Recife de Mentira: O universo de Praça Walt Disney

Praça Walt Disney (2011), é um curta-metragem, dirigido por Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, que traz de maneira clara através de música e imagens uma crítica ferrenha ao rumo que a cidade do Recife tem tomado em relação a qualidade de vida dos seus moradores, às paisagens e ao relacionamento do recifense com o local.

Na primeira cena, duas imagens aparecem por alguns segundos, expressando um texto completo: o mar, azul e imenso, ocupa completamente o espaço da câmera. Entretanto, pouco tempo depois, é possível perceber a invasão de edifícios arranha-céus também imensos e extremamente numerosos.

Para um momento de lazer, uma família vai à praia. O pai cuidadoso leva a própria piscina para as crianças, a Prefeitura avisa no calçadão: “PERIGO, TUBARÃO!” O pai contrata dois homens que pegam água do mar em baldes e peneiram ao jogar a água na piscina de plástico. Nesta cena, percebe-se que os moradores do Recife estão cada vez mais presos, sem entender a essência real do que é ser recifense. Da mesma maneira de que hoje temos uma geração de jovens com nojo do Rio Capibaribe, sem cuidado e sem relacionamento com este rio, está se criando uma geração no Recife que não conhece o mar, porque não se tem mais condições de se curtir aquele local.

A peneira nessa cena é essencial para mostrar a distância que se tem com o ambiente. Ora, se o motivo de não levar a criança à água fosse o tubarão, haveria necessidade de peneira? Os diretores denunciam o próprio cidadão por não viver mais o que cidade tem para oferecer de bom e, ainda, por criarem uma geração que será nociva para o Recife, já que entende o Recife como nocivo a ela.

Então se paga caro por um apartamento à beira-mar, mas não se curte esse mar. Daí vem o nome do audiovisual: Praça Walt Disney. Onde tudo é encantado, onde tudo é conto de fadas, onde tudo é de mentira. Aquela criança tomou banho com a água da praia, mas não tomou banho de praia. Aquelas pessoas assistem ao mar todos os dias como assistem a um desenho animado, mas não vivem com aqueles personagens e assim também não vivem com o mar. Os diretores expressam de maneira clara a revolta por essa situação através da música que percorre todo o vídeo, uma trilha sonora para palhaços de circo, como quem diz “olha só a palhaçada que está acontecendo”.

Uma grande cabeça do Mickey, personagem ícone da Disney paira na água. As pessoas correm para abraça-lo, expressando que curtem aquela situação, que estão alienadas com tudo aquilo, mas sem perceber que aquela diversão pode se desfazer em dois tempos, sem perceber que aquilo não é real. Em seguida, fotos antigas mostram o Recife e o recifense de antigamente, curtindo a cidade, curtindo a praia com mais igualdade, com uma paisagem mais natural, distante da verticalização.

No final, o barulho da cidade – motores, construções e buzinas – se misturam e complementam o som do circo, mostrando que não adianta mais, o Recife só faz voltar. Então os carros voltam constantemente, a população regride, piora e sofre calada, sem perceber o mal que está acontecendo.

Neide Andrade

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