, fazer isso no meio da Guerra Fria com certeza não é a melhor das idéias, né? Realmente não foi. As autoridades foram alertadas – ministros, presidentes, exércitos – e guerra foi às vias de fato. Dias depois, nenhum prédio ficou de pé, todo mundo tinha morrido, e a letra da música acaba assim:

99 dreams I’ve had, In every one a red balloon. It’s all over and I’m standin’ pretty in the dust that was a city. If I could find a souvenier just to prove the world was here. And here it is, a red balloon. I think of you and let it go

Girl-with-a-Balloon-by-BanksyDesde que li essa letra pela primeira vez, a imagem me assombra.

Fico pensando na pessoa louca que a música descreve: sozinha, perdida. Segurando um balão vermelho, no meio dos destroços de guerra, só pra provar a si mesma que o que ela viveu não era ilusão – tudo, de algum jeito, existiu.

Acho que é isso que a gente sente quando tá mal e pega o carro, dirigindo sem destino pela rua.

O rumo pode ser incerto, não sabemos bem aonde queremos chegar, mas as mesmas lojas vão passando, as ruas conhecidas. E, no fim das contas, parece que a gente só quer ter certeza que tudo continua por lá. Como vai acabar, ninguém sabe – é futuro -, só nos pertence aquilo que já aconteceu. Ou, em outras palavras: o destino é desconhecido, mas o caminho é familiar demais.

As lembranças, as estradas já percorridas, os balões vermelhos dessa vida fazem a gente acreditar que tudo existiu (que a gente ainda existe!), mas e se outras lojas chegarem naquele quarteirão, e quando houver nova luz sobre fatos antigos? Pensa comigo: se a rua mudar completamente, a gente ainda vai saber onde está? Se tudo ficar diferente, a gente ainda vai saber quem é?

Essa é a pergunta que nos faz o narrador solitário de Stolen Car, do Bruce Springsteen.

A letra de Bruce fala de um cara que tá sofrendo muito com o fim do seu relacionamento. Ele rouba um carro aleatório e começa a dirigir em alta velocidade na estrada, no escuro, torcendo pra ser pego. No começo, as ruas são conhecidas – o caminho é familiar – mas a BR chega, a escuridão, e ele fica com medo. Tudo parece estranho, ele sente como se fosse desaparecer, deixar de existir:

And I’m driving a stolen car waitin’ on that little red light, I keep tellin’ myself everything’s gonna be alright. But I ride by night and I travel in fear that in this darkness I might just disappear

Fiquei pensando que nossa vida é meio isso também: a gente não tem muita certeza de que existe, não.

As lojas, as ruas precisam permanecer as mesmas, senão nos perdemos; as pessoas só devem mudar se for “pra melhor”. Tá entendendo aonde eu quero chegar? É tudo a respeito de nós. O medo de mexer nas lembranças, a tentativa desesperada de fazer nosso cônjuge se tornar parecido com a gente (com o que a gente acredita), não parece tudo um afã ridículo de se assegurar da própria existência? Será que domesticando o mundo à minha volta eu vou conseguir provar pra mim mesmo que existo?

É feito aqueles alicerces pra prédios de apartamentos – vocês já viram? São enormes e feitos de concreto, como certos relacionamentos: bem-estruturados, mas não têm amor. Dentro, os quartos estão vazios, não há móveis, famílias, só aquelas paredes pré-moldadas cobertas de cal. Falta amor e o que sobra é uma necessidade desesperada de assegurar-se da própria importância, do próprio valor.

As estradas têm de permanecer familiares, as ruas, as lojas. Tem de haver um balão vermelho pra me guiar! Eu preciso saber que tudo existiu, eu preciso saber que você existe. Mesmo se você tiver virado um arremedo de mim, fumaça no escapamento desse carro roubado que é nós dois.

Por ironia, o abraço mais apertado é o que separa irremediavelmente as duas pessoas que se unem e, no fim das contas, a gente é só um balão vermelho de alguém. No lugar certo, na hora certa. A gente é só um acaso afortunado.

Faz sentido?

Eric

❖ Arte: Banksy

Anúncios

Escreve pra gente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s